Os Esquecidos

(The Forgotten – EUA – 2004)

por João Solimeo

Há uma moda no cinema recente que já está se tornando repetitiva e, o que é pior, previsível: histórias falando sobre realidades paralelas, ou sobre memórias perdidas, em que os personagens e o público, em dado momento, descobrem que nada é o que parecia ser e que estamos vivendo uma ilusão dentro da ilusão, como quando colocamos um espelho em frente ao outro. Fazem parte desse grupo filmes como Vanilla Sky, com Tom Cruise, toda a série Matrix e, mais recentemente, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, grande filme com Jim Carrey, lançado este ano, entre outros.

O mais novo filme nesta linha é “Os Esquecidos”, em que Julianne Moore interpreta Telly Paretta, uma mãe que perdeu o filho em um acidente de avião, não consegue esquece-lo e vive obcecada pela memória dele. Ela está em terapia com um psiquiatra chamado Dr. Munce (Gary Sinise), e se lembra exatamente há quantos meses, dias e horas Sam, seu filho, morreu. Seu casamento com Jim (Anthony Edwards) não vai muito bem e, para piorar, coisas estranhas andam acontecendo. Apesar de sua memória do filho ser cada vez mais nítida, as lembranças físicas dele estão sumindo misteriosamente. O filho desaparece de uma foto em que estava com os pais, e as fitas VHS que Telly assistia todos os dias estão apagadas. Os álbuns de fotografia, livros, notícias de jornal, tudo, de repente, está vazio. É como se alguém houvesse apagado a existência de Sam da História.

Telly chega a desconfiar que seu marido esteja tentando faze-la se esquecer do próprio filho, mas a explicação que seu psiquiatra lhe dá é mais assustadora: segundo ele, Telly nunca teria tido um filho, mas somente imaginado nove anos de memórias, resultado do trauma de ter perdido seu bebê durante o parto. Inconformada, Telly se recusa a acreditar na explicação e sai à procura de alguém que ainda se lembre da existência de seu filho, e acaba achando um aliado em Ash (Dominic West), um amigo que também perdeu a filha no mesmo acidente de avião que matou Sam.

O filme foi escrito por Gerald DiPego e dirigido por Joseph Ruben, e apesar da premissa interessante, o roteiro nunca decola. Pior, ao invés de fazer um filme voltado mais para o lado psicológico e explorar o dilema pelo qual Telly está passando, o filme tenta achar uma explicação “real” para o que está acontecendo e mete os pés pelas mãos. Não vou revelar exatamente qual seria esta explicação, mas pode-se dizer apenas que o que começa como um drama psicológico se transforma em um filme de ficção científica de segunda categoria. Para piorar, o trailer do filme mostrava praticamente tudo o que acontecia na história e foi repetido à exaustão nos cinemas e na televisão, de modo que, a não ser pela “surpresa” final, nada mais é novidade. Julianne Moore faz o que pode com um papel que renderia um bom filme sério, mas que nesse é apenas um desperdício.

“Esquecidos” ficamos nós, os espectadores, esperando pelo momento em que o filme melhore. A espera é em vão.

 João Solimeo
novembro de 2004

                             *                           *                                 *

Você concorda com a crítica? Discorda? Dê sua opinião em nosso FÓRUM!

 

 

 

 

 

 

 

 

© 2004 by João Solimeo