O Gângster
(American Ganster - EUA - 2007)

por João Solimeo  

Pouco antes de matar a sangue frio um traficante concorrente, Frank Lucas (Denzel Washington) está explicando a seus irmãos sua filosofia de negócios: honestidade, integridade e trabalho duro. Ele soa como um homem de negócios legítimo, mas há um problema, seu produto: heroína. Lucas é um homem contraditório; se veste sempre impecavelmente, fala corretamente e com calma, cuida de toda a família e compra uma casa enorme para a mãe, a quem leva à igreja todos os domingos. Seu produto tem o dobro da qualidade dos concorrentes pela metade do preço, graças a uma jogada de negócios genial. Estamos nos anos 1970, em plena guerra do Vietnam, e Lucas fica sabendo que um terço das tropas americanas estão viciadas em heroína da mais pura qualidade. Ele junta todas as economias e vai pessoalmente à Ásia buscar a droga direto na fonte e se aproveita da corrupção dos militares para transportar a droga nos aviões do exército. Ao voltar para Nova York, se torna o principal traficante da cidade, atrapalhando os negócios de vários concorrentes, inclusive a Máfia italiana, e levantando suspeitas na polícia.

 

Rick Roberts (Russell Crowe), policial de New Jersey, também é um homem contraditório. É extremamente honesto, a ponto de se tornar um problema. Ao achar, com um colega, perto de um milhão de dólares em dinheiro de traficantes, causa espanto e cria inimizades no departamento ao reportar o dinheiro oficialmente, ao invés de pegar a grana para si ou repartir com os colegas. Seu parceiro lhe avisa que ninguém gosta de um policial honesto, porque ele é capaz de qualquer coisa e nenhum policial vai confiar nele. Por outro lado, Rick mantém amizades com velhos amigos de infância cuja reputação é no mínimo duvidosa, como mafiosos que vivem em casas luxuosas. Sua vida familiar também não é boa; sua esposa o deixou por causa dos vários casos que ele mantinha e pela falta de atenção com o filho.

 

Quando a Casa Branca resolve criar unidades especiais de combate ao tráfico de drogas, a reputação limpa de Rick vem a calhar e ele é designado a comandar a unidade de Nova York. Ele recruta outros policiais honestos e começa a investigar o surgimento de um novo tipo de heroína que chegou à cidade, vendida sob a “marca” de Blue Magic. É a heroína vendida por Frank Lucas.

 

Dirigido por Ridley Scott (com quem Crowe trabalhou em “Gladiador”), “O Gângster” é um grande filme policial, na linha de “Operação França” e outros clássicos do gênero. A reconstrução de época é perfeita e ao contrário de vários filmes feitos ultimamente, que tentam soar como uma paródia aos anos 70, o filme de Scott literalmente transporta o espectador para a época, soando sério e genuíno o tempo todo. O roteiro de Steve Zaillian (de “A Lista de Schindler”) contrapõe o jogo de gato e rato entre a carreira de Frank Lucas e a tenacidade de Rick Roberts com um terceiro personagem que representa tudo de podre na polícia, o oficial Trupo (Josh Brolin, que também está em cartaz no ótimo “Onde os Fracos não Têm Vez”). Trupo dirige um carrão esportivo, veste ternos caros e está interessado em Lucas não para prendê-lo, como pretende Rick Roberts, mas para poder receber sua parte da propina paga mensalmente à polícia. Trupo não segue nenhum código de ética e, em termos morais, é até pior do que os traficantes que explora, e acaba caindo na lista negra tanto de Frank Lucas quanto de Rick Roberts.

 

O filme também é interessante em mostrar o estrago que a guerra do Vietnam causou nos Estados Unidos, não só na perda de milhares de soldados, mas na criação de outros milhares de viciados em heroína que voltaram ao país e continuaram precisando da droga.

 

O filme cai um pouco só na parte final, quando Rick e Frank finalmente ficam frente a frente e tentam chegar a algum acordo. Há uma cena anterior, passada à saída de uma igreja, que talvez fosse um final mais forte. Mas o filme é uma grande pedida mesmo assim, com belas interpretações, recriação de época e trilha sonora.

 

 

João Solimeo
06/02/2008

Veja o trailer:


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