Miami Vice

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Miami Vice

(Miami Vice - EUA - 2006)

por João Solimeo

Michael Mann faz um cinema "macho", urbano e noturno como ninguém. Em 1995 ele pôs frente a frente Al Pacino e Robert DeNiro em "Fogo contra Fogo", filme que Martin Scorcese escolheu como um dos dez melhores da década, em uma curiosa mistura de clichês de filmes policiais com personagens introspectivos, cenas noturnas e muito clima. Em 1999 seu estilo introspectivo e lento foi posto em ação em "O Informante", que juntou Al Pacino e Russell Crowe em uma história que misturava revelações sobre a indústria do cigarro e discussões sobre a ética jornalística. Em 2001, foi infeliz ao levar às telas a biografia do boxeador Muhhammad Ali (Will Smith) em um filme que não empolgou, mas tinha muitas de suas marcas pessoais. Em 2004, com "Colateral", Mann voltou à boa forma e inovou usando câmeras digitais que, usadas em conjunto com as tradicionais câmeras de cinema, levaram à tela uma Los Angeles noturna como nunca havia sido mostrada antes.

Tudo isso se junta agora na transcrição para a tela grande do antigo seriado de TV "Miami Vice", criado na década de 1980 por Anthony Yerkovich e que tinha Michael Mann como produtor executivo e eventual roteirista. A série, de grande sucesso, tinha todos os excessos de cor e figurino dos anos 80, mas também era inovadora no clima introspectivo de certos episódios, nas cenas noturnas e na violência. A versão cinematográfica trás agora Colin Farrell como "Sonny" Crockett e Jamie Foxx como Ricardo Tubbs, investigadores do setor de narcóticos da polícia de Miami. O filme quebra algumas das regras esperadas do gênero e joga o espectador, logo na primeira cena, direto na ação. A primeira seqüência é puro Michael Mann e é passada dentro de uma casa noturna lotada, com música a todo volume e uma edição nervosa que vai nos mostrando, sem muitas apresentações, o trabalho dos detetives da narcóticos investigando uma transação criminosa. O filme sequer tem créditos iniciais e, como no prólogo de uma série de televisão, já nos coloca dentro da trama.

Miami Vice é daqueles filmes cujo roteiro é difícil de comentar. Todos os personagens parecem saber do que estão falando, em um linguajar cheio de gírias e expressões do mundo policial, mas o melhor para o espectador é não tentar desvendar muito a trama, com o risco de se perder. Ou, talvez, a mensagem que se pode tirar é que, no combate dos policiais contra o mundo das drogas, esta é uma guerra insana e sem sentido. Crockett e Tubbs fazem o que fazem porque é o trabalho deles, mas suas ações não parecem fazer muita diferença. Em alguns momentos, na verdade, eles têm que se passar por traficantes reais e a linha fica muito tênue entre investigadores e investigados. Crockett cruza a linha por causa de uma bela criminosa chamada Isabella (a chinesa Gong Li, passando por latina), que é amante de um traficante chamado "Arcanjo Jesus Montoya" (Luis Tosar). Em vários momentos fica difícil saber se a aproximação de Crockett por Isabella é movida por sentimentos reais ou se é apenas parte da investigação. Seu companheiro Tubbs, apesar de dizer que está "cem por cento" com ele, parece ter suas dúvidas. A ligação entre Crockett e Tubbs é interessante. No início do filme eles são vistos praticamente prevendo o pensamento um do outro, mas a chegada de Isabella corta um pouco esta ligação. Pode-se dizer que as mulheres, no cinema de Michael Mann, não têm muita vez. Há seqüências passadas em Ciudad del Este, no Paraguai, e em Foz do Iguaçu, no Brasil.

O filme foi recebido com críticas mistas. O público, apesar da boa bilheteria inicial, não respondeu muito bem ao filme, que é escuro, longo e, dentro do que se espera normalmente de uma trama tradicional, "decepcionante". O final, por exemplo, deixa no ar muitas dúvidas e pontas soltas. Eu creio que isso seja proposital. Mann trata o filme como se fosse um episódio de uma série, e termina mais ou menos como começou, sem muitas explicações ou conclusões prontas. Esses detalhes, aliados à fotografia digital "suja" e "feia" da câmera nervosa de Mann, dão ao filme um ar de realidade pouco visto. Há uma seqüência clichê de tiroteio, sim, mas ela é vista do ponto de vista de um dos combatentes, como se o espectador estivesse com a câmera na mão, registrando tudo e tentando sobreviver. Mann faz uso da maior sensibilidade em captar luz da câmera digital para mostrar, ao fundo, detalhes como as luzes piscantes da cidade grande, aviões passando no céu, ou tempestades se formando. Intercaladas com a imagem mais bonita e firme das câmeras de cinema, essas seqüências digitais como que nos colocam dentro do filme.

Um cinema "macho", sim, mas macho pensante. 

João Solimeo
27/08/2006

 

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