
Sinais
   
(Signs - EUA - 2002)
por João Solimeo
M. Night Shyamalan é um cineasta singular. Jovem, ele escreve, dirige e produz
seus filmes e parece ter uma percepção toda própria do que o público quer ver.
Ao mesmo tempo, ele consegue passar mensagens pessoais que chegam a ser
profundas ou mesmo polêmicas. Dado seu sucesso com o público, era de se esperar
que ele fizesse super produções megalomaníacas, cheias de efeitos especiais e
cenários caros.
Não é o caso de Shyamalan. O que tem feito o público ir aos montes ver seus
filmes é algo cada vez mais raro nos filmes de hoje: o roteiro intrigante,
geralmente culminado por um final inesperado. Foi assim que ele conquistou
milhões com o seu `O Sexto Sentido` (The Sixth Sense), que de simples (ou mesmo
simplista) história de fantasmas acabou se revelando uma discussão sobre a vida
e a morte e o que nos prende a essa existência ou não.
Em seu próximo filme, "Corpo Fechado"
(Unbreakable, no ótimo título original), novamente Shyamalan pegou um tema
aparentemente batido e esgotado, o nascimento de um super-herói, e transformou
em algo mais. O problema é que o filme não tinha os mesmos sustos de `O Sexto
Sentido`, o que repeliu grande parte do público. (Pessoalmente, considero `Corpo
Fechado` superior em muitos pontos, como a parte psicológica e a falta de apelos
e sustos fáceis).
Agora Shyamalan volta a conquistar o público fazendo uso de outro tema batido e
banal: a possível invasão da Terra por extraterrestres. Enquanto tal tema pode
gerar comédias de mau gosto como `Marte Ataca`, de Tim Burton, ou manifestos
fascistas patrióticos como `Independence Day`, de Roland Emmerich, M. Night
Shyamalan volta a usar de seu ponto de vista diferente para nos dar uma nova
visão do assunto.
O filme já começa de maneira misteriosa, com Grahan Hess (Mel Gibson) acordando
ao som de gritos de crianças. Estamos em uma típica fazenda pequena do interior
dos Estados Unidos. Hess corre para o quintal e lá encontra seu irmão Merril
(Joaquim Phoenix, de Gladiador), também parecendo confuso e preocupado. Os dois
correm para dentro do milharal e encontram a filha de Hess, Bo. `Você está no
meu sonho também?` - ela pergunta ao pai. Tudo parece estranho e fora de lugar.
Os cachorros estão latindo sem parar, o ar está pesado e Hess também encontra
seu filho Morgan parado em meio à plantação, olhando para frente, mudo. Hess
segue seu olhar e encontra uma estranha clareira. A câmera se afasta e, no
melhor estilo do antigo seriado `Além da Imaginação` (e do novo `Arquivo X`), a
clareira se revela parte de uma gigantesca forma geométrica desenhada no
milharal de Hess.
Uma grande influência em `Sinais` é, claramente, a televisão. Do clima de
seriado de ficção científica à maravilhosa trilha sonora de James Newton Howard,
claramente inspirado em Bernard Herrmann, o compositor preferido de Alfred
Hitchcock, `Sinais` parece prestar uma homenagem à velha TV. No filme estão
presentes personagens típicos desses seriados, como a policial compreensiva e
inteligente (Cherry Jones), o militar desconfiado e paranóico que parece falar
como quem está fazendo um discurso, o rapaz `mau elemento` da cidade, e um
padre.
Mas Shyamalan gosta de fazer as coisas à sua maneira, e aos poucos percebemos
que o padre é Mel Gibson. Sutilmente, sem revelar nada com pressa, o roteiro
acaba nos mostrando que Hess é um padre que perdeu a fé por causa de uma
tragédia pessoal e que agora vive isolado na fazenda acompanhado de seu casal de
filhos pequenos e do irmão. Aos poucos começamos a perceber que os `sinais` de
Shyamalan talvez não sejam apenas de um simples filme de ficção científica.
Assim como teve gente que acusou `O Sexto Sentido` de uma propagação das idéias
espíritas, `Sinais` parece trazer o tema da religião e do questionamento da fé
para as matinês dos cinemas.
O que nos leva à outra clara influência no filme: Steven Spielberg. Shyamalan
tinha sete anos quando `Contatos Imediatos do Terceiro Grau` (e Guerra nas
Estrelas, de Lucas), chegou aos cinemas e 12 anos quando `E.T. - O
Extraterrestre` conquistou o mundo. Há muito de `Contatos Imediatos` em
`Sinais`, como o cenário rural, os balanços de crianças e o clima que mistura
misticismo, terror e ficção científica. `E.T.` chega a estar presente em uma
seqüência que parece tirada plano a plano do filme de Spielberg, quando Mel
Gibson entra no milharal à noite, com uma lanterna, para investigar o que
estaria assustando o cachorro.
O
roteiro é muito inteligente e, característica de Shyamalan, leva tempo para se
apresentar e se desenvolver. Há vários `sinais` espalhados pela trama que acabam
se revelando importantes mais tarde, como a estranha mania da filha de Hess, Bo,
de largar vários copos de água tomados pela metade pela casa toda. A trilha está
presente nos momentos certos mas, mais importante ainda, ela está ausente na
medida certa, criando tensão em momentos em que qualquer coisa pode acontecer. É
notável que alguém com uma carreira tão curta como Shyamalan possa já ter criado
características próprias tão marcantes. Por exemplo, seu tipo de personagem
principal: introspectivo, marcado por algum tipo de tragédia e que parece não
estar aproveitando todo seu potencial. Suas crianças (outra influência de
Spielberg): fortes, decididas, capazes de atos heróicos e inteligentes. E seu
estilo: lento, intimista, capaz como poucos de criar momentos de tensão e
suspense com recursos simples, como em uma cena do filme em que a lâmpada é
quebrada e somos jogados no escuro sem saber o que está acontecendo.
Há também outra influência de Spielberg, mas de
forma contrária: enquanto a figura materna é fundamental na carreira de
Spielberg, em Shyamalan há uma forte relação entre filhos e seus pais, com as
mães ficando quase que em segundo plano (mesmo em Sexto Sentido, em que a figura
da mãe é importante, há uma relação de pai e filho entre Bruce Willis e o
garoto). Em `Sinais` acontece uma situação interessante, com o personagem de
Joaquim Phoenix fazendo um papel que é quase feminino na história, em
contraposição com a forte presença masculina representada por Mel Gibson.
Mas...e os extraterrestres? Pois é, com tantos temas e dramas para lidar, parece
até que eles estão colocados como coadjuvantes em seu próprio filme. E é
exatamente isso que acontece. Em seu livro `O Mundo Assombrado pelos Demônios`,
o famoso astrônomo Carl Sagan diz que os extraterrestres e os UFOS acabaram se
tornando os `demônios` do século vinte. É como se as pessoas, não tendo mais um
`Deus` em quem acreditar, acabassem criando deuses e demônios que viriam das
estrelas para salvá-los ou destruí-los.
Os `ETs` de `Sinais` são, na verdade, uma espécie de prova de fé para o
personagem de Mel Gibson, que chega a dizer em um momento `Não vou perder nem
mais um segundo de minha vida com orações`. 'Há dois tipos de pessoas', diz ele
ao irmão em um momento tenso do filme; 'existem as pessoas que acham que a sorte
existe e que tudo ocorre ao acaso, e há as que olham para aquelas luzes lá em
cima e vêem um milagre. Que tipo de pessoa você é?'
Ao contrário de `Independence Day`, com suas cenas de destruição em massa e
multidões em fuga, `Sinais` vai criando o suspense praticamente sem mudar de
cenário. Vemos apenas relances do que está acontecendo mundo afora pelas
reportagens da TV (de novo ela) e há um momento em que o personagem de Joaquim
Phoenix chega a citar `Guerra dos Mundos`. Esse é o nome de um famoso livro e
filme de ficção científica de H.G. Wells que ficou mais famoso ainda quando
Orson Welles aterrorizou metade dos EUA com uma falsa invasão de extraterrestres
que ele narrou pelo rádio na década de 30. Há momentos em que os personagens (e
até o espectador) chegam a se perguntar se tudo aquilo está acontecendo mesmo ou
é apenas um fenômeno de ilusão coletiva.
Chega até a ser uma pena que Shyamalan acabe por nos tirar qualquer dúvida com o
desfecho da história, que é decepcionante. Talvez houvesse uma maneira mais sutil de terminá-la, mas
de qualquer maneira ele consegue levar a cabo sua premissa inicial.
Um fato que pode explicar o sucesso do filme nos EUA, além do suspense, é o
atual estágio paranóico pelo qual passam os americanos, ainda sob o fantasma de
11 de Setembro. Assim como nos filmes de ficção científica da guerra fria, em
que os ETs não passavam de um simulacro para o `perigo vermelho` representado
pela União Soviética, diria que o clima de paranóia criado por Shyamalan acertou
em cheio os americanos pós World Trade Center, vendo inimigos e terroristas
escondidos em cada armário. Os aliens do filme têm a capacidade de atacar usando
um gás venenoso que pode matar suas vítimas, o que lembra muito a paranóia atual
dos americanos com armas químicas ou envelopes cheios de anthrax. Quanto a se
esconder no armário, quem viu o filme sabe do que estou falando.
João Solimeo
2002
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