A técnica usada em
"300" (a mistura de atores reais com cenários gerados em computação
gráfica) não é novidade. Já foi usada por George Lucas em seus
episódios da série "Star Wars", no genial (e pouco visto) "Capitão
Sky e o Mundo do Amanhã", em "Sin City" e em outras produções
recentes. Mas desde que os primeiros fotogramas de "300" começaram a
circular pela internet na forma de fotos, teasers e trailers já
ficou claro que estava nascendo se não um novo tipo de cinema, ao
menos alguma coisa realmente diferente.
Adaptação dos
quadrinhos do conceituado Frank Miller (autor de Sin City e
responsável pelo renascimento de Batman nos anos 1980), o filme
dirigido por Zack Snyder é extremamente violento e tem um roteiro
rasteiro, mas é invegável que, visualmente, ele é hipnótico e
fascinante. Cada fotograma foi manipulado digitalmente não
apenas para construir cenários virtuais, mas para retocar
praticamente tudo que é visto na tela. Os soldados de Esparta, com
suas capas cor de sangue escuro e seus escudos e elmos cor de cobre
parecem mais do que seres humanos, mas sim máquinas de matar. Há
vários momentos em que não dá pra distinguir entre um ator de
verdade e uma criação feita pelo computador. Há um contra luz que
envolve toda a fotografia do filme e dá a ela o ar de um sonho, que
por vezes se torna um pesadelo. Um filme, enfim, bonito de se ver,
mesmo que, na maioria do tempo, o conteúdo na tela não seja muito
mais profundo do que o de um videogame de aventura.
Estamos em 500 anos
A.C. e a Grécia está sendo invadida pelo poderoso exército persa
comandado pelo "rei-deus" Xerxes (Rodrigo Santoro, com maquiagem
pesada, cheio de piercings e parecendo mais uma rainha do que um
rei). Ele envia emissários para negociar a submissão da
cidade-estado de Esparta, comandada pelo rei Leônidas (Gerard Butler
que, dentro dos limites do seu personagem, está bem), mas a cidade
não vai se render assim tão fácil. Em um prólogo vemos como
os espartanos são criados desde bebês para apenas dois
fins: guerrear e procriar. É curioso que o roteiro empreste
descaradamente elementos do épico "Gladiador", de Ridley Scott, na
criação da família do rei Leônidas. Este é visto como um esposo
preocupado e pai sábio, mas o prólogo já mostrara que a única coisa
que vale em Esparta é a força bruta. Bebês mal formados são lançados
em um precipício e os sobreviventes são retirados de suas famílias
aos sete anos de idade para um treinamento que envolve espancamento
e por vezes morte. Assim, Esparta não parece o tipo de sociedade
"justa" e "livre" como pregam os personagens, mas esta é só uma das
contradições do roteiro.
Leônidas
mata os emissários persas e, mesmo contrário às visões do oráculo
(uma jovem nua que tem visões do futuro em outra cena de visual
requintado) parte para a guerra levando apenas 300 de seus melhores
soldados, na esperança de retardar o avanço dos milhares de persas
que desembarcaram na praia. O que se segue é uma série de sequências
de batalhas espetaculares, entrecortadas por cenas desnecessárias
que envolvem a mulher de Leônidas tentando negociar o envio de mais
tropas para a guerra. É possível ver paralelos com a situação dos
americanos no Iraque (e provavelmente em breve no Irã, o antigo
Império Persa) no roteiro. Há várias frases de ordem ditas pelos
heróis sobre "defender a liberdade", "se sacrificar pela pátria",
etc que caberiam perfeitamente em uma entrevista coletiva do
Presidente Bush. E os valores defendidos no filme são
extremamente machistas, militaristas e preconceituosos. Os inimigos
são vistos como monstros e um Espartano deformado (que foi
salvo da morte quando criança pelos pais) acaba se revelando um
traidor.
Mas talvez o filme
não deva ser levado tão à sério, e sim apreciado
pelo que tem de bom. As sequências de batalha são de encher os
olhos, com uma violência estilizada que transforma sangue em jorros
de tinta vermelha em câmera lenta. A beleza plástica de várias
imagens impressiona, o que já é motivo para ver o filme.