
A.I.
- Inteligência Artificial
(EUA - 2001)
por João Solimeo
Chega finalmente aos cinemas do Brasil um dos filmes mais visionários,
fantásticos, bem feitos e, vou direto ao ponto, ultimamente decepcionantes dos
últimos anos. A.I. é um daqueles filmes em que a história dos bastidores quase
se sobrepõe ao roteiro do filme em si. Como todos no planeta já devem ter ouvido
dizer, A.I. era um projeto idealizado originalmente por ninguém menos que o
diretor Stanley Kubrick. Ele passou anos adaptando o conto de Brian Aldiss
("Super-brinquedos duram o verão todo") para as telas do cinema, mas, em seu
famoso perfeccionismo, nunca chegou a ficar satisfeito com o resultado.
Os anos se passaram e, com a vertiginosa melhora na tecnologia dos efeitos
especiais, Kubrick decidiu-se finalmente por realizá-lo, mas não como diretor.
Ele chamou outra lenda viva do cinema moderno, Steven Spielberg, e lhe passou o
bastão, dizendo que o filme estava mais perto da sensibilidade do criador de
filmes como "E.T." e "Contatos Imediatos do Terceiro Grau". Kubrick acabou
falecendo em 1999, logo após terminar "Eyes Wide Shut", e Spielberg resolveu
tocar o projeto adiante também como roteirista, a primeira vez em mais de 20
anos, desde "Contatos Imediatos". As filmagens foram dignas de um projeto de
Kubrick, com sets fechados e um grande sigilo rondando o projeto. Vários rumores
ficaram rondando a internet e os fãs, ávidos por informações, tiveram que se
contentar com pequenas notas e fotos esporádicas. E uma das mais intrigantes e
bem boladas campanhas de marketing de todos os tempos. Pequenos "teasers" foram
lançados que revelavam pouco, muito pouco, do produto final. Quanto a mim, que
NÃO sou fã de saber muito a fundo do roteiro de um filme antes de vê-lo, estava
achando ótimo o sigilo e me divertindo secretamente com o desespero dos fãs mais
ávidos.
O filme estreou finalmente nos EUA e, surpresa geral, foi mal nas
bilheterias, coisa rara em um projeto tocado por Steven Spielberg. Assim, foi
com curiosidade redobrada e uma mente aberta que me sentei finalmente na
poltrona do cinema para ver o tão aguardado filme.
A.I. é composto pelas mais brilhantes duas horas da carreira de Steven
Spielberg, seguidos pelos seus piores e mais decepcionantes 25 minutos finais.
Começamos o filme ouvindo o narrador dizer que estamos no futuro e que as
calotas polares derreteram e inundaram várias cidades da Terra. Como os recursos
são escassos, a reprodução humana é mal vista e robôs são construídos para
substituir as pessoas na maioria das atividades do dia a dia. Eles são custosos
de fabricar, mas não comem, não dormem e não desperdiçam recursos. Conhecemos
então os cientistas da Cybertronics, uma das fabricantes de robôs, liderados
pelo professor Hobby (William Hurt). Ele está discursando aos outros cientistas
e propondo algo inédito: a criação de um robô-criança que seja capaz de "amar de
verdade" os pais a ele designados. Como comparação, em uma cena bastante fria,
por sinal, ele espeta uma agulha na mão de uma mulher que está à mesa com os
outros. Ela grita de dor, mas, como é um robô, não consegue explicar aos
cientistas o que foi que ela "sentiu". A seqüência toda é filmada em tomadas
longas de maneira magistral por Spielberg, que parece mais seguro na direção do
que nunca. Com alguns detalhes sutis, como a robô terminar a seqüência passando
batom nos lábios, nos mostra que nada é tão frio e "máquina" como parece.
Conhecemos então um casal, Monica e Henry, que estão visitando seu filho
doente. Na verdade, ele está congelado aguardando que a ciência consiga achar a
cura para sua doença. Os médicos dizem ao pai que a possibilidade dele
sobreviver é muito pequena. Por este motivo, o casal é considerado perfeito para
ser o primeiro a ter "David", o robô capaz de amar proposto pelo professor Hobby
no início do filme. David é interpretado muito bem por Haley Joel Osment, um
pouco mais crescidinho desde os tempos de "O Sexto Sentido", mas ainda um
tremendo ator. Mamãe Monica (Frances O'Connor) a princípio rejeita o robô e
chega até a ser cruel com ele, trancando-o no armário de roupas. Mas ela acaba
resolvendo aceitá-lo como "filho" e, numa das cenas mais genuinamente tocantes
do filme, resolve "ativar" o robô dizendo uma seqüência de palavras que vão dar
o "boot" no sistema de David, transformando-o de uma máquina que se parece com
um menino em uma criança "de verdade", que a chama de "mãe" e a abraça com
carinho. O filme, neste ponto, está longe das cenas mais "melosas"
características de Spielberg. O espectador fica o tempo todo com uma sensação
estranha, conforme vai, aos poucos, tomando amor pelo garoto e por sua tentativa
de ser um garoto de verdade e conquistar o amor da "mãe". Seus sonhos vão por
água abaixo quando, em uma grande virada no roteiro, o filho de verdade do casal
é milagrosamente curado e volta para casa. Começa então uma grande rivalidade
entre o filho real do casal, chamado de "Orga" (de orgânico), e do filho robô,
ou "meca" (de mecânico). Os dois disputam até pelo amor de um dos personagens
mais estranhos, engraçados e intrigantes do filme: o urso de pelúcia robótico "Teddy",
uma obra prima dos efeitos especiais. "Teddy" não só tem expressões faciais como
anda, fala e se torna um personagem integrante na história.
Como era de se esperar, as coisas vão mal para David que, em sua ingenuidade,
acaba cometendo atos que provocam a ira de Henry, o "pai", que consegue
convencer a mãe a levá-lo de volta à Cybertronics, onde seria destruído. Ela não
tem coragem de levá-lo até lá, mas o leva até uma floresta e diz que ele deve
ficar lá. "Quando é que você vem me buscar?" - pergunta David para Monica, e
descobrimos que estamos com um nó na garganta. Segue-se uma emocional e
dramática cena de despedida, como só Spielberg sabe fazer, e David é deixado
para trás tendo como companhia apenas Teddy, o urso. É patente e emocionante
notar a influência do resto do trabalho de Spielberg nesta seqüência. É quase
que uma refilmagem do momento em que, há quase vinte anos, um extraterrestre foi
deixado para trás em uma floresta para enfrentar um mundo desconhecido. Mas o
mundo enfrentado por David não tem nada parecido com o enfrentado por
E.T. Logo chega um caminhão de lixo que
descarrega um monte de pedaços de andróides. Do nada, surgem na floresta uma
porção de robôs em vários estágios de decomposição, que atacam o monte de lixo
em busca de "peças de reposição" para seus corpos. É meio arrepiante vê-los
pegando maxilares, braços, pernas, etc, do monte e colocando em si mesmos.
Há
um corte para apresentar "Joe", um robô interpretado por Jude Law que, mais uma
vez, rouba o filme. Law já havia roubado a cena em filmes como "Gattaca" e "O
Talentoso Sr. Ripley", mas ele está simplesmente fantástico como um "robô
amante" cuja função é satisfazer as mulheres sexualmente. Aqui novamente nota-se
a distância que Spielberg, estilisticamente, percorreu para fazer este filme. Há
uma cena em que vemos Joe e uma garota em um quarto e ela está com medo do que
ele tem "por baixo das calças" e pergunta se "vai doer". Digam o que quiserem,
mas Joe é o personagem mais "Kubrickiano" do filme. Há um quê de "Alex", de
Laranja Mecânica, em seu modo gracioso de andar e dançar pela tela, dizendo
frases românticas clichê e tocando músicas de amor com um clique em seu pescoço.
O filme então parte para uma ousadia atrás da outra, com um ritmo
avassalador. Joe se vê em problemas com a polícia e foge para a floresta. David
está andando com Teddy e ele decide que, ao estilo de um conto de fadas surreal,
irá atrás da Fada Azul, que ele conhecia da história de Pinóquio, para que ela o
transforme em um "garoto de verdade". Assim, por sua lógica, a mãe haveria de
amá-lo tanto quanto ao filho real e ele poderia ser feliz.
O filme, que até então fora quase sempre passado à luz do dia, com uma
brilhante fotografia de Janusz Kaminsky, se torna sombrio e mais cruel do que
nunca. Para se ter uma idéia, Joe e David acabam sendo caçados como animais e
jogados em uma jaula com dezenas de outros robôs, que são destruídos um a um,
com toques de crueldade, em frente a uma multidão sádica de humanos em uma arena
que mais parece o inferno, com bandas de heavy metal tocando, motoqueiros,
tochas, etc. Os dois acabam eventualmente fugindo e formando uma estranha
parceria, em que o menino robô e o "Gigolô" partem em busca da Fada Azul que
pode solucionar seus problemas.
Tudo isso, como se pode imaginar, não poderia terminar bem. É claro que David
acabaria por descobrir que não há modo no Universo dele se tornar um garoto de
verdade. Claro que ele acabaria por enfrentar a realidade e descobrir que ele
não passa de um entre vários garotos-robô-que-amam-de-verdade e que a mãe nunca
poderia amá-lo como ao filho real. E o filme, por um longo período, parece que
vai ser extraordinariamente corajoso e terminar de maneira trágica e triste. Em
vários momentos, com o nó na garganta já quase me sufocando, me preparei para o
final do filme que seria talvez o melhor da fantástica carreira de Steven
Spielberg.
Mas... bem, não era para acontecer. Não vou revelar a totalmente improvável
virada no roteiro que permite, embora de maneira limitada, eu sei, dar um
vislumbre de um "final feliz" para a platéia comedora de pipoca. É uma pena que,
desta vez, o "toque mágico" de Spielberg tenha sido usado não para melhorar o
filme, mas sim para transformá-lo em um desastre monumental, em que o roteiro
foi transformado em um mero artifício para facilitar as coisas de tentar
conseguir o impossível. É uma pena que Spielberg, que já foi tão longe em filmes
como "A Lista de Schindler" e "O Resgate do Soldado Ryan", ainda não tenha
conseguido se libertar do típico final feliz hollywoodiano. Mesmo em "Schindler"
e "Ryan", aliás, o final é quase que uma negação de tudo que veio antes. É esse
o caso deste "Inteligência Artificial". Um filme tão extraordinário, um dos mais
ousados da última década, eu diria, mas que acabou se tornando "artificial"
justo em sua parte final.
Acabado o filme, os créditos rolando na tela, fica a sensação de ter
presenciado uma fantástica obra do cinema. Mas fica também, infelizmente, um
gosto amargo na boca. E a pergunta, inevitável, do que Kubrick teria feito com
este final, pelo menos. Mas, finais à parte, justiça seja feita a Steven
Spielberg, nem que seja pela garra e coragem de, em pleno ano de 2001, lançar um
filme que começa e termina com o nome de Stanley Kubrick na tela.
João Solimeo
setembro de 2001
* * *
Você concorda com a crítica?
Discorda? Dê sua opinião em nosso
FÓRUM!
|