
O Informante
(The
Insider, 1999)
por João Solimeo
O diretor Michael Mann gosta de lidar com confrontos. Mas não
devemos imaginar o típico filme de perseguição hollywoodiano. Mann é um dos
poucos diretores hoje em dia que apreciam e sabem usar o poder do tempo,
essa coisa tão mal empregada e apreciada. Em Fogo contra Fogo, por
exemplo, o confronto era entre Robert DeNiro e Al Pacino, entre o policial ao
lado da lei contra o bandido querendo levar sua vida.
"O Informante" é sobre vários confrontos. Mas dois prevalecem: um é o
confronto entre o produtor do programa "60 Minutes" Lowell Bergman, vivido por
Al Pacino, que quer tentar fazer o cientista e ex empregado da indústria
tabagista Jeffrey Wigand (Russel Crowe) a ir à TV delatar tudo o que sabe sobre
esta indústria. O outro confronto é de Al Pacino com a direção da rede americana
de TV CBS, que se recusa a mostrar a matéria.
Tudo começa por acaso. Bergman recebe pelo correio um relatório sobre
queimaduras provocadas por cigarros. Como não entende a linguagem do relatório,
resolve procurar por um especialista no assunto que possa explicá-lo para ele. É
assim que, coincidentemente, ele acaba entrando em contato com Jeffrey Wigand,
que acaba de ser despedido da cia. de cigarros Brow and Williamson. Com seu faro
de repórter, Bergman percebe que existe algo mais por trás daquele sujeito
nervoso e aparentemente paranóico.
E ele tem toda razão. Numa das cenas mais tensas do filme, presenciamos a
empresa de tabaco tentando forçar Wigand a assinar um contrato de
confidencialidade em que jura não revelar absolutamente nada do que presenciou
enquanto trabalhava para eles. Se recusar, a empresa vai lhe tirar o seguro
saúde, não vai cumprir com suas obrigações contratuais e, como se não bastasse,
ainda vai processá-lo. Começa então o primeiro confronto do filme: a "paquera"
de Bergman a Wigand para que ele dê uma entrevista, e o medo e a paranóia
dele diante das táticas terroristas da empresa - pessoas começam a rondar sua
casa à noite; mensagens de morte são mandadas por e-mail e até uma bala de
revolver é encontrada na caixa do correio.
Tudo isso é conduzido de maneira magistral pelo diretor Mann, pela câmera do
diretor de fotografia Dante Spinotti e pelas atuações magníficas de Pacino e
Russel Crowe, que está irreconhecível do seu papel anterior em L.A. Cidade
Proibida. Um belo exemplo do lirismo do diretor está na seqüência em que
Wigand está tentando se decidir se depõe ou não como testemunha em um processo
que o estado do Mississipi está movendo contra a indústria tabagista. Ele está
parado em frente ao rio, pesando os prós e os contras; sua mulher vai
abandoná-lo, sua reputação está em jogo e ele ainda corre o risco de parar na
prisão por quebra de sigilo. O diretor alterna imagens dele só, pensando, com
imagens de Pacino andando de um lado para o outro, tentando imaginar o que ele
vai decidir. Tudo isso dando tempo ao espectador para respirar e se conectar com
o drama dos personagens da tela, interpretados e mostrados de maneira tão
humana. A câmera de Mann tem essa qualidade: ela parece revelar a "aura" dos
personagens, uma dignidade que raramente se vê no cinema de hoje.
Wigand acaba aceitando não só depor no tribunal como em gravar uma
entrevista no mais prestigiado programa jornalístico dos EUA, o "60 Minutes",
apresentado pelo jornalista Mike Wallace (interpretado por Christopher Plummer).
Lá ele conta toda a verdade sobre o cigarro e a nicotina, e sobre os métodos da
indústria para viciar o consumidor em seu produto. O problema é que a direção da
rede CBS está de rabo preso com a Brown e Williamson e decide cortar a entrevista
do programa. É um dos momentos mais impactantes do filme, em que se discute a
ética jornalística frente as necessidades de mercado. O que vale mais, o
dinheiro ou a verdade?
É esse o segundo confronto que Bergman terá de enfrentar. Como conseguir ser
fiel tanto à sua empresa quanto ao seu informante, que perdeu tudo para dizer a
verdade?
Um belo filme, tanto pela produção impecável quanto pela profundidade de seus
temas. E um detalhe: em duas horas e trinta e oito minutos de filme, nenhum
cigarro é aceso...
Deixe de fumar.
* * *
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