|
 Sunshine    (Sunshine - EUA
- 2007)
por João Solimeo
Estamos no futuro. O físico Capa (Cillian
Murphy, o vilão de Batman Begins e Vôo Noturno) nos explica que o
Sol está morrendo e que a única esperança para a Humanidade é enviar
uma "faísca" nova para tentar reacender a velha estrela. Esta faísca
é uma bomba nuclear do tamanho da ilha de Manhattan, empurrada em
direção ao Sol pela nave "Icarus II" e seus oito tripulantes. Houve
uma "Icarus I", mas seu destino é desconhecido, e ela não havia
conseguido completar sua missão.
"Sunshine" não tem nada de novo. O ponto de
partida do roteiro (grupo de pessoas enviado para tentar salvar
a humanidade de alguma catástrofe cósmica) lembra meia
dúzia de filmes medianos de ficção científica feitos nos últimos
anos, como "O Núcleo" ou "Impacto Profundo". A boa notícia é que
"Sunshine" poderia ter facilmente caído no lugar comum e tentado ser
apenas um vídeo clipe disfarçado como "Armaggedon", por exemplo, com
edição de metralhadora e um monte de atores sarados. Este é
mais ambicioso e tenta seguir os passos de obras muito melhores como
o imortal "2001 - Uma Odisséia no Espaço", de Kubrick, ou o
eficiente "Alien - O Oitavo Passageiro", de Ridley Scott.
O roteiro de Alex Garland, dirigido por Danny Boyle,
também bebe no extraordinário livro "Red Mars", de Kim Stanley
Robinson (inclusive em uma surpresa que não vou
revelar).
Com uma premissa tão simples, resta ao roteiro
tentar criar conflitos para dar algum interesse ao filme, ou então
investir no lado psicológico dos personagens. Ao diretor resta criar
uma experiência visual que nos faça acreditar que estamos em uma
nave indo em direção ao centro do Sistema Solar, e ele é bem
sucedido. O filme (que teve um orçamento modesto comparado aos
valores de hoje) tem um visual extraordinário e belos efeitos
especiais. O Sol é personagem constante e há um curioso jogo visual
entre a figura dele e da gigantesca nave se aproximando com imagens
da retina dos olhos dos tripulantes. A estrela é como um
gigantesco olho observando a todos constantemente e isso tem efeitos
psicológicos na pequena tripulação, que está confinada em um
espaço fechado por meses seguidos.
Mesmo o psicólogo da equipe, Searle (Cliff
Curtis) está afetado pelo brilho da estrela e ele passa horas a
observando sob diferentes intensidades. Michelle Yeoh (maravilhosa)
é botânica e responsável pela geração de oxigênio e comida nos
jardins da nave. Há forte presença oriental na tripulação (o que faz
parecer, por momentos, que estamos assistindo a algum "animê"
japonês), como o capitão Kaneda (Hiroyuki Sanada) e o engenheiro e
cozinheiro Trey (Benedict Wong). Há o segundo em comando
Harvey (Troy Garity) e Mace (Chris Evans), do tipo
militar que quer seguir tudo segundo as regras. Cassie (Rose Byrne,
roubando a cena) talvez seja a mais humana do grupo. E há Capa,
interpretado por um Cillian Murphy geralmente associado a papéis de
vilão, e ele está bem em um personagem de “herói” relutante e
inseguro.
O roteiro peca por excesso, ou talvez por
interferências comerciais em se fazer um filme mais atraente para o
espectador comum. Há períodos devotados a momentos mais psicológicos
entrecortados por boas cenas de ação criadas, geralmente, por
problemas técnicos na nave. Mas há uma subtrama envolvendo a
localização da "Icarus I" que é uma faca de dois gumes. O filme,
assim como os personagens, parece em dúvida se continua seu caminho
em direção ao Sol ou se faz um desvio para investigar a antiga nave
perdida e cabe a Capa tomar a decisão. Todo mundo sabe qual seria a
decisão correta, mas mesmo assim ele (e o filme) tomam a decisão
errada. Ele por ser humano, mas o filme parece simplesmente precisar
de uma desculpa para poder se estender um pouco mais.
Visualmente o encontro entre as duas naves é belo e bem feito.
Mas é então que o filme começa a sofrer do que eu chamo de "a
síndrome de Alien", quando um bom roteiro psicológico resolve
se transformar em um simples filme de monstros. Assim, temos uma
parte final que se dedica a sustos fáceis, cenas passadas na
escuridão, uma ameaça desconhecida e muito
sangue.
Mesmo assim "Sunshine" é, dentro do que se
propõe, acima da média. Há belos momentos de pura poesia visual
(como o encontro com o planeta Mercúrio, correndo em frente da
fornalha solar abaixo) e interpretações convincentes.
João Solimeo 15/04/2007
*
*
*
Você concorda
com a crítica? Discorda? Dê sua opinião em nosso FÓRUM!
<<< Câmera
Escura |