
Cruzada
   
(Kinkdom of Heaven - EUA/UK - 2005)
por
João Solimeo
Não há como falar sobre "Cruzada", o
mais novo filme de Ridley Scott, sem mencionar "Gladiador",
também dirigido por ele e que faz parte do mesmo gênero: o filme de época.
"Gladiador" fez um enorme sucesso de público, levou o Oscar de Melhor Filme e
Melhor Ator (para Russell Crowe), mas muitos o consideram um épico "menor". Eu
me confesso um fã apaixonado por ele (e por épicos em geral, com exceções),
principalmente quando comparado às imitações menores que vieram depois, como os
equivocados "Tróia" e "Alexandre".
"Cruzada" tinha tudo para ser apenas mais uma imitação barata de "Gladiador"
mas, felizmente, não é. Ridley Scott é um artista. Cada plano parece um quadro
pintado nos mínimos detalhes e o filme é, no mínimo, uma bela viagem pela Europa
e pelo Oriente no ano de 1186.
O roteiro "empresta" alguns elementos
de "Gladiador" para nos apresentar Balian (Orlando Bloom), um ferreiro que vive
na França e que um dia é visitado por um grupo de cavaleiros. Assim como o
general romano Maximus, Balian perdeu recentemente a esposa e o filho e está de
mal com o mundo. Mas Godfrey (Lian Neeson), um dos cavaleiros, se apresenta como
seu pai e se oferece para lhe dar uma vida nova em Jerusalém, na chamada "Terra
Santa", um lugar cheio de oportunidades para um jovem como Balian. Orlando Bloom,
que já foi um elfo em "O Senhor dos Anéis"
e participou da guerra de "Tróia”, consegue agora o papel de protagonista como
um herói bem ao estilo de Ridley Scott, meio fechado, quieto, observador. Não é
um Russell Crowe, mas ele se saiu melhor do que eu esperava.
Ele passa maus bocados até chegar a
Jerusalém e lá encontra a cidade em uma situação política delicada. Os cristãos
controlam a cidade e há uma paz relativa com os muçulmanos liderados por
Saladino (Ghassan Massoud), mas elementos mais radicais, tanto cristãos quanto
muçulmanos, querem levar a situação a uma guerra total. Balian, que herdou o
título de cavaleiro do pai, acaba se revelando um homem de princípios nobres que
atrai a atenção dos dois lados da disputa, além do amor da rainha Sybilla (Eva
Green, de "Os Sonhadores",
lindíssima). O rei cristão é uma figura enigmática que, por causa de uma doença
degenerativa (a lepra), se cobre dos pés à cabeça e esconde o rosto desfigurado
atrás de uma máscara (surpresa: o ator que o interpreta é o grande Edward Norton).
Como todo bom épico, o filme tem várias
cenas de batalhas espetaculares, e ninguém faz o sangue jorrar de forma tão bela
quanto a câmera de Scott. A batalha final por Jerusalém mostra um ataque noturno
de bolas de fogo que é filmado como se fosse um bombardeio moderno das bombas
"inteligentes" dos americanos contra Bagdá. E a computação gráfica está ficando
cada vez mais eficiente quando é usada para recriar cidades históricas ou
milhares de soldados em marcha. E, mesmo que de maneira superficial, o filme
levanta questões religiosas interessantes. Percebe-se que os fanáticos dos dois
lados são bastante parecidos, por exemplo. E que ambos estão lutando por ofensas
cometidas muito antes de qualquer um deles ter nascido.
Algumas coisas, no entanto, poderiam
ter sido melhor explicadas. A falha principal é a história do próprio Balian. De
onde ele veio, realmente? Como é que, como simples ferreiro na França, ele tem
tantos conhecimentos de estratégia militar e de diplomacia? Só porque era o
filho bastardo de um cavaleiro? E se seu objetivo, na batalha por Jerusalém, era
salvar o povo da cidade, porque não sair antes da luta começar? E é uma pena
que, assim como aconteceu, em parte, em Gladiador, Scott insista em fazer dos
vilões caricaturas exageradas e desprezíveis. Mas é bom ver um filme de ação que
se preocupa em ter seus momentos reflexivos ou mesmo líricos, como quando Balian
chega a Jerusalém e sobe até o local onde Cristo foi crucificado, em busca de
perdão para seus pecados. Ou quando, no porto de Messina, ele vê os muçulmanos
rezando e nota que, quando traduzidas, as orações deles são muito parecidas com
as suas.
Com seus altos e
baixos, "Cruzada" é um filme de encher os olhos e que deve ser visto na telona
grande do cinema
João Solimeo
maio de 2005
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