Harry Potter e
 a Pedra Filosofal

(Harry Potter and the Sorecere's Stone - EUA 2001)

por João Solimeo

De tantos em tantos anos, a cada geração, aparece uma obra que cativa a todos e se torna o que se chama de "clássico". O clássico desta geração veio na forma de um órfão inglês de 11 anos que dormia embaixo da escada na casa de seus tios e descobre que ele não é uma criança normal. Pelo contrário, ele é Harry Potter, o personagem responsável por fazer milhões e milhões de crianças (e muitos adultos) mundo afora correrem para as livrarias para comprarem seus livros. A desconhecida autora J.K. Rowling, que vivia pobre em Londres, tornou-se multimilionária e tem nas mãos as esperanças de toda uma geração de crianças, que aguardam ansiosas as continuações de seus livros.

A "pottermania" realmente decolou quando, há quase dois anos, foi anunciado que Steven Spielberg havia escolhido Harry Potter como seu próximo projeto cinematográfico. Há anos afastado do mundo da fantasia, o famoso diretor parecia estar de volta aos bons tempos em que encantava o mundo com "Contatos Imediatos" ou "E.T. - O Extraterrestre". As vendas do já famoso livro alcançaram as alturas e a mídia foi inundada por boatos e especulações sobre o próximo filme de Spielberg. Mas era tudo um boato. Spielberg começou a filmar seu polêmico projeto "A.I. - Inteligência Artificial" e o cargo de diretor de Harry Potter passou para as mãos de um de seus antigos protegidos da década de oitenta, Chris Columbus, o roteirista de "Os Goonies" e diretor de sucessos como "Esqueceram de Mim" e "Uma Babá Quase Perfeita". (Outros boatos dizem que Spielberg, na verdade, foi recusado pela autora pois queria modificar totalmente o livro, transferindo a história para os Estados Unidos e colocando Haley Joel Osment como Harry Potter).

O resultado que chegou finalmente às telas é surpreendente. "Harry Potter e a Pedra Filosofal" é um filme que faz juz à fama do original e tem uma produção e um visual de tirar o fôlego. A história é a mesma do primeiro livro de J.K. Rowling. O garoto Harry, ao completar 11 anos, começa a receber estranhas cartas que são entregues todos os dias por uma coruja, mas que são destruídas pelo seu tio malvado. Um dia a casa é inundada por cartas e a família decide fugir para se esconder. Mas não há escapatória. Em uma noite chuvosa a porta é derrubada pelo "gigante" Hagrid (Robbie Coltrane) que conta a Harry a história de sua vida; ao contrário do que os tios lhe haviam dito, seus pais não haviam morrido em um acidente de carro. Eles eram bruxos que foram mortos por um poderoso bruxo do mal, que também tentara matar Harry, mas não conseguira. Isso tornou Harry famoso no mundo dos bruxos, e ele havia sido deixado com os tios até que tivesse idade para entrar na "Hogwarts School", uma escola de bruxaria.

E assim Harry Potter parte com Hagrid para seguir seu destino. O filme tem um ar britânico que às vezes lembra alguns filmes feitos pela Disney como "Se minha cama voasse" ou "Mary Poppings". Além disso, ao contrário da maioria das produções fast food dos dias de hoje, Harry Potter é um filme lento, que deixa as coisas acontecerem a seu tempo e vai mostrando passo a passo a formação do garoto Harry em bruxo. Há uma grande riqueza de detalhes e percebe-se todo um mundo por trás suportando a trama, fazendo com que o espectador realmente acredite que aquilo tudo possa acontecer. E para alguém que, como eu, tenha ficado longe da "pottermania" e não conhecia todos os detalhes do universo de Rowling, mesmo assim pode notar o cuidado empregado pelos produtores em não trair o livro original. E conforme o filme ia passando podia notar por parte das crianças na platéia comentários de reconhecimento aqui e ali, sobre algumas passagens do filme.

Outro ponto positivo em Harry Potter é o uso inteligente dos efeitos especiais. Nos créditos finais, contei mais de sete empresas diferentes encarregadas deles, mas isso não é percebido durante o filme. Ele poderia facilmente ter se tornado, como os últimos filmes de George Lucas, em um exagero visual com milhares de imagens em computação gráfica saltando aos olhos. O diretor Chris Columbus soube usar de maneira inteligente cenários reais, como o maravilhoso trem que leva os alunos à Hogwarts e algumas partes da escola, que lembra um castelo, e ótimos cenários virtuais, como o teto transparente da escola e, principalmente, a extraordinária seqüência do jogo de "quadribol". Os jogadores, montados em vassouras, voam pela tela em velocidade assombrosa, em uma espécie de "futebol americano" dos bruxos, tentando marcar pontos em aros colocados ao final do campo.

Apesar de ser um filme de fantasia, o cerne do filme está nos personagens e nos atores que os interpretam. Harry é interpretado por Daniel Radcliffe, um garoto inglês que foi escolhido entre milhares de atores que tentaram o papel que mudaria suas vidas. A escolha foi acertada. Radcliffe é sóbrio, calmo e tem um olhar que transmite força e confiança. E seus companheiros em Hogwarts, Rony Weasley (Rupert Grint) e Hermione Granger (Emma Watson) também estão bem. O elenco ainda conta com atores do calibre de Richard Harris (Albus Dumbledore), Maggie Smith (Professora McGonagall), Ian Hart (Professor Quirrel) e Alan Rickman como o Professor Snape.

Um clássico instantâneo, o primeiro de uma série que nos acompanhará por vários anos no futuro.

João Solimeo
novembro de 2001

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