O Retorno

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Retorno

(Vozvrashcheniye - Rússia - 2003)

por João Solimeo

“O Retorno” é um filme com mais perguntas do que respostas. Andrei e Ivan são dois irmãos que, ao chegar em casa um dia, descobrem que o pai está de volta. Ele esteve ausente por muitos anos, tantos que os filhos mal o conhecem. “De onde ele veio?”, pergunta Ivan, o mais novo, que provavelmente nem tem lembranças do pai. “Ele veio”, responde a mãe, simplesmente. Os filhos sobem para o sótão à procura de fotos do pai. O filme, sutilmente, vai colocando algumas peças no quebra cabeças que é a trama. As fotos do pai estão dentro de uma Bíblia (ou algum outro livro religioso). Vemos, de relance, desenhos de Deus criando o mundo no Gênesis ou Abraão ameaçando matar o próprio filho, seguindo ordens divinas. A menção ao Gênesis é interessante. Deus teria criado o universo em seis dias e descansado no sétimo. O filme é dividido em capítulos, um para cada dia da semana, começando no domingo e terminando no sábado.

O Pai (Konstantin Lavronenko) é uma figura enigmática. Tão logo retorna ele parte levando os dois filhos em uma viagem, uma pescaria. O mais velho, Andrei (Vladimir Garin, que morreu pouco depois de completado o filme), aparentemente está mais feliz em rever o pai do que o mais novo, Ivan (Ivan Dobronravov), que está sempre contrariado e chega a duvidar que aquele “estranho” seja mesmo seu pai. “Mamãe disse que é ele!”, lhe diz Andrei. O Pai é seco e bruto com os filhos, que não sabem direito como agir (ou reagir). O mais velho acata cegamente as ordens do pai, enquanto o mais novo se mostra teimoso e confrontador o tempo todo. Há uma seqüência em que os três vão a um restaurante e Ivan se recusa a comer. Em seguida, os garotos são atacados por um ladrão, roubados e espancados diante dos olhos impassíveis do Pai, que não faz nada para ajudá-los. Seria ele bruto demais ou estaria apenas tentando educá-los do modo mais difícil? Ou ele simplesmente não faz idéia de como lidar com crianças? O diretor Andrei Zvyagintsev não parece preocupado em deixar tudo mastigado para o espectador que, assim como os garotos, não sabem direito se gostam ou não gostam dessa figura misteriosa e bruta do Pai.

A “pescaria” acaba se tornando uma viagem de descoberta e confronto entre estas três pessoas. Ivan, que não para de reclamar, é abandonado pelo pai em uma ponte no meio do nada, e lá fica aparentemente por horas embaixo de uma chuva que parece remeter ao próprio “dilúvio”. Quando o pai finalmente retorna para pegá-lo, Ivan, aos prantos, o confronta sobre o porquê do seu retorno. A viagem finalmente os leva a uma estranha ilha, alcançada de barco depois de outra tempestade e de uma espessa névoa. Lá o pai cava um buraco no chão e tira dele uma caixa, cujo conteúdo permanece um enigma para todos. Seria ele um ex-presidiário que retornou para encontrar o fruto do roubo? Para que serve aquela torre alta, no meio da ilha? Ela lembra outra torre, mostrada no início do filme, de onde os garotos pulavam no mar. Ivan, amedrontado, não conseguiu pular e teve que ser ajudado pela mãe para poder descer. Agora, nesta ilha, no sétimo dia, depois de outra briga feia com o Pai, ele consegue subir na torre e ameaça se jogar dela. O pai, desesperado, sobe atrás, seguido por Andrei, e uma tragédia que vinha sendo construída ao longo de todo o filme acontece.

“O Retorno” é um belo filme. Tecnicamente é também muito bom, atenção deve ser dada ao trabalho de som, que reproduz muito bem os sons naturais (água, fogo, chuva). A interpretação de todos está soberba, principalmente a dos dois garotos, em papéis difíceis. O roteiro, enigmático, é cheio de nuances e perguntas deixadas no ar. O que fica é a sensação de que é difícil voltar pra casa, e mais difícil ainda ser um bom pai.

João Solimeo
13/08/2006

 

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