A Rainha 
(The Queen - UK - 2006)

por João Solimeo

O tradicional e o moderno se chocam de forma inteligente nesse filme de Stephen Frears (de Ligações Perigosas). Quando o primeiro ministro Tony Blair (Michael Sheen), faz uma visita formal à Rainha Elizabeth II (Helen Mirren) no início do filme, ele vem de uma vitória esmagadora nas urnas e tem a missão de ser um "modernizador". Mas ele está claramente nervoso com o encontro e tem que seguir toda uma série de protocolos de etiqueta para estar na "Presença" da Rainha. "Você nunca dá as costas quando está na Presença", diz um auxiliar ao primeiro ministro. "Você é meu décimo primeiro ministro" - diz a Rainha a Blair - "Meu primeiro foi Winston Churchill". A rainha Elizabeth II é interpretada magnificamente por Helen Mirren, que consegue o feito de dar ao personagem tanto uma roupagem "Real" quanto humana.

 

De caráter privado e tradicional, as crenças da Rainha são postas em cheque quando da morte, em Paris, da Princesa Diana. Perseguida por fotógrafos e jornalistas depois de sair de um jantar com o namorado, Diana morreu em um acidente de carro que pôs fim a uma vida que era retratada na mídia diariamente e acompanhada, como em uma novela, por pessoas do mundo inteiro. Para a Rainha Elizabeth e a Família Real, no entanto, Diana não passava de uma ex-princesa que havia aberto mão de tudo ao se divorciar do Príncipe Charles. O que não significa que ela não se importasse com o ocorrido; Diana era, afinal, mãe dos netos reais, e Elizabeth está preocupada em preservar a privacidade deles e sequer pensa em sair do palácio de campo onde se encontram. Em Londres, no entanto, multidões choram a morte de Diana e passam a depositar flores em frente ao palácio de Buckinhan. Tony Blair percebe o fato e o filme o mostra como alguém genuinamente preocupado com a dor do povo, mas é possível que ele, como político que é, simplesmente esteja querendo tomar proveito da situação e se promover. Blair faz um pronunciamento em que chama Diana de "a princesa do povo" e passa a cobrar de Elizabeth que também faça um pronunciamento

 

O filme poderia ter sido uma comédia cínica e feito uma caricatura de todos estes personagens, mas ele vai além disso. "A Rainha" mostra estas figuras como seres humanos de verdade, com famílias, manias e obrigações a cumprir. Elizabeth não consegue entender a popularidade de Diana e acredita que não tenha obrigações de se curvar diante do que pensa ser apenas o desejo da mídia, e não do povo, de lamentar a morte da princesa. Já Tony Blair, em Londres, vê o desejo das multidões e insiste com a Família Real para que Diana tenha um enterro público e oficial. Há uma cena engraçada em que vemos o cerimonial comunicando a Rainha que o enterro de Diana será baseado no funeral da Rainha Mãe, com algumas diferenças. Ao invés de líderes do estado mundiais, celebridades como atores, diretores e desenhistas de moda seriam convidados para o evento. De fato, cenas reais mostram a chegada de pessoas como Steven Spielberg, Tom Hanks e Elton John à capela.

 

E há ótimas cenas mostrando a Rainha como uma pessoal "normal" que vive em um sistema que, no fundo, foi feito para mantê-la afastada do mundo. Ela é mostrada dirigindo um "jeep" pela propriedade de campo, por exemplo, e ficando atolada em um rio que passa pela propriedade. Há um belo momento, então, em que vemos a emoção dos últimos dias finalmente chegando e a Rainha, aos prantos, chorando abertamente sentada à margem do rio. Ela é interrompida pela chegada de um "alce imperador", um belo animal que estava sendo caçado pelo marido da Rainha, o Príncipe Phillip, e seus netos. É um paralelo sutil à situação passada pela princesa Diana, literalmente caçada por fotógrafos até a morte em Paris, e a situação pelo qual passa a própria Rainha, assediada e cobrada por toda uma vida em um mundo moderno que a vê como um símbolo velho e ultrapassado.

 

Mirren ganhou o Globo de Ouro por sua performance e é aposta certa para o prêmio do Oscar. "A Rainha" também está concorrendo como Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original, Figurino e Trilha Sonora. Nada mal para um filme calmo e extremamente britânico como este. A fotografia é do brasileiro Affonso Beato. 

João Solimeo
20/02/2007

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