Rocky Balboa 
(EUA - 2006)

por João Solimeo

Sylvester Stallone é um caso singular na história do cinema americano. Nos anos 70 o jovem ator bateu à porta de vários estúdios com um roteiro sobre um boxeador bastante parecido com ele mesmo. Tão parecido que ele insistia que só venderia o roteiro caso pudesse também fazer o papel principal. O roteiro agradou aos estúdios, mas ninguém queria dar a Stallone o papel de Rocky Balboa. Stallone era um desconhecido, não era bonito, falava com uma voz rouca e era limitado como ator. Mas Stallone insistiu até conseguir o que queria, e o filme “Rocky”, dirigido por John G. Avildsen em 1976 conquistou o público e levou o Oscar de Melhor Filme naquele ano. Stallone, por incrível que possa parecer hoje, foi indicado ao Oscar de Melhor Ator e Roteirista e se transformou em um astro da noite para o dia. Rocky entrou para o imaginário americano e seguiu carreira em uma série de continuações inferiores escritas e dirigidas por Stallone, que entrou de cabeça no clima da Guerra Fria nos anos 80 e inclusive encenou uma luta Estados Unidos versus União Soviética em Rocky IV. Em 1990, parecia ter encerrado a carreira de Balboa em “Rocky V”, em que Rocky perdia todo o dinheiro e voltava para o mesmo bairro humilde da Filadélfia de onde havia saído.

 

E foi então que em pleno século XXI surgiram rumores de que Stallone voltaria com mais um “Rocky”, o que foi recebido como algum tipo de piada ou jogada caça níqueis dos estúdios. O filme, chamado simplesmente de “Rocky Balboa”, chega agora aos cinemas e é uma boa surpresa. E é mais uma prova de que Stallone sabe se reinventar quando necessário. Assim como o ator, o filme mostra Rocky como um ex-lutador de quase 60 anos que tem certa fama, é reconhecido na rua, mas é considerado uma espécie de dinossauro do milênio passado. Ele é dono de um pequeno restaurante italiano chamado “Adrian´s”, em homenagem a sua esposa (Thalia Shire), que morreu há alguns anos (quem não se lembra da famosa cena de Stallone, todo ensangüentado ao final de “Rocky”, gritando “Adriaaaan!”). “Rocky Balboa” começa justamente no aniversário da morte de Adrian, e Rocky está triste e nostálgico. Stallone se aproveita do recurso para fazer uma viagem ao passado de Rocky e, junto com o cunhado e amigo Paulie (Burt Young, muito bem no filme) dá uma volta na vizinhança se lembrando dos velhos tempos com a esposa. “O tempo passa rápido demais”, diz Rocky/Stallone.

 

É então que um canal de esportes faz uma “luta virtual” entre Rocky Balboa e o atual campeão dos pesos pesados, Mason Dixon (Antonio Tarver) e o computador diz que, se os dois pudessem lutar quando estavam no auge, Rocky sairia vencedor. Era para ser apenas uma simulação, mas a luta virtual acaba mexendo com o imaginário do público e dos dois lutadores. Não demora muito para os empresários descobrirem que poderiam ganhar muito dinheiro com uma luta de “exibição” entre os dois pugilistas, e o cenário está marcado para a volta de Rocky Balboa. Para alguém aparentemente de poucas palavras, o Stallone roteirista gosta de escrever longos monólogos, cheios de lições de vida, ditos por todos os personagens. Pode ser “brega” em alguns momentos, sim, mas a história de Rocky sempre foi uma espécie de fábula moralista e não se pode deixar de embarcar nela. E é também impossível não se emocionar quando a famosa trilha de Bill Conti começa a tocar o “tema de Rocky”, com a infalível seqüência de treinamento que mostra os dois pugilistas se preparando para o combate. A famosa cena de Rocky subindo os degraus do museu de arte de Filadélfia já entrou para o imaginário coletivo e o público do cinema lotado vibrou quando Stallone/Rocky, aos 60 anos, a recria neste filme (preste atenção também para as cenas reais mostradas durante os créditos finais, mostrando as pessoas comuns imitando Rocky no mesmo local).

 

O Stallone diretor inova (e também exagera nos efeitos) usando câmeras digitais para recriar o espetáculo de televisão que é toda a parte final do filme, que é a luta em Las Vegas de Rocky contra Dixon. É de se imaginar que a seqüência toda foi filmada quase que em tempo real, diante de uma platéia de verdade que, a todos pulmões, grita o nome do boxeador. As imagens digitais e a edição ágil dão um ar de realidade muito interessante, como se realmente estivéssemos testemunhando um combate real (Mike Tyson chega a aparecer como figurante na platéia, insultando o campeão). Quem conhece a série Rocky sabe exatamente como o filme vai terminar, mas isso não tem a menor importância.

 

A volta de Rocky, enfim, é triunfal e emocionante, mas não se pode deixar de fazer certas considerações. É curioso como, praticamente ao mesmo tempo, foi feito e lançado “À Procura da Felicidade”, que também mostra a história de um “derrotado” que chega ao triunfo na base de muita batalha e determinação. Coincidentemente, a frase “the pursuit of happiness” (título original do filme com Will Smith) é citada literalmente no filme de Stallone, e é de se imaginar se o cinema americano não estaria vivendo uma espécie de retorno ideológico aos anos 80 da “Era Reagan”, agora sob a batuta conservadora de George W. Bush. De fato, Stallone planeja resgatar outra figura marcante da época, o brutamontes “Rambo”, o exército de um homem só que mostrava a superioridade americana e destruía todos os inimigos que encontrava. Outras figuras da época, como o policial Axel Foley vivido por Eddie Murphy, John McLane de Bruce Willis e até o menos político arqueólogo Indiana Jones, sexagenário, também estão marcados para retornar às telas nos próximos anos. Nostalgia ou ideologia?

 

De qualquer forma, “Rocky Balboa” surpreende como um bom filme e recoloca Sylvester Stallone no mapa, para o bem ou para o mal.

 

João Solimeo
04/02/2007

                             *                           *                                 *

Você concorda com a crítica? Discorda? Dê sua opinião em nosso FÓRUM!

<<< Câmera Escura

 

 

 

 

 

 

 

 

© 2004-2007 by João Solimeo