O Cheiro do Ralo 
(Brasil - 2006)

por João Solimeo

O Cheiro do Ralo é um fascinante estudo sobre as relações de poder entre quem tem e quem não tem, sobre sedução, taras e fantasias, sobre desejos, sobre amor e dependência, sobre cinismo e insegurança. Tudo isso embalado em um dos roteiros mais inteligentes dos últimos anos, levado às telas pelo diretor Heitor Dhalia (diretor de “Nina”) e por uma interpretação magistral de Selton Mello. Ele é o filme e apesar de interpretar um sujeito que está longe de ser um ser humano exemplar (muito pelo contrário), sua entrega ao personagem é tão completa que conseguimos entende-lo e, em alguns momentos assustadores, até nos identificarmos com ele.

 

Selton é Lourenço, um cara solitário e cínico que dirige uma decadente loja de penhores como se fosse um executivo de uma grande empresa. Ele tem uma secretária que faz a triagem dos clientes, um segurança (interpretado por Lourenço Mutarelli, autor do livro em que o filme foi baseado) e se senta atrás de uma mesa recebendo vendedores o dia inteiro. Os clientes trazem toda espécie de lixo para tentar vender para Lourenço, cujos critérios para a compra variam. Ele paga apenas 30 reais por um faqueiro de prata e oferece no máximo 100 reais por um violino Stradivarius, mas gasta 400 reais em um olho de vidro sem valor. Ele sabe que todo objeto usado tem uma “história” para contar, mesmo que seja inventada e, cínico, pede para que um cliente escreva a história de uma caixinha de música. “Quando eu for vender, a história vai junto”. Lourenço tinha uma noiva (Fabiana Guglielmetti) com quem rompe faltando pouco para o casamento (“Eu não tenho nada pra te oferecer, e você não tem nada pra me oferecer”). A mulher, inconformada, passa a fazer ameaças e a persegui-lo. “Toda mulher é igual”, diz Lourenço, “se você bobear, os convites vão para a gráfica”.

 

Falando em mulher, há a garçonete do bar onde Lourenço vai comer quase todos os dias. Ela tem um nome impronunciável (“uma mistura do nome do pai, da mãe e de alguma celebridade”) e ele está apaixonado por ela. Ou melhor, Lourenço está mesmo apaixonado é pela bunda dela. Ele fica no balcão fingindo ler algum romance policial enquanto espera, ansioso, que a moça se vire e mostre o corpo para ele. “Se a comida daqui fosse boa”, diz ele, “seria o paraíso”. A garçonete (interpretada por Paula Braun) começa a gostar da atenção e entra no jogo de sedução de Lourenço até que um dia, inevitavelmente, ele acaba falando mais do que devia e o “clima” termina.

 

E há o cheiro do ralo. Pacientemente, Lourenço explica a cada cliente que entra na loja que o cheiro não vem dele, mas sim do ralo do banheiro, que está com algum problema. Até que um cliente, acertadamente, comenta que já que Lourenço é o único a usar o banheiro, o cheiro só pode vir dele. Ele culpa o cheiro pelo seu mau humor, por seu cinismo, por sua vida. Ao invés de consertar o banheiro ele tenta primeiro simplesmente cimentar o ralo, mas o encanamento parece estar conspirando contra ele. “Esses canos não são o que parecem”, diz ele ao encanador, “é por ai que eles nos observam”.

 

Não é um filme fácil. O personagem é asqueroso e o roteiro é tão direto e cínico quanto ele. A sucessão de personagens bizarros (que funcionam como se o filme fosse composto por uma série de curtas metragens) trás de tudo, mas no fundo o que se vê é uma relação de poder. Os vendedores estão lá porque precisam de dinheiro e alguns (como uma drogada que sustenta o vício vendendo coisas roubadas) fazem qualquer coisa por um pouco de dinheiro. Lourenço tem que tocar o negócio mas, antes de mais nada, precisa ter uma relação de dominação com todos à sua volta. Por vezes o cliente é mais forte, e ele se deixa dominar. Ele fala de um “pai” que nunca conheceu e que ele tenta montar através de pedaços como o olho de vidro e uma perna mecânica. Ele é estranhamente sedutor em um momento, para no seguinte se revelar um completo crápula. Suas falas são diretas, cínicas e, por isso mesmo, engraçadas por sua franqueza. A personagem da garçonete é muito mais do que um traseiro bonito. Ela sabe do poder de sedução que tem, mas qual é o limite entre o charme e a vulgaridade? Ela diz a Lourenço que estaria disposta a se mostrar para ele de graça, mas que ele estragou tudo quando disse que queria pagar. Por outro lado, quando precisa de dinheiro, ela vai procurá-lo. O que Lourenço parece (ou não quer) entender é que tudo é válido desde que seja consensual, mas isso atrapalharia o jogo de poder dele. Tudo tem seu preço.

 

Feito em um esquema de trocas e parcerias, o filme foi produzido por pouco mais de 300 mil reais, mas parece muito mais caro. A direção de arte é muito boa e ele tem um ar atemporal que lembra os filmes dos irmãos Cohen (Barton Fink, A Roda da Fortuna). A edição dá um show à parte, com cortes muito interessantes nas cenas de transição, quando vemos Selton Mello andando pelas ruas da Mooca, onde foi rodado o filme. O elenco é composto por uma série de atores pouco conhecidos, mas muito bons, e algumas participações especiais (como Alice Braga na lanchonete e Paulo César Peréio como uma voz ao telefone). O esquema de filmagem de “guerrilha” foi necessário porque os temas “pouco atraentes” do roteiro não conseguiram trazer investidores. O filme está com lançamento limitado mas foi muito bem aceito na Mostra de Cinema de São Paulo, no Festival do Rio e no Sundance, nos Estados Unidos. 

 

João Solimeo
08/04/2007

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