
O Senhor das Armas    
(Lord of War - EUA - 2005)
por
João Solimeo
"A primeira vez que você vende uma
arma" - diz Yuri Orlov (Nicolas Cage) - "é como a primeira vez em que se faz
sexo. É excitante, mas você não sabe direito o que está fazendo e termina muito
depressa". Yuri também nos informa que há no mundo 550 milhões de armas
portáteis, uma para cada doze habitantes do planeta. O problema, segundo ele, é
descobrir como vender para as outras onze. Yuri Orlov é um traficante de armas
cuja vida acompanhamos desde os nos 80 até o presente. "O Senhor das Armas" foi
escrito e dirigido por Andrew Niccol, que tem a rara habilidade de fazer filmes
com mensagem e significados profundos. Em "Gattaca" ele lidou com o problema da
manipulação genética e as implicações sociais que o fato poderá trazer no
futuro. No maravilhoso "O Show de Truman" (e no decepcionante "S1M0NE") ele
tratou na manipulação da mídia e da dependência das pessoas à televisão e às
celebridades. Em "O Senhor das Armas" ele toma uma posição anti-bélica tão
explícita que fiquei imaginando se o Tribunal Superior Eleitoral não iria
proibir o filme, visto estarmos próximo do plebiscito sobre a proibição da venda
de armas no Brasil (embora o filme possa servir de argumento para os dois lados,
já que lida com o tráfico ilegal de armas, que pode aumentar caso o estatuto
seja aprovado).
O filme começa com a câmera entrando em
uma máquina que faz munição e se tornando uma bala de rifle AK-47. A
extraordinária seqüência continua e seguimos todo o trajeto desta bala da
fábrica até parar dentro do rifle de um soldado em algum lugar do mundo. Ela é
disparada e acompanhamos sua trajetória até atingir a cabeça de um garoto. A
cena é forte mas é clara: armas matam pessoas. E as armas são um dos negócios
mais lucrativos do planeta. Yuri tem uma filosofia bem simples (ou simplista) a
respeito de sua atividade: se ele não o fizesse, algum outro o faria. Segundo
ele, suas mãos estão limpas já que ele apenas fornece as armas e não é
responsável pelo que as pessoas farão com elas.
"Senhor das Armas" é narrado por
Nicolas Cage e dirigido por Niccol em um estilo que me lembrou "Os Bons
Companheiros", de Martin Scorsese. A família de Yuri é composta por imigrantes
ucranianos que abriram um restaurante em Nova York. Um dia Yuri testemunha um
assassinato realizado pela máfia russa e fica fascinado com a idéia de vender
armas. O lucro seria garantido porque, segundo ele, ele estaria suprindo as
pessoas com uma de suas necessidades básicas, assim quanto comer. Yuri convence
o irmão Vitaly (Jared Leto, de "Alexandre")
a entrar no negócio e eles partem pelo mundo fornecendo armas a todo exército
que quisesse comprar. Yuri se gaba pelo fato de ter vendido para todos, menos o
da Salvação, mas Vitaly não está tão certo quanto às questões morais envolvidas.
Andrew Niccol não se intimida e procura sempre mostrar as cruéis conseqüências
do comércio de Yuri. Nós vemos crianças sendo crivadas de balas por um pelotão
de fuzilamento enquanto Yuri está ocupado pegando do chão um maço de dinheiro
que voou. Nicolas Cage (que é um ator irregular, variando de canastrão a grande
ator, dependendo do filme) consegue achar o tom certo para um personagem difícil
e moralmente desprezível.
A
cronologia do filme nos leva dos anos 80, passando pela Guerra Fria, pela queda
do Muro de Berlim e da União Soviética, pela chegada do capitalismo ao Leste
Europeu e a exploração econômica da pobreza na África. Aliás, "O Senhor das
Armas" serve como uma espécie de complemento para "O Jardineiro Fiel", outro
filme com mensagem política forte que está nos cinemas no momento. Chega a ser
assustador imaginar que as armas vistas em "Jardineiro" podem ter sido
fornecidas por tipos como o Yuri de "Senhor das Armas". É também assustador
perceber como marcos históricos como o final da Guerra Fria serviram aos
propósitos do tráfico mundial de armas. "Não há nada melhor para um traficante",
diz Yuri, "do que um lugar cheio de soldados descontentes e com acesso a um
monte de armamento". Através de muita lábia e subornos gordos, Yuri tem à sua
disposição um arsenal preparado por anos para ser usado em uma guerra contra o
Ocidente que nunca ocorreu. De rifles AK-47 (o maior produto de exportação da
Rússia depois da Guerra Fria) a helicópteros, a única coisa que Yuri tem que se
preocupar é com outros traficantes como Simeon (Ian Holm) e com um agente
honesto da Interpol chamado Jack Valentine (Ethan Hawke, quase irreconhecível,
magro e malhado), que faria de tudo para prender Yuri, menos ir contra a lei.
O excelente roteiro ainda tem tempo de
incluir uma história de amor na forma de Ava (a bela Bridget Moynahan), uma
modelo que Yuri consegue conquistar mentindo sobre seus negócios e sua riqueza.
Os dois se casam e têm um filho pequeno. Em uma cena que diz muito sobre o
caráter de Yuri, nós o vemos jogando fora uma arma de brinquedo do filho,
enquanto em outro momento ele está vendendo um arsenal para o ditador da
Libéria, que tem soldados de pouco mais de 10 anos entre seus "homens". "Uma
bala de um garoto de 14 anos mata tanto quanto de um homem de 40", diz ele.
O final do filme é cínico e
infelizmente bastante plausível, e um letreiro diz que os maiores distribuidores
de armas do mundo são os Estados Unidos, o Reino Unido, a França, a China e a
Rússia. Os cinco países, a propósito, são os cinco membros permanentes do
Conselho de Segurança da ONU.
Grande filme, corajoso e um dos
melhores do ano.
João Solimeo
outubro de 2005
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