Pecados Íntimos 
(Little Children -EUA - 2006)

por João Solimeo

Difícil de descrever e incômodo de se assistir, “Pecados Íntimos” é mais um filme que chega  com os indicados ao próximo Oscar. É uma visão sombria e ao mesmo tempo irônica da típica vizinhança de classe média americana. Dirigido por Todd Field e baseado no livro de Tom Perrota, o filme tem um narrador que, de um modo distante e desapaixonado, vai descrevendo os acontecimentos como um locutor de algum documentário sobre a natureza. Estamos no leste americano, em um pequeno condado para onde se mudou um homem recém libertado da prisão, onde serviu por uma acusação de “atentado ao pudor”. O homem gostava de se “exibir” para meninas pequenas e agora representa uma ameaça à paz e tranqüilidade locais.

 

Sarah (Kate Winslet, indicada ao Oscar de Melhor Atriz) é uma mãe infeliz no casamento que tenta se enturmar ao grupo de mulheres local. Elas se encontram todo dia no playground para levar os filhos pequenos para brincar, fazer fofocas e, o ponto alto do dia, fantasiar sobre o único pai que leva o filho brincar lá. Ele é Brad (Patrick Wilson), que é formado em Direito mas não conseguiu passar no exame da ordem dos advogados por dois anos seguidos. Assim, é ele quem fica em casa e cuida do filho pequeno enquanto sua esposa, a bela Kathy (Jennifer Connelly), é uma documentarista que trabalha fora e sustenta a casa. Sarah e Brad acabam se aproximando e passam a se ver todos os dias na piscina municipal, onde vivem uma espécie de vida paralela, felizes e livre de problemas, com seus filhos se tornando amigos enquanto os pais vão ficando cada vez mais próximos. Em um dia de tempestade, os dois acabam transando enquanto as crianças dormem tranquilamente, e o relacionamento passa de platônico a físico.
 

Todos os personagens são falhos de alguma forma. Sarah não é má pessoa, mas está mais preocupada com a própria infelicidade do que com a filha, que trata de modo frio e distante. Brad se mantém com o dinheiro da esposa e embora esteja claro que ele não quer se tornar um advogado, mantém a impressão de que está estudando para o exame da ordem, mas certamente ele irá ser reprovado novamente. A esposa Kathy usa do poder que tem em casa para tentar controlar a vida de Brad e é tão ligada ao filho que não dorme com o marido há meses. E há Ronnie (Jackie Earle Haley, muito bem no papel e indicado ao Oscar de Melhor Coadjuvante), o ex-condenado que ainda mora com a velha mãe e é hostilizado por toda a vizinhança e principalmente por Larry (Noah Emmerich), um policial aposentado que, sentindo falta do trabalho na polícia, só pensa em prender Ronnie.

 

O filme é longo e lento, mas estranhamente hipnótico e fascinante de se ver. As interpretações são soberbas e Kate Winslet está especialmente bem no papel (tendo que tentar se passar por “feia” e “não atraente” a seus próprios olhos, principalmente quando se compara com a personagem de Connelly). O título original, “Little Children”, é perfeito pois se refere mais ao comportamento imaturo dos adultos do que das várias crianças que povoam o filme. Quem é mais “pervertido”, afinal, o condenado perseguido pela vizinhança ou o policial? Sarah está tentando lutar pela própria felicidade ou só quer uma aventura com o vizinho?

 

O final não é exatamente o esperado e, a princípio, pode parecer meio “decepcionante”. Eu diria que ele se encaixa com o tom geral do filme. Frio, seco e cínico, mas sempre fascinante.

João Solimeo
28/01/2007

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