Cloverfield - Monstro 
(Cloverfield - EUA - 2007)

por João Solimeo  

“Cloverfield” pode ser considerado, em minha opinião, o primeiro "filme do novo milênio”.  Ele consegue ser, ao mesmo tempo, um fenômeno retrógrado e original. Considerem a sinopse do filme: “monstro de origem desconhecida invade Nova York e provoca grande destruição”. Nada original, certo?  Nova York tem sido alvo de monstros gigantes, invasões extraterrestres, fenômenos da natureza, exércitos inimigos ou terroristas há muito tempo, tanto no cinema como na vida real. O que há, então, de original em “Cloverfield”? De “novo” realmente há pouca coisa, mas o modo como o filme foi criado e a campanha de marketing para divulgá-lo são exemplos do caráter “viral” da mídia de hoje, principalmente a internet. Sim, “Bruxa de Blair” também se valeu da internet para ser divulgada e criar expectativas, mas não do modo e na escala de “Cloverfield”. É o filme da era Youtube, que mudou para sempre o modo como se criam e se exibem vídeos por todo o mundo, em sua maioria vídeos amadores produzidos por internautas exibindo sua vida online. “Cloverfield” não foi só divulgado pela internet, mas também foi produzido digitalmente, seguindo a estética dos vídeos do Youtube.

 

Por trás do fenômeno está J.J. Abrams, um dos criadores da aclamada série “Lost”, que também tem se valido da internet como meio de divulgação e criação. Assim que cada episódio é lançado, a web é invadida por teorias, vídeos, fotos e arquivos tentando explicar os mistérios da série. Assim como “Lost”, “Cloverfield” começou a ser divulgado em curtos vídeos misteriosos no Youtube e em sites mundo afora. Ninguém sabia do que se tratava e um trailer misterioso também começou a circular nos cinemas, mostrando um suposto vídeo amador que mostrava Nova York sendo atacada por uma força desconhecida.

 

O filme finalmente está nas salas de cinema, mas seus mistérios ainda rondam a internet. “Cloverfield” é nada menos que genial. Gravado em digital, o filme é todo visto do ponto de vista de uma única câmera, sempre carregada por algum personagem, como em um vídeo amador. O interessante é como o roteiro fez uso das vantagens e desvantagens da mídia para contar sua história. Tendo como ponto de partida a festa de despedida de um dos personagens, Rob Hawkins (Michael Stahl-David), que arrumou um emprego no Japão (o país de Godzilla, notem), a câmera amadora é usada para documentar a festa e gravar depoimentos de seus amigos. Mas o personagem que carrega a câmera, Hud Platt (T.J. Miller), leva sua tarefa um pouco a sério demais e passa a gravar praticamente tudo o que vê. É então que a tragédia acontece. Ao longe os personagens escutam um rugido alto e sentem praticamente a cidade toda tremer, e Hud continua documentando tudo com sua câmera digital. O resultado é um filme de ação arrebatadora, mas visto através de um ponto de vista único e amador. O espectador se torna um dos personagens, e o filme é mais “vivido” do que simplesmente assistido. A técnica também foi usada em “Bruxa de Blair”, mas “Cloverfield” é “Blair” elevado à décima potência. É curioso se tornar uma testemunha ocular de um evento grande demais para uma pessoa só documentar, principalmente quando sua própria vida está em risco.

 

Há várias referências ao ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 por todo o filme. A propósito, “Cloverfield” lembra muito as cenas capturadas por dois documentaristas franceses que, em 2001, acidentalmente estavam no meio da ação de terrorismo e documentaram o 11 de setembro “in loco” no filme “9/11”.

 

O diretor Matt Reeves, auxiliado pelo diretor de fotografia Michael Bonvillain, conseguiu recriar esta sensação de “câmera em primeira pessoa” assistindo a vídeos do Youtube e estudando como os câmeras amadores documentam suas vidas. Assim, as imagens estão quase sempre tremendo, desfocando e se movendo de um lado para o outro, procurando a ação (ou fugindo dela). O roteiro também usa de uma sacada genial para mostrar um lado mais “humano” da história. A fita usada por Hud para gravar a festa já havia sido usada antes por Rob em um dia de folga por Nova York com sua paixão Beth McIntire (Odette Yustman). Assim, em alguns momentos podemos ver por “baixo” das cenas de destruição gravadas por Hud cenas idílicas do dia de Rob e Beth passeando pela cidade ou brincando em um parque de diversões. As cenas funcionam como uma espécie de “flashback” que revelam um pouco mais sobre os personagens e seu relacionamento. Nada mais apropriado vindo do produtor de “Lost”, que praticamente reinventou o uso de “flashbacks” durante a série. O som, criado pela Skywalker Sound, é impecável e é fundamental para entender algumas das imagens tremidas vistas na tela.

 

Quanto ao monstro, sim, há um à solta pela cidade, causando destruição e mortes. Testemunhamos cenas incríveis de ação do exército tentando matar a criatura enquanto a câmera/personagem tenta não ser morto no processo. Para aumentar a tensão e o suspense não há só um monstro gigante, mas também centenas de criaturas pequenas (que a internet revela serem parasitas do monstro) que atacam os personagens em alguns momentos tensos e violentos.

 

O filme fez grande sucesso na estréia, mas está dividindo opiniões. Nem todos gostaram do modo pseudo-amador da produção e houve queda na bilheteria. Mas ainda há rumores de possíveis seqüências. Ou melhor, o conceito do filme permite que dezenas de outros pontos de vista (gravados por outros moradores em fuga) possam formar outros filmes paralelos, ou talvez uma série de televisão.

 

A internet está cheia de material sobre o filme, vídeos e especulações. Boa sorte. 

 

João Solimeo
10/02/2008

Veja o trailer:


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