domingo, 22 de setembro de 2013

Elysium

"Elysim" está longe de ser perfeito. É cheio de "lições de moral", tem problemas de roteiro e quase todos os (bons) atores estão exagerados. Mas, assim como fez no excepcional "Distrito 9", o diretor/roteirista Neill Blomkamp é ousado e tem uma marca pessoal distinta, que é a extrapolação de problemas sociais reais da Terra dos dias de hoje para um cenário futurista. "Elysium" se passa no século 22. As cidades da Terra se parecem com as paisagens vistas na animação "Wall-e", com milhões de pessoas vivendo em cidades esgotadas e superpopulosas. A camada mais rica da população resolveu se separar ainda mais das classes baixas deixando o planeta e se mudando para uma gigantesca estação espacial chamada "Elysium", um paraíso artificial que parece um grande condomínio particular, com mansões brancas instaladas em meio a grandes gramados e lagos artificiais. Além da riqueza, da segurança e do ar puro, os ricos têm ainda outro privilégio: todas as mansões são equipadas com máquinas milagrosas que podem curar todas as doenças.

Enquanto isso, na superfície pobre e poluída do planeta, centenas de pessoas tentam chegar à "Elysium" em naves clandestinas comandadas por um rebelde chamado Spider (o brasileiro Wagner Moura, um tanto exagerado). A cena em que as naves rebeldes tentam chegar à estação espacial lembram imagens das barcas clandestinas cubanas, cheias de refugiados, tentando chegar à Flórida, ou mexicanos tentando atravessar para a Califórnia. Jodie Foster interpreta uma cruel chefe de segurança de "Elysium" que não vê problemas em ordenar que tais naves sejam destruídas, matando todos a bordo, para "proteger" a estação espacial dos "invasores". Matt Damon, cheio de tatuagens e de cabeça raspada, é Max, um operário que tenta levar uma vida honesta depois de uma infância e adolescência cometendo pequenos crimes. Ele recebe uma dose letal de radiação em um acidente de trabalho e só uma viagem a "Elysium" salvaria sua vida, e ele se vê obrigado a prestar um serviço a Spider, o único capaz de levá-lo até lá.


O roteiro é tão cheio de ideias que Blomkamp tem problemas em lidar com todas elas. A mais problemática envolve um programa de computador que seria a "chave" para "Elysium". Wagner Moura bate o olho em algumas linhas de código passando na tela e já consegue entender todo o "enredo". Há também um romance mal resolvido entre o personagem de Matt Damon e uma enfermeira chamada Frey (interpretada por outra brasileira, Alice Braga), que, ainda por cima, tem uma filha com leucemia que também precisa ser curada em "Elysium". E assim por diante. Com tudo isso, sente-se falta de um olhar mais detalhado sobre a população de "Elysium" em si. Será que eles só passam a vida à beira da piscina, passeando pelos gramados e ouvindo música clássica? Ninguém lá questiona a situação em que vive, e como ela pode ser frágil? Há problemas com drogas ou medicamentos? Com tédio?

Quase todo o filme é passado aqui na Terra mesmo, a não ser na parte final, em um embate barulhento entre Matt Damon e um mercenário chamado Kruger (Sharlto Copley, também de "Distrito 9"). Para um diretor ousado como Blomkamp, o final de "Elysium" é "bonitinho" demais (e Wagner Moura arrancou uma gargalhada de todo o cinema com uma frase). Bom filme, apesar de não ter o mesmo impacto de "Distrito 9".

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Lovelace

Hoje em dia, em que a pornografia está a um click do mouse de todo mundo, é difícil imaginar que as pessoas iam ao cinema para ver filmes desse gênero. E há quarenta anos, nos Estados Unidos, filmes adultos eram exibidos em grandes cinemas, com um público que não era formado apenas por rapazes cheios de hormônios. Em 1972, um filme pornô chamado "Garganta Profunda" causou furor não só pela premissa absurda (uma mulher com o órgão sexual em lugar inusitado), mas pelo carisma da estrela principal, a estreante Linda Lovelace. Ela não tinha o tipo físico comum às estrelas do cinema pornô; era apenas uma garota bonita (com uma "habilidade" especial). "Garganta Profunda" se tornaria um fenômeno, arrecadando meio bilhão de dólares. A estrela principal receberia pouco mais de mil dólares pelo trabalho que a marcaria pelo resto da vida.

"Lovelace" é dirigido por dois renomados documentaristas, Jeffrey Friedman e Rob Epstein. Eles usaram da experiência com a não-ficção para recriar a vida de Linda Boreman (Amanda Seyfried, de "Os Miseráveis" e "O Preço da Traição"), uma garota de Nova York que se mudou para a Flórida com a família  rígida e religiosa (interpretados por Robert Patrick e uma irreconhecível Sharon Stone). Linda se envolve com o típico "cafajeste profissional", Chuck (o competente Peter Sarsgaard, de "Educação"), um salafrário que explora garotas e drogas e apresenta Linda a produtores de filmes pornográficos. Eles ficam impressionados com a habilidade da garota em praticar sexo oral e, rapidamente, escrevem e produzem "Garganta Profunda". Friedman e Epstein montam o filme de forma não linear e, a partir do meio da trama, voltam no tempo e contam a mesma história sobre outro ponto de vista. É um recurso interessante. O que antes parecia "fácil", como a aparente tranquilidade de Linda em aceitar fazer um filme pornográfico, por exemplo, toma nova interpretação quando o espectador passa a vê-la como vítima de um homem violento e manipulador. Chuck a estuprava, batia e explorava como garota de programa. O espectador se pergunta porque uma garota como Linda aceitaria passar por tudo isso, mas ela estava "presa" naquela estranha relação que existe entre um cafetão e uma prostituta.

O final é curiosamente meloso. Ele mostra como Linda abandonou a pornografia (ela fez apenas "Garganta Profunda", na verdade) e se transformou em esposa e mãe, além de escrever um livro contra a pornografia e a violência doméstica. Tudo muito louvável mas, como filme, a forma como isso é apresentado é fraca. Os realizadores até apelam para uma trilha triste, com violino, para apresentar esta nova fase da vida de Lovelace. Impossível não comparar com o superior "Boogie Nights", fantástico retrato do mundo do cinema pornográfico feito por Paul Thomas Anderson em 1997. Friedman e Epstein não sabem se homenageiam a indústria pornográfica dos anos 1970 (com a qual parecem deslumbrados) ou fazem uma denúncia sobre este meio. Amanda Seyfried está muito bem como Linda Lovelace. Em compensação, James Franco não convence um segundo como Hugh Hefner, o fundador do império "Playboy".



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Rush: No Limite da Emoção

Quarenta e dois dias depois de ter grande parte do corpo queimada em um violento acidente de Fórmula 1 e de ter passado por procedimentos médicos pesados (como enxerto de pele e limpeza do pulmão), o piloto austríaco Niki Lauda voltou às corridas. Seu objetivo: evitar que seu principal rival, o inglês James Hunt, vencesse o campeonato mundial de Fórmula 1 de 1976. Segundo Lauda, foram as imagens na TV de Hunt vencendo diversas corridas que o mantiveram vivo e com vontade de voltar a pilotar.

A história desta rivalidade é mostrada no filme "Rush", de Ron Howard ("Frost/Nixon", 2008). O filme transporta o espectador para a época em que as corridas de carros ainda eram tão "românticas" quanto perigosas, com a média de três pilotos mortos por temporada. Os carros não eram os computadores sobre rodas que existem hoje; eram tanques de combustível guiados de forma "analógica" por pilotos que tinham um tipo especial de loucura, uma paixão pelo perigo e pela velocidade que, muitas vezes, era fatal. A rivalidade entre pilotos sempre vendeu bem na Fórmula 1. Os brasileiros com mais de trinta anos se lembram dos duelos entre Nelson Piquet e Nigel Mansell pelo campeonato mundial de 1987 (vencido por Piquet) ou pela disputa acirrada entre Ayrton Senna e Alain Proust (mostrada no documentário "Senna"). Roward recria muito bem o clima da época, com direção de arte minuciosa e uma direção de fotografia (de Antonhy Dod Mantle, de "Quer quer ser um Milionário" e "127 Horas") que lembra a cor dos filmes em Super 8 dos anos 1970. Mas o principal acerto foi no elenco. Chris Hemsworth (de "Thor" e "Os Vingadores") está muito bem como James Hunt, um piloto tipo "playboy" que flertava com garotas, bebidas e drogas com a mesma intensidade com que gostava de pilotar automóveis. O espanhol Daniel Brühl está perfeito como o frio e metódico Niki Lauda; a semelhança com o piloto verdadeiro é impressionante, mesmo antes do acidente que distorceu seu rosto. O roteiro de Peter Morgan ("A Rainha", "360") repete a parceria com Ron Roward de "Frost/Nixon".



E há, claro, as corridas de Fórmula 1. A cena do desastre de Lauda em Nurburgring (vista no vídeo acima) foi recriada de forma idêntica pelos ótimos efeitos especiais do filme. "Rush" segue a tradição de grandes filmes de automobilismo como "Grand Prix" (1966) e "24 Horas de Le Mans" (1971), mas as câmeras (reais e virtuais) de Ron Howard e Anthony Dod Mantle não só nos colocam no cockpit do piloto como recriam toda uma época.

Câmera Escura

sábado, 7 de setembro de 2013

Jobs

Filmes sobre figuras históricas costumam tratar de líderes religiosos ou políticos, pacifistas ou estrelas de rock. Filmes sobre empresários já foram feitos antes (como "Tucker, Um Homem e seu Sonho", 1988, de Francis Ford Coppola), mas poucos apresentaram seu protagonista de forma tão religiosa quanto "Jobs". Em se tratando da marca "Apple", no entanto, não é de se estranhar, já que a fábrica de computadores, desde seu início, não tinha apenas "clientes", mas "seguidores", e Steve Jobs era seu profeta. Jobs morreu de câncer em 2011, deixando um legado impressionante de inovações tecnológicas como o iPod, o iPad, o iPhone e tantos outros que mudaram o modo como as pessoas interagem com os aparelhos eletrônicos.

Diante disso, é uma pena que a primeira cinebiografia a respeito do californiano seja tão "quadrada" e sem brilho. A melhor surpresa é a interpretação de Ashton Kutcher, que praticamente carrega o filme sozinho, com um bom trabalho ao emular Jobs. Financiado de forma independente, o filme foi feito às pressas para chegar às telas antes da produção da Sony Pictures que será baseada na biografia oficial de Steve Jobs, escrita por Walter Issacson. O filme da Sony, além de ter um orçamento muito superior, está sendo escrito pelo premiado roteirista Aaron Sorkin, que ganhou o Oscar em 2011 por "A Rede Social". Foram os diálogos rápidos e inteligentes de Sorkin que tornaram o filme sobre o Facebook interessante. Enquanto isso, em "Jobs" (dirigido por Joshua Michael Stern e escrito por Matt Whiteley), o roteiro se arrasta e o espectador assiste a longas sequências em que "nerds" em uma garagem ficam soldando circuitos em uma placa de computador, ou executivos tramam vinganças ao redor de mesas de reunião.

É verdade que não só o lado bom de Jobs é mostrado. De temperamento difícil, o futuro criador do iPod é visto humilhando técnicos que não se comprometiam 100% com sua "visão" da empresa. No lado pessoal, ele negou a paternidade de uma menina que teria tido com a namorada. Era frequente também que ele tomasse para si o crédito por criações e inovações que não eram dele; o primeiro computador Apple, por exemplo, teria sido criado por Steve Wosniak (Josh Gad), seu amigo e sócio. A Apple Computer começou na garagem dos pais de Jobs e, nos primeiros meses, era tocada por Jobs, Wosniak e um grupo de técnicos que trabalhavam praticamente de graça. Quando a empresa cresceu, no entanto, Jobs se recusou a ceder ações para os antigos companheiros. Há uma cena em que Jobs é visto provando do próprio veneno, quando Bill Gates teria copiado o sistema operacional do Macintosh e criado o Windows, passando a perna na Apple. A rivalidade duraria décadas, mas o filme apenas mostra um telefonema de Jobs ameaçando processar Gates. Steve Jobs foi afastado da própria empresa em 1985 e criou a Next. (O filme não mostra como, em um golpe de "sorte", ele comprou de George Lucas uma pequena produtora de animações chamada Pixar, em 1986, e a transformou em uma empresa bilionária). Com altos e baixos, "Jobs" se apoia muito na interpretação de Kutcher para se manter em pé, e apesar de ser um bom trabalho do ator, não é o suficiente.

domingo, 1 de setembro de 2013

Frances Ha

Frances (Greta Gerwig) é uma mulher de 27 anos que divide um apartamento em Nova York com a melhor amiga, Sophie (Mickey Summer). As duas se conhecem desde a época da faculdade e, segundo Frances, são "a mesma pessoa com cabelos diferentes". Fumam e bebem juntas, frequentam os mesmos lugares, brincam na rua como duas crianças. Um dia o namorado de Frances pede para ela vir morar com ele. Ela diz que não pode, pois mora com Sophie. O caso é que, ao contrário dos desejos de Frances, o tempo passa, as pessoas crescem e assumem responsabilidades, e talvez os planos de Sophie não sejam exatamente como Frances gostaria que eles fossem.

"Frances Ha" é escrito e dirigido por Noah Baumbach e por Greta Gerwig, e parece um filme francês dos anos 1960 que alguém achou enterrado em uma cápsula do tempo. Filmado digitalmente (com uma Canon 5D, uma câmera fotográfica) em maravilhoso preto-e-branco (direção de fotografia de Sam Levy) e contento várias trilhas sonoras de Georges Deleure (que colaborou frequentemente com François Truffaut), o filme só faltava ser falado em francês para a ilusão de se tratar de um exemplar perdido da nouvelle vague se completar. É tão francês que a personagem principal, claro, se chama "Frances". Greta Gerwig está soberba; não há um momento sequer em que ela não seja natural como uma aspirante a bailarina que perdeu o bonde da própria vida (mas não se deu conta disso ainda). É um filme sobre uma amizade que se mistura com amor (mais sobre isso em breve), sobre ilusões, sobre arte e sobre a realidade, que teima em aparecer de vez em quando para jogar um banho de água fria nos sonhos de Frances.

Noah Baumbach é colaborador frequente de Wes Anderson (diretor de "Moonrise Kingdom", "Os Excêntricos Tenenbauns", "O Fantástico Sr. Raposo", etc) e diretor de um filme que admiro muito, "A Lula e Baleia", com Jeff Daniels e Jesse Einsenberg. A colaboração com Greta Gerwig trouxe a "Frances Ha" um ponto de vista extremamente feminino. A influência francesa está presente em cada plano. Quando Sophie muda de apartamento, deixando Frances sem ter como pagar o aluguel, ela vai morar com dois artistas, o mulherengo Lev (Adam Driver) e Benji (Michael Zegen), em uma situação que lembra muito, claro, "Uma Mulher para Dois" (1962), de Truffaut. Há também uma sequência em que Frances, em um impulso, usa um cartão de crédito para passar um final de semana em Paris, e uma amiga lhe diz que conhece um rapaz muito parecido com Jean-Pierre Léaud, ator símbolo da nouvelle vague. O ar francês continua firme mesmo quando o ritmo contagiante de "Modern Love", de David Bowie, se torna a trilha sonora principal do filme.

E há a "amizade" entre Frances e Sophie. Apesar de uma frase no início dizer que elas são como "um velho casal de lésbicas que não faz sexo", e elas serem chamadas de heterossexuais por todo o filme, a atração de Frances por Sophie beira a obsessão. Ela fala sobre a amiga o tempo todo, com quem estiver próximo e disposto (ou não) a ouvir. As duas são vistas na mesma cama em diversas cenas (em uma delas, Frances tira a calcinha antes de se deitar). Sophie tem um namorado, que depois se torna seu noivo, mas Frances está sempre sozinha (a não ser pelo "namorado" com quem ela briga, no início do filme, por causa de Sophie) mesmo quando está morando em um apartamento com dois homens ativos sexualmente. Por mais "gracinha" que o filme seja, em sua exaltação à amizade, fica a sensação incômoda de que se está assistindo a um casal homossexual que não quer assumir o relacionamento e ser feliz. Mas é um filme gostoso de se ver, com interpretações sinceras e ótimo nível técnico. Em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas.

Câmera Escura