domingo, 8 de junho de 2008

Edifício Master

"Edifício Master" venceu o prêmio de melhor documentário no Festival de Gramado de 2002. O diretor é Eduardo Coutinho, diretor de "Peões", documentário "irmão" de "Entreatos", de João Moreira Salles, que acompanhou a campanha de Lula à presidência, "Jogo de Cena" (que brinca com a questão realidade/ficção em um documentário), entre vários outros.

"Edifício Master" é um prédio no Rio de Janeiro que fica a um quarteirão da famosa Praia de Copacabana. Era de se esperar que um endereço tão "nobre" abrigasse apenas classe média alta mas o documentário serve para desmistificar muitas ilusões. O prédio abriga mais de duzentos apartamentos conjugados, com uma população de aproximadamente quinhentas pessoas, de todos os tipos. E é desta diversidade que Coutinho se serve para retratar o que é o coração deste documentário: os habitantes. O filme não é sobre o prédio, mas sobre o ser humano. O filme é formado por uma série de entrevistas francas dos mais variados tipos ao próprio Eduardo Coutinho que, com sua fala tranquila e perguntas certas, consegue retirar confissões impressionantes dos moradores. Engraçado como a presença da câmera não intimida os entrevistados. Diria até que o contrário acontece; a chance (e até a necessidade) de expressão destas pessoas é tão importante que elas se abrem para declarar ressentimentos reprimidos, idéias e desejos. Há um casal de idosos que, na superfície, parece estar bem, mas quando a entrevista começa a mulher começa a falar dos problemas de relacionamento que vêm acontecendo. Ela diz que não é ciumenta mas reclama do fato do companheiro ficar olhando para outras mulheres na rua. Cita também uma tentativa de suicídio (tema recorrente no documentário, como se vê em outras entrevistas) e os quinze abortos que já fez. Já um outro casal idoso é a imagem da felicidade. Juntos há treze anos, os dois se conheceram através de anúncios e estão muito bem.

Outro tema que se repete é o da gravidez adolescente. Há uma garota que veio de Belo Horizonte que conta que não teve infância, pois engravidou aos 14 anos, do primeiro homem que teve na vida. Ela conta como foi reprimida pelo pai superprotetor e como, hoje, vive como garota de programa. Ela fala do assunto de forma extremamente franca, até surpreendendo Coutinho. Diz que o trabalho é "nojento" e que tem que beber todas as noites para conseguir realizá-lo, mas que faz isso porque tem que sustentar a filha. Do outro lado do espectro, há o depoimento de uma jovem bonita e de classe alta que também engravidou cedo e foi expulsa pelo pai do apartamento grande em que morava para ir para o Master. Ela diz que no início o apartamento era "claustrofóbico", mas que hoje é sua casa. Diz também que, se pudesse, isolaria acusticamente o apartamento porque não aguenta a invasão sonora que vem dos outros moradores o tempo todo.

Há os artistas, como uma banda formada por dois músicos e um... quem é aquela figura? O terceiro membro do grupo fica o tempo todo parado, mudo, vestindo uma capa de chuva amarela e uma espécie de capacete extraterrestre. Há uma "apresentação" apaixonada "My Way", com Frank Sinatra, de um morador que já morou nos Estados Unidos e que hoje vive da pensão que recebe de lá. Há também uma professora de inglês que, apesar de bem articulada, não consegue encarar Coutinho nem a câmera durante a entrevista. Timidamente, ela recita uma poesia sua em inglês e mostra um quadro que pintou. Falando em quadros, uma pintora gosta de criar paisagens que vê pela janela, mas que são geograficamente "incorretos".

Coutinho não segue a cartilha "tradicional" do audiovisual em seus documentários. Ele tem horror aos "inserts", que são imagens usadas normalmente para exemplificar ou ilustrar alguma coisa que o entrevistado está dizendo. Nos comentários em áudio do DVD, um produtor puxa a orelha de Coutinho por não mostrar os retratos que uma senhora cita repetidamente em sua entrevista, mas Coutinho diz que isso não faz seu gênero. Como editor de imagens, confesso que também senti falta delas para ilustrar vários dos depoimentos, mas o resultado é muito interessante. Coutinho não quer fazer o óbvio, como mostrar uma cena da praia quando alguém está falando sobre a praia. O documentário é sobre as pessoas e suas histórias, e não sobre imagens. Edifício Master sequer tem uma tomada externa do edifício, o que é surpreendente e até revolucionário. Mesmo a ordem das entrevistas não segue uma lógica tradicional. O DVD, aliás, trás o recurso de assistir às entrevistas em ordem aleatória, criando novos documentários a cada exibição. O que fica de "Edifício Master" é a diversidade humana frente à vida, à morte e o fantasma cada vez mais presente da solidão. E o outro solitário pode esta apenas à distância de uma parede.

2 comentários:

F. Fachini disse...

kra, quanta informação em!!
Só me falta entender mais de cinema...
vc tem alguns desses filmes que você comenta no blog para eu ver?
faloww

João Solimeo disse...

Opa, tudo bom?
Bom, vários destes eu vi nos cinemas e logo estarão em DVD, ou já estão nas locadoras. Alguns deles eu tenho, provavelmente, hehe. "Entender de cinema" é principalmente, creio eu, assistir muito cinema, e não só os filmes de super-heróis (que eu também gosto).
Abraço.