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 Garota da Vitrine     (Shopgirl -EUA - 2005)
por João Solimeo
Steve
Martin é conhecido pelo seu lado trapalhão e cômico. Por comédias
como "O Panaca" ou filmes leves como "O Pai da Noiva". Mas há um
lado triste e romântico nele que poucos reconhecem. Alguém
interessado no relacionamento entre homens e mulheres e no
complicado sentimento do amor. Alguém, talvez, como Ray
Porter, personagem que ele interpreta em "Garota da Vitrine". O fime
tem ecos do que eu considero sua obra prima, "L.A. Story" (1991), em
que Martin criou uma fantasia romântica passada na cidade de Los
Angeles. Este é menos cômico e mais comedido que "L.A. Story", mas
igualmente poético com relação à cidade e seus habitantes.
Mirabelle Buttersfield (Claire Danes) é uma garota
de Vermont que, segundo a primeira fala do filme, veio para Los
Angeles "na esperança de começar sua vida". Ela trabalha como
balconista em uma linda e rica loja de Los Angeles, no departamento
de luvas. Mirabelle é bonita de um modo discreto e mora sozinha.
Como companhia ela tem apenas sua gata, e gosta de fazer desenhos
que vende, muito raramente, a uma galeria da cidade. Uma noite
ela conhece em uma lavanderia Jeremy (Jason Schwartzman), um rapaz
da idade dela que trabalha em uma empresa de amplificadores de som.
Jason é completamente incompetente no modo de tratar uma garota, mas
Mirabelle está tão solitária que aceita sair com ele. O encontro é
um desastre, mas os dois acabam dormindo
juntos.
Então aparece Ray Porter (Steve Martin), um homem bem
mais velho, elegante, maduro e rico. Ray finge comprar um par
de luvas na loja para outra mulher mas, quando Mirabelle
chega em casa, as encontra embrulhadas à sua porta, com um
convite para jantar. Os dois saem juntos e Mirabelle fica fascinada
com o interesse de Porter nela. Porque este homem rico, divorciado e
elegante se aproximaria dela? O filme é um curioso estudo dos
relacionamentos entre homens e mulheres. Pode-se partir do velho
clichê que diz que homens só se interessam por sexo enquanto
as mulheres querem romance, mas não é tão simples, ou verdadeiro. Há
uma bela cena, bem simples mas bem feita, que mostra um close de
Mirabelle quando ela percebe o interesse de Porter e vemos
como, no fundo, tudo que ela quer é atenção. Mas não só isso. Jeremy
também se interessava por ela, mas como competir com este homem
elegante e, é invevitável citar, em boa situação financeira? Porter
conquista a garota e Jeremy, com o coração partido, parte em uma
viagem país afora com uma banda de rock .
Mas
quem é Ray Porter? Seria simplesmente um crápula que só quer dormir
com uma garota mais nova ou ele está realmente interessado em
Mirabelle? Há uma cena em que o vemos falando com seu psiquiatra
enquanto Mirabelle conversa com suas amigas. Porter diz ao
psiquiatra que deixou claro que a relação não tem futuro, pois ela é
muito nova para ele e está constantemente viajando a negócios.
Mirabelle, por seu lado, está dizendo exatamente o contrário às
amigas, que Porter realmente gosta dela e que até prometeu deixar de
viajar para ficar com ela. Pode-se argumentar que Porter está apenas
usando a garota, mas porque ela se coloca nesta posição? Porque ela
aceita os presentes caros, os jantares elegantes e a maturidade
sexual do homem mais velho? Ela gosta dele de verdade ou apenas
precisa de alguém que cuide dela? Não são perguntas fáceis e o
filme não dá respostas fáceis.
E há
Lisa (Bridget Wilson-Sampras), uma loira escultural que trabalha no
andar de baixo em uma loja de perfumes. Mirabelle lhe pede conselhos
sobre como agir quando um cliente a convida para sair, e a receita
de Lisa é direta: sempre deixe o homem esperando e, de
preferência, faça muito sexo oral logo no começo e depois pare. "É
assim que você os prende", diz ela.
O
roteiro é baseado em um conto do próprio Steve Martin, que também
narra a história. Ele e o diretor Anand Tucker transformam Los
Angeles em um belo jogo visual que mistura as luzes da cidade com as
estrelas do céu. O final poderia ser chamado de "feliz",
mas "agridoce" seria a palavra mais adequada.
Claire
Danes está ótima como Mirabelle, radiante quando está feliz e
tocante quando triste. Jason Schwartzman está um pouco caricato
demais como Jeremy e teria sido melhor se Porter tivesse um
rival mais interessante. De qualquer modo, Jeremy interpreta as
cenas mais engraçadas do filme. Steve Martin dá um show na pele
desse personagem quieto e charmoso, mas que parece perdido por
dentro. "Não havia como justificar suas ações" - diz ele - "a
não ser com, bem...assim é a vida".
João
Solimeo 28/01/2007
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