
O Código Da Vinci  
(The Da Vinci Code - EUA - 2006)
por
João Solimeo
O curador do Museu do
Louvre, Saunière (Jean-Pierre Marielle), foi baleado seriamente. Normalmente
isto significaria que ele sofreria por uns momentos e morreria. Mas no mundo do
"Código Da Vinci", uma pessoa não morre assim de maneira tão simples. Antes ela
tem tempo e forças para tirar toda a roupa, desenhar um símbolo com sangue no
peito, deixar uma mensagem em código com o próprio sangue e, para terminar,
assumir uma posição tal que consiga formar um desenho com o corpo. É assim que
começa um dos filmes mais aguardados do ano, "O Código Da Vinci", versão
cinematográfica do livro do mesmo nome que, até pouco tempo atrás, havia vendido
49 milhões de exemplares (o número, agora, vai provavelmente dobrar).
O filme, assim como o
livro, vem cercado de enorme polêmica religiosa, daquelas que os produtores
adoram, pois servem para alavancar as vendas com uma enxurrada de propaganda
gratuita. Levar a sério as "revelações" do livro é tão ridículo quanto se dar ao
trabalho de escrever outro livro as refutando, mas de uns anos para cá vários
livros e documentários foram feitos com o objetivo de "desmascarar" o Código Da
Vinci (e, sem dúvida, pegar uma carona no sucesso do livro). O autor, Dan Brown,
foi até processado por plágio faltando apenas alguns meses para o filme fazer
sua estréia mundial. A bilheteria, claro, agradece. Não me interessei por ler o
livro, mas cheguei a ver um ou outro documentário de algum canal a cabo que
falava sobre "A Última Ceia", famoso quadro de Leonardo Da Vinci, e confesso que
achei interessantes as suposições levantadas. Nada para ser levado muito a
sério, é assunto para bate papos em festas, mas teria Da Vinci pintado Maria
Madalena no quadro ao lado de Jesus? E por que não há nenhum cálice sobre a
mesa, já que eles estavam comendo? Seria o formato triangular existente entre a
figura de Jesus e a suposta Maria Madalena a representação do Graal?
Dan Brown,
espertamente, fez uso desta e de várias outras suposições para criar uma
história mirabolante que envolve "a maior farsa da história da humanidade", a
igreja católica, a organização Opus Dei, um suposto Priorado de Sião, os
Cavaleiros Templários e toda uma mixagem cultural em um livro que acabou
conquistando muita gente. Seu personagem Robert Langdon (interpretado por Tom
Hanks com um penteado esquisito) é um especialista em símbolos (que sequer fala
francês) e está em Paris justo na noite em que o curador do Louvre foi morto.
Ele é chamado a investigar pelo policial Fache (Jean Reno, o francês oficial de
todo filme americano) que, na verdade, desconfia que ele seja o assassino.
Langdon consegue escapar do Louvre com a ajuda da neta do morto, a também
policial Sophie Neveu (Audrey Tautou, de "Amelie Poulain"), não sem antes
conseguir desvendar uma série de códigos deixados em várias obras do museu, como
a Monalisa, por exemplo.
Paul
Bettany (de "Firewall" e "Mestre
dos Mares"), em louvável dedicação profissional, interpreta um monge
assassino a serviço da Opus Dei. Ele recebe ordens do bispo Aringarosa (Alfred
Molina, de "Homem Aranha 2") que, por
sua vez, trabalha para um vilão misterioso que pretende encontrar e destruir o
Santo Graal. Complicado? Na verdade, nem tanto. O problema é que o filme é de
uma lentidão e auto importância enormes, com roteiro de Akiva Goldsman e direção
de Ron Howard, a dupla por trás de "Uma
Mente Brilhante" e "A Luta
pela Esperança". Howard insere vários flashbacks que não funcionam direito
para, provavelmente, ilustrar partes que, no livro, eram descritivas. Estes
flashbacks englobam desde cenas da infância dos personagens até representações
de batalhas medievais, tudo envolvido por um brilho que não deixa ver direito o
que está acontecendo (provavelmente, para facilitar o trabalho dos efeitos
especiais). É curioso que alguma cenas que mostram Tom Hanks decifrando os
códigos lembram cenas similares de Russell Crowe em "Uma Mentre Brilhante". A
diferença, importante, é que Crowe estava interpretando um esquizofrênico,
enquanto temos que tentar levar Robert Langdon a sério.
Quanto à polêmica
religiosa, sim, o filme diz com todas as letras que Jesus teria sido apenas um
homem comum, que se casou com Maria Madalena e deixou descendentes. Isso seria
possível? Como diz um dos personagens, "não é impossível", mas a teoria de
conspiração levantada pelo livro é tão auto importante e megalomaníaca que beira
o ridículo, assim como as reações provocadas por ela. Polêmicas à parte, "O
Código Da Vinci" é um filme bom? Na verdade, não. É certamente bem feito, com
boa trilha sonora de Hans Zimmer (que, sozinho, tenta segurar a última tomada do
filme) e fotografia cheia de sombras de Salvatore Totino. Mas é excessivamente
longo (e parece até maior que suas duas horas e meia) e, depois de tantas
teorias levantadas durante a trama, o final é previsível e sem graça, chegando
ao clichê de que "é tudo uma questão de fé".
Pobre Leonardo Da
Vinci.
João Solimeo
19/05/2006

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