
Homem Urso   
(Grizzly Bear - EUA - 2005)
por
João Solimeo
Timothy Treadwell não
é uma figura fácil. Quando ele entra em cena no início de "Homem Urso", em meio
a uma bela paisagem do Alasca, ele parece completamente fora de lugar, uma
espécie de surfista perdido em algum documentário sobre a natureza. Ao fundo
vemos enormes ursos pardos em seu habitat natural. Treadwell, como um ator
canastrão, está dando sua receita para não ser atacado pelos ursos: ele deve ser
como um samurai, tem que mostrar que é dono do território e não demonstrar
fraqueza, ou será devorado. O "método" funcionou por quase quinze anos, período
em que Treadwell acompanhou os animais durante o verão e, munido de uma câmera
de vídeo, documentou seus hábitos e produziu imagens que usava em campanhas para
protegê-los. Até que, em 2003, Treadwell e sua namorada, Ammie Huguenard,
acabaram sendo mortos e devorados por um urso. A saga de Treadwell é recontada
pelo diretor alemão Werner Herzog, que teve à sua disposição centenas de horas
de imagens gravadas por Treadwell. O documentário também conta com entrevistas
de amigos e conhecidos do morto, além de depoimentos de autoridades locais e
ambientalistas. O resultado final é um filme fascinante mas, assim como
Treadwell, errático e questionável.
Treadwell não usava
sua câmera apenas para gravar os animais. Egocêntrico e até desequilibrado em
alguns momentos, ele usava a câmera também como "confessionário" e passava horas
falando sobre si mesmo. Ex-alcoólatra e viciado em drogas, Timothy havia tentado
ser ator em Los Angeles e trabalhado em um restaurante. Sua descoberta da
natureza foi um modo de tentar se livrar dos vícios, mas a busca pela fama ainda
é aparente. Herzog fala sobre Treadwell como um cineasta exigente que chegava a
fazer dezenas de tomadas de si mesmo até se dar por satisfeito. Em vários
momentos ele me lembrou do "Caçador de Crocodilos", aquele outro "ambientalista"
de televisão que fez sua fama agarrando crocodilos vivos com as próprias mãos. O
nome "Timothy Treadwell" é um pseudônimo inventado pelo rapaz que era do sul dos
Estados Unidos, mas dizia aos amigos em Los Angeles que era Australiano. Sua
preocupação com o cabelo, por vezes, parece maior do que com os animais que
tenta proteger. E mesmo sua "cruzada" para defender os animais é posta em cheque
por autoridades locais e ambientalistas mais ortodoxos. O responsável por um
museu local, filho de esquimós, diz que Treadwell cruzou uma barreira entre
animais e ursos que nunca deveria se quebrada. Outro diz claramente que os ursos
o mataram porque acharam que ele havia perdido o juízo e achava que estava
brincando com pessoas vestidas de urso.
A
namorada Ammie Huguenard permanece um enigma. A família não quis ser
entrevistada e ela pode ser vista em apenas uma foto e em uma cena rápida entre
as imagens de Treadwell. Várias mulheres são entrevistadas por Herzog durante o
filme, algumas apresentadas como ex-namoradas, mas a impressão que fica é que
eram apenas amigas. O próprio Treadwell, em um momento de confissão diante da
câmera, diz que seria muito mais simples que ele tivesse nascido "gay" e passa a
discorrer como seria a vida dos homossexuais.
O modo como Herzog
filma e edita o material funciona melhor quando ele o deixa fluir naturalmente.
Mas há momentos, no entanto, em que há uma clara manipulação dos entrevistados,
e cenas que parecem ter sido ensaiadas e filmadas várias vezes. O filme parte
para o sentimentalismo em uma cena em que o relógio (ainda funcionando) retirado
do corpo de Treadwell é dado de presente para Jewel Palovak, ex funcionária e
ex-namorada dele. Há também uma cena em que as cinzas de Treadwell são lançadas
no local em que ele foi destroçado e devorado pelo urso. E Herzog manipula ainda
mais os eventos em uma cena questionável; curiosamente, Treadwell estaria com a
câmera funcionando inclusive no momento em que ele e a namorada foram mortos,
mas a câmera estaria tampada, então só o som terrível dos gritos das vítimas
poderia ser ouvido. Herzog nos dá esta informação mas nos priva do material,
preferindo colocar uma cena em que ele próprio está ouvindo a fita em companhia
de Jewel. Ao terminar, ele a aconselha não só a nunca escutar a fita, mas também
a destruí-la. É possível que ele estivesse apenas querendo poupar o espectador
de um momento terrível mas, por outro lado, não estaria ele mesmo explorando o
material com esta encenação para as câmeras?
Ao final, Treadwell,
completamente alucinado e com raiva do mundo, acabou brigando com a funcionária
do aeroporto na volta para Los Angeles e retornou para o parque dos ursos para
passar mais tempo do que ele normalmente ficava. A maioria dos ursos conhecidos
havia se retirado para hibernar e Treadwell chegou a gravar imagens de um urso
desconhecido que, possivelmente, foi o responsável por sua morte. Paranóico e se
sentindo perseguido pelos caçadores e turistas do parque, Treadwell acabou sendo
morto não só pelo urso, mas por seu próprio comportamento temerário. As imagens
da natureza que ele deixou são fascinantes e sua morte, ironicamente, acabou por
torná-lo estrela de um filme de um cineasta como Werner Herzog.
Visto no festival "É
Tudo Verdade" em Campinas, em 24 de abril de 2006.
João Solimeo
17/05/2006
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