Episódio II

Ataque dos Clones

(Star Wars Episode II - Attack of the Clones)

por João Solimeo 

Enquanto corria hoje para assistir finalmente à estréia do Episódio II da saga iniciada em 1977, Guerra nas Estrelas, parei para me dar conta do quanto o mundo do cinema, e do entretenimento em geral, foi mudado por causa desses filmes. Lá estava eu em um grande Shopping Center, atravessando uma praça de alimentação com todos os restaurantes fast food da galáxia, seguida por uma cadeia de lojas de fliperama mostrando os últimos lançamentos em videogames para finalmente chegar a um desses cineplexes que chegaram ao país, com suas bilheterias informatizadas, sua pipoca importada e suas várias salas exibindo filmes como uma padaria da esquina, soltando pães frescos de quinze em quinze minutos para espectadores ávidos por emoções.

Ironicamente, tudo isso foi criado por uma pessoa que sempre se mostrou avesso à Hollywood e aos grandes estúdios, e que estreou no cinema com um filme "cabeça" de ficção científica chamado THX 1138. Ele era George Lucas, e hoje THX é só uma entre várias marcas de um império construído por ele que engloba a produção cinematográfica, desenvolvimento de softwares, criação de videogames, sistemas de edição e sonorização de filmes e muito mais.  Tudo isso foi resultado de um filme de ficção científica escrito e dirigido por ele depois que ele não pode fazer o filme que realmente queria fazer: Flash Gordon. A fama de Guerra nas Estrelas foi tamanha que conta a lenda que quando Francis Ford Coppola o assistiu, sugeriu a Lucas que deixasse o mundo do cinema e fundasse uma religião. Não foi necessário. Guerra nas Estrelas se tornou objeto de culto e devoção de milhões de pessoas mundo afora e é, até hoje, a mais rentável linha de franquia de produtos da galáxia. Seguiram-se "O Império Contra Ataca" e "O Retorno do Jedi", que formaram o que ficou conhecido como a "Trilogia Original", e deixou os fãs com gosto de "quero mais" por mais de uma década.

Em 1999, finalmente, George Lucas retomou a saga com o aguardado "Episódio I - A Ameaça Fantasma", que voltou a quebrar recordes de bilheteria e revolucionou o mundo dos efeitos especiais. Só havia um detalhe: o filme estava muito abaixo do que se poderia esperar de George Lucas e da saga Guerra nas Estrelas. "A Ameaça Fantasma" era fraco, tinha personagens desnecessários e irritantes e um roteiro muito ruim.

Passados alguns anos, testadas as novas tecnologias e com muitas lições aprendidas, George Lucas volta com a segunda parte de sua "pré-logia" espacial: "Episódio II - O Ataque dos Clones". O resultado, felizmente, é muito superior ao primeiro episódio. Episódio II trás de volta à saga elementos que haviam sido esquecidos no Episódio I, como o bom humor, muita ação e certa dose de crítica construtiva colocada no roteiro, co-assinado por Lucas e por Jonathan Hales. Lucas  ouviu o lamento dos fãs e deixou de fora as partes mais polêmicas do filme anterior, particularmente o personagem Jar Jar Binks, que aparece pouco neste episódio, e tirou completamente de circulação as famigeradas "midichlorians", a explicação biológica que Lucas deu para a mística "Força" no primeiro episódio.

Não que o filme não tenha suas falhas. Há vários momentos risíveis em que Lucas usa os clichês mais do que batidos para contar sua história. Acredite, o filme tem até aquela situação clássica: depois de uma espetacular e extraordinária perseguição em meio ao tráfego de Coruscant, Obi-Wan Kenobi (Ewan McGreggor) e o agora adolescente Anakin Skywalker (Hayden Christensen) conseguem capturar a suspeita de tentar assassinar a senadora Amidala (Natalie Portman). Eles a derrotam e perguntam: "Quem está por trás disso?". E o que acontece? Claro, quando ela vai abrir a boca para dizer o nome do culpado ela é atingida por um dardo envenenado e morre antes de passar a informação. Clichê? Esse é só um deles. O outro clichê do filme é a parte romântica, que é introduzida na história com a sutileza de um grupo de Jawas enfurecidos. Dez anos se passaram desde o Episódio I, e milagrosamente, só um lado do casal formado por Anakin e Amidala envelheceu durante esses anos todos. Amidala está exatamente como era no primeiro filme; ou melhor, ela está até mais em forma e, para delírio da platéia masculina, aparece bem mais à vontade do que com o pesado figurino de boneca japonesa que vestiu em "A Ameaça Fantasma". O futuro Darth Vader, Anakin Skywalker, apesar de ter sido apenas um garoto há dez anos, é apaixonado por ela e o diz a quem quiser ouvir, com diálogos pra lá de bregas.

O conselho Jedi resolve colocar a raposa para tomar conta do galinheiro e designa Anakin para ser o guardião da senadora, o que rende seqüências açucaradas de clichês em meio a maravilhosos cenários que misturam Veneza com Niagara Falls no planeta Naboo, enquanto seu mestre, Obi-Wan Kenobi, é enviado para investigar quem está por trás dos movimentos separatistas da República. Lucas dividiu a ação entre Anakin/Amidala de um lado e Obi-Wan Kenobi de outro, o que permite que ele corte de uma trama para a outra para prender mais a atenção. Esse recurso, aliás, existiu em todos os outros filmes da saga, menos em "A Ameaça Fantasma", em que Obi-Wan Kenobi foi deixado sem ter o que fazer.

O personagem de Anakin Skywalker volta a ganhar importância na pele de Hayden Christensen, que é um aprendiz de Jedi que não tem paciência para aprender as coisas em seu tempo e quer fazer tudo à sua maneira. Há um diálogo político entre ele e a senadora em que ele diz que deveria haver uma pessoa só que decidisse o que fosse melhor para o povo e aplicasse suas idéias pela força, se fosse necessário. "Parece uma ditadura", diz a senadora. "Se funcionar", retruca o futuro lorde negro. Esse é um ponto positivo do novo roteiro de Lucas e Hale. Eles mostram como uma democracia pode ir por água abaixo sem que o povo o perceba, ou até com o apoio do próprio povo, como foi o caso da subida de Hitler na Alemanha nazista da década de 30.

Os "clones" do título são descobertos por Obi-Wan em um planeta escondido nos confins da galáxia, na forma de um exército criado em laboratório a pedido de um Jedi traidor. Lá encontramos também um personagem conhecido da Trilogia Original, o caçador de recompensas Boba Fett, ainda criança, filho de Jango Fett. "Episódio II" consegue resgatar elementos da série original de maneira mais eficiente que o Episódio I. Em um momento do filme Anakin volta com Amidala para o conhecido planeta de Tattooine em busca de sua mãe, e os fãs vão se emocionar ao reencontrar a casa que era (ou melhor, vai ser) de Luke Skywalker no início do Guerra nas Estrelas original, o Episódio IV. É lá também que reencontraremos os futuros "tios" de Luke, Owen e Beru Lars. Lucas também reaproveita uma "homenagem" que ele fez em Guerra nas Estrelas nesse episódio: o filme de John Ford "Rastros de Ódio", em que John Wayne e um rapaz passam anos procurando uma garota branca que havia sido seqüestrada pelos índios. Em "Episódio II" Lucas recicla essa história dizendo que a mãe de Anakin foi seqüestrada pelo "Povo da Areia", numa similaridade muito grande com os índios.

Outro personagem que retorna é o mestre Yoda, desta vez totalmente feito em computação gráfica, que reserva uma surpresa enorme no final do filme, em que revela seus dotes com um sabre de luz na mão. É um dos melhores personagens de toda a saga, e nesse episódio tem papel fundamental à trama. Falando em digital, Lucas resolveu testar outra inovação com esse filme: Episódio II foi inteiramente captado com câmeras digitais, ao contrário das tradicionais câmeras de cinema, que usam película de 35 mm para filmar. Lucas conseguiu um acordo exclusivo com a Sony que, aliada à Panavision, desenvolveram uma câmera que tem resolução quase comparável com a película cinematográfica. O resultado é surpreendente, e o povo leigo provavelmente não vai perceber a diferença, mas creio que a tecnologia ainda tem muito a avançar. Como "Episódio II" é quase que totalmente feito em efeitos de computação gráfica, as imagens dos atores "filmados" em digital não parecem totalmente ruins.

Mas percebi um fenômeno estranho na projeção que assisti: embora as cenas em computação gráfica fossem todas nítidas e com boa definição, quando havia atores em cena pude perceber claramente os "pixels" piscando no rosto e nas roupas deles. Talvez seja porque tenha assistido ao filme em um cinema convencional, com projetor de película, e não em um projetor digital. Há muito poucos desse tipo e Lucas parece que está para criar outro monopólio, exigindo que todos os cinemas troquem seus projetores até ele lançar o Episódio III daqui alguns anos. Será o fim do filme? Diretores como Steven Spielberg, por enquanto, dizem que não pretendem abandonar a boa e velha película. Mas se Lucas conseguir mudar toda a indústria novamente, talvez não tenhamos escapatória.

De qualquer forma, digital ou não, o que importa é se o filme é bom, e Episódio II me surpreendeu favoravelmente. Vibrei como todo mundo nos momentos de ação, que são vários, e me arrepiei perto do final, quando a presença do Mal pode ser sentida com a maravilhosa trilha de John Williams evocando sua famosa "Marcha Imperial" de "O Império Contra Ataca". Quem sabe? Talvez um dia Lucas resolva fazer uma daquelas suas "Edições Especiais" em Episódio I e ele comece a séria novamente, desta vez fazendo um filme melhor.

João Solimeo
julho 2002

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