Flores Partidas

(Broken Flowers - EUA - 2005)

por João Solimeo

Don Jonston (com um "t", como ele explica, para não ser confundido com o ator Don Jonson) é um cara que, em algum ponto do passado, era bom com computadores e com mulheres. Com computadores ele fez a fortuna que permite que hoje ele viva bem e sem ter que fazer nada. Com as mulheres a coisa é mais complicada. Ele teve várias, mas nunca se envolveu de verdade com nenhuma. No início do filme nós o vemos sentado no sofá assistindo a um filme sobre "Don Juan" (qualquer semelhança é proposital) enquanto sua namorada (Julie Delpy) o está abandonando. "É como se você fosse casado", diz ela, "como se eu fosse apenas sua amante".

Don tem um vizinho chamado Winston (Jeffrey Wright) que tem cinco filhos, três trabalhos e um hobby: desvendar histórias de mistérios que ele encontra na internet. A vida parada de Don muda quando ele recebe uma carta em um envelope cor-de-rosa e sem remetente, em que uma mulher diz ter sido namorada dele há vinte anos e que eles tiveram um filho. Segundo ela, o rapaz de 19 anos fugiu de casa para procurar o pai que nunca conheceu. Don, aparentemente, não está muito interessado no caso, mas Winston resolve investigar e o faz escrever uma lista com as possíveis candidatas a ser a mãe desconhecida e praticamente força Don a sair à procura dela.

Don é interpretado por Bill Murray que, curiosamente, parece estar fazendo uma continuação de seu personagem entediado e triste de "Encontros e Desencontros". O que não significa que ele esteja simplesmente repetindo o papel, mas fazendo uma variação sobre o mesmo tema. Quando ele sai pelo mundo à procura da hipotética mãe do seu filho é inevitável pensar que ele está, na verdade, procurando por Scarlett Johansson.

As mulheres que ele encontra (ou melhor, reencontra) pelo caminho são interessantes e variadas. Há Laura (Sharon Stone), que era casada com um piloto de corridas que morreu em um acidente. Ela é mãe de uma garota sexy e oferecida que, apropriadamente, se chama "Lolita". Há Dora (Frances Conroy) que mora em uma casa pré-fabricada que mais parece um cenário de um filme. Há Carmen (Jessica Lange), que reluta em conversar com ele, mas trabalha como uma "comunicadora com animais" (os clientes levam seus bichos de estimação para que ela possa conversar com eles). Sua secretária (Chloe Sevigny) mostra certa aversão por Bob e ficamos imaginando o que é que realmente há entre ela e a chefe. Penny (Tilda Swinton) mora em uma casa pobre no meio do mato e não quer nem receber Don, mas é a única das mulheres, aparentemente, que tem uma máquina de escrever. Teria ela escrito a carta?

O filme foi escrito e dirigido pelo grande cineasta independente Jim Jarmusch, e o roteiro está cheio de preciosidades. É interessante como, durante toda a viagem de Don, ele nota rapazes que, de alguma forma, são parecidos com ele, e percebemos que ele começa a se interessar pela noção de ser pai. Como se ele começasse a perceber como sua vida foi vazia e sem significado. Suas ex namoradas o recebem razoavelmente bem e passam a impressão de que gostariam de ter ficado com ele, mas ele nunca se comprometeu.

O fim não vou revelar, mas as cenas finais são ótimas, e deixam o espectador pensando.

João Solimeo
18/04/2006

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