Batman Begins

(Batman Begins - EUA - 2005)

por João Solimeo

O início de "Batman Begins" é tão interessante que chega a ser uma pena que, lá pelo meio do filme, o tal do homem morcego tenha que aparecer. Somos apresentados a um personagem conturbado, um jovem de uma família rica que, em uma viagem de auto conhecimento, se encontra em alguma prisão perdida nas montanhas geladas do Himalaia. Seu "treinamento", como ele próprio o chama, é arrumar briga com presos com o dobro do seu tamanho e sua força, que ele derruba com golpes de artes marciais. O nome do jovem é Bruce Wayne (Christian Bale) e, apesar da aparente brutalidade, ele tem pesadelos recorrentes de quando caiu em um poço abandonado, quando criança, e foi atacado por centenas de morcegos. Ele é solto da prisão e recrutado por um estranho homem chamado Henri Ducard (Lian Neeson), que faz parte de um grupo chamado "Liga das Sombras", que treinaria homens em busca de justiça no mundo. Bruce é treinado por Ducard em luta com espadas, ninjutsu, artes marciais e tudo o que um futuro super-herói necessitaria. As imagens de treinamento, em meio a paisagens geladas a centenas de quilômetros de Gothan City, fazem com que você se sinta em outro filme, mesmo sendo apresentado a belos flashbacks da infância de Bruce com o pai e a mãe, ricos, felizes e instruídos. Um dia, à saída da ópera (que dá para o gueto mais sujo e perigoso que se poderia imaginar), os pais de Bruce são mortos por um ladrão comum, fato que ficaria para sempre marcado na mente dele.

O treinamento de Ducard acaba de maneira inesperada: Bruce se recusa a passar pelo teste final (matar um prisioneiro a sangue frio) e acaba tendo que lutar com a "Liga das Sombras" e voltar para seu mundo, Gothan City. Já no caminho de volta, em pleno avião com seu fiel mordomo Alfred (Michael Caine), Bruce começa a delinear seu plano de criar um "símbolo", um personagem pelo qual ele poderia ajudar o povo de Gothan a se livrar da rede de corrupção e crime no qual a cidade se tornou. O símbolo seria baseado no seu maior medo: morcegos. E assim, finalmente, nasce o Batman que a platéia de jovens estava esperando ver.

O diretor e co-roteirista de "Batman Begins" é Christopher Nolan, o diretor de "Amnésia" e "Insônia", que teve a tarefa arriscada de resgatar a franquia do limbo após os desastrosos filmes feitos por Joel Schumacher na década de 90 (após bons filmes feitos por Tim Burton em 1989 e 1992). Nolan decidiu começar do zero com o personagem, dando mais atenção à Bruce Wayne do que ao seu alter-ego. Ainda assim, gostaria que a Warner tivesse sido corajosa o suficiente para fazer um filme que fosse ainda menos sobre Batman e mais sobre seu criador. O fato de Batman ter que entrar na história acaba, obrigatoriamente, trazendo junto todos os clichês já esperados do gênero, como vilões com planos mirabolantes, armas que podem destruir toda uma cidade, intermináveis cenas de perseguições, e assim por diante.

Christian Bale, como Bruce Wayne, está muito bem. O ator, que começou no cinema em "Império do Sol", de Steven Spielberg, fez vários vilões assustadores quando adulto (como em "Shaft" e "Psicopata Americano") e está em casa como o conturbado "playboy" que quer mudar o mundo por trás de uma máscara negra. Seu Batman é menos heróico e "colorido" que os vistos anteriormente nos cinemas. O diretor Nolan mostra Batman sempre como uma figura sombria e assustadora. Os vilões estão na forma de um gangster chamado Falcone (Tom Wilkinson), um psiquiatra mais louco que seus pacientes, o Dr. Crane (Cillian Murphy, que é também o "Espantalho"), e um misterioso Ra's Al Gul, que planeja envenenar toda a Gothan com um gás alucinógeno que, estranhamente, às vezes não tem efeito sobre os personagens principais.

O ótimo elenco secundário ainda conta com Morgan Freeman como uma espécie de "Professor Pardal" que inventa os apetrechos usados por Batman, Gary Oldman como o Sargento (ele ainda não é comissário) Gordon, Rutger Hauer como um executivo que quer tomar a firma de Bruce Wayne e Katie Holmes como uma corajosa promotora.

O final, em piloto automático, conta com as explosões de sempre, além de uma cena de trem desnecessariamente parecida com o Homem Aranha 2. Mas não chega a estragar o espetáculo. Em alguns anos, imagina-se, Batman estará de volta. Agora que seu início já foi contado, vai ser difícil fazer uma continuação tão interessante quanto este primeiro episódio.

João Solimeo
junho de 2005

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