Cowboys do Espaço

(Space Cowboys)

por João Solimeo

 

Em fevereiro de 1962 o astronauta John Glenn se tornou o primeiro americano a ir ao espaço, a bordo da Mercury 6. Depois de terem sido batidos pelos russos duas vezes, por terem posto o primeiro satélite artificial em órbita da Terra (o Sputnik) e o primeiro homem no espaço (Yuri Gagarin), os americanos finalmente colocaram seu representante em órbita terrestre. O vôo teve pouco mais de 4 horas de duração e Glenn deu três voltas na Terra, para depois descer no Oceano Atlântico e se tornar herói nacional. Trinta e seis anos depois, em 1998, o então Senador John Glenn, com 77 anos, se tornou o homem mais velho a viajar ao espaço, desta vez a bordo do ônibus espacial Discovery. Desta vez ele iria ficar no espaço por nove dias, ou 134 órbitas terrestres, fazendo experiências sobre o envelhecimento e se lançando definitivamente como lenda da Era Espacial.

O acontecimento mudou para sempre o futuro do homem no espaço e, como esperta jogada de marketing que foi, levantou o moral da NASA literalmente até o espaço. E sem dúvida influenciou um dos mais velhos e lendários atores da atualidade a voltar à ativa na direção, atuação e produção de "Cowboys do Espaço", o mais novo filme do septuagenário Clint Eastwood. O filme funciona mais como piada do que como homenagem ao programa espacial americano, mas é válido. Ele é claramente inspirado em John Glenn e no melhor filme espacial de todos os tempos, "Os Eleitos", que justamente tratava do Projeto Mercury e dos oito astronautas que dele participaram.

Tudo começa em 1958, quando os pilotos do Projeto Dédalus estão batendo os recordes de velocidade em jatos supersônicos. A Força Aérea Americana é que realizava a operação e seus pilotos aguardavam ansiosamente a chance de se tornarem astronautas. Mas é então criada a NASA, uma organização teoricamente civil (na prática militar) responsável por colocar os americanos no espaço, e os pilotos do Projeto Dédalus são humilhantemente trocados por um chimpanzé como piloto de testes. Quarenta anos depois, a NASA se vê em apuros quando uma relíquia da Guerra Fria, um satélite de comunicações russo de mais de 50 toneladas, está perdendo altura e vai se espatifar na Terra em menos de dois meses. Os engenheiros atuais se vêem incapacitados de entender o arcaico projeto, então não resta alternativa senão ir atrás do engenheiro que projetou o satélite. Coincidentemente, se trata do ex-piloto do Projeto Dédalus Frank Corvin, interpretado por Clint Eastwood. Corvin vê então sua chance de voltar ao espaço e faz uma chantagem com o diretor da Nasa Bob Gerson (James Cromwell, de L.A. Cidade Proibida, em seu tradicional papel de vilão), dizendo que só vai colaborar se eles mandaram ao espaço o time do antigo Projeto Dédalus.

E assim voltam à ativa os ex-pilotos Hawk Hawkins (Tommy Lee Jones, o bebê da turma), Jerry O'Neil (um ótimo e engraçado Donald Sutherland) e Tank Sullivan (James Garner, o mais acabado deles). O filme então se torna uma sucessão de piadas sobre o envelhecimento e a platéia não tem alternativa senão rir da auto-depreciação de Eastwood e seu time de atores veteranos. James Garner se tornou um pastor batista de segunda classe que não agüenta correr 10 quilômetros. Donald Sutherland faz sucesso com as mulheres, mas é cego como um morcego e assim por diante. A NASA deu total colaboração ao filme (devido a um acordo recém firmado entre a agência espacial e Hollywood) e podemos ver os atores treinando nos locais reais de treinamento da NASA, como o simulador do ônibus espacial, a piscina de gravidade zero e os centros espaciais de Houston e Orlando.

Pena, na verdade, que o filme tenha de ter uma história tradicional, com começo, meio e fim, senão seria apenas uma festa entre os atores veteranos. O roteiro na verdade é bem fraquinho e previsível, principalmente quando resolve ficar "sério". Chega a lembrar muito o horroroso "Armaggedon" só que em ritmo mais lento e com muito mais talento. É claro que certas coisas vão dar errado, veremos cenas de heroísmo, sacrifício e tudo aquilo que já nos acostumamos a ver nessas aventuras espaciais. E a cena final, apesar de bela, é tão impossível que chega a doer.

Mas é um filme divertido e válido, nem que seja apenas pelo enorme prazer de ver quatro grandes atores brincando de ser astronautas. Como diz um personagem do filme: "Nunca encontrei um garoto que não quisesse ser um".

João Solimeo
outubro de 2000

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