ALI
(EUA - 2001)

por João Solimeo
 
Em 1964, o pugilista americano Cassius Clay tornou-se Campeão Mundial dos Pesos Pesados pela primeira vez. Dez anos depois, Muhammad Ali reconquistava o título mundial no Zaire, aos 32 anos, entrando para a história do boxe novamente. Estes dez anos foram dos mais conturbados na história dos EUA e do mundo. Lutas pelos direitos civis pipocavam em todos os lugares. Os negros americanos lutavam por seus direitos nas palavras e ações de Malcon X e Martin Luther King. No sudeste asiático, a Guerra do Vietnã levava a nação mais poderosa do mundo a um dos conflitos mais sangrentos e politicamente incorretos da história. E, nos ringues, um negro conquistava a América triunfando sobre preconceitos raciais, religiosos e sociais para se tornar uma lenda viva.
 

Tudo isso pode ser visto no filme de Michael Mann, grande diretor de filmes como "Fogo contra Fogo" (Heat) e "O Informante" (The Insider), que chega ao Brasil agora na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Mas, apesar do bom diretor, ótimo elenco e de todo esse material interessante para explorar, o filme de Mann fica curiosamente aquém das expectativas. O filme é bem longo, coisa normal nos filmes de Michael Mann, mas é mal balanceado. Vemos cenas aparentemente banais se arrastando por minutos sem fim, enquanto que cenas historicamente importantes passam batido, deixando e espectador confuso e perdendo o fio da meada em vários pontos do filme. O problema é que há um distanciamento dos fatos narrados mas com uma estética intimista, gerando um conflito desnecessário. Digo, a câmera de Mann está constantemente próxima dos personagens, em close-ups que enchem a tela, nos aproximando dos personagens mostrados. O problema é que o roteiro não nos deixa penetrar nessa intimidade, parecendo estar sempre vendo as coisas através de um filtro. Ficava difícil entender se esta distância se devia a uma certa "reverência" ao personagem principal, a uma aproximação politicamente correta ou, talvez, à falta de intimidade do diretor com os fatos narrados. Não acho que um filme sobre conflitos raciais e sobre negros deva necessariamente ser dirigido por um negro, mas tive a impressão que o ponto de vista de Michael Mann não combinava com o ponto de vista seja do próprio Ali ou das figuras históricas presentes no filme.
 
Michael Mann se esmera em apresentar conflitos entre lados opostos em seus melhores filmes. Em "Fogo contra Fogo" acompanhamos por quase três horas as vidas do policial interpretado por Al Pacino tentando prender o criminoso interpretado por Robert DeNiro. Os dois são pessoas de carne e osso, com desejos, vontades, problemas familiares, etc, e a linha que separa o policial do bandido é tênue e chega a se misturar em alguns pontos. Em "O Informante" Mann maravilhosamente mostrava as vidas de Lowell Bergman (novamente Al Pacino) e do Dr. Jeffrey Wigand (Russel Crowe); um era um jornalista de princípios que teve que lutar contra seus empregadores, a CBS, para conseguir levar ao ar uma matéria de interesse público. O outro era um alto executivo despedido pela indústria do tabaco e se vê perseguido e ameaçado pela companhia em que trabalhava. Os dois filmes eram longos, mas conseguiam transformar seus personagens em pessoas reais, pelas quais nós nos importávamos e torcíamos por elas.


O problema é que em "Ali" isso não está presente. O filme até que vai bem enquanto contrabalança a vida de Ali com a de seu amigo e mentor Malcon X (interpretado muito bem por Mario Van Peebles). A câmera nos deixa respirar por alguns minutos e mostra o lado de Malcon da história, até seu assassinato. Quando Malcon X sai de cena, o filme parece perder o rumo e mostra somente o personagem título, que também parece perder suas motivações e vontades. O filme mostra Ali se recusando a se alistar quando o exército o convoca para ir ao Vietnã, mas às vezes fica difícil entender se suas motivações foram políticas, religiosas ou se ele era um cara que gostava de fazer confusão. O papel de Muhammad Ali é feito por Will Smith, famoso por seus papeis cômicos e por seus discos de rap. Smith está bem no papel, e fisicamente até que conseguiu uma transformação considerável para interpretar um boxeador peso pesado. Mas em muitos momentos ele parece apenas uma caricatura do que foi Ali, famoso por seu bom humor e comentários sarcásticos sobre seus adversários. Ali tinha um "timing" perfeito e sabia fazer pausas de efeito em suas declarações bombásticas para a imprensa. Will Smith conseguiu imitar o tom de voz e um pouco do jeito do antigo campeão, mas às vezes dispara a falar como alguém que realmente decorou um discurso e tem que falar rapidinho para não esquecer.


O filme mostra vários momentos históricos importantes, mas de modo tão passageiro e distante que às vezes fica difícil saber o que está acontecendo. Será que os temas tratados são tão conhecidos pelo público americano que dispensam uma explicação mais detalhada? Ou o diretor foi displicente em achar que a geração de hoje (e o público estrangeiro) iria saber dos detalhes dos fatos narrados? O visual e a edição do filme também mostram uma certa confusão. O filme mostra várias cenas fotografadas muito bem, mas há alguns momentos em que, sem motivo aparente, foram utilizadas imagens captadas obviamente por câmeras de vídeo ou digitais, e a qualidade cai vertiginosamente, com o foco ruim e uma definição sem profundidade alguma. Dá até a impressão que estas cenas foram feitas como uma espécie de teste para as câmeras digitais e acabaram sendo incluídas no filme. A edição deixa de cortar cenas intermináveis, como o começo do filme, que intercala uma apresentação musical com cenas de Ali treinando.
 

O que salva um pouco o filme são as boas interpretações do elenco. Will Smith, como já disse, faz um retrato fiel embora um pouco caricato de Muhammad Ali. Quem rouba o filme são coadjuvantes como Jon Voigh, impressionante e irreconhecível como o jornalista Howard Cosell; Ron Silver como o treinador Angelo Dundee (que, anos depois, viria até a treinar o brasileiro Adilson Maguila); Mario Van Peebles como Malcon X e Giancarlo Esposito como o pai de Ali.
 

Um filme irregular, que com uma edição melhor e uma garibada no roteiro poderia ter sido grande.

 
João Solimeo
novembro de 2002  


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