
Ponto Final    
(Match Point - EUA/UK - 2005)
por
João Solimeo
Woody Allen tem 71
anos. E há mais de trinta tem feito pelo menos um filme por ano, com qualidade
variável, mas sempre interessantes. Ele está de volta com "Ponto Final", em que
muda do tradicional cenário de Nova York para Londres e investe em um filme mais
sério do que suas comédias (que sempre tinham um toque de drama, aliás). "Ponto
Final" mostra um diretor em plena forma. Fazia certo tempo que Allen não dirigia
um filme que combinasse precisão técnica com um roteiro redondo e intrigante, do
próprio Allen.
Há algumas pitadas de
Hitchcock em "Ponto Final" mas, apesar de haver um crime na trama, não vá ao
cinema esperando um filme de suspense tradicional. E há alguma influência de Tom
Ripley (o personagem de Patricia Highsmith vivido no cinema por Matt Damon e
John Malkovich) em Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers), um jovem tenista
irlandês que abandonou as quadras e encontra emprego em Londres como instrutor
em um clube de tênis da alta sociedade. É lá que ele conhece Tom Hewett (Mathew
Goode) e sua irmã Chloe (Emily Mortimer). Seus bons modos e boa aparência
conquistam a rica família Hewett, e Chris começa a freqüentar a casa, a
acompanhá-los à ópera e inicia um romance com Chloe. Esta se apaixona
rapidamente pelo rapaz e consegue que seu pai (o ótimo Brian Cox) lhe arranje um
bom emprego nos escritórios da família, onde ele começa a subir rapidamente.
Tudo parece estar dando certo para Chris, mas há um problema na forma de uma
bela atriz chamada Nola (Scarlett Johansson), que é noiva de Tom Hewett, por
quem ele se sente atraído à primeira vista. Pudera, Johansson está absolutamente
radiante neste filme, mesmo que seu talento, por vezes, não se equipare à
beleza. Os dois começam um romance escondido que vai trazer problemas a todos.
Woody
Allen constrói o filme passo a passo, e é como se os espectadores também fossem
se tornando parte da família. A troca de Nova York por Londres é interessante e
a cidade está linda pelos olhos de Allen. Ele também trocou suas tradicionais
trilhas de jazz por trechos de ópera, e cada personagem tem seu tema próprio. A
própria estrutura do filme, aliás, se assemelha a uma ópera, com os personagens
sendo apresentados, reencontros improváveis (mas aceitos dentro do filme)
acontecendo e um clima tenso se formando no ar. O filme é elegantemente dirigido
e tem uma bela fotografia assinada por Remi Adefarasin. Mesmo sendo um drama, há
também espaço para momentos de humor. Allen faz uma grande homenagem às óperas
clássicas e, de leve, dá uma cutucada em um musical assinado pelo "rei da
Broadway" Andrew Lloyd-Webber. Há também um momento curioso para os brasileiros
quando os personagens do filme resolvem ir ao cinema assistir "Diários
de Motocicleta", de Walter
Salles. Scarlett Johansson em um momento chama Rhys-Meyers de "Sr. Harris",
que era o sobrenome do personagem de Bill Murray em "Encontros
e Desencontros".
É só uma pena que,
conforme vai se aproximando do final, o roteiro se torne muito semelhante a
"Crimes e Pegados", outro grande filme que Allen fez em 1989, o que torna "Ponto
Final" um pouco previsível. Mas é um prazer ver Woody Allen em plena forma, e
todo o elenco está muito bem, em um filme inteligente e bem feito. O roteiro de
Allen está indicado ao Oscar (a única indicação do filme, aliás, uma
injustiça).
João Solimeo
fevereiro de 2006
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