Harold Crick (Will
Ferrel) é um fiscal do imposto de renda que tem uma vida regrada
como um relógio. Ele acorda sempre na mesma hora, escova os dentes
com exatamente 72 escovadas, caminha 52 passos até o ponto de ônibus
e vai para o trabalho fazendo todo tipo de contas em sua cabeça. Ele
é tão bom em matemática que seus colegas o usam como uma calculadora
ambulante, perguntando quanto é 25 vezes 751, por exemplo. Harold
sempre sabe a resposta. Ele vive sozinho, trabalha sozinho e nem
sabe como sua vida, na verdade, é tediosa.
Só que em uma quarta
feira algo estranho acontece. De repente, ele começa a escutar a voz
da narradora da história (Emma Thompson), que descreve tudo o que
ele faz ou sente. Sua vida vira um inferno, porque ele não consegue
mais raciocinar com aquela voz na cabeça e seus colegas acham que
ele está ficando louco. Ele é enviado para fazer uma auditoria em
uma confeitaria cuja dona acha que não pagar impostos é uma forma de
protesto, e ele começa a se apaixonar por ela. Para complicar, ele
escuta a narradora dizendo que ele está para morrer a qualquer
momento.
Harold segue o
conselho de uma psiquiatra (participação de Linda Hunt) e procura a
ajuda de um professor de literatura (Dustin Hoffmann) para tentar
entender o que a narradora está planejando fazer com ele. “Mais
estranho que a ficção” é daqueles filmes cuja idéia é melhor do que
sua execução. Fico imaginando o que um roteirista melhor, como
Charlie Kaufman, por exemplo, faria com uma premissa destas. O filme
não é ruim, mas todas estas boas idéias ficam meio jogadas na trama
e o filme nunca decola de verdade. O romance entre Harold e Ana
(Maggie Guillenhaal) soa falso e a voz da narradora, curiosamente,
some por um bom tempo do filme, como se o roteirista não soubesse o
que fazer com ela.
E quem é
a narradora, afinal? O filme revela desde o início que é Kay Eiffel
(Emma Thompson), uma escritora que está com um “bloqueio” há dez
anos e não consegue terminar um livro sobre... um fiscal da receita
chamado Harold Crick. A editora que publica seus livros está
preocupada e envia uma assistente (Queen Latifah) para ajudar Kay a
terminar a obra. Temos então uma escritora tentando fazer
um livro e, dentro do mesmo mundo “real” habitado por ela, temos o
personagem deste livro? Mesmo partindo-se do princípio de que é um
filme de fantasia, a trama não faz muito sentido. Qual controle a
escritora tem sobre a vida de seu personagem? E por que ele só
consegue ouvi-la agora? Quem era Harold Crick antes dela começar a
escrever o livro? Ele é real ou imaginário? São perguntas que não
têm nenhuma explicação. Nada disso teria importância se o filme
fosse engraçado o suficiente como comédia ou intrigante o suficiente
como drama sério. Harold, por influência da narradora, acaba
tentando mudar sua vida e conquistando a moça, apesar da “ameaça” de
morte. O encontro entre criador e criatura demora demais e, quando
acontece, as coisas caminham rapidamente para o final. Não teria
sido mais interessante se houvesse alguma resistência da parte de
Harold? Ou se houvesse um conflito aberto entre a escritora tentando
terminar o livro de certo modo e o personagem que não
quisesse seguir suas ordens?
Ao invés disso o
diretor Marc Forster fez um filme “agradável”, sim, mas que poderia
ter sido muito mais elaborado. Parte do problema talvez seja a falta
de identificação ou empatia com o personagem principal. Sim, Harold
Crick é propositalmente um sujeito sem nenhuma
característica interessante, e Will Ferrel o interpreta
exatamente neste tom. Mas se o público não se interessa muito se ele
vai viver ou não, há um problema. O elenco está muito bem,
com destaque para a inglesa Emma Thompson e para Dustin Hoffman.