300 
(300 - EUA - 2006)

por João Solimeo

A técnica usada em "300" (a mistura de atores reais com cenários gerados em computação gráfica) não é novidade. Já foi usada por George Lucas em seus episódios da série "Star Wars", no genial (e pouco visto) "Capitão Sky e o Mundo do Amanhã", em "Sin City" e em outras produções recentes. Mas desde que os primeiros fotogramas de "300" começaram a circular pela internet na forma de fotos, teasers e trailers já ficou claro que estava nascendo se não um novo tipo de cinema, ao menos alguma coisa realmente diferente.

 

Adaptação dos quadrinhos do conceituado Frank Miller (autor de Sin City e responsável pelo renascimento de Batman nos anos 1980), o filme dirigido por Zack Snyder é extremamente violento e tem um roteiro rasteiro, mas é invegável que, visualmente, ele é hipnótico e fascinante. Cada fotograma foi manipulado digitalmente não apenas para construir cenários virtuais, mas para retocar praticamente tudo que é visto na tela. Os soldados de Esparta, com suas capas cor de sangue escuro e seus escudos e elmos cor de cobre parecem mais do que seres humanos, mas sim máquinas de matar. Há vários momentos em que não dá pra distinguir entre um ator de verdade e uma criação feita pelo computador. Há um contra luz que envolve toda a fotografia do filme e dá a ela o ar de um sonho, que por vezes se torna um pesadelo. Um filme, enfim, bonito de se ver, mesmo que, na maioria do tempo, o conteúdo na tela não seja muito mais profundo do que o de um videogame de aventura.

 

Estamos em 500 anos A.C. e a Grécia está sendo invadida pelo poderoso exército persa comandado pelo "rei-deus" Xerxes (Rodrigo Santoro, com maquiagem pesada, cheio de piercings e parecendo mais uma rainha do que um rei). Ele envia emissários para negociar a submissão da cidade-estado de Esparta, comandada pelo rei Leônidas (Gerard Butler que, dentro dos limites do seu personagem, está bem), mas a cidade não vai se render assim tão fácil. Em um prólogo vemos como os espartanos são criados desde bebês para apenas dois fins: guerrear e procriar. É curioso que o roteiro empreste descaradamente elementos do épico "Gladiador", de Ridley Scott, na criação da família do rei Leônidas. Este é visto como um esposo preocupado e pai sábio, mas o prólogo já mostrara que a única coisa que vale em Esparta é a força bruta. Bebês mal formados são lançados em um precipício e os sobreviventes são retirados de suas famílias aos sete anos de idade para um treinamento que envolve espancamento e por vezes morte. Assim, Esparta não parece o tipo de sociedade "justa" e "livre" como pregam os personagens, mas esta é só uma das contradições do roteiro.

 

Leônidas mata os emissários persas e, mesmo contrário às visões do oráculo (uma jovem nua que tem visões do futuro em outra cena de visual requintado) parte para a guerra levando apenas 300 de seus melhores soldados, na esperança de retardar o avanço dos milhares de persas que desembarcaram na praia. O que se segue é uma série de sequências de batalhas espetaculares, entrecortadas por cenas desnecessárias que envolvem a mulher de Leônidas tentando negociar o envio de mais tropas para a guerra. É possível ver paralelos com a situação dos americanos no Iraque (e provavelmente em breve no Irã, o antigo Império Persa) no roteiro. Há várias frases de ordem ditas pelos heróis sobre "defender a liberdade", "se sacrificar pela pátria", etc que caberiam perfeitamente em uma entrevista coletiva do Presidente Bush. E os valores defendidos no filme são extremamente machistas, militaristas e preconceituosos. Os inimigos são vistos como monstros e um Espartano deformado (que foi salvo da morte quando criança pelos pais) acaba se revelando um traidor.

 

Mas talvez o filme não deva ser levado tão à sério, e  sim apreciado pelo que tem de bom. As sequências de batalha são de encher os olhos, com uma violência estilizada que transforma sangue em jorros de tinta vermelha em câmera lenta. A beleza plástica de várias imagens impressiona, o que já é motivo para ver o filme.

 

 

João Solimeo
31/03/2007

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