King Kong

(King Kong - EUA - 2005)

por João Solimeo

Um dos charmes em um filme como King Kong é o fato dele ser tão absurdo. É interessante como nenhuma explicação é dada ao fato de Kong existir. Ele é simplesmente um gorila de vinte metros de altura e ponto final. King Kong é um filme originalmente feito em 1933 por Merian C. Cooper e Edgard Wallace que salvou o estúdio RKO da falência com um espetáculo puramente cinematográfico de aventura e efeitos especiais. Kong era um boneco articulado que foi animado quadro a quadro pelo pioneiro Willis O'Brien, e a seqüência final, com Kong lutando contra aviões no topo do recém construído Empire State Building, entrou para a história do cinema. Kong ganhou um "remake" em 1976 produzido pelo megalomaníaco Dino de Laurentis e várias cópias baratas, inclusive algumas versões japonesas, que basearam seu Godzilla, obviamente, no macaco gigante.

Setenta e dois anos depois da versão original, chega aos cinemas a produção multimilionária do diretor Peter Jackson (da trilogia "O Senhor dos Anéis"), que desde pequeno era apaixonado por Kong. O filme é visualmente espetacular. Jackson sabiamente decidiu fazê-lo se passar justamente em 1933 e o início é uma espécie de viagem no tempo para a Nova York da Grande Depressão americana. Mas não é uma simples recriação em estúdio, é uma cidade viva, pulsante, com o trânsito pesado nas ruas apinhadas de carros, as filas de pessoas esperando para ganhar um prato de sopa, gente morando em uma favela no Central Park e artistas tentando ganhar a vida no teatro de comédia. Uma destas artistas é Ann Darrow (Naomi Watts), que é convidada pelo diretor de cinema Carl Denham (Jack Black) para embarcar em uma aventura. Denham, que no original era interpretado por Robert Armstrong, nesta versão é uma espécie de jovem Orson Welles, um cineasta obcecado com a idéia de fazer um filme em uma ilha perdida no meio do oceano. Os produtores estão querendo cancelar seu projeto e ele tem de literalmente fugir de Nova York levando Darrow, a equipe de filmagem e o roteirista Jack Driscoll (Adrien Brody, de "A Vila") em um velho cargueiro.

As seqüências passadas dentro do navio são as menos interessantes do filme, cujo ritmo cai vertiginosamente. Jackson é tão apaixonado pelo material original, e vindo de "O Senhor dos Anéis" (que basicamente era um filme de nove horas de duração), que ele não sabe quando cortar nesta versão de King Kong, que se arrasta por mais de três horas. Já a chegada à Ilha da Caveira, envolta permanentemente em uma espessa névoa, é bem feita e o suspense é grande. Lá eles encontram o pesadelo dos politicamente corretos, uma tribo de "selvagens" ao estilo antigo, violentos e ignorantes, que seqüestram Ann Darrow para oferecer como oferenda ao monstro que vive do outro lado de uma enorme muralha, King Kong. O macaco gigante só entra no filme depois de mais de uma hora de duração e é uma incrível criação da equipe de efeitos especiais. Kong parece antigo, maduro, carregando no corpo as marcas de anos vivendo em um mundo selvagem e perigoso. A principal mudança deste filme para a produção de 1933 é a relação entre o monstro e a garota. No original a atriz gritava do início ao final e não havia nenhuma ligação dela com Kong. Naomi Watts criou uma personagem esperta e também vivida, que enfrenta a fera com inteligência e talento. Há uma ótima seqüência em que a atriz enfrenta os urros de raiva de Kong da mesma forma com que ela tinha que lidar com uma platéia difícil no teatro: ela começa a dançar e a improvisar uma apresentação que surpreende o gorila gigante que, interessado, ainda pede por mais. Naomi Watts está muito bem e está tão magra que parece ter se preparado para o papel pensando nos anos de fome que sua personagem passou.

O filme novamente se arrasta em algumas seqüências de efeitos especiais desnecessárias, como os homens fugindo de uma manada de dinossauros (que além de longa é mal feita), ou uma luta entre Kong e três tiranossauros. As cenas mais arrepiantes acabam sendo as que envolvem insetos e vermes gigantes que atacam os homens em uma caverna escura. Há uma ameaça embaixo de cada pedra e folha da floresta e a impressão que dá é que não há lugar para o Homem neste mundo selvagem.

A parte final é novamente passada em Nova York, para onde Kong é levado ao ser capturado. A apresentação dele em um teatro da Broadway lotado, como a "8a. Maravilha do Mundo", é feita por Jackson quase que cena a cena como do filme de 1933. E o final repete o famoso confronto no topo do Empire State Building, maravilhosamente recriado com os efeitos especiais de hoje. É um filme para ser apreciado na tela grande do cinema e seria melhor ainda com quarenta minutos a menos. Uma história simples, uma alegoria da disputa do Homem tentando controlar a natureza, ou a recriação moderna do mito da bela e da fera. Para Peter Jackson, no entanto, foi a recriação de um sonho de infância na forma de um filme de 200 milhões de dólares.

 

João Solimeo
dezembro de 2005

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