ET - O Extraterrestre
Vigésimo Aniversário

(E.T. - EUA - 1982/2002)

por João Solimeo 

Atenção: há uma campanha ai fora no marketing hollywoodiano que prega o lançamento de um "novo" ET, totalmente digitalizado, refeito e, dizem, "melhorado". O fantástico filme que Steven Spielberg lançou há vinte anos e que se tornou uma febre mundial seria a mais nova vítima das chamadas "Edições Especiais". Essas seriam a nova arma da indústria do cinema para ganhar dinheiro. A receita é simples: pega-se um filme já consagrado, sucesso garantido, e programa-se o seu relançamento nos cinemas. Mas, para não se falar que estão simplesmente colocando o mesmo filme de volta às telas, os mágicos dos efeitos especiais pegam o filme, considerado "ultrapassado" para os padrões de hoje, e começam a brincar com ele, mudando uma cena aqui, alterando um efeito ali e, freqüentemente, colocando de volta uma cena que o diretor, provavelmente por ótimos motivos, deixou de fora na versão original. Pronto! A um custo infinitamente menor que fazer um novo filme, esta versão modificada pode ser lançada nos cinemas carregando os dizeres "EDIÇÃO ESPECIAL", ou "VERSÃO MELHORADA" para atrair uma multidão de espectadores ávidos por novidades.

Grosso modo, é como o dono de restaurante que muda a cor da fachada e coloca uma faixa na frente dizendo: "SOB NOVA DIREÇÃO". Foi assim quando George Lucas relançou a trilogia original de Guerra nas Estrelas há alguns anos. Sem muito critério ou bom senso, novas cenas foram acrescentadas (inclusive um encontro desnecessário entre Han Solo e um horrível Jabba computadorizado), fundos foram modificados para se colocar uma multidão de monstros digitais e, em nome do "politicamente correto", a cena em que Han Solo mata Greedo foi mudada, de modo que o alien feioso é quem atira primeiro. A máquina de fazer dinheiro que já era "Star Wars" rodou como nunca e a trilogia foi para o primeiro lugar em bilheteria novamente.

A questão é: qual é o limite? Até que ponto os donos dos filmes tem direito de fazerem isso com suas obras? Legalmente, eles podem fazer o que quiserem. Mas será que eles deveriam fazê-lo? E será que isso vai se limitar a seus próprios filmes? O que acontecerá se o dono dos direitos de "Casablanca", por exemplo, resolver relançar o filme com um final diferente? Será que veremos uma Ingrid Bergman digital ficando com um Humphrey Bogart digital no Marrocos ao invés de partir no avião com seu marido idealista? Será que vamos ver o clássico "King Kong", da década de trinta, com seus maravilhosos efeitos em "stop motion" substituídos por um gorila digital, mais "bem feito"?

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Isso posto, falemos então do novo "ET - O Extraterrestre", de Steven Spielberg. Primeiro deve-se levar em conta que, pelo menos, essa versão foi feita com muito mais bom senso e cuidado por Spielberg do que seu colega Lucas faria. As modificações são, na verdade, mínimas, e geralmente envolvem algumas alterações digitais nas expressões de ET. Quem esperava ver um novo ET totalmente refeito e digitalizado pode se decepcionar. Felizmente, o ET original está em 95 por cento das cenas, o que me causou um espanto e uma admiração ainda maior pela maravilhosa técnica de efeitos especiais de 20 anos atrás. Ironicamente, as novas cenas digitais acabaram valorizando o trabalho feito pelo italiano Carlo Rambaldi e uma equipe de mais de 20 pessoas que eram responsáveis pelos movimentos da criatura mecânica. ET respira, pulsa, tem umidade corporal e, além de tudo, tem VIDA que pode ser vista passando por seus fantásticos olhos azuis, que de vez em quando foram trocados por alterações digitais.

E o filme como um todo, a não ser por duas cenas acrescentadas na nova versão, volta intacto como nasceu há vinte anos, e volta com a força extraordinária da obra prima que realmente é. Eu me vi emocionado já nos primeiros fotogramas, com os créditos iniciais aparecendo lentamente sobre um fundo negro, com a música fantasmagórica de John Williams tocando. O que se segue é a melhor e mais elaborada abertura já feita por Spielberg em sua carreira. Sem usar nenhuma linha de diálogo, vemos numa floresta escura o trabalho de pequenos seres trabalhando, aparentemente colhendo amostras de vida. Um deles, mais curioso, resolve ir mais longe para ver uma maravilhosa cidade cintilando lá em baixo. De repente, chegam os "vilões" do filme. Nunca vistos claramente, homens estranhos chegam em peruas iluminadas, descem e começam a correr pela floresta, à procura dos extraterrestres. Spielberg sempre deixa a câmera na altura dos olhos de ET e o mundo se torna enorme e assustador, com canos de escapamento à altura dos olhos e seres humanos que só podem ser vistos da cintura para baixo, como nos antigos desenhos animados de Tom e Jerry (que podem ser vistos em uma cena na TV, mais tarde).

Um dos homens carrega na cintura um molho de chaves e é aparentemente o líder dos "vilões" humanos. Na verdade, ele representa o mundo adulto. O que pode ser mais "adulto" do que um molho de chaves preso à cintura? Chave do carro, da casa, do escritório, do banheiro... é como se elas representassem a falta de liberdade do mundo adulto em comparação com o mundo infantil celebrado por Spielberg nesse filme.

A música de John Williams, milagrosa, acompanha cada mudança de humor e de tensão enquanto os homens vasculham a floresta. Os aliens da nave, percebendo o perigo, não têm alternativa a não ser decolar e deixar o companheiro curioso para trás. A seqüência é grandiosa e é como um filme mudo. Há apenas imagens acompanhadas pela trilha sinfônica emocionante, enquanto vemos o pequeno ET correndo para tentar chegar à sua nave antes que ela parta. Mas é tarde demais.

Vemos então a típica casa de classe média dos filmes de Spielberg. Em uma vizinhança em que todas as casas são iguais, ET vai se esconder na casa do garoto Elliot (Henry Thomas), que vive com a mãe divorciada Mary (Dee Wallace), o irmão Mike (Robert MacNaughton) e a irmã caçula Gertie (Drew Barrymore). Mary é a única adulta mostrada em detalhes por mais da metade do filme, e é uma mãe abandonada, nitidamente carente e aparentemente incapaz de lidar com as três crianças, que fazem dela o que bem entendem e geralmente não a chamam de "mãe", mas de "Mary'. O pai, descobrimos, fugiu para o México com a namorada Sally e nunca é visto durante o filme. Mas sua ausência é sentida durante toda a produção. É um dos vários elementos autobiográficos colocados por Spielberg no seu filme mais pessoal. O garoto Elliot (E..llio..T, perceberam?) é como se fosse seu alter ego, o garoto pequeno que consegue, com sua inteligência, dominar a todos a sua volta. É ele quem descobre o extraterrestre escondido em uma plantação nos fundos de sua casa e, usando de iscas, o atrai para dentro de seu quarto.

A seqüência em que ET entra na casa é um dos pontos fortes do filme. Ele é, na verdade, como um pequeno bebê e esse é um dos charmes do filme (e, talvez, você deva crescer e ter um filho para perceber isso). Como um recém nascido, para ET tudo é novidade e tudo é difícil para ele, inclusive andar pela casa. O quarto de Elliot é o seu refúgio e o quartel general de onde comanda sua estratégia de ficar com o extraterrestre para si mesmo. Como um bebê, no início ET não fala, mas se comunica com Elliot repetindo seus gestos. Elliot tenta explicar o mundo para ele, mostrando no início as necessidade básicas da vida de uma criança: comida e brinquedos. Há várias referências a Guerra nas Estrelas, dos caças X-Wing pendurados no teto aos bonecos de Lando Calrissian e Boba Feet apresentados por Elliot ao extraterrestre. Também como um bebê, ET não sabe direito a diferença entre um carro de brinquedo e comida, e o coloca na boca.

Outra mudança da nova versão é uma seqüência passada no banheiro, em que Elliot mostra a banheira ao extraterrestre. Spielberg a havia filmado em 82 mas, por motivos técnicos, não a colocou. Ou talvez não tenha sido bem assim, pode ter sido uma simples questão de ritmo. A cena não acrescenta nada e até diminui a fluência do filme, mas até que foi interessante vê-la agora. Deve-se apenas lamentar que o ET digital colocado na cena, apesar de muito bem feito e extremamente parecido com o original, não se comporta muito como seu "colega" analógico. Como toda figura digital, ele é um pouco "fluido" demais e se move de maneira diferente do ET que vemos no resto do filme. Mas tudo bem, a seqüência é válida.

Muito foi dito sobre o extraordinário sucesso que ET se tornou, e o porquê disso. Diria que é simples: é sem dúvida o filme mais honesto que Spielberg já realizou. Ele inclusive mudou suas técnicas de produção para filmá-lo, deixando de lado os "storyboards" que geralmente faz antes de cada filmagem e fazendo o filme em continuidade exata. Isto é, ele começou as filmagens no início do script e foi filmando até seu final, assim como vemos na tela. Isso é incomum em Hollywood, mas pode ser percebido no produto final. O elenco é soberbo e as crianças estão soltas e extremamente realistas. Uma coisa que o tempo me mostrou revendo o filme agora é como é importante o relacionamento entre Elliot e seus irmãos, particularmente seu irmão mais velho. Eles se tornam cúmplices em manter ET em segredo e conforme a ligação entre Elliot e o extraterrestre vai se tornando mais profunda, fisicamente até, o ajudam no seu plano de tentar voltar para casa e na fantástica fuga final.

 Minha seqüência preferida ainda é a do Halloween. Que maravilhosa sacada do roteiro em colocar ET vestido de fantasma para poder caminhar livremente pelas ruas. Sacada maior ainda a de Spielberg de nos mostrar o mundo a partir do ponto de vista do extraterrestre, que deve ter achado que a Terra era um lugar muito estranho de se morar, habitado por todas aquelas criaturas esquisitas andando pelas ruas. Há outra hilária referência a Guerra nas Estrelas quando ET passa por uma criança vestida como Yoda e começa a correr em direção a ela, gritando "Home, home". Outro motivo do sucesso do filme é o uso rico de referências culturais americanas que acabaram se tornando universais. ET aprende a ler e a falar com o programa de TV "Vila Sésamo"; ele tem a idéia de chamar seus companheiros lendo uma tira de quadrinhos de "Buck Rodgers"; a mãe de Elliot fica lendo para sua irmã Gertie as aventuras de Peter Pan e, mais tarde, o próprio ET leva Elliot para voar; há uma hilária referência a John Ford quando ET assiste a uma cena de "Depois do Vendaval" em que John Wayne beija Maureen O'Hara e, lá na escola, Elliot repete a cena com uma colega de classe.

E o impressionante em assistir ET vinte anos depois é perceber o quanto o filme se tornou, ele mesmo, referência cultural forte e inegável. É emocionante ver cenas que depois se tornaram clichês, como a do garoto passando voando em frente da Lua, ou a famosa frase "ET...phone...home". O próprio Spielberg usaria ET como referência, agora percebo melhor, para fazer seu A.I. - Inteligência Artificial. Lembram-se da cena de David ouvindo a mãe contar histórias para o filho? Ou a cena do garoto sendo abandonado na floresta? Ou o tema da "volta para casa", tão forte em A.I. (o próprio nome, uma sigla, lembra ET), também parece ter sido tirado de ET

E há uma forte presença da "religião", ou de uma "religiosidade", na história de ET Afinal, é a história de um ser que desce à Terra, tem poder de curar as pessoas, morre, ressuscita e volta para o céu. Lembra alguma coisa? O próprio pôster oficial bebeu de fontes religiosas: a mão do extraterrestre tocando o dedo do menino nada mais é do que uma releitura da cena da Criação, pintada por Michelangelo no teto da Capela Sistina. E há outras referências; a cena dos sapos sendo libertados lembra muito "Os Dez Mandamentos". E quando a nave de ET vai embora, no final do filme, ela deixa um arco íris no céu, assim como no final da história da passagem bíblica do dilúvio e da Arca de Noé. O tema "extraterrestre e religião", aliás, já havia sido tratado por Spielberg em "Contatos Imediatos do Terceiro Grau". Na fantástica cena final em que Richard Dreyfuss está sendo levado para a nave mãe pelos extraterrestres pode-se ouvir, ao fundo, um padre dizendo, entre outras coisas: "Deus enviou seus anjos para guiá-los."

De qualquer modo, ET é um fenômeno. Resta saber se a nova geração, acostumada a pokemons, Xuxa e coisas do tipo vai se interessar pela história. Creio que sim, apesar de que será difícil repetir o sucesso de bilheteria e público anterior. De qualquer modo, volto a ressaltar o que disse no início: ET já era um filme extraordinário há 20 anos e não precisava de "edição especial" alguma. Um simples relançamento, com uma ou outra cena deletada colocada de volta como curiosidade já bastariam. "ET...phone...home....."

João Solimeo
março de 2002

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