A Dama da Água
(Lady in the Water - EUA - 2006)

por João Solimeo

Complicado escrever sobre "A Dama da Água" sem que o texto não se torne, na verdade, uma critica a M. Night Shyamalan, o jovem roteirista, diretor e produtor da obra. Shyamalan, como todos já sabem, alçou a fama com o suspense “O Sexto Sentido”, um filme apenas razoável mas com um ótimo final surpresa que viria a se tornar a marca registrada (e o “karma”) do diretor. Seu filme seguinte, “Corpo Fechado”, era muito melhor mas, por causa da expectativa criada pelo final de “O Sexto Sentido”, o público torceu o nariz e, a princípio, rejeitou a obra. “Corpo Fechado” viria a conquistar uma legião de fãs e inclusive há boatos de uma continuação. “Sinais”, o filme seguinte, era um ótimo exercício de suspense e direção, narrando a história de uma invasão de extraterrestres do ponto de vista de apenas alguns personagens em um sítio no interior americano. Então veio “A Vila”, talvez o filme mais polêmico do diretor. Há quem o ame, há quem odeie. Pessoalmente, eu “amo odiar” o filme. Assim como “Sinais”, “A Vila” é sem dúvida um ótimo exercício de suspense, mas alguns recursos do roteiro são, no mínimo, discutíveis, e o famoso “final surpresa” chega uns vinte minutos antes do que deveria.

Chegamos então a “A Dama da Água”, e a mais polêmica. A Disney, que produziu os filmes de Shyamalan até então, se recusou a apoiar este projeto por considerar o roteiro fraco e sem sentido. Shyamalan bateu o pé, se sentiu ofendido e foi parar na Warner, que o acolheu e deu carta branca. O resultado é um dos filmes mais “estranhos”, na falta de uma palavra mais apropriada, feitos pelo cinema americano. Fico imaginando Shyamalan em frente ao computador procurando por uma história (ou uma "Story", como veremos) para contar, magoado com as críticas negativas à “A Vila” e, talvez, se considerando um pouco melhor do que a modéstia aconselharia. Assim, nasceu “A Dama da Água”, uma confusa mistura de conto de fadas infantil com metalinguagem adulta sobre como se criar um filme de suspense.

Cleveland Heep (o grande Paul Giamatti, de "Sideways") é o zelador de um conjunto de apartamentos que não se parece com  nenhum lugar real. O condomínio "The Cove" se parece muito com um estúdio, ou com algum episódio de "Além da Imaginação". A geografia do condomínio é confusa. A casa de Cleveland, por exemplo, é sempre vista como se ela não fizesse parte do mesmo local; há uma “floresta” ao seu redor que poderia muito bem ter vindo de “A Vila”. O condomínio é habitado por uma série de figuras excêntricas, como uma senhora coreana e sua filha, um grupo que só fica fumando, um senhor carrancudo que fica vendo notícias da guerra pela televisão, um homem especialista em palavras cruzadas que vive com o filho, e assim por diante. Há também um crítico de cinema recém chegado à cidade que é cínico, ranzinza e que diz que “não há mais originalidade nos filmes”. E há um jovem escritor de origem indiana, o próprio Shyamalan, que está escrevendo um livro chamado “Livro de Receitas”, mas que está com bloqueio criativo.

Tudo muda quando, uma noite, o zelador Cleveland vê algo na piscina, vai investigar e acaba caindo na água. Ele acorda em seu apartamento, todo molhado. Ele havia sido salvo por uma bela jovem que diz ser uma “narf” (chamada justamente Story), uma criatura que veio do “Mundo Azul” e que precisa de ajuda para fugir dos “scrunts” para que a “Grande Eatlon”, uma águia, possa levá-la para casa. Confuso? Pois é. O problema nem são esses nomes todos, mas o modo como Shyamalan escolheu para contar sua história. O filme é explicativo ao extremo, e já começa com uma animação que fala sobre o tal “Mundo Azul” e sobre como os seres terrestres se afastaram dele. Depois a trama é continuada pela personagem da velha coreana que, sem muitas explicações, se revela uma autoridade no assunto. De modo sempre indireto (através das traduções da filha), a velha vai contando a Cleveland, em pequenas doses, as partes necessárias para que o roteiro avance um pouco. Giamatti, que é um grande ator, está uma caricatura de si mesmo e foi obrigado a simular uma “gagueira” que dificulta ainda mais o ritmo do filme. Shyamalan, que nunca foi humilde, escalou a si mesmo para fazer o papel de um escritor que vai ser uma espécie de profeta, influenciando milhões de pessoas com o livro que está escrevendo. Tudo isso exposto em diálogos longos e auto explicativos, acompanhados pela trilha de James Newton Howard.

Há momentos interessantes e cenas bem feitas (como o belo plano na parte final, visto de dentro da água, da tal águia vindo buscar Story), mas fica difícil se identificar e se envolver. Shyamalan é freqüentemente comparado a Spielberg, mas a diferença de “A Dama da Água” para um “E.T”, por exemplo, é que Spielberg realmente se entregava à realidade dos filmes que estava criando, e nos fazia acreditar nela. Shyamalan neste filme é “artificial” demais, e por vezes nem sabemos se devemos levá-lo a sério ou não. Ou devemos acreditar que um personagem consiga ler "sinais" em rótulos de cereal? Ou que outro possa interpretar mensagens divinas em palavras cruzadas? Pode-se até se levantar a teoria de que Shyamalan está fazendo uma paródia de si mesmo. Ou, simplesmente, rindo com a nossa cara.

João Solimeo
17/09/2006

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