Segundo filme
dirigido pelo ator Robert DeNiro, a longa e laboriosa produção conta
com um elenco fantástico, equipe técnica competente e um assunto
intrigante (ou assim deveria ser): os eventos que levaram à criação
da CIA, a temida agência internacional de inteligência americana.
Mas quando o filme termina após quase três longas horas de eventos
apresentados de forma não linear, não chegamos a nenhuma conclusão
muito diferente daquela que já tínhamos nos primeiros dez minutos de
projeção: a CIA não presta, os agentes secretos não levam vidas tão
interessantes assim e não se pode confiar em ninguém.
O ponto alto da
produção é mesmo o elenco, sem dúvida reunido graças ao prestígio de
DeNiro. É quase um jogo reconhecer Alec Baldwin, William Hurt,
Angelina Jolie, Timothy Hutton, Billy Crudup, Joe Pesci, John
Turturro e até mesmo Keir Dullea (que foi David Bowman em “2001 –
Uma Odisséia no Espaço”) conforme o filme se desenrola. Escrito por
Eric Roth, o complicado roteiro mostra que falta um diretor mais
competente faz. Roth foi o roteirista dos superiores “O Informante”,
de Michael Mann e “Munique”, de Steven Spielberg, e há ecos dos dois
filmes em “O Bom Pastor”, mas sem a mesma qualidade.
A trama
se inicia em 1961, durante o fracasso das operações americanas em
Cuba na “Baía dos Porcos”. Edward Wilson (Matt Damon) é um dos
responsáveis pela inteligência na CIA e percebe que alguém traiu a
organização. Ele recebe uma informação do FBI que indica que o
diretor da agência pode ser o informante. Inicia-se então um dos
vários flashbacks que compõem a narrativa, e acompanhamos a carreira
acadêmica de Wilson na universidade de Yale. Ele era um estudante de
poesia que descobre que tem um professor que pode ser um
simpatizante nazista. Colaborando com o FBI, ele consegue seu
afastamento. Wilson também faz parte de uma sociedade “secreta”
composta por homens cujo ritual de iniciação consiste em lutar
na lama, nu, com os outros membros. O temperamento frio, fechado e
eficiente de Wilson é considerado ideal para o serviço de
espionagem e ele é recrutado pela OSS (o serviço de
inteligência e contra inteligência) durante a Segunda Guerra
Mundial e é enviado para a Europa.
O filme é bem
sucedido na recriação de época e em retratar as operações dos
agentes, mas é tudo muito confuso e, a bem da verdade,
desinteressante. O filme é composto por uma série de cenas que não
se ligam direito. A maior parte do tempo o espectador não sabe, ou
não liga, para o que os agentes estão tentando fazer na tela. Para
complicar, paralelo a essas atividades de espionagem há o retrato da
vida pessoal de Wilson, que começa, de forma não muito convincente,
quando ele é praticamente estuprado por Angelina Jolie em uma festa
da sociedade. Ela engravida, Wilson se casa com ela e os dois
demoram mais de seis anos antes de se encontrarem
novamente. Eles têm um filho que fica cada vez mais assustado
com as atividades do pai e com o clima de paranóia que ronda suas
atividades. “O Bom Pastor” tenta ser um misto de
“Munique”, “O Informante” e em momentos lembra até “Uma Mente
Brilhante”, quando a paranóia de Wilson faz com que ele desconfie de
todo mundo. O problema é que tudo isso é apresentado de forma um
tanto fria e desapaixonada. Há uma investigação envolvendo uma
gravação misteriosa e uma fotografia que só começa a fazer sentido
lá para o final do filme quando, a bem da verdade, já deixamos de
nos preocupar há muito tempo. A relação pai e filho até rende
algumas cenas mais emocionantes mas o personagem de Matt Damon é tão
frio que já imaginamos o que vai acontecer. DeNiro se revela um bom
diretor em cenas isoladas mas, no todo, seu filme não para em
pé.