
O Jardineiro Fiel
   
(The Constant Gardener - EUA - 2005)
por
João Solimeo
Depois do sucesso nacional e
internacional do soberbo "Cidade de
Deus", o diretor Fernando Meirelles foi procurado por vários estúdios
estrangeiros que o queriam dirigindo para eles. Com uma indicação ao Oscar no
currículo e o prestígio em alta, Meirelles poderia ter caído em alguma produção
hollywoodiana cheia de efeitos especiais, tiros e violência, mas ele preferiu ir
contra a corrente. Ele foi para a Inglaterra trabalhar para uma pequena
produtora e tocar um projeto com temática social forte e com poucas perspectivas
comerciais. O resultado é "O Jardineiro Fiel", baseado no livro de John Le Carré,
um filme que, assim como "O Senhor das Armas", não tem medo de tomar partido.
Ralph Fiennes interpreta Justin Quayle,
um diplomata que é enviado ao Quênia e leva junto sua esposa Tessa (Rachel Weisz),
uma ativista que ele conheceu enquanto estava dando uma palestra sobre
diplomacia em Londres. Ao final da palestra Tessa o questionou sobre os motivos
que levaram a ONU a apoiar os Estados Unidos em uma invasão ao Iraque, ao invés
de tentar solucionar a situação por meio diplomáticos. Justin se apaixona pela
moça, mas é daqueles ingleses que está mais preocupado em cuidar do jardim do
que em se envolver em questões políticas complicadas, ou prestar atenção às
atividades da esposa. No Quênia, mesmo grávida, Tessa luta incansavelmente para
prestar auxílio aos milhares de pobres do país, a maioria deles sofrendo com uma
terrível epidemia de AIDS e tuberculose. O problema é que ela parece passar
tempo demais com um médico africano chamado Arnold Bluhm, e o boato que corre é
que eles seriam amantes. Teria Tessa usado Justin apenas para levá-la para a
África?
A hipótese de traição se torna trágica
quando, logo no início do filme, Justin recebe a triste notícia de que a esposa
havia sido encontrada morta, junto com o motorista que a transportava, ao norte
do país. A estrutura do filme funciona como um quebra cabeças, com a trama
seguindo um roteiro não linear entre o passado e o presente. Justin resolve
investigar a morte da esposa e não acredita na versão oficial de que ela teria
sido morta por um amante ciumento. Uma complicada trama que envolve a indústria
farmacêutica pode estar por trás da morte de Tessa. Ela descobriu que uma grande
empresa que fornecia medicamentos para tratar a AIDS estaria fazendo testes com
uma nova droga para a tuberculose que estaria matando os cobaias humanos. Rachel
Weisz interpreta Tessa como uma mulher decidida e provocante e seu marido não
entende (ou não quer ver) a gravidade das denúncias que ela começa a fazer, nem
suas conseqüências. Ralph Fiennes está ótimo como Justin, que começa o filme sem
querer se envolver, mas que cresce à medida que o filme vai progredindo.
Fernando
Meirelles e seu fotógrafo César Charlone pintam um retrato vibrante do Quênia
que mistura documentário com ficção. As grandes favelas são mostradas em cores
vibrantes e a câmera na mão acompanha os atores em meio a centenas de figurantes
em situações reais. Além do visual que lembra "Cidade de Deus", Meirelles
declarou em entrevista que também usou como referência "O
Informante", grande filme do diretor Michael Mann. De fato, conforme Justin
investiga a morte da esposa e começa a descobrir os segredos da indústria
farmacêutica, ele vai se tornando mais paranóico e assustado com tudo a sua
volta, não podendo confiar em ninguém. Há uma cena dele chegando a Londres que
lembra muito uma cena de Russell Crowe voltando para casa em "O Informante".
A África mostrada no filme é o
resultado de anos de colonialismo e exploração pelos países ricos. A ONU é
mostrada como incapaz de lidar com a pobreza e com os conflitos locais e pessoas
como Tessa tentam convencer as outras de que pode haver uma saída. A ajuda
humanitária geralmente é transformada em carros de luxo e vantagens para os
governos locais, enquanto milhares de pessoas morrem todos os dias de doenças,
fome e guerras civis. Ou são usadas como cobaias simplesmente porque elas são
negras, pobres e irão morrer de qualquer maneira.
O filme é forte e, ao contrário da
maioria dos filmes americanos, não termina em tom de esperança ou de redenção.
Fernando Meirelles provou que não é um diretor de um filme só e que tem uma
grande carreira pela frente, é só continuar fazendo as escolhas certas.
Curiosidade: pouco antes do filme
começar o cinema exibiu um comercial da
World Food Programme,
um programa de assistência social, com cenas do filme e "Tessa" (Rachel Weizs)
era vista ajudando a população local.
João Solimeo
outubro de 2005
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