Sylvester Stallone é
um caso singular na história do cinema americano. Nos anos 70 o
jovem ator bateu à porta de vários estúdios com um roteiro sobre um
boxeador bastante parecido com ele mesmo. Tão parecido que ele
insistia que só venderia o roteiro caso pudesse também fazer o papel
principal. O roteiro agradou aos estúdios, mas ninguém queria dar a
Stallone o papel de Rocky Balboa. Stallone era um desconhecido, não
era bonito, falava com uma voz rouca e era limitado como ator. Mas
Stallone insistiu até conseguir o que queria, e o filme “Rocky”,
dirigido por John G. Avildsen em 1976 conquistou o público e levou o
Oscar de Melhor Filme naquele ano. Stallone, por incrível que possa
parecer hoje, foi indicado ao Oscar de Melhor Ator e Roteirista e se
transformou em um astro da noite para o dia. Rocky entrou para o
imaginário americano e seguiu carreira em uma série de continuações
inferiores escritas e dirigidas por Stallone, que entrou de cabeça
no clima da Guerra Fria nos anos 80 e inclusive encenou uma luta
Estados Unidos versus União Soviética em Rocky IV.
Em 1990, parecia ter encerrado a carreira de Balboa
em “Rocky V”, em
que Rocky perdia todo o dinheiro e voltava para o
mesmo bairro humilde da Filadélfia de onde havia saído.
E foi então que em
pleno século XXI surgiram rumores de que Stallone voltaria com mais
um “Rocky”, o que foi recebido como algum tipo de piada ou jogada
caça níqueis dos estúdios. O filme, chamado simplesmente de “Rocky
Balboa”, chega agora aos cinemas e é uma boa surpresa. E é mais uma
prova de que Stallone sabe se reinventar quando necessário. Assim
como o ator, o filme mostra Rocky como um ex-lutador de quase 60
anos que tem certa fama, é reconhecido na rua, mas é considerado uma
espécie de dinossauro do milênio passado. Ele é dono de um pequeno
restaurante italiano chamado “Adrian´s”, em homenagem a sua esposa
(Thalia Shire), que morreu há alguns anos (quem não se lembra da
famosa cena de Stallone, todo ensangüentado ao final de “Rocky”,
gritando “Adriaaaan!”). “Rocky Balboa” começa justamente no
aniversário da morte de Adrian, e Rocky está triste e nostálgico.
Stallone se aproveita do recurso para fazer uma viagem ao passado de
Rocky e, junto com o cunhado e amigo Paulie (Burt Young, muito bem
no filme) dá uma volta na vizinhança se lembrando dos velhos tempos
com a esposa. “O tempo passa rápido demais”, diz Rocky/Stallone.
É então
que um canal de esportes faz uma “luta virtual” entre Rocky Balboa e
o atual campeão dos pesos pesados, Mason Dixon (Antonio Tarver) e o
computador diz que, se os dois pudessem lutar quando estavam no
auge, Rocky sairia vencedor. Era para ser apenas uma simulação, mas
a luta virtual acaba mexendo com o imaginário do público e dos dois
lutadores. Não demora muito para os empresários descobrirem que
poderiam ganhar muito dinheiro com uma luta de “exibição” entre os
dois pugilistas, e o cenário está marcado para a volta de Rocky
Balboa. Para alguém aparentemente de poucas palavras, o Stallone
roteirista gosta de escrever longos monólogos, cheios de lições de
vida, ditos por todos os personagens. Pode ser “brega” em
alguns momentos, sim, mas a história de Rocky sempre foi uma espécie
de fábula moralista e não se pode deixar de embarcar nela. E é
também impossível não se emocionar quando a famosa trilha de Bill
Conti começa a tocar o “tema de Rocky”, com a infalível seqüência de
treinamento que mostra os dois pugilistas se preparando para o
combate. A famosa cena de Rocky subindo os degraus do museu de arte
de Filadélfia já entrou para o imaginário coletivo e o público do
cinema lotado vibrou quando Stallone/Rocky, aos 60 anos, a recria
neste filme (preste atenção também para as cenas reais mostradas
durante os créditos finais, mostrando as pessoas comuns imitando
Rocky no mesmo local).
O Stallone diretor
inova (e também exagera nos efeitos) usando câmeras digitais para
recriar o espetáculo de televisão que é toda a parte final do filme,
que é a luta em
Las Vegas de Rocky contra Dixon. É de se imaginar
que a seqüência toda foi filmada quase que em tempo real, diante de
uma platéia de verdade que, a todos pulmões, grita o nome do
boxeador. As imagens digitais e a edição ágil dão um ar de realidade
muito interessante, como se realmente estivéssemos testemunhando um
combate real (Mike Tyson chega a aparecer como figurante na platéia,
insultando o campeão). Quem conhece a série Rocky sabe exatamente
como o filme vai terminar, mas isso não tem a menor importância.
A volta de Rocky,
enfim, é triunfal e emocionante, mas não se pode deixar de fazer
certas considerações. É curioso como, praticamente ao mesmo tempo,
foi feito e lançado “À Procura
da Felicidade”, que também mostra a história de um “derrotado”
que chega ao triunfo na base de muita batalha e determinação.
Coincidentemente, a frase “the pursuit of happiness” (título
original do filme com Will Smith) é citada literalmente no filme de
Stallone, e é de se imaginar se o cinema americano não estaria
vivendo uma espécie de retorno ideológico aos anos 80 da “Era
Reagan”, agora sob a batuta conservadora de George W. Bush. De fato,
Stallone planeja resgatar outra figura marcante da época, o
brutamontes “Rambo”, o exército de um homem só que mostrava a
superioridade americana e destruía todos os inimigos que encontrava.
Outras figuras da época, como o policial Axel Foley vivido por Eddie
Murphy, John McLane de Bruce Willis e até o menos político
arqueólogo Indiana Jones, sexagenário, também estão marcados para
retornar às telas nos próximos anos. Nostalgia ou ideologia?
De qualquer forma,
“Rocky Balboa” surpreende como um bom filme e recoloca Sylvester
Stallone no mapa, para o bem ou para o mal.