Prenda-me se for capaz

(Catch me if you can - EUA 2002)

por João Solimeo

De vez em quando na vida de um cineasta ele decide mudar um pouco seu estilo e decide fazer algo mais leve, só por diversão. É isto que acontece com este filme de Steven Spielberg. Ele é "Prenda-me se for capaz", uma espécie de homenagem a tempos mais glamourosos tanto no cinema quanto na vida americana em geral. Há um esforço consciente na produção em nos transportar para as produções dos anos sessenta. Da abertura estilo Saul Bass (desenhista que fazia as principais aberturas para Alfred Hitchcock), à música estilo pop/jazz de John Williams (soando à Henry Mancini) e fotografia colorida em tons pasteis. Há um quê de Blake Edwards no filme, que lembra um pouco produções como "A Pantera Cor de Rosa", em que um policial teimoso perseguia sem descanso um vilão boa pinta e charmoso.

O papel do "vilão" (na verdade, o "herói" da história) cabe à Leonardo DiCaprio, interpretando Frank Abagnale Jr., um adolescente que, através da astúcia e da cara bonita, se transformou em um dos maiores falsários da história do crime nos EUA. Frank é filho de um ex combatente da II Guerra Mundial, interpretado de maneira brilhante por Christopher Walken, e de uma francesa que o pai trouxe da Europa depois da guerra. A família parece ir muito bem até que o pai de Frank começa a ter problemas financeiros. A mãe então resolve se divorciar para se casar com um rico advogado.

O jovem Frank, que já tinha uma tendência para a vigarice (aos 16 anos ele se fez passar por professor substituto de francês, durante uma semana, na nova escola em que estudava), resolve fugir e vai para Nova York com a roupa do corpo e um talão de cheques no bolso. Aos poucos ele começa a soltar vários cheques sem fundo que começam a voltar, o que o força a começar a bolar maneiras de falsificar sua identidade de maneira cada vez mais convincente. Isso o leva a se passar por co-piloto da companhia aérea Pan-Am. O filme mostra os pilotos de avião como se fossem semi-deuses descidos à Terra, com pessoas pedindo autógrafos em saguões de hotéis e lindas aeromoças caindo aos seus pés. Frank aprende tudo que pode sobre a profissão e consegue um uniforme da própria Pan-Am, que usa para viajar de graça como convidado em outras companhias aéreas. O disfarce também serve, claro, para que ele possa descontar cheques falsificados cada vez mais altos nos bancos de Nova York, Miami e país afora.

Essa atividade criminosa começa a chamar a atenção do FBI e do investigador Carl Hanratty, interpretado de maneira intrigante por Tom Hanks, em um papel pouco usual em sua carreira (imagino que, há uns dez anos, Hanks poderia estar fazendo o papel de DiCaprio).

Outra coisa interessante no filme é que ele nos remete à uma época mais romântica, menos tecnológica, que tanto favorecem os crimes de Frank quanto complicam a vida de Hanratty. Afinal, na época os cheques não passavam de papéis sem muita proteção, com no máximo o nome do banco e alguns números de identificação. Frank chega a falsificar cheques de pagamento da Pan-Am colando neles adesivos tirados de aviões de brinquedo. Com estes cheques, muita lábia (e o rosto de Leo DiCaprio), Frank seduzia as caixas de banco com quem aprendia mais e mais sobre como os cheques eram fabricados, processados e compensados. Mas os cerco de Carl Hanratty começa a apertar, e Frank passa de "piloto" da Pan-Am a "médico" em Atlanta, e depois para "advogado" em New Orleans, sempre com o policial em seu encalço.

Apesar do estilo diferente, a direção de Spielberg é segura e praticamente invisível. Apoiado por um roteiro redondo e leve, o diretor parece ter se colocado de lado e deixado as coisas rolarem por si próprias. A recriação de época do filme é brilhante e merece destaque. Há cenas passadas na Nova York de 40 anos atrás com carros, figurantes e até o prédio da Pan-Am, depois Metlife, ao final da Park Avenue. O elenco é seguro e competente, com coadjuvantes ótimos como o já citado Christopher Walken (candidato ao Oscar de coadjuvante) e Martin Sheen, famoso na TV como o presidente americano da série "The West Wing". Falando em Oscar, o filme foi curiosamente esquecido pela academia. Não que ele seja uma obra prima, mas em um ano fraco como 2002 ele merecia atenção maior.

Um bom filme, com diversão garantida. E que passa rapidinho, apesar das mais de duas horas de diversão, aliás, duração.

João Solimeo
março, 2003

 

                             *                           *                                 *

Você concorda com a crítica? Discorda? Dê sua opinião em nosso FÓRUM!

<<< Câmera Escura

 

 

 

 

 

 

 

 

© 2004 by João Solimeo