Os Sonhadores

(The Dreamers - Itália/França - 2004)

por João Solimeo

"Os Sonhadores", novo filme do mestre italiano Bernardo Bertolucci, é uma homenagem ao cinema como arte e forma de contestação. É também um filme sobre tomar posições em épocas difíceis e sobre a força das convicções (ou sua fragilidade). Sobre sexo, cinema e rock 'n roll. Mas é também sobre ilusões baseadas em um romantismo intelectual, em grandes ideais que, talvez, não tenham muita serventia no chamado mundo real.

Matthew (Michael Pitt) é um estudante americano que foi à Paris passar um ano, supostamente para aprender francês. Mas ele passa todo seu tempo dentro da Cinemateca Francesa ("só os franceses colocariam um cinema dentro de um palácio", diz ele). O criador da cinemateca, Henri Langlois, a havia concebido para passar qualquer tipo de filme, seja ele bom, ruim, novo, velho, qualquer um. É o final dos anos 60, e Matthew se senta à primeira fileira da sala para absorver filmes de Godard, Nicholas Ray, Howard Hawks, entre outros. Quando o ministério da cultura resolve expulsar Langlois de sua própria cinemateca, os cinéfilos, revoltados, começam a fazer manifestações em frente ao prédio. Bertolucci mistura cenas da época com cenas filmadas hoje do ator Jean-Pierre Leaud (um dos favoritos de Truffaut, de "A Noite Americana") discursando e distribuindo panfletos de protesto. É então que Matthew conhece duas pessoas que marcarão definitivamente sua vida, os irmãos gêmeos Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green). Os dois não são apenas gêmeos, mas siameses que, apesar de separados fisicamente no nascimento, ainda permanecem conectados de uma forma estranha e perturbadora.

Theo e Isabelle convidam Matthew para o apartamento deles e os três começam um jogo que envolve cinema e sexo. Bertolucci chocou o mundo em 1972 com seu "O Último Tango em Paris", em que um casal (Marlon Brando e Maria Schneider) passava praticamente todo o filme em um apartamento de Paris, transando e conversando. Nos tempos de hoje, em que o sexo se tornou tão comum no cinema, Bertolucci precisou ousar um pouco mais para conseguir atingir o mesmo nível de polêmica que há 30 anos. Assim, além da estonteante nudez da bela Eva Green, há também várias cenas em que os rapazes aparecem nus. Além disso, o tema tabu do incesto também está presente na relação entre Theo e a irmã Isabelle.

Há várias referências cinematográficas para testar a memória e o conhecimento de qualquer cinéfilo. Bertolucci intercala seu filme com cenas de outros da época de maneira muito eficaz. A melhor cena é a que os três correm pelo Louvre, em que a edição troca de um filme para outro perfeitamente, com quase os mesmo ângulos de câmera.

Pena que o filme, a partir do início do relacionamento entre os três, se desvie um pouco do lado cinematográfico e mude a ponto de, por pouco, não se tornar um outro filme. Digo, as referências parecem ser mais idéias do próprio Bertolucci do que dos personagens na tela que, francamente, não parecem ser tão cinéfilos assim. Há discussões sobre quem seria melhor, Buster Keaton ou Charlie Chaplin, há "competições" para ver quem se lembra de determinados filmes, mas tudo parece um pouco forçado. De repente, por causa da natureza estranha do relacionamento entre os três (em que um, como sempre acontece nestes casos, acaba sobrando), o filme envereda por questionamentos que deixam de lado o cinema e, também, as revoltas que estão acontecendo fora do apartamento, por toda Paris e pelo mundo.

Pior, o personagem do americano é mostrado como alguém "contra a violência", limpo e sensato, enquanto os franceses são mostrados como falsos contestadores, que ficam falando sobre a revolução mas que preferem ficar dentro do apartamento dos pais, tomando vinho caro e ouvindo rock. O simbolismo por vezes é óbvio demais. Há um momento em que os três estão bêbados, dormindo em uma tenda improvisada montada em plena sala de jantar, o apartamento uma bagunça, e uma pedra é atirada por manifestantes da rua, quebrando a janela e acordando os três. "A rua invadiu o quarto!" - diz Isabelle.

Mas talvez seja isso mesmo que Bertolucci esteja tentando mostrar. Que as revoluções de 68 podem ter tentado mudar o mundo mas, passados tantos anos, as guerras continuam e as coisas, no fundo, não mudaram muito.

João Solimeo
dezembro de 2004

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