Erin Brockovich
Uma Mulher de Talento

(Erin Brockovich - EUA- 1999)

por João Solimeo

 

Lembra-se de "Uma Linda Mulher"? Lembra-se de uma atriz vibrante, engraçada e, principalmente, bonita e talentosa? Pois é, ela está de volta. Julia Roberts, depois de mudar de estilo e fazer filmes menores por todos esses anos, está de volta como a atriz de talento que realmente é. E, é necessário ser claro a respeito, um dos responsáveis por esse seu renascimento é o figurino mais provocante que ela já usou desde o papel da prostituta que fez em "Uma Linda Mulher". Por duas horas de filme, sua saia nunca fica abaixo do joelho, e seus decotes são enormes.

Mas... vamos falar do filme. O que fez de "Erin Brockovich" o filme de sucesso que é (foi o primeiro na bilheteria americana por semanas seguidas) além das pernas de Julia Roberts? Bem, a cabeça de Julia Roberts. Ela está realmente exuberante e inteligente no papel de uma mulher comum e com pouca educação que foi responsável por um dos maiores processos criminais na história dos EUA. Após sofrer um acidente de carro (numa das cenas mais surpreendentes do filme, preste atenção), ela processa o motorista para que ele pague suas despesas médicas e com o carro. Afinal, ela é divorciada duas vezes, tem três filhos pequenos, está desempregada e com menos de cem dólares do banco.

O problema é que Erin sempre fala a primeira coisa que vem à cabeça e não leva desaforo para casa. Falando demais, acaba perdendo a simpatia do júri e o caso, ficando com uma dívida médica de 17 mil dólares. Incapaz de assumir sua culpa no fracasso no processo, ela culpa seu advogado, Ed Masry, interpretado brilhantemente por Albert Finney. Ela exige que ele lhe dê um emprego em sua pequena firma de advocacia, e acaba conseguindo.

Assim, por "acidente", ela consegue o emprego que a levará a encontrar uns documentos sobre a pequena cidade de Hinkley, e um caso imobiliário que esconde muito mais abaixo da superfície. Junto com documentos sobre a compra de uns terrenos ela encontra relatórios médicos que apontam para uma grande quantidade de casos de câncer na pequena cidade. Ela então vai investigar e entrevista várias pessoas, conquistando sua simpatia, e descobre que uma grande empresa de gás e eletricidade vem há anos contaminando o lençol freático da cidade com "cromo 6", uma substância extremamente perigosa. Sempre com seu modo exagerado, mas sincero, ela acaba convencendo seu chefe da gravidade do assunto e, após várias situações conflitantes, consegue juntar 600 pessoas da cidade, que entram  com um processo contra a firma de gás e eletricidade.

Como filme denúncia, talvez ele não seja tão profundo, mas Erin Brocovich nos mostra como grandes empresas podem, por ganância, ameaçar a saúde e a vida de centenas de pessoas. E também nos mostra como às vezes ser "pessoal" e  "pouco educado" pode ser uma vantagem em relação a atitudes "profissionais", mas frias, de advogados com anos de experiência. É de se destacar, também, o aspecto feminista do filme. Como em "Thelma e Louise", são as mulheres que realmente fazem a diferença no mundo mostrado no filme. Estando cada vez mais ocupada, Erin arruma para babá dos filhos (e amante dela) nada menos que um motoqueiro, daqueles que anda por ai com uma "Harley Davidson" roncando, só que sensível e carente.

O ritmo do filme é mantido com muita competência pelo diretor Steven Soderbergh, que ficou famoso com seu primeiro filme, ganhador da Palma de Ouro em Cannes, "Sexo, Mentiras e Videotape". Mas é Julia Roberts quem realmente leva o filme nas costas. E, apesar de ser muito cedo, há quem diga que ela pode ser candidata ao Oscar de 2001. (atualização: Roberts realmente levou o Oscar de Melhor Atriz no ano seguinte. Soderbergh seria indicado a Melhor Diretor por este filme e por Traffic, pelo qual venceu o prêmio).

João Solimeo
abril de 2000

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