O Cheiro do Ralo é um
fascinante estudo sobre as relações de poder entre quem tem e quem
não tem, sobre sedução, taras e fantasias, sobre desejos, sobre amor
e dependência, sobre cinismo e insegurança. Tudo isso embalado em um
dos roteiros mais inteligentes dos últimos anos, levado às telas
pelo diretor Heitor Dhalia (diretor de “Nina”) e por uma
interpretação magistral de Selton Mello. Ele é o filme e apesar de
interpretar um sujeito que está longe de ser um ser humano exemplar
(muito pelo contrário), sua entrega ao personagem é tão completa que
conseguimos entende-lo e, em alguns momentos assustadores, até nos
identificarmos com ele.
Selton é Lourenço, um
cara solitário e cínico que dirige uma decadente loja de penhores
como se fosse um executivo de uma grande empresa. Ele tem uma
secretária que faz a triagem dos clientes, um segurança
(interpretado por Lourenço Mutarelli, autor do livro em que o filme
foi baseado) e se senta atrás de uma mesa recebendo vendedores o dia
inteiro. Os clientes trazem toda espécie de lixo para tentar vender
para Lourenço, cujos critérios para a compra variam. Ele paga apenas
30 reais por um faqueiro de prata e oferece no máximo 100 reais por
um violino Stradivarius, mas gasta 400 reais em um olho de vidro sem
valor. Ele sabe que todo objeto usado tem uma “história” para
contar, mesmo que seja inventada e, cínico, pede para que um cliente
escreva a história de uma caixinha de música. “Quando eu for vender,
a história vai junto”. Lourenço tinha uma noiva (Fabiana
Guglielmetti) com quem rompe
faltando pouco para o casamento (“Eu não tenho nada pra te oferecer,
e você não tem nada pra me oferecer”). A mulher, inconformada, passa
a fazer ameaças e a persegui-lo. “Toda mulher é igual”, diz
Lourenço, “se você bobear, os convites vão para a gráfica”.
Falando em mulher, há
a garçonete do bar onde Lourenço vai comer quase todos os dias. Ela
tem um nome impronunciável (“uma mistura do nome do pai, da mãe e de
alguma celebridade”) e ele está apaixonado por ela. Ou melhor,
Lourenço está mesmo apaixonado é pela bunda dela. Ele fica no balcão
fingindo ler algum romance policial enquanto espera, ansioso, que a
moça se vire e mostre o corpo para ele. “Se a comida daqui fosse
boa”, diz ele, “seria o paraíso”. A garçonete (interpretada por
Paula Braun) começa a gostar da atenção e entra no jogo de sedução
de Lourenço até que um dia, inevitavelmente, ele acaba falando mais
do que devia e o “clima” termina.
E há o cheiro do
ralo. Pacientemente, Lourenço explica a cada cliente que entra na
loja que o cheiro não vem dele, mas sim do ralo do banheiro, que
está com algum problema. Até que um cliente, acertadamente, comenta
que já que Lourenço é o único a usar o banheiro, o cheiro só pode
vir dele. Ele culpa o cheiro pelo seu mau humor, por seu cinismo,
por sua vida. Ao invés de consertar o banheiro ele tenta primeiro
simplesmente cimentar o ralo, mas o encanamento parece estar
conspirando contra ele. “Esses canos não são o que parecem”, diz ele
ao encanador, “é por ai que eles nos observam”.
Não é um
filme fácil. O personagem é asqueroso e o roteiro é tão direto e
cínico quanto ele. A sucessão de personagens bizarros (que funcionam
como se o filme fosse composto por uma série de curtas metragens)
trás de tudo, mas no fundo o que se vê é uma relação de poder. Os
vendedores estão lá porque precisam de dinheiro e alguns (como uma
drogada que sustenta o vício vendendo coisas roubadas) fazem
qualquer coisa por um pouco de dinheiro. Lourenço tem que tocar o
negócio mas, antes de mais nada, precisa ter uma relação de
dominação com todos à sua volta. Por vezes o cliente é mais forte, e
ele se deixa dominar. Ele fala de um “pai” que nunca conheceu e que
ele tenta montar através de pedaços como o olho de vidro e uma perna
mecânica. Ele é estranhamente sedutor em um momento, para no
seguinte se revelar um completo crápula. Suas falas são diretas,
cínicas e, por isso mesmo, engraçadas por sua franqueza. A
personagem da garçonete é muito mais do que um traseiro bonito. Ela
sabe do poder de sedução que tem, mas qual é o limite entre o charme
e a vulgaridade? Ela diz a Lourenço que estaria disposta a se
mostrar para ele de graça, mas que ele estragou tudo quando disse
que queria pagar. Por outro lado, quando precisa de dinheiro, ela
vai procurá-lo. O que Lourenço parece (ou não quer) entender é que
tudo é válido desde que seja consensual, mas isso atrapalharia o
jogo de poder dele. Tudo tem seu preço.
Feito em um esquema
de trocas e parcerias, o filme foi produzido por pouco mais de 300
mil reais, mas parece muito mais caro. A direção de arte é muito boa
e ele tem um ar atemporal que lembra os filmes dos irmãos Cohen
(Barton Fink, A Roda da Fortuna). A edição dá um show à parte, com
cortes muito interessantes nas cenas de transição, quando vemos
Selton Mello andando pelas ruas da Mooca, onde foi rodado o filme. O
elenco é composto por uma série de atores pouco conhecidos, mas
muito bons, e algumas participações especiais (como Alice Braga na
lanchonete e Paulo César Peréio como uma voz ao telefone). O esquema
de filmagem de “guerrilha” foi necessário porque os temas “pouco
atraentes” do roteiro não conseguiram trazer investidores. O filme
está com lançamento limitado mas foi muito bem aceito na Mostra de
Cinema de São Paulo, no Festival do Rio e no Sundance, nos Estados
Unidos.