“Cloverfield” pode
ser considerado, em minha opinião, o primeiro "filme do novo
milênio”. Ele consegue
ser, ao mesmo tempo, um fenômeno retrógrado e original.
Considerem a sinopse do filme: “monstro de origem desconhecida
invade Nova York e provoca grande destruição”. Nada original,
certo? Nova York tem
sido alvo de monstros gigantes, invasões extraterrestres, fenômenos
da natureza, exércitos inimigos ou terroristas há muito tempo, tanto
no cinema como na vida real. O que há, então, de original em
“Cloverfield”? De “novo” realmente há pouca coisa, mas o modo como o
filme foi criado e a campanha de marketing para divulgá-lo são
exemplos do caráter “viral” da mídia de hoje, principalmente a
internet. Sim, “Bruxa de Blair” também se valeu da internet para ser
divulgada e criar expectativas, mas não do modo e na escala de
“Cloverfield”. É o filme da era Youtube, que mudou para sempre o
modo como se criam e se exibem vídeos por todo o mundo, em sua
maioria vídeos amadores produzidos por internautas exibindo sua vida
online. “Cloverfield” não foi só divulgado pela internet, mas
também foi produzido digitalmente, seguindo a estética dos
vídeos do Youtube.
Por trás do fenômeno
está J.J. Abrams, um dos criadores da aclamada série “Lost”, que
também tem se valido da internet como meio de divulgação e criação.
Assim que cada episódio é lançado, a web é invadida por
teorias, vídeos, fotos e arquivos tentando explicar os mistérios da
série. Assim como “Lost”, “Cloverfield” começou a ser divulgado em
curtos vídeos misteriosos no Youtube e em sites mundo afora. Ninguém
sabia do que se tratava e um trailer misterioso também começou a
circular nos cinemas, mostrando um suposto vídeo amador que mostrava
Nova York sendo atacada por uma força desconhecida.
O filme finalmente
está nas salas de cinema, mas seus mistérios ainda rondam a
internet. “Cloverfield” é nada menos que genial. Gravado em digital,
o filme é todo visto do ponto de vista de uma única câmera, sempre
carregada por algum personagem, como em um vídeo amador. O
interessante é como o roteiro fez uso das vantagens e desvantagens
da mídia para contar sua história. Tendo como ponto de partida a
festa de despedida de um dos personagens, Rob Hawkins (Michael
Stahl-David), que arrumou um emprego no Japão (o país de Godzilla,
notem), a câmera amadora é usada para documentar a festa e gravar
depoimentos de seus amigos. Mas o personagem que carrega a câmera,
Hud Platt (T.J. Miller), leva sua tarefa um pouco a sério
demais e passa a gravar praticamente tudo o que vê. É então que a
tragédia acontece. Ao longe os personagens escutam um rugido alto e
sentem praticamente a cidade toda tremer, e Hud continua
documentando tudo com sua câmera digital. O resultado é um filme de
ação arrebatadora, mas visto através de um ponto de vista único e
amador. O espectador se torna um dos personagens, e o filme é
mais “vivido” do que simplesmente assistido. A técnica também foi
usada em “Bruxa de Blair”, mas “Cloverfield” é “Blair” elevado à
décima potência. É curioso se tornar uma testemunha ocular de
um evento grande demais para uma pessoa só documentar,
principalmente quando sua própria vida está em risco.
Há
várias referências ao ataque terrorista de 11 de setembro de 2001
por todo o filme. A propósito, “Cloverfield” lembra muito as cenas
capturadas por dois documentaristas franceses que, em 2001,
acidentalmente estavam no meio da ação de terrorismo e documentaram
o 11 de setembro “in loco” no filme “9/11”.
O diretor Matt
Reeves, auxiliado pelo diretor de fotografia Michael Bonvillain,
conseguiu recriar esta sensação de “câmera em primeira pessoa”
assistindo a vídeos do Youtube e estudando como os câmeras amadores
documentam suas vidas. Assim, as imagens estão quase sempre
tremendo, desfocando e se movendo de um lado para o outro,
procurando a ação (ou fugindo dela). O roteiro também usa de uma
sacada genial para mostrar um lado mais “humano” da história. A
fita usada por Hud para gravar a festa já havia sido usada antes por
Rob em um dia de folga por Nova York com sua paixão Beth
McIntire (Odette Yustman). Assim, em alguns momentos podemos ver por
“baixo” das cenas de destruição gravadas por Hud cenas idílicas do
dia de Rob e Beth passeando pela cidade ou brincando em um parque de
diversões. As cenas funcionam como uma espécie de “flashback” que
revelam um pouco mais sobre os personagens e seu relacionamento.
Nada mais apropriado vindo do produtor de “Lost”, que praticamente
reinventou o uso de “flashbacks” durante a série. O som, criado pela
Skywalker Sound, é impecável e é fundamental para entender algumas
das imagens tremidas vistas na tela.
Quanto ao monstro,
sim, há um à solta pela cidade, causando destruição e
mortes. Testemunhamos cenas incríveis de ação do exército tentando
matar a criatura enquanto a câmera/personagem tenta não ser morto no
processo. Para aumentar a tensão e o suspense não há só um monstro
gigante, mas também centenas de criaturas pequenas (que a internet
revela serem parasitas do monstro) que atacam os personagens em
alguns momentos tensos e violentos.
O filme fez grande
sucesso na estréia, mas está dividindo opiniões. Nem todos gostaram
do modo pseudo-amador da produção e houve queda na bilheteria. Mas
ainda há rumores de possíveis seqüências. Ou melhor, o conceito do
filme permite que dezenas de outros pontos de vista (gravados por
outros moradores em fuga) possam formar outros filmes paralelos, ou
talvez uma série de televisão.
A internet está cheia
de material sobre o filme, vídeos e especulações. Boa
sorte.