O Bom Pastor
(The Good Shepherd - EUA - 2006)

por João Solimeo

Segundo filme dirigido pelo ator Robert DeNiro, a longa e laboriosa produção conta com um elenco fantástico, equipe técnica competente e um assunto intrigante (ou assim deveria ser): os eventos que levaram à criação da CIA, a temida agência internacional de inteligência americana. Mas quando o filme termina após quase três longas horas de eventos apresentados de forma não linear, não chegamos a nenhuma conclusão muito diferente daquela que já tínhamos nos primeiros dez minutos de projeção: a CIA não presta, os agentes secretos não levam vidas tão interessantes assim e não se pode confiar em ninguém.

 

O ponto alto da produção é mesmo o elenco, sem dúvida reunido graças ao prestígio de DeNiro. É quase um jogo reconhecer Alec Baldwin, William Hurt, Angelina Jolie, Timothy Hutton, Billy Crudup, Joe Pesci, John Turturro e até mesmo Keir Dullea (que foi David Bowman em “2001 – Uma Odisséia no Espaço”) conforme o filme se desenrola. Escrito por Eric Roth, o complicado roteiro mostra que falta um diretor mais competente faz. Roth foi o roteirista dos superiores “O Informante”, de Michael Mann e “Munique”, de Steven Spielberg, e há ecos dos dois filmes em “O Bom Pastor”, mas sem a mesma qualidade.

 

A trama se inicia em 1961, durante o fracasso das operações americanas em Cuba na “Baía dos Porcos”. Edward Wilson (Matt Damon) é um dos responsáveis pela inteligência na CIA e percebe que alguém traiu a organização. Ele recebe uma informação do FBI que indica que o diretor da agência pode ser o informante. Inicia-se então um dos vários flashbacks que compõem a narrativa, e acompanhamos a carreira acadêmica de Wilson na universidade de Yale. Ele era um estudante de poesia que descobre que tem um professor que pode ser um simpatizante nazista. Colaborando com o FBI, ele consegue seu afastamento. Wilson também faz parte de uma sociedade “secreta” composta por homens cujo ritual de iniciação consiste em lutar na lama, nu, com os outros membros. O temperamento frio, fechado e eficiente de Wilson é considerado ideal para o serviço de espionagem e ele é recrutado pela OSS (o serviço de inteligência e contra inteligência) durante a Segunda Guerra Mundial e é enviado para a Europa.

 

O filme é bem sucedido na recriação de época e em retratar as operações dos agentes, mas é tudo muito confuso e, a bem da verdade, desinteressante. O filme é composto por uma série de cenas que não se ligam direito. A maior parte do tempo o espectador não sabe, ou não liga, para o que os agentes estão tentando fazer na tela. Para complicar, paralelo a essas atividades de espionagem há o retrato da vida pessoal de Wilson, que começa, de forma não muito convincente, quando ele é praticamente estuprado por Angelina Jolie em uma festa da sociedade. Ela engravida, Wilson se casa com ela e os dois demoram mais de seis anos antes de se encontrarem novamente. Eles têm um filho que fica cada vez mais assustado com as atividades do pai e com o clima de paranóia que ronda suas atividades. “O Bom Pastor” tenta ser um misto de “Munique”, “O Informante” e em momentos lembra até “Uma Mente Brilhante”, quando a paranóia de Wilson faz com que ele desconfie de todo mundo. O problema é que tudo isso é apresentado de forma um tanto fria e desapaixonada. Há uma investigação envolvendo uma gravação misteriosa e uma fotografia que só começa a fazer sentido lá para o final do filme quando, a bem da verdade, já deixamos de nos preocupar há muito tempo. A relação pai e filho até rende algumas cenas mais emocionantes mas o personagem de Matt Damon é tão frio que já imaginamos o que vai acontecer. DeNiro se revela um bom diretor em cenas isoladas mas, no todo, seu filme não para em pé.

 

João Solimeo
17/03/2007

                             *                           *                                 *

Você concorda com a crítica? Discorda? Dê sua opinião em nosso FÓRUM!

<<< Câmera Escura

 

 

 

 

 

 

 

 

© 2004-2007 by João Solimeo