Difícil de descrever
e incômodo de se assistir, “Pecados Íntimos” é mais um filme que
chega com os indicados ao próximo Oscar. É uma visão
sombria e ao mesmo tempo irônica da típica vizinhança de classe
média americana. Dirigido por Todd Field e baseado no livro de Tom
Perrota, o filme tem um narrador que, de um modo distante e
desapaixonado, vai descrevendo os acontecimentos como um locutor de
algum documentário sobre a natureza. Estamos no leste americano, em
um pequeno condado para onde se mudou um homem recém libertado da
prisão, onde serviu por uma acusação de “atentado ao pudor”. O homem
gostava de se “exibir” para meninas pequenas e agora representa uma
ameaça à paz e tranqüilidade locais.
Sarah (Kate Winslet,
indicada ao Oscar de Melhor Atriz) é uma mãe infeliz no casamento
que tenta se enturmar ao grupo de mulheres local. Elas se encontram
todo dia no playground para levar os filhos pequenos para brincar,
fazer fofocas e, o ponto alto do dia, fantasiar sobre o único pai
que leva o filho brincar lá. Ele é Brad (Patrick Wilson), que é
formado em Direito mas não conseguiu passar no exame da ordem dos
advogados por dois anos seguidos. Assim, é ele quem fica em
casa e cuida do filho pequeno enquanto sua esposa, a bela Kathy
(Jennifer Connelly), é uma documentarista que trabalha fora e
sustenta a casa. Sarah e Brad acabam se aproximando e passam a se
ver todos os dias na piscina municipal, onde vivem uma espécie de
vida paralela, felizes e livre de problemas, com seus filhos se
tornando amigos enquanto os pais vão ficando cada vez mais próximos.
Em um dia de tempestade, os dois acabam transando enquanto as
crianças dormem tranquilamente, e o relacionamento passa de
platônico a físico.
Todos os
personagens são falhos de alguma forma. Sarah não é má pessoa, mas
está mais preocupada com a própria infelicidade do que com a filha,
que trata de modo frio e distante. Brad se mantém com o dinheiro da
esposa e embora esteja claro que ele não quer se tornar um advogado,
mantém a impressão de que está estudando para o exame da ordem, mas
certamente ele irá ser reprovado novamente. A esposa Kathy
usa do poder que tem em casa para tentar controlar a vida de Brad e
é tão ligada ao filho que não dorme com o marido há meses. E há
Ronnie (Jackie Earle Haley, muito bem no papel e indicado ao Oscar
de Melhor Coadjuvante), o ex-condenado que ainda mora com a velha
mãe e é hostilizado por toda a vizinhança e principalmente por Larry
(Noah Emmerich), um policial aposentado que, sentindo falta do
trabalho na polícia, só pensa em prender
Ronnie.
O filme é longo e
lento, mas estranhamente hipnótico e fascinante de se ver. As
interpretações são soberbas e Kate Winslet está especialmente bem no
papel (tendo que tentar se passar por “feia” e “não atraente” a seus
próprios olhos, principalmente quando se compara com a personagem de
Connelly). O título original, “Little Children”, é perfeito pois se
refere mais ao comportamento imaturo dos adultos do que das várias
crianças que povoam o filme. Quem é mais “pervertido”, afinal, o
condenado perseguido pela vizinhança ou o policial? Sarah está
tentando lutar pela própria felicidade ou só quer uma aventura com o
vizinho?
O final não é
exatamente o esperado e, a princípio, pode parecer meio
“decepcionante”. Eu diria que ele se encaixa com o tom geral do
filme. Frio, seco e cínico, mas sempre fascinante.