FINAL FANTASY

(EUA - JAPÃO 2001)

por João Solimeo

A garota voa em gravidade zero e, conforme gira no ar, vemos CADA FIO de seus cabelos se movendo, independentemente, acompanhando a ação. Um soldado, de arma em punho, anda cautelosamente em direção à "câmera" e pode-se perceber que seu tórax se levanta e abaixa imperceptivelmente, acompanhando sua respiração. A garota abraça o rapaz e vemos as veias de sua mão aparecendo devido à pressão exercida sobre as costas dele. Tudo isso seria absolutamente normal se eu estivesse descrevendo pessoas reais em um filme "de verdade", mas não. Trata-se de cenas virtuais totalmente criadas e animadas em computação gráfica no filme mais espetacular já lançado com a nova tecnologia: Final Fantasy, uma produção nipo-americana distribuída pela Columbia Pictures que estreou este final de semana no Brasil.

As cenas virtuais são tão "etéreas" e "dreamlike" que o filme, apropriadamente, começa com um sonho que a heroína da história, Aki Ross (voz de Ming-Na Wen), tem repetidamente todas as noites. Ela está em uma paisagem aparentemente calma que, de repente, se transforma em um campo de batalha devastador. Ela acorda em uma Terra dizimada do ano 2065. O roteiro (como toda animação japonesa, ainda mais baseado em um vídeo game) é um pouco difícil de acompanhar, mas descobrimos que um meteoro que caiu no planeta trouxe com ele "fantasmas" alienígenas que destruíram quase toda vida terrestre. Aki é uma cientista que tenta descobrir sinais de vida no planeta destruído, para coletar seu "espírito". Hummm... meio estranho? Com certeza. Mas não deixa de ser irônico que este filme/animação trate de "espíritos" e "fantasmas" em seu roteiro, já que nós mesmos, pessoas reais, estamos sentados lá no cinema vendo bits & bytes "atuando", "respirando", "correndo", "sentindo medo" ou “amando" lá na tela... qual é o limite entre a fantasia e a realidade? A "final fantasy", na realidade, é acreditar que aquelas imagens de computador lá na tela são seres humanos de verdade.

Após uma violenta batalha entre as ruínas do que foi um dia a cidade de Nova York, Aki consegue recuperar uma pequena planta que leva para uma região da cidade protegida dos "fantasmas" por um campo protetor. Lá, o Conselho está reunido tentando decidir se vai ou não usar a super arma "Zeus" (um canhão laser em órbita terrestre) para tentar matar os tais fantasmas de uma vez por todas. Esta é a tese defendida pelo General Hein (voz de James Woods, que parece uma versão virtual de Commodus, Joaquim Phoenix, de Gladiador).

Contra ele está o Dr. Sid (voz de Donald Sutherland), que tenta mostrar ao conselho que se tal arma for usada ela poderia não só destruir os fantasmas, mas também poderia destruir o planeta também, matando seu "espírito", Gaia. Aqui o filme trilha por caminhos "ecológico/new age" já trilhados por uma porção de animações antes, o que tira um pouco o brilho da história, mas não importa tanto. Todos sabemos que Final Fantasy é um filme que vamos assistir por suas imagens, não seu roteiro. Se ele ainda por cima for razoável (e ele é), melhor.

A censura brasileira deu LIVRE para o filme, e realmente havia várias crianças na platéia, mas creio que ele seja um pouco pesado, além de difícil de entender, para elas. Há várias cenas de mortes causadas de maneira bastante gráfica pelos tais fantasmas, que literalmente "sugam" o espírito dos humanos para fora de seus corpos. O roteiro, como já disse, é meio lento e confuso. Talvez por ter sido baseado em um vídeo game que pessoalmente não conheço. Mas o fato de ser uma co-produção japonesa tem suas vantagens. Há um tom sombrio e pesado na animação que dificilmente haveria em uma produção americana. Há algumas semelhanças com "Titan A.E.", lançado ano passado por Don Bluth e que afundou nas bilheterias.

Mas apesar do papo "ecológico" que permeia o filme, há bons momentos de emoção e aventura, incluindo romance, e um final poético (em aberto), o que jamais seria feito em um filme 100 % hollywoodiano. A animação é realmente estonteante. Embora os humanos, em alguns momentos, pareçam mais "bonecos de cera" que se movimentam, em outros você até se esquece que não está vendo pessoas reais, de carne e osso.

João Solimeo
agosto de 2001 

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