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Quem bate à minha
porta?     (Who´s that knocking at my door - EUA -
1969)
por João Solimeo
Em 1965 um
jovem estudante de cinema chamado Martin Scorsese iria atrair a
atenção de professores e críticos com seu trabalho singular.
Fanático por cinema, asmático, religioso e tímido, o morador do
bairro Little Italy, em Nova York lançava seu primeiro filme, um
drama autobiográfico em preto e branco chamado originalmente de
"Bring on the dancing girls". O filme contava com um jovem ator que
havia respondido a um anúncio (e trabalhado de graça) chamado Harvey
Keitel, que seria o alter-ego de Scorsese neste e, mais tarde, em
"Caminhos Perigosos" (Mean Streets, 1973). Com o passar dos anos e
arrumando dinheiro conforme podia, Scorsese faria versões estendidas
de seu filme estudantil, que foi chamado de "I call it first" em
1967, quando atraiu a atenção de um jovem crítico chamado Roger
Ebert e exibido no Festival de Chicago. Finalmente, em 1969, o filme
recebeu mais dinheiro e a promessa de um lançamento limitado nos
cinemas, desde que Scorsese, a pedido dos exibidores, acrescentasse
mais cenas de nudez e sexo ao filme. O resultado é "Quem bate à
minha porta?" ("Who´s that knocking at my door", 1969), uma pequena
obra prima que pode ser visto agora em DVD graças ao lançamento do
box "Coleção Martin Scorsese".
Harvey Keitel é J.R., um rapaz desempregado que
mora em Little Italy e passa o tempo com os amigos andando de
carro, bebendo no bar ou simplesmente andando pela cidade. Um
dia ele conhece na balsa para Staten Island uma jovem bonita e
atraente (Zina Bethune) que está lendo uma revista francesa de
cinema. Scorsese faz uma sequência inteira praticamente sem cortes,
com a câmera se movendo entre o rapaz e a moça conforme os dois
começam a conversar e a se conhecer melhor. O assunto, claro, é
cinema, John Wayne e o filme "Rastros de Ódio", em um longo
diálogo que parece improvisado mas, conforme os extras do DVD
mostram, não é.
A montagem
do filme não é linear e as passagens entre o rapaz e a moça se
intercalam com sequências de J.R. com os amigos. Como quase todo
primeiro filme, este é um dos mais autobiográficos da carreira de
Scorsese. A vida em Little Italy e o tema da religião católica estão
presentes o tempo todo. J.R. ama a garota mas não consegue
transar com ela porque ele divide as mulheres do mundo entre as
"santas" (ou virgens) e as depravadas. Há uma longa sequência
ao som de "The End", dos The Doors, em que J.R. imagina (ou não)
vários encontros com prostitutas ou moças "fáceis"
(a sequência, muito bem filmada e editada, foi criada para dar
mais "pimenta" e cenas de nudez ao filme). O problema é que a
garota, inteligente e universitária, é uma mulher de verdade e,
provavelmente, está longe de ser a "santa" imaginada pela educação
católica de J.R., que exige que uma mulher para se casar tenha que
ser virgem. A garota acaba contando a J.R. um fato sobre seu passado
que pode por fim a todo relacionamento.
Mesmo com a
produção estudantil e a falta de recursos, já se pode notar neste
primeiro filme as técnicas e a genialidade que
Scorsese desenvolveria mais tarde. Há uma sequência passada em
uma festa que se resume à trilha sonora de rock e longas e repetidas
passagens de câmera mostrando J.R. e os amigos, e o resultado é
fantástico. Há por todo o filme um curioso uso de fusões de imagem e
câmera lenta e a fotografia em preto e branco reflete a crueza
e o realismo da história.
Um grande
primeiro filme que se torna mais acessível agora, felizmente, com o
lançamento em DVD.
ps: o box
Coleção Martin Scorsese ainda contém "Caminhos Perigosos", "Alice
não mora mais aqui" e "Depois de Horas", que eu pretendo comentar em
artigos futuros.
ps2: veja
meu video "Martin
Scorsese - O Homem com a Câmera", documentário de nove
minutos.
João
Solimeo 27/12/2006
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