Babel 
(Babel - EUA - 2006)

por João Solimeo

"Babel" é um filme feito por um mexicano (Alejandro González Iñárritu, indicado ao Oscar de Melhor Diretor) e passado em vários países (Estados Unidos, Marrocos, México e Japão) com a intenção de mostrar os problemas enfrentados quando há falta de comunicação entre as pessoas. Ou é assim que o filme tenta se vender. Na verdade, ele não passa de um dos produtos mais cultuadores do "american way of life" feitos nos últimos anos. Chega a ser revoltante. Em "Babel", tudo o que está fora dos Estados Unidos é ruim, perigoso, irresponsável e sexual (no sentido pejorativo). Quem é americano é vítima dos problemas causados por quem não é. Os americanos são bonitos, limpos, cultos e sentimentais. Os estrangeiros são sujos, irresponsáveis e ignorantes.

O filme lembra muito "Crash", que também se pretendia um filme "denúncia" sobre o racismo em Los Angeles e tentava passar sua mensagem através de situações forçadas e coincidências improváveis. Os filmes são tão parecidos que, assim como Crash, é possível que "Babel" leve o Oscar no mês que vem (o filme já levou o prêmio de melhor drama no Globo de Ouro e já foi indicado ao Oscar de Melhor Filme).

Tudo começa quando dois meninos, no Marrocos, resolvem atirar em um ônibus de turismo com um rifle de caça. A situação, claramente absurda, acaba causando o ferimento de uma americana (Cate Blanchett) que viajava no ônibus com o marido (Brad Pitt).

Os meninos, além de brincarem de forma irresponsável com uma arma de fogo, são mostrados em outras situações "reprováveis", como gostar de ver a irmã nua por um buraco na parede ou se masturbar enquanto deveria estar cuidando do rebanho de cabras. Do outro lado do mundo, nos EUA, a contrapartida é um casal de crianças exemplares, americanas, loiras de olhos azuis, que têm como babá uma mexicana chamada Amélia (Adriana Barraza, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) que quer ir ao casamento do filho. O problema é que os patrões (Brad Pitt e Cate Blanchett) estão lá no Marrocos com um "problema" (a bala atirada pelo garoto marroquino) e não querem liberá-la para o casamento. Ela chama o sobrinho Santiago (Gabriel Garcia Bernal) e decide ir ao México ver a cerimônia de qualquer maneira, levando junto as inocentes crianças americanas. É claro que, longe da proteção do paraíso americano, tudo vai dar errado, certo? Enquanto isso, no Marrocos, Brad Pitt tenta ajudar a esposa agonizante de qualquer maneira. É o preço que ele tem que pagar por deixar os Estados Unidos. A esposa, em uma cena anterior, chega a perguntar a ele: "o que estamos fazendo aqui?".

Alheio a isso tudo, como que em um filme à parte, há uma terceira história passada no Japão e protagonizada por uma garota surda-muda (Rinko Kikuchi, a melhor presença do filme, também indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) que perdeu a mãe recentemente (de forma trágica, claro) e que tem problemas com o pai. A deficiência da garota a torna um tanto alheia ao resto do mundo e também dos garotos, que se afastam quando sabem de sua condição. Há várias cenas em que a garota apela para o lado sexual (novamente, só os estrangeiros se expressam dessa forma) para tentar conseguir um contato com os outros. O conceito é até interessante, mas a mão pesada do diretor tira qualquer sutileza que a história poderia ter. O segmento passado no Japão é ligado ao resto de forma tênue e, novamente, forçada, e a bem da verdade a impressão que dá é que a sequência foi adicionada para atrair o mercado japonês. Iñárritu, que já usou da técnica das histórias paralelas no superior "21 gramas", tenta agora sem sucesso repetir a fórmula.

Ao final, vemos Brad Pitt ao telefone falando com o filho nos EUA e chorando aos prantos enquanto escuta o garoto falar de sua rotina na escola. A impressão que dá é que a mensagem do filme é "não deixe os Estados Unidos. O mundo lá fora não presta e, se você sair, vai se arrepender". Que tal se a escola do garoto fosse atacada por um adolescente entediado que resolveu matar os colegas em uma segunda feira de manhã? Em "Babel", se isso acontecesse, descobriríamos que o garoto veio de fora.

João Solimeo
22/01/2007
- atualizado nas indicações ao Oscar

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