
Minority Report - A Nova Lei
   
(Minority Report - EUA 2002)
por João Solimeo
Imagine que você entre em casa e encontre um homem na cama com sua mulher. Em
suas mãos, você tem uma tesoura. Você não havia planejado matar ninguém, mas na
fúria do momento e cego de ciúmes, você levanta a tesoura para golpear a mulher
traidora. De repente, do teto, descem vários policiais que o derrubam, o
identificam e o acusam do assassinato futuro de sua esposa. Você
diz: "Mas eu não a matei, ela está viva! Como podem me prender pelo assassinato
dela?" No mundo em que se passa "Minority Report", o novo filme do diretor
Steven Spielberg, é assim que os assassinatos são combatidos: através da
previsão e determinação da culpa do futuro assassino. Essa previsão é feita por
três seres humanos com poderes psíquicos que vivem em um tanque amniótico em
estado de semi-consciência, constantemente olhando para o futuro e relatando os
crimes ainda por acontecer.
A cena descrita acima faz parte da fantástica abertura do filme. Pela
primeira vez, Spielberg se junta ao astro Tom Cruise para fazer um de seus
melhores filmes dos últimos anos, que consegue juntar a ação de seus velhos
filmes de Indiana Jones com a parte sombria de seu último filme, a também ficção
científica "A.I. - Inteligência Artificial".
Cruise, como sempre, consegue superar suas dificuldades na interpretação com uma
presença firme e magnética que faz muito bem ao filme. Coisa rara de acontecer,
o brilho do astro de 40 anos, às vezes, parece até ofuscar o brilho do diretor
de 55. Mas é uma ilusão; Steven Spielberg tem as rédeas do filme do início ao
final, ou quase, pois, assim como aconteceu com "A.I."
(embora de maneira mais leve), a parte final deixe um pouco a desejar.
Em 2054, Tom Cruise é John Anderton, um policial que é o principal
investigador da "Pre Crime", uma empresa que desenvolveu a tecnologia da
previsão dos crimes futuros e se gaba de ter erradicado os assassinatos em
Washington D.C., a capital americana. Ele tem uma fé cega no sistema e acredita
piamente que as previsões dadas pelos três "pre cogs", os videntes, sejam sempre
verdadeiras e que representam uma revolução no sistema judicial. Mas nem todo
mundo pensa assim. A "Pre Crime" está sob investigação por Danny Witmer (Colin
Farrel), que sob a autoridade do Departamento de Justiça está procurando por
falhas no sistema. Ele questiona o fato de que pessoas que poderiam ser
inocentes são tratadas como criminosas antes mesmo de cometer o crime. De
maneira mais fraca Spielberg introduz também um elemento religioso às previsões
dos "pre cogs" e seu dom quase divino de mudar o futuro, mas esse lado nunca é
levado muito a fundo no desenrolar da trama.
O que é levado um pouco mais a fundo é que nada é tão preto e branco quanto
parece, ou quanto John Anderton gostaria que fosse. Ele mesmo, apesar de bom
policial, acaba se mostrando um viciado em uma nova droga desenvolvida na época.
O vício, conforme ficamos sabendo, foi adquirido depois que seu filho, Sean, foi
raptado e, aparentemente, dado como morto seis anos antes. O caso destruiu sua
família e fez com que ele se dedicasse por inteiro à Pre Crime e ao Diretor
Burgess (Max Von Sydow), para evitar que tragédias semelhantes ocorressem com os
outros.
Mas mesmo Anderton começa a ter suas dúvidas quando, em uma visita ao tanque
dos "pre cogs", a vidente Agatha (Samantha Morton) sai do seu torpor e o puxa
para dentro da água, chamando sua atenção para um crime de afogamento. Anderton
vai investigar e descobre que alguns arquivos das visões de Agatha estão
desaparecidos. Teria ela visto algo diferente do que seus outros dois
companheiros? Existiria uma falha no sistema? Mas ele nem tem tempo de terminar
a investigação. Uma nova previsão de assassinato chega e Anderton descobre,
horrorizado, que o assassino mostrado nas visões é ele mesmo.
É aqui que surge o típico dilema criado pelo escritor Philip K. Dick, cujo
conto baseou "Minority Report". Dick é famoso por suas visões sombrias do futuro
já mostradas no cinema no cult "Blade Runner" e no filme de Swarzenegger "Total
Recall" (O Vingador do Futuro). Em Blade Runner, o personagem principal é
atormentado por suas próprias dúvidas quanto ao que é ser um ser humano em
oposição a ser um "replicante", um andróide com vida curta mas intensa. Em
"Total Recall" ficava-se em dúvida se o que estava acontecendo era mesmo real ou
se seria um implante colocado na cabeça do herói. Em "Minority Report" o dilema
de Anderton é acreditar no sistema e se conformar de que ele será um assassino
ou duvidar do sistema e tentar mostrar que ele pode mudar seu destino.
O roteiro de Scott Frank e Jon Cohen é maravilhosamente escrito e tem
diálogos inteligentes e até engraçados entre o agora fugitivo Anderton e seus ex
colegas da polícia. A fuga, aliás, é alucinante e rende algumas das melhores
seqüências do filme. Há uma seqüência passada em uma montadora de carros que
lembra os melhores momentos do Spielberg de Indiana Jones, inclusive com uma
luta entre mocinho e bandido como nos velhos filmes de aventura. Spielberg
trabalhou com a mesma equipe com quem vem fazendo seus últimos filmes, como
Michael Kahn na edição, Janusz Kaminski na fotografia (maravilhosa) e o mestre
John Williams na trilha sonora. A direção de arte é fantástica e é uma espécie
de "continuação" do visual adotado em "A.I.".
Há certos efeitos especiais que considerei fora de lugar, mas na maioria eles
criam uma visão realista e assustadora do futuro. Mas uma das melhores
seqüências é conseguida com o velho recurso dos cenários abertos, com a câmera
passeando de um quarto a outro de um antigo prédio, por cima, mostrando o que
está acontecendo em cada um de seus apartamentos, enquanto a polícia (e curiosas
aranhas metálicas rastreadoras) estão à procura do personagem de Tom Cruise.
O problema é que Spielberg, ao mesmo tempo em que tem tentado ser mais sério
e profundo (A.I., O Resgate do Soldado Ryan,
A Lista de Schindler, etc), ele parece sempre querer terminar o filme da maneira
mais cômoda possível para agradar a maioria da platéia pagante. Dizem que é
conflito entre o cineasta artista versus o executivo de olho nas bilheterias.
Talvez.
De qualquer modo, "Minority Report" é um filme para encher os olhos e que
levanta várias questões interessantes sobre o destino e até que ponto nós
podemos mudá-lo. Steven Spielberg e Tom Cruise, aparentemente, tem um controle
bom sobre os seus.
João Solimeo
agosto de 2002
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