Mais Estranho do que a Ficção 
(Stranger than Fiction -EUA - 2006)

por João Solimeo

Harold Crick (Will Ferrel) é um fiscal do imposto de renda que tem uma vida regrada como um relógio. Ele acorda sempre na mesma hora, escova os dentes com exatamente 72 escovadas, caminha 52 passos até o ponto de ônibus e vai para o trabalho fazendo todo tipo de contas em sua cabeça. Ele é tão bom em matemática que seus colegas o usam como uma calculadora ambulante, perguntando quanto é 25 vezes 751, por exemplo. Harold sempre sabe a resposta. Ele vive sozinho, trabalha sozinho e nem sabe como sua vida, na verdade, é tediosa.

 

Só que em uma quarta feira algo estranho acontece. De repente, ele começa a escutar a voz da narradora da história (Emma Thompson), que descreve tudo o que ele faz ou sente. Sua vida vira um inferno, porque ele não consegue mais raciocinar com aquela voz na cabeça e seus colegas acham que ele está ficando louco. Ele é enviado para fazer uma auditoria em uma confeitaria cuja dona acha que não pagar impostos é uma forma de protesto, e ele começa a se apaixonar por ela. Para complicar, ele escuta a narradora dizendo que ele está para morrer a qualquer momento.

 

Harold segue o conselho de uma psiquiatra (participação de Linda Hunt) e procura a ajuda de um professor de literatura (Dustin Hoffmann) para tentar entender o que a narradora está planejando fazer com ele. “Mais estranho que a ficção” é daqueles filmes cuja idéia é melhor do que sua execução. Fico imaginando o que um roteirista melhor, como Charlie Kaufman, por exemplo, faria com uma premissa destas. O filme não é ruim, mas todas estas boas idéias ficam meio jogadas na trama e o filme nunca decola de verdade. O romance entre Harold e Ana (Maggie Guillenhaal) soa falso e a voz da narradora, curiosamente, some por um bom tempo do filme, como se o roteirista não soubesse o que fazer com ela.

 

E quem é a narradora, afinal? O filme revela desde o início que é Kay Eiffel (Emma Thompson), uma escritora que está com um “bloqueio” há dez anos e não consegue terminar um livro sobre... um fiscal da receita chamado Harold Crick. A editora que publica seus livros está preocupada e envia uma assistente (Queen Latifah) para ajudar Kay a terminar a obra. Temos então uma escritora tentando fazer um livro e, dentro do mesmo mundo “real” habitado por ela, temos o personagem deste livro? Mesmo partindo-se do princípio de que é um filme de fantasia, a trama não faz muito sentido. Qual controle a escritora tem sobre a vida de seu personagem? E por que ele só consegue ouvi-la agora? Quem era Harold Crick antes dela começar a escrever o livro? Ele é real ou imaginário? São perguntas que não têm nenhuma explicação. Nada disso teria importância se o filme fosse engraçado o suficiente como comédia ou intrigante o suficiente como drama sério. Harold, por influência da narradora, acaba tentando mudar sua vida e conquistando a moça, apesar da “ameaça” de morte. O encontro entre criador e criatura demora demais e, quando acontece, as coisas caminham rapidamente para o final. Não teria sido mais interessante se houvesse alguma resistência da parte de Harold? Ou se houvesse um conflito aberto entre a escritora tentando terminar o livro de certo modo e o personagem que não quisesse seguir suas ordens?

 

Ao invés disso o diretor Marc Forster fez um filme “agradável”, sim, mas que poderia ter sido muito mais elaborado. Parte do problema talvez seja a falta de identificação ou empatia com o personagem principal. Sim, Harold Crick é propositalmente um sujeito sem nenhuma característica interessante, e Will Ferrel o interpreta exatamente neste tom. Mas se o público não se interessa muito se ele vai viver ou não, há um problema. O elenco está muito bem, com destaque para a inglesa Emma Thompson e para Dustin Hoffman.

João Solimeo
30/01/2007

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