Colateral
(Collateral - EUA - 2004)

por João Solimeo

Após sucessos como Fogo contra Fogo (Heat, 1991), O Informante (The Insider, 1999) e um fracasso, Ali (2001), o diretor americano Michael Mann reencontra seu caminho em Colateral. Mann estudou cinema em Londres e iniciou sua carreira produzindo comerciais e documentários, e na década de 80 era uma criatura da televisão. Foi produtor da famosa série Miami Vice, que inseriu um clima intimista e lento (além da moda brega da época) às séries policiais. Seus sucessos no cinema seguem a mesma fórmula, reapresentando clichês do gênero policial com personagens introspectivos e complexos, freqüentemente vítimas de sua própria natureza e incapazes de fugir do seu modo de ser.

Em Los Angeles, o motorista de táxi Max (Jamie Foxx) vai acabar descobrindo que seu modo de vida precisa de uma reviravolta, e ele vai aprender da maneira mais difícil. A noite começa bem, quando Max leva uma bela promotora de justiça (Jada Pinkett Smith, de Matrix Reloaded e Revolutions) até o centro da cidade em tempo recorde e, de quebra, ainda consegue seu número de telefone. Não que Max planeje ligar para ela. Aparentemente, ele é um sonhador que não costuma transformar suas fantasias em realidade. Sai a promotora e entra no táxi Vincent (Tom Cruise, em papel diferente na carreira), um homem bem vestido e educado que contrata Max para levá-lo visitar cinco pessoas durante a noite. Tudo estaria ótimo para Max se Vincent não se fosse, na verdade, um assassino profissional que atira a primeira vítima do quarto andar de um prédio no capô do táxi estacionado na viela lá embaixo. Começa assim uma noite de terror para Max, atormentado pelo destino que o transformou, contra a vontade, quase que em um parceiro de um assassino.

O filme é muito bem feito e se passa inteiro no período de uma noite em Los Angeles. Michael Mann resolveu fazer um "experimento" com as novas técnicas do cinema digital e o resultado, às vezes, é duvidoso. As câmeras digitais evoluíram muito e conseguiram uma resolução bastante próxima à da tradicional película de filme usada nos últimos cem anos. Mas o digital ainda carrega um visual que mais lembra o vídeo da televisão (as novelas, por exemplo, são feitas em vídeo) do que a película do cinema, ainda mais quando usado em cenas noturnas. A grande maioria do público leigo, provavelmente, não notará a diferença, mas confesso que a técnica me distraiu da trama por um bom tempo, antes de me acostumar a ela. Além disso, Mann não usou o digital em todo o filme. Algumas cenas (como a passada em um clube de jazz, por exemplo, note as cores mais definidas) foram filmadas com película tradicional, e há um pequeno choque quando voltamos ao digital. Por outro lado, a imagem digital dá ao filme uma sensação de "realismo" quase jornalístico, o que acaba aproximando o espectador do que está acontecendo na tela. Mann já havia feito essa mistura de técnicas em Ali, com um resultado ruim.

O filme demora um pouco para entrar no ritmo, mas quando engrena se torna muito envolvente e intrigante. Claro que ficamos nos perguntando por quê um assassino profissional se daria ao trabalho de pegar um táxi para fazer seu "trabalho", ao invés de alugar um carro e dirigir ele mesmo. Não seria mais discreto? E o roteiro de Stuart Beattie, por vezes, deixa a razão de lado, principalmente na trama paralela que acompanha a investigação de dois policiais e do FBI às vítimas deixadas por Vincent. Há uma cena, por exemplo, em que a polícia já identificou o táxi e o próximo alvo, mas ao invés de mandar perseguir e parar o táxi eles se preocupam em tirar a vítima de onde ela se encontra. É verdade que, por causa disso, acontece uma das melhores cenas do filme, passada dentro de uma discoteca. Mann faz um verdadeiro baile em meio à centenas de pessoas dançando, seguranças, policiais, Max, Vincent e sua próxima vítima.

Mas esses tropeços no roteiro são perdoados por ótimos diálogos e pela estranha e interessante relação que se estabelece entre Vincent e Max. Tom Cruise está muito bem como o vilão e Jamie Foxx se mantém à altura, e o filme não funcionaria se não houvesse essa boa química entre os dois atores. E o bom de Michael Mann é que ele se permite, em meio à cenas de sangue e tiroteio, criar verdadeiras cenas poéticas, como a que mostra Max diminuindo o táxi para deixar passar, em plena avenida de Los Angeles, um lobo de pelos cinzentos. Vincent fica olhando para o animal como quem vê refletido a si mesmo em um espelho. Cenas como essa valem o ingresso.

PS: a trilha sonora (uma colagem de vários compositores, com James Newton Howard como principal) tem a curiosa participação do brasileiro Antônio Pinto (de Central do Brasil) em duas faixas.

João Solimeo
agosto de 2004

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