domingo, 24 de dezembro de 2023

Resistência (The Creator, 2023)

Resistência (The Creator, 2023). Dir: Garreth Edwards. Belíssimo filme de ficção científica que é um sopro de ar fresco em meio a tantas versões de Star Wars ou filmes da Marvel dominando as telas. "Resistência" usa de muitas referências, claro, "Blade Runner", "Akira", "A.I" do Spielberg até mesmo "E.T.", mas é uma história totalmente original.
No futuro, a Terra está em guerra com as IA (Inteligência Artificial). Ou melhor, os Estados Unidos estão em guerra com a IA porque, supostamente, uma explodiu uma bomba atômica em Los Angeles, pulverizando milhões de pessoas em segundos. Os Estados Unidos constroem uma fortaleza voadora chamada NOMAD, que vigia todo o planeta e dispara mísseis sobre os inimigos.
John David Washington é um soldado das forças especiais que é recrutado para encontrar uma arma construída pelas IA na Ásia. Ao mesmo tempo, ele espera poder reencontrar sua esposa, que teria sido morta no começo do filme mas que ele acredita que ainda esteja viva. A tal "arma" que ele encontra tem o formato de uma criança pequena de uns seis anos (Madeleine Yuna Voyles), que ele passa a chamar de "Alphie". A criança, aos poucos, começa a se aproximar dele e a agir como uma criança comum, não como uma arma que poderia destruir os americanos. Fica a dúvida no ar... a criança realmente tem sentimentos ou é só programada para fingir? Como espectador, você fica o tempo todo "mudando de lado", ora torcendo para os americanos, ora torcendo pela Resistência.
O que realmente impressiona é a construção de mundo. Há centenas de efeitos visuais o tempo todo, misturados às paisagens filmadas na Tailândia e países vizinhos. Tudo é tão integrado que você se esquece que está vendo efeitos especiais. Há até monges budistas que são robôs, tudo integrado à narrativa. O roteiro tem algumas parte difíceis de engolir e todo o terceiro ato depende de uma série de conveniências para dar certo, mas não importa. É bastante emocionante.

O filme foi feito com um orçamento baixo, 80 milhões de dólares (contra uns 300 milhões do último Indiana Jones e 200 milhões de Aquaman 2). A recepção foi mista, muita gente esperava mais; para mim, é um filmão a ser visto e revisto. Disponível na Star+. 

Maestro (2023)

Maestro (2023). Dir: Bradley Cooper. Netflix. "Maestro" não é um filme fácil de avaliar. Segundo longa metragem do ator e diretor Bradley Cooper, "Maestro" é tecnicamente lindo, mas falho em diversos outros pontos. Ficam claras a garra e dedicação de Cooper ao papel, se transformando fisicamente no compositor e condutor Leonard Bernstein, um dos músicos americanos mais renomados de todos os tempos.

Não é uma biografia convencional. Ao invés de contar a história como uma série de eventos interligados, "Maestro" foca em determinados momentos da vida de Bernstein e família. Há também algumas entrevistas do compositor em diversos pontos da vida, recriadas de cenas reais; escutamos da voz do próprio personagem seus pontos de vista sobre composição, regência e a vida em geral. O filme foi rodado em película Kodak em maravilhosa fotografia de Matthew Libatique, que vai do preto-e-branco dos anos 1940 às cores fortes do Technicolor dos anos 1960 e 1970. Há a recriação de uma apresentação de Bernstein e orquestra na Ely Cathedral que é maravilhosa.
O filme falha, no entanto, em nos mostrar quem foi, de fato, Leonard Bernstein. Se você espera ver cenas dos bastidores de "Amor, Sublime Amor" (West Side Story), por exemplo, vai ficar desapontado. Se quiser saber detalhes mais íntimo ou "picantes" da vida pessoal dele, também. Há várias cenas que deixam claro que Bernstein era gay (ou, talvez, bissexual), mas o tema é tratado com certa distância. Quem sofre, calada, é a personagem de Carey Mulligan (ótima), como a esposa de Bernstein, Felicia. Ela era uma atriz que passou décadas ao lado do marido, com quem teve três filhos. O filme mostra que ela sabia das indiscrições do marido, mas mantinha as aparências. Há quem diga que o filme é muito "chapa branca", até porque teve apoio e aprovação da família. Talvez.
De qualquer forma, há sequências muito belas por toda a produção. Cooper parece possuído por Bernstein nas cenas em que está regendo (dizem que ele estudou por anos para conseguir fazer a cena na catedral). Mas falta recheio, falta contexto. Para quem não conhece a vida e obra de Leonard Bernstein, não vai ser com este filme que vai ficar sabendo. Tá na Netflix.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

A Fuga das Galinhas: A Ameaça dos Nuggets (Chicken Run: Dawn of the Nugget, 2023)

 
A Fuga das Galinhas: A Ameaça dos Nuggets (Chicken Run: Dawn of the Nugget, 2023). Dir: Sam Fell. Netflix. Quase 24 anos depois do lançamento de "A Fuga das Galinhas", produção da britânica Aardman com a americana Dreamworks, a Netflix lança uma continuação. É até melhor do que eu esperava, embora esteja longe do charme e originalidade do primeiro.

Depois de liderar a fuga das companheiras da granja no primeiro filme, a galinha Ginger vive em paz com o marido, Rocky, em uma ilha no interior da Inglaterra. Ela e as amigas construíram um pequeno paraíso e vivem muito bem, até que Ginger e Rocky têm uma filha, Molly. A menina é tão rebelde quanto a mãe e, ao chegar à adolescência, quer saber o que existe no mundo "lá fora". Ela acaba fugindo da ilha e indo parar em uma granja industrial em que ela e outras centenas de galinhas correm o risco de virarem nuggets crocantes. Cabe a Ginger e às companheiras tentar resgatar a filha.

É uma continuação direta do primeiro filme e os personagens estão todos lá, embora a maioria com vozes novas; Mel Gibson, que fazia Rocky, foi substituído por Zachary Levi. Thandiwe Newton tomou o lugar de Julia Sawalha como Ginger. Bella Ramsey (de The Last of Us) é a filha Molly. O roteiro é bem menos inspirado que o do primeiro, mas tem bons momentos. Interessante como os britânicos não fogem de situações "desconfortáveis", como mostrar algumas galinhas morrendo, mesmo em um filme infantil. Quanto a Molly, pelo que vi ela é a única criança no bando todo... acho que não quiseram mostrar Rocky como promíscuo (rs). A boa trilha sonora é de Harry Gregson-Williams, que no primeiro fez parceria com John Powell.

A produção durou vários anos, visto que a animação é feita na trabalhosa técnica do stop-motion. Dá para notar que usaram computação gráfica em cenários e, provavelmente, para replicar as dezenas de galinhas. É divertido, embora pouco memorável. Tá na Netflix.

O Mundo Depois de Nós (Leave the World Behind, 2023)

 O Mundo Depois de Nós (Leave the World Behind, 2023). Dir: Sam Esmail. Netflix. Suspense pós-apocalíptico bem interessante que estreou hoje na Netflix. O elenco é ótimo, Ethan Hawke, Julia Roberts, Mahershala Ali, entre outros. É aquele tipo de suspense que Shyamalan poderia ter feito (me lembrou bastante "Sinais", de 2002). Pena que o filme comece muito bem mas vá "esvaziando" para o final.

O filme começa com uma família indo para uma casa na praia. Ela é enorme e moderna, muito bem decorada e com uma bela piscina. Tudo muito bonito, mas algumas coisas estão erradas; a internet está com problemas; o celular começa a falhar e, em seguida, a televisão sai do ar. Na praia, em uma bela sequência, um petroleiro enorme sai de curso e invade a areia. À noite, há uma batida na porta e um homem negro (Mahershala Ali) muito bem vestido, está na varanda, acompanhado da filha. "Essa é nossa casa", ele diz. Ele explica que houve um blecaute em Nova York e eles gostariam de passar a noite.

O que se segue é uma série de situações cada vez mais estranhas e assustadoras. Assim como em "Sinais", em que a família de Mel Gibson estava isolada em uma casa enquanto "alguma coisa" estava acontecendo no mundo, aqui não é diferente. O clima de tensão vai ficando cada vez maior conforme coisas inexplicáveis acontecem, como ruídos ensurdecedores que acontecem no meio da noite; algumas poucas notícias, desencontradas, aparecem em forma de mensagem de texto.

Há uma tensão racial (e sexual) constante na relação entre a família branca e "perfeita" e a outra, de pai e filha negros. A personagem de Julia Roberts, em um racismo pouco velado, não consegue acreditar que Mahershala Ali seja o dono de uma casa tão grande, e seja tão culto e rico. Ele, por outro lado, claramente sabe mais do que ele está falando, e tenta proteger a filha, Ruth (Myha'la). Já os filhos de Ethan Hawke e Julia Roberts vivem sob uma bolha; Rose, a menina, está desesperada porque queria ver o episódio final de "Friends" e a internet não está funcionando. Há referências a outras séries de TV como "The West Wing" (e uma cena me lembrou bastante "Lost"). É um bom suspense, que lida com nossas paranoias como a pandemia e imagina como seríamos inúteis se acordássemos, um dia, sem internet e celular. Tá na Netflix.

domingo, 26 de novembro de 2023

Albert Brooks: Rindo da Vida (Albert Brooks: Defending My Life, 2023)

Albert Brooks: Rindo da Vida (Albert Brooks: Defending My Life, 2023). Dir: Rob Reiner. HBO Max. Albert Brooks talvez não seja muito conhecido no Brasil, a não ser por fãs de cinema. Começou como comediante nos anos 1970, em aparições lendárias em vários talk shows, se enveredou pelo cinema, onde foi escritor, diretor, ator e produtor de vários bons filmes, como "Romance Moderno" (1981) ou "Um visto para o Céu" (1991). Foi também um dos idealizadores do programa de TV "Saturday Night Life".

Neste documentário, o amigo e também diretor Rob Reiner (Conta Comigo, Questão de Honra) senta com ele em uma mesa de restaurante e eles têm uma conversa franca sobre como se conheceram na escola e sobre a carreira de Brooks, família, amor e filmes. Como cinema, é meio "quadradinho" e seguro. Há vários depoimentos de pessoas como Chris Rock, Judd Apatow, Sarah Silverman, Larry David, James L. Brooks e até Steven Spielberg que, eu não sabia, era amigo de Albert Brooks e, juntos, fizeram alguns curtas em Super 8 nos anos 1970.

Há várias cenas dos filmes de Brooks, claro, e aparições em TV. Filho de um comediante que morreu no palco, após uma apresentação e uma mãe atriz e cantora, o nome real de Brooks era Albert Einstein, piada que ele atribui à mãe. O documentário é curto, uma hora e vinte minutos, e vale para quem quiser conhecer sobre a carreira dele. Fiquei com vontade de rever alguns de seus filmes. Disponível na HBO Max.

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

O Assassino (The Killer, 2023)

O Assassino (The Killer, 2023). Dir: David Fincher. Netflix. Michael Fassbender é um assassino profissional. Pelos primeiros vinte minutos do filme, nós o vemos em um apartamento de Paris esperando por sua vítima. Em uma narração em off, o assassino descreve seu método, seu perfeccionismo. Fincher, sendo Fincher, filma tudo imaculadamente. Cada plano é uma pintura, cada corte preciso. O áudio é excelente. Criador e criatura parecem uma máquina precisa de matar/filmar. E aí dá tudo errado.
Acho que gostar de "O Assassino" depende do modo como você vê filmes. Esse não é daquele tipo de filme para se ver com a luz acesa, levantando para ir ao banheiro ou olhando o celular (na real, nenhum filme é). É um balé lindamente coreografado por Fincher e seu grupo habitual de colaboradores (Kirk Baxter na edição, Erik Messerschmidt na fotografia, Atticus Ross e Trent Reznor na trilha sonora). Há poucos diálogos e uma ação leva à outra. Fassbender está excelente. Há uma cena com Tilda Swinton que é tão boa que parece que o filme vai terminar. E aí acontece uma coisa estranha... o filme não termina e se estende por uma meia hora que me pareceu desnecessária. O final é meio irônico, meio anticlimático.
Assim como seu personagem, Fincher parece querer mostrar que, no fundo, também é humano. "O Assassino" não é ótimo como um "A Rede Social" ou "Garota Exemplar", mas é bonito pra caramba de se ver. Tá na Netflix.

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Sly (2023)

Sly (2023). Dir: Thom Zimny. Netflix. Documentário estranhamente melancólico sobre a vida e carreira de Sylvester Stallone. Conhecido por personagens "musculosos" como Rocky e Rambo, pouca gente sabe que Stallone é, antes de tudo, um roteirista. É, também, produtor e diretor. Cansado de ser rejeitado pelos estúdios nos anos 1970, Stallone escreveu "Rocky" e se recusou a vender o roteiro a não ser que ele próprio interpretasse o personagem principal. "Rocky" ganharia o Oscar de Melhor Filme e Stallone seria indicado tanto como roteirista quanto por ator.
É uma história fascinante e, aos trancos e barrancos, Stallone conseguiu se manter no topo de Hollywood por décadas. Por que, então, este documentário acaba decepcionando? O próprio Stallone conta sua história em uma série de entrevistas, grande parte delas dadas dentro de uma de suas mansões, cercado por figuras dele mesmo. Bustos e estátuas de Rocky, Rambo e outros personagens cercam o ator; nas estantes, roteiros dos seus filmes. Nas paredes, quadros dele mesmo. Achei carregado demais. Há momentos intimistas, principalmente quando ele fala da relação complicada com o pai, um homem competitivo e violento. A morte do filho, Sage Stallone, no entanto, passa meio batida e sem muitas explicações. Há poucos depoimentos de outras pessoas (Quentin Tarantino, Talia Shire e Schwarzenegger os maiores destaques).
Há diversos trechos de seus filmes (principalmente Rocky e Rambo) mas, por questões de direitos autorais, as icônicas trilhas sonoras não são usadas. Faltou um olhar mais crítico sobre o papel de Stallone na cultura pop do cinema dos anos 1980. Há, porém, diversos bons momentos, principalmente nas cenas de bastidores das filmagens de Rocky (que tinha orçamento bastante modesto) e na ligação biográfica entre a vida de Stallone e seus personagens. Pessoalmente, achei mais interessante a minissérie recente sobre Schwarzenegger. Tá na Netflix.

domingo, 22 de outubro de 2023

Assassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon, 2023)

Assassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon, 2023). Dir: Martin Scorsese. Um filme novo de Scorsese nos cinemas é um evento que deve ser visto em uma sala de cinema. Não pude fazer isso com seu último trabalho, "O Irlandês", que saiu na Netflix, e a diferença é considerável. "Assassinos da Lua das Flores" mostra um Scorsese maduro, ainda tentando coisas diferentes aos 80 anos de idade. A diferença aqui é o ponto de vista feminino, na forma de uma índia da tribo Osage chamada Mollie (Lily Gladstone). Sim, Robert De Niro está lá (excelente). DiCaprio está lá. Assassinatos, violência, gângsters... ingredientes de um filme "normal" de Scorsese, mas talvez com um toque extra de crueldade e tristeza.

A trama se passa nos anos 1920 em Oklahoma, EUA. Leonardo DiCaprio é Ernest, um soldado voltando da Primeira Guerra Mundial para trabalhar para o tio, Willian Hale (De Niro). Os índios da nação Osage ficaram ricos quando petróleo foi descoberto em suas terras. Aparentemente, eles vivem bem, têm casas enormes, carros, joias; mas uma das qualidades deste filme de Scorsese é como ele mostra, bem lentamente, que as aparências enganam. Não é segredo que este é um filme (bem) longo, são quase três horas e meia de duração. A editora habitual de Scorsese, Thelma Schoonmaker, faz um belo trabalho em apresentar os personagens e manter as tramas compreensíveis ao longo de vários anos (e longos minutos de filme), mas é discutível se qualquer filme precisa ter três horas e meia de duração, mas essa é outra questão.
Como disse, creio que o que chama atenção nesta obra é o modo como Scorsese apresenta o "mal". Sem entrar no terreno de spoilers, o filme é excelente em apresentar eventos que, mais tarde, descobrimos serem terríveis, mas que aparentam ser inocentes no começo. O mais desconcertante é o caso de amor entre o personagem de DiCaprio e Millie, cheio de camadas e nuances. Ela, forte, decidida, dona do nariz, mas humana. Ele, fraco, indeciso, aparentemente apaixonado por ela mas incapaz de ir contra um sistema que a vê como algo descartável.
O roteiro, inicialmente, daria ênfase aos agentes federais que vêm para a cidade investigar a morte de vários índios Osage. DiCaprio interpretaria um deles, em um papel mais heroico. Ele e Scorsese acabaram mudando o foco para o ponto de vista das vítimas e o filme ganhou muito com isso. É um trabalho de fôlego que vai colocar lenha na fogueira das premiações do ano que vem, que pareciam estar definidas entre a "Barbie" de Greta Gerwig e o "Oppenheimer" de Nolan.
Com relação à duração do filme, temos que levar em conta que ele foi coproduzido pela Apple para seu canal de streaming. O mesmo aconteceu com "O Irlandês' e a Netflix. Coincidência ou não, são dois filmes com três horas e meia de duração, o que leva a crer que foram editados mais com os serviços de streaming na cabeça do que as salas de cinema. Ridley Scott vai lançar seu "Napoleão" com duas durações, uma mais curta nos cinemas e outra mais longa no streaming. Seria uma nova tendência? É esperar para ver.

Era Uma Vez um Estúdio (Once Upon a Studio, 2023)

 

Era Uma Vez um Estúdio (Once Upon a Studio, 2023). Dir: Dan Abraham e Trent Correy. Disney+. Belo curta metragem de 13 minutos homenageando os 100 anos dos Estúdios Disney, completados hoje. Um conceito bem simples mas eficiente; depois que os funcionários (humanos) deixam o estúdios, Mickey e Minie saem de um quadro na parede e começam a chamar pelos personagens dos filmes Disney para tirar uma foto. São mais de 500 personagens, de clássicos feitos à mão como "Branca de Neve", "Peter Pan", "Fantasia" e "Pinóquio" a animações 3D como "Zootopia", "Big Hero 6" ou "Detona Ralph". Impossível não se emocionar quando começam a cantar "When you wish upon a star", da trilha de "Pinóquio", que é usada na vinheta do estúdio há anos (e Spielberg usou em "Contatos Imediatos do Terceiro Grau"). Achei curioso que a "Pixar" ficou de fora... mas faz sentido. É outro estúdio e, desde os anos 1990, revolucionou a indústria da animação e a própria Disney. Muito bom. Disponível na Disney+.

Jogo Justo (Fair Play, 2023)

Jogo Justo (Fair Play, 2023). Dir: Chloe Domont. Netflix. Há uma cena de sexo no começo de "Jogo Justo" que mistura paixão, romantismo, fruto proibido e sangue menstrual que estabelece o tom do filme. Essa, definitivamente, não é uma comédia romântica. Nunca ouvi falar de Phoebe Dynevor (estrela de série "Bridgerton", da Netflix), mas ela está ótima aqui como Emily, uma analista em uma firma financeira de Nova York. Alden Ehrenreich, sempre competente, é Luke; ele é colega de trabalho de Emily e os dois têm um romance por baixo dos panos (é contra a política da empresa).

"Jogo Justo" se passa quase o tempo todo nesta empresa, com suas jogadas financeiras movendo milhões de dólares para lá e para cá como em um cassino. O chefe, interpretado por Eddie Marsan, observa a tudo como um tubarão. A paixão de Emily e Luke é abalada por uma promoção que coloca Emily em um cargo alto na empresa. A princípio, a diferença de cargos não parece atrapalhar o casal, mas a adulação, responsabilidade e comissões altas transformam paixão em ressentimento.

O roteiro, da diretora Chloe Domont, mostra como o companheirismo se transforma em competição ou sabotagem (e auto sabotagem). Luke se sente castrado. Emily tenta compensar buscando uma promoção para ele, mas o mundo das finanças não perdoa os menores erros. Em um mundo masculino, sua promoção é questionada pelo próprio companheiro. Assim como na cena inicial, o filme vai mais fundo do que a gente imagina e não é nada confortável. Tá na Netflix.

Camaleões (Reptile, 2023)

Camaleões (Reptile, 2023). Dir: Grant Singer. Netflix. Filme policial que vale a pena quase que exclusivamente por causa de Benicio Del Toro. O porto-riquenho carrega o filme nas costas com uma interpretação e tanto, quieto, inteligente, observador. Ele é um policial chamado a investigar a morte brutal de uma corretora de imóveis. De cara ele desconfia do namorado dela, um sujeito interpretado por Justin Timberlake; mas há outros suspeitos promissores, como o ex-marido da moça e um vizinho estranho interpretado (pelo estranho) Michael Pitt.

É o tipo de filme policial que vai se desenrolando aos poucos. Del Toro tem uma esposa esperta interpretada por Alicia Silverstone, que estava sumida das telas há um tempo. Os dois fazem um grande casal e ela o ajuda a pensar sobre o caso e a manter sua sanidade. A direção é de Grant Singer, especialista em video clips que estreia no longa metragem. Ele é bem seguro e cria cenas com bastante clima e suspense.

Uma pena que o roteiro se perca bastante mais para o final. Há descobertas e reviravoltas interessantes que são mal aproveitadas e, acabado o filme, você fica tentando entender exatamente o que aconteceu, ou como. Diversas pistas ficam sem explicação e dá a impressão que tiveram que terminar o filme sem se importar muito com o que veio antes. Vale a pena? Como disse, no mínimo vale pela presença de Del Toro e suas cenas com Silverstone. Tá na Netflix.

O Som da Liberdade (Sound of Freedom, 2023)

O Som da Liberdade (Sound of Freedom, 2023). Dir: Alejandro Monteverde. O filme vem cercado de tantas polêmicas que fica difícil julgá-lo por seus próprios méritos (ou falta deles). Produção de baixo orçamento, financiado por uma penca de produtores executivos (um deles é Mel Gibson) e por milhares de apoiadores (que estão nos créditos finais), "Som da Liberdade" surpreendeu ao bater pesos pesados de Hollywood nas bilheterias americanas, rendendo mais de 200 milhões de dólares (para um orçamento de menos de 15 milhões).

A trama tenta te pegar pela emoção. O assunto, pesado, é o tráfico sexual de crianças, e Jim Caviezel (que interpretou Jesus em pessoa no "Paixão de Cristo" de Gibson) é um agente americano que pede demissão para tentar resgatar crianças na Colômbia. O ritmo é bem lento e o roteiro é cheio de monólogos falando o óbvio ("traficar crianças é ruim"). Caviezel, com seu cabelo loiro e olhos claros, está quase sempre quieto, à beira das lágrimas. Sua esposa é interpretada por Mira Sorvino, que mal fala dez frases o filme todo, a típica esposa fiel e silenciosa do herói americano.

Como filme, "Som da Liberdade" é um thriller lento e não muito inspirado. Há algumas boas cenas interpretadas por Bill Camp (sempre bom coadjuvante) e o garoto que interpreta uma das crianças raptadas (Lucás Ávila) é bastante bom. De resto, é bem quadradinho. Há uma cena de resgate bem difícil de acreditar e tão rápida que parece que ficou faltando alguma coisa na edição. A "polêmica" ficou por conta das manifestações políticas de Jim Caviezel e pela associação com teorias da conspiração que inflamaram a briga esquerda x direita nos EUA (e no resto do mundo). Como cinema, é filme para passar no Supercine.

Assassinas (Assassins, 2020)

 
Assassinas (Assassins, 2020). Dir: Ryan White. HBO Max. Ótimo documentário sobre uma história bizarra. Em 2017, Kim Jong-nam, o meio-irmão do presidente da Coréia do Norte, Kim Jong-un, foi assassinado em plena luz do diz no aeroporto de Kuala Lampur, Malásia. Duas jovens mulheres foram presas pelo crime; as duas foram filmadas pelo sistema de segurança do aeroporto claramente abraçando e passando alguma coisa no rosto do coreano. Alguns minutos depois, ele morreu envenenado.

AVISO DE SPOILERS . O bizarro é que as duas, quando presas, alegavam não saber o que estava acontecendo. Elas não conheciam a identidade da vítima e tinham uma história estranha para contar: elas acreditavam que faziam parte de um programa de "pegadinhas" online. Por semanas antes do crime elas teriam sido contratadas por homens que diziam ser de um programa de pegadinhas japonesas, e teriam feito a mesma brincadeira com vários homens antes.

O documentário é dirigido por Ryan White, o mesmo da série "The Keepers", da Netflix (em que a morte de uma freira revelava coisas ainda piores sobre uma escola americana). White e sua editora, Helen Kearns, montam um incrível quebra-cabeças formado por imagens de segurança do aeroporto, postagens em redes sociais e depoimentos para tentar provar se a história das moças é real ou não. Há imagens gravadas na Malásia, Indonésia, Vietman e Coréia do Norte e é curioso ver como a globalização tornou todos os países (menos a Coréia do Norte) parecidos. As cenas no aeroporto em em shopping centers poderiam ser em qualquer lugar do mundo; vemos as mesmas lojas, fast food e pessoa tirando selfies nas escada rolantes. O documentário também mostra como as redes sociais também podem ser usadas em uma investigação, através de fotos, postagens e da localização das pessoas. Disponível na HBO Max.

Ninguém vai te salvar (No one will save you, 2023)

Ninguém vai te salvar (No one will save you, 2023). Dir: Brian Duffield. Star+. Bom filme de suspense/terror envolvendo alguns invasores bem familiares. Acho que não é spoiler, mas, AVISO DE SPOILERS. Kaitlyn Dever, sempre excelente, é Brynn. Ela é uma garota que vive sozinha em um casarão enorme, afastado da cidade. Brynn é bem analógica; ela costura roupas, dança ao som de discos de vinil e tem um telefone fixo pendurado na parede. Ela passa o dia arrumando uma cidade em miniatura que mantém sobre uma mesa, e escreve longas cartas, à mão, para a melhor amiga. Quando vai à cidade postar algumas encomendas, porém, ninguém retorna seus acenos ou sorrisos. Há algo errado aqui, mas não sabemos o quê. Chega a noite e, surpresa, um alien invade a casa dela.

Há várias cenas com bons sustos mostrando Brynn tentando sobreviver ao bicho. O visual do ET é aquele tradicional, cabeça e olhos grandes, corpo esquelético, mas este faz uns sons bem assustadores também. Por um momento achei que o filme fosse se passar só durante esta noite, mas ele vai além, com boas surpresas.

Estou tentando me lembrar se há uma troca sequer de diálogos entre dois personagens, mas creio que não (ou, ao menos, não entre dois seres humanos). Kaitlyn Dever passa tudo com olhares e linguagem corporal. Algumas informações sobre o passado dela são comunicadas através de trechos das cartas, fotos e olhares dos personagens.

Há alguns pontos negativos, como o fato de que a garota, sozinha e de aparência frágil, consegue enfrentar os ETs por diversas vezes. O terceiro ato vai te deixar um pouco perdido e o significado do final é aberto a interpretações; mas é um filme eficiente e bem feito, com um estilo "retrô" que lembra filmes de invasões extraterrestres dos anos 1950 ou episódios de "Além da Imaginação". Disponível na Star+

Que horas eu te pego? (No hard feelings, 2023)

 
Que horas eu te pego? (No hard feelings, 2023). Dir: Gene Stupnitsky. HBO Max. O marketing deste filme prometia um retorno às comédias escrachadas dos anos 80/90, com censura 18 anos, sexo, nudez e outros ingredientes que fizeram o sucesso de filmes como "American Pie". "Que horas eu te pego?", no entanto, é curiosamente tradicional, com vários dos clichês de comédias românticas; a única cena de nudez, curiosamente, não tem nada a ver com sexo (ou sensualidade) e parece estar lá só para justificar o "Rated R" da censura americana.

Jennifer Lawrence é uma motorista de Uber chamada Maddie que perde o carro por falta de pagamento de impostos. Ela precisa pagar a dívida ou vai perder a casa em que morou a vida toda. Em uma daquelas coincidências que só acontecem em filmes, ela vê um anúncio na internet que promete um carro à mulher que tirar a virgindade do filho de um casal de ricaços. O rapaz é Percy (Andrew Barth Feldman), um adolescente de 19 anos que não sai de casa, não sabe dirigir, nunca esteve com ninguém e está para entrar em Princeton. Os pais querem que ele "saia do casulo" antes de enfrentar o mundo lá fora.

A trama se parece bastante com "Armações do Amor" (2006), em que os pais de Matthew McConaughey contratam Sarah Jessica Parker para tirar o filho de casa. Jeniffer Lawrence está bem como Maddie; ela é despojada e boca suja, mas o roteiro é difícil de engolir, além de contraditório. O rapaz é descrito como solitário e tímido, mas há uma cena em que ele está jantando com Maddie e uma garota bonita não só o reconhece como o abraça em público, o convida para uma festa e ainda diz que "mal pode esperar para estudar com ele em Princeton". Oi? A suposta ousadia dá lugar à uma segunda parte quase piegas e formulaica. Lawrence é uma das produtoras do filme e é válido que tenha tentado fazer uma personagem diferente, mas poderia ter rendido muito mais. Disponível na HBO Max.

Elementos (Elemental, 2023)

Elementos (Elemental, 2023). Dir: Peter Sohn. Disney+. Como vários dos últimos filmes da Pixar, parece que faltou a "Elementos" aquela revisão final no roteiro, aquele esforço extra que sempre elevou as animações do estúdio acima dos concorrentes. "Elementos" é melhor, porém, do que se falou por aí. O filme teve uma estreia ruim nos cinemas e considerado um fracasso mas, aos poucos, conseguiu se manter em cartaz e fazer uma bilheteria considerável.


A trama parece ter saído do fundo do baú de ideias do estúdio. Depois de perguntar "o que aconteceria se brinquedos tivessem sentimentos?" (substitua "brinquedos" por peixes, insetos, carros, monstros... e os próprios sentimentos, para os outros filmes da empresa), a Pixar apresenta agora o que aconteceria se os quatro elementos fundamentais, Água, Fogo, Terra e Ar convivessem em uma terra fantástica.

A criação de mundo não faz muito sentido. Vemos uma família de Fogo chegar à cidade dos Elementos; aparentemente, o Fogo é uma "raça" discriminada e eles quase não conseguem se estabelecer. Anos depois, Pai e Mãe Fogo têm uma loja em um bairro da cidade. O sonho do Pai é que a filha, Faísca, assuma a loja e, aham... "carregue a chama" da família. Faísca é uma garota esquentada que acaba conhecendo um membro do elemento água, Gota, por quem ela vai se apaixonar mas, antes... um MONTE de coisas vão acontecer. Há uma questão de um vazamento que pode destruir a loja; há um problema burocrático que, também, pode levar ao fechamento da lojinha; há uma sequência passada em uma espécie de partida de basquete, com a torcida fazendo a "onda" (entendeu?). Em suma, há um bocado de complicações que o roteiro coloca na sua frente até que, depois de quase uma hora de filme, ele se lembra que é um romance e, meio aos trancos e barrancos, Água e Faísca começam a se apaixonar.

Como disse, várias coisas não fazem muito sentido. A mãe do Gota diz à Faísca que os prédios do centro da cidade são todos feitos de vidro, o que pressupõe que o Fogo deveria ser bastante importante nessa sociedade, e não marginalizado. Fica difícil também entender o que é inflamável ou não...em algumas cenas tudo que Faísca toca se transforma em cinzas; em outras, não. Os prédios (os que não são de vidro) precisam de Terra e Água para serem construídos, mas isso nunca é mencionado. Eu sei que é um "filme para crianças", mas esse tipo de detalhe e comentário social é algo que a Pixar, nos velhos tempos, era craque em fazer, e o conceito parece desperdiçado aqui.

Mas é um filme bonitinho. Quando o romance finalmente engrena, com todas as complicações esperadas, "Elementos" fica melhor e tem um final satisfatório, embora tranquilo. Disponível na Disney+.

Coerência (Coherence, 2013)

Coerência (Coherence, 2013). Dir: James Ward Byrkit. Apple+. Ficção-científica bastante intrigante que foi feita quase sem orçamento e filmado em cinco dias. Quatro casais se encontram para jantar na noite em que um cometa está passando pelos céus da Terra. Conforme a noite passa, coisas estranhas começam a acontecer; a tela do celular de alguns quebra, internet e telefone não têm sinal e, finalmente, até as luzes se apagam. Intrigados, alguns exploram a vizinhança e resolvem ir até uma outra casa, no final da rua, que está com as luzes acesas. Ao voltarem, eles relatam algo impossível... e não falo mais nada sobre a trama.

O elenco é formado por atores desconhecidos, mas muito bons. A produção foi rápida e grande parte dos diálogos foram improvisados. Fica a sensação de que você é um dos personagens, vendo tudo acontecer em tempo real. Quem são as pessoas na outra casa? São discutidas questões como realidade, identidade e auto preservação. Nem tudo funciona (o final poderia ter sido melhor), mas "Coerência" é um dos melhores filmes de ficção-científica dos últimos anos. Disponível na Apple+ (eu baixei, procurem por aí).

Retratos Fantasmas (2023)

Retratos Fantasmas (2023). Dir: Kleber Mendonça Filho. Filme bonito demais sobre memórias, mudança, cidades e cinema (não necessariamente nesta ordem). De forma extremamente pessoal, Kleber Mondonça fala sobre o apartamento da família no Recife, que a mãe historiadora reformou e transformou em um lar depois da separação do marido. Foi lá que Kleber fez os primeiros curtas metragens, em diversos formatos, VHS, Super-8; anos depois, o primeiro longa, o premiado "O Som ao Redor", também foi rodado no mesmo apartamento. É curiosa a justaposição de imagens em qualidade baixa, "amadoras", se misturando à imagem profissional do cinema. A revisão dessas horas de imagens mostram outra coisa, a verticalização dos prédios ao redor, o surgimento de grades e cercas de arame farpado. Entre as memórias de Kleber, o som do cachorro do vizinho, que já havia morrido, se mistura a uma foto de um "fantasma" que ele tirou na sala de casa.


A segunda metade se dedica ao centro do Recife e suas grandes salas de cinema; os dois já viram dias de opulência e efervescência cultural. Hoje, os grandes palácios dão lugar a igrejas evangélicas, lojas de departamentos e shoppings. Kleber usa de um rico acervo pessoal de imagens que fez de salas como Art Palácio, Veneza ou São Luiz. Há um personagem muito interessante, o "Seu" Alexandre, projecionista do Art Palácio, que foi entrevistado pelo diretor durante as semanas que antecederam o fechamento do cinema. "É como visitar um navio que vai ser afundado", comenta Kleber, enquanto mostra os bastidores da grande sala, construída por investidores alemães que pretendiam, nos anos 1930 e 1940, difundir ideias nazistas no Brasil.

A terceira parte fala sobre a relação entre as salas de cinema e os templos. Curioso que o São Luiz, a magnífica sala de cinema que ainda existe no Recife, foi construído no lugar de uma igreja do século 19; nas últimas décadas, o que se vê é o crescimento das igrejas evangélicas, que compraram os velhos cinemas e mudaram o foco da adoração, por assim dizer.

O filme me despertou muitas memórias dos tempos dos cinemas de rua que frequentava na juventude, como o Cine Windsor, Regente ou Jequitibá em Campinas, por exemplo. Sobre matar aulas para ver "Império do Sol" no Regente, ou sair com as pernas bambas do Cine Astor, em São Paulo, depois de uma sessão de "Fargo", dos irmãos Coen. Cinemas de rua, ao contrário das salas de shopping, tinham identidade e personalidades próprias. A gente ficava dentro do cinema quando terminava a sessão e via o filme novamente, se assim quisesse. Fazia amizade com o projecionista e visitava a cabine de projeção. Na Paulista ou no centrão de São Paulo, era comum sair de uma sessão, andar uns metros e entrar em outra sala, para conferir o novo Tarantino ("Pulp Fiction" no Cine Comodoro, por exemplo) ou Scorsese ("Os Bons Companheiros" em uma sala no centro, em Jundiaí). Assistir a "Cinema Paradiso" em diversas salas e prometer nunca vê-lo na TV.

"Retratos Fantasmas" é mais do que um documentário sobre salas de cinema. É sobre a relação orgânica entre salas de cinema e suas plateias. Sobre o entorno dos cinemas; sobre como as grandes "majors" americanas tinham escritórios ao lado do consulado americano, no centro do Recife, onde hoje está tudo abandonado. Ao final, Kleber faz um bem humorado (e bizarro) passeio de Uber pelas ruas da cidade. Pela janela, vê passar, iluminadas e brilhantes, farmácia atrás de farmácia. Visto no Kinoplex do Shopping Parque Dom Pedro, em Campinas.

sábado, 14 de outubro de 2023

Operação Lioness (Special Ops: Lioness, 2023)

 
Operação Lioness (Special Ops: Lioness, 2023). Paramount+. Série em 8 episódios da Paramount+ criada e escrita por Taylor Sheridan, que é um cara bastante ocupado. Como roteirista, escreveu "Sicário", "A Qualquer Custo", "Terra Selvagem", "Sicário: Soldado", entre vários outros filmes. É criador e roteirista de séries de sucesso como "Yellowstone" (e suas spin-offs "1883" e "1923"), "Tulsa King", "Mayor of Kingstown", etc. "Operação Lioness" é mais uma série da sua linha de produção e é, ao mesmo tempo, muito boa e decepcionante.

A trama gira em volta de um grupo especial da CIA encabeçado por uma mulher durona chamada Joe (Zoe Saldaña). O objetivo desse grupo é infiltrar uma agente feminina (conhecida como "Leoa") no círculo íntimo de famílias no oriente médio. A mais nova agente é Cruz (a canadense de origem brasileira Laysla de Oliveira). Cruz é o clichê do "Marine" americano, capaz de suportar treinamentos exaustivos e/ou tortura. Ela entrou para a vida militar para fugir de uma vida de abusos.

É tudo muito rápido e bastante bem feito, mas isso também esconde um roteiro um tanto superficial e cheio de furos. Há boas cenas de ações militares filmadas com precisão (claramente influenciadas por "Sicário"). Mas há também um lado "novela mexicana" forte; a família de Zoe Saldaña é o oposto do que aconteceria em um filme de 20 anos atrás; é a mulher que chega em casa, depois de meses em operação, para encontrar o marido fiel e pai devotado que toma conta da casa e de duas filhas adolescentes.

Do lado da agente infiltrada, há todo um drama tanto nas questões éticas enfrentadas por ela quanto pela forte amizade (que, claro, acaba virando algo mais) com a herdeira de uma rica família de Petróleo (interpretada por Stephanie Nur). Nicole Kidman (com uma plástica bem estranha que mudou seu rosto) é uma chefe "fodona" da CIA que também tenta balancear a vida pessoal com as operações militares que comanda. Ah, e Morgan Freeman aparece mais no pôster do que na série.

Isso posto, "Operação Lioness" consegue manter sua atenção e você quer ver o que vai acontecer em seguida, mesmo que o roteiro não seja dos melhores. Disponível na Paramount+ (da Amazon Prime Video). 

Confesse, Fletch (Confess, Fletch, 2022)

 
Confesse, Fletch (Confess, Fletch, 2022). Dir: Greg Mottola. Paramount+. Não me lembrava que Chevy Chase havia feito, nos anos 80, dois filmes sobre o jornalista/detetive I.M. Fletch. O personagem foi criado por Gregory Mcdonald e estrelou uma série de livros. Ele retorna agora na pele de Jon Hamm no que seria o início de uma nova franquia mas, pelas bilheterias mornas, é pouco provável. Jon Hamm, claro, é mais conhecido por interpretar o publicitário Don Draper na brilhante série Mad Men, e tem tentado se encontrar desde que a série terminou.

"Confesse, Fletch" é um filme simpático, mas tem mais cara de um piloto de uma série que não foi ao ar. É tudo tão propositalmente leve que o filme parece estar sempre a ponto de começar, mas não engata. Em todos os diálogos você tem a impressão que os atores vão dar uma piscadinha para a câmera, tipo "não falei uma coisa engraçada?". A trama, se pode se chamar assim, envolve o roubo de várias obras de arte de um milionário italiano, que foi sequestrado. O filme começa com um prólogo em Boston, em que Fletch encontra uma mulher morta em uma casa que ele está alugando. Ele liga para a polícia mas trata tudo de forma tão indiferente que acaba se tornando suspeito do crime. Há um flashback em Roma, que serve para mostrar uma sequência clichê (mas bem feita) em que Jon Hamm passeia em uma Vespa vermelha pelas ruas da Itália (lembrando filmes melhores dos anos 50 e 60).

O resto do elenco tem uma exagerada (mas divertida) Marcia Gay Harden como uma "condessa" italiana e Kyle MacLachlan como um vendedor de arte. Ah, e o ex-companheiro de Hamm em Mad Men, John Slattery, faz um jornalista à moda antiga. Para fãs da série, a cena em que Hamm e Slaterry bebem em um bar, jogando conversa fora, vale o filme. Assim, "Confesse, Fletch" está longe de ser ruim, mas também não é memorável. Um passatempo em que os atores parecem estar se divertindo mais do que a plateia. Visto na Paramount+ (da Amazon Prime Video). 

The Flash (2023).

The Flash (2023). Dir: Andy Muschietti. HBO Max. Com a saturação de filmes de heróis dos últimos anos, confesso que nem sei porque apertei "PLAY" neste... mas não é que foi uma boa surpresa? "The Flash" tem vários dos problemas dos filmes de herói recentes.... tela visualmente poluída, vilões sem sentido, duração muito longa e (a mais nova mania), a presença de um "multiverso". Mas "The Flash", por boa parte de sua duração, tem algo bem raro em filmes de herói (principalmente da DC), que é um "coração".


Atenção, AVISO DE SPOILERS DAQUI PRA FRENTE. Ezra Miller fez uma bagunça gigante em sua vida pessoal e há quem diga que sua carreira esteja acabada, mas é necessário dizer que ele carrega este filme nas costas. O "coração" a que me referi é a parte da trama que envolve a mãe de Barry Allen, Nora, interpretada pela ótima Maribel Verdú (atriz espanhola de "O Labirinto do Fauno" e "E tua mãe também"). Barry descobre que consegue correr tão rápido que pode voltar no tempo. E se ele mudasse o passado e impedisse a morte da sua mãe, quando ele era criança? Claro que ele não deixa a oportunidade passar; quando ele volta, porém, acaba encontrando com uma versão dele mesmo bem diferente. O Barry Allen que ele encontra é um rapaz irresponsável e bem irritante, e as cenas em que os dois Barry contracenam juntos têm alguns dos melhores efeitos especiais que já vi (o que é irônico, porque "The Flash" também tem alguns dos piores efeitos em CGI de todos os tempos, mais tarde na trama).

Do meio para o final, no entanto, o filme fica cada vez pior. Há uma ótima participação de Michael Keaton reprisando a versão do Batman de Tim Burton dos anos 1980. Não há como não se emocionar quando o tema de Danny Elfman toca na trilha sonora. O surgimento de uma versão feminina do Superman (interpretada por Sasha Calle) e o retorno de Michael Shannon como o General Zod funcionam bem menos. E, claro, há a obrigatória cena mostrando o "multiverso" em que (SPOILERS) aparecem várias versões diferentes dos heróis da DC... e o resultado é difícil de definir; os efeitos em CGI são horrendos, mas não deixa de ser emocionante rever Christopher Reeve como Superman ou ver como seria a estranha escolha de Nicolas Cage para o papel.

Assim, "The Flash" consegue ser, ao mesmo tempo, bom e ruim. Não se sabe o futuro do personagem porque, aparentemente, a DC vai sofrer um "reset" sob a nova direção de James Gun. Sinceramente, não ligo muito para isso mas, confesso, me diverti com este "The Flash". Disponível na HBO Max. 

Desaparecida (Missing, 2023)

 
Desaparecida (Missing, 2023). Dir: Nicholas D. Johnson e Will Merrick. HBO Max. Não dá para dizer que é uma continuação de "Buscando" (2018), mas é passado "no mesmo Universo", digamos assim, rs. "Desaparecida" é um bom filme de suspense passado o tempo todo do ponto de vista das redes sociais e computadores. Ou seja, não há câmeras e planos tradicionais do cinema... todas as imagens na tela existem a partir de webcams, câmeras de segurança, janelas de aplicativos, celulares, etc. Às vezes o conceito é forçado um pouco (há um plano do ponto de vista de uma câmera de ré de um carro, por exemplo... outro de um smart watch), mas está valendo.

A trama gira ao redor do desaparecimento de uma mulher chamada Grace Allen (Nia Long). Ela foi viajar com o novo namorado, Kevin (Ken Leung) para a Colômbia e simplesmente sumiu. O filme se passa a partir do ponto de vista da filha de Grace, June (Storm Reid), uma adolescente típica que aproveita a viagem da mãe para dar uma festa na casa. Quando a mãe não volta, no entanto, ela usa de todas as ferramentas possíveis da internet para encontrá-la. O interessante é que tudo parece plausível. Coisas comuns da vida online como tentar recuperar uma senha ou bancar o detetive para decifrar algumas mensagens é algo que quase todo mundo já fez. O grande ator português Joaquim de Almeida aparece no filme como um colombiano que June contrata para procurar pela mãe (ela tem que baixar o Whatsapp, aplicativo pouco usado nos EUA, para se comunicar com ele).

É de se imaginar que a Apple e o Google, de alguma forma, patrocinaram o filme, porque a garota é vista usando os produtos deles o tempo todo (mas, de novo, tudo soa real e orgânico). Achei que "Desaparecida" ia acabar se tornando repetitivo, mas é boa diversão. Disponível na HBO Max. 

A Máquina Infernal (The Infernal Machine, 2022)

 
A Máquina Infernal (The Infernal Machine, 2022). Dir: Andrew Hunt. Paramount+. Guy Pearce já viu dias melhores. Ele é a única coisa interessante neste filme lento, longo e perdido na Paramount+. Pearce é um escritor chamado Bruce Cogburn, que vive em uma cidadezinha isolada por causa de um trauma do passado. Ele havia escrito um livro chamado "A Máquina Infernal", pelo qual ganhou muito dinheiro e prêmios. O problema é que ele serviu de inspiração para um assassino cometer um massacre em uma universidade dos EUA. Horrorizado, o escritor resolveu se isolar da sociedade e nunca mais escrever outro livro.

O caso é que ele começa a receber uma série de cartas de um desconhecido, lhe pedindo uma entrevista e perguntando sobre um livro novo. Cogburn deixa longos recados em uma secretária eletrônica dizendo que não tem interesse em voltar a escrever, mas as cartas continuam chegando e ele se sente incomodado. Guy Pearce faz o que pode para dar vida a um clichê ambulante, o escritor alcoólatra que vive pela sua "arte". Alice Eve interpreta uma policial que tenta ajudar o escritor. Jeremy Davies, que também já viu dias bem melhores (ele esteve em "O Resgate do Soldado Ryan", de Spielberg), faz um personagem bizarro, que demora a dar as caras. O filme até começa bem, mas não sai da mesmice e dos mistérios sem sentido. Visto na Paramount+ (da Amazon Prime).

Dopesick (2021)

 
Dopesick (2021). Star+. Ok, esta é como a versão "pro" de "Império da Dor", minissérie que a Netflix lançou recentemente. Enquanto a Netflix partiu para a paródia e momentos sensacionalistas, "Dopesick" é uma versão séria e muito mais aprofundada do surgimento da crise de opióides nos Estados Unidos e a luta de alguns promotores contra a indústria farmacêutica.

A trama base é a mesma: uma família tradicional americana, os Sackler, lançaram nos anos 1990 um remédio para a dor chamado OxyContin, que prometia ser revolucionário. O problema é que eles subornaram especialistas e burlaram várias regras da FDA (a Anvisa deles) e apresentaram o remédio como seguro e indicado para todo tipo de dor. O resultado foi toda uma geração de americanos viciados em um remédio que tinha as mesmas propriedades da heroína.

O elenco de "Dopesick" também é muito melhor do que a versão da Netflix. Michael Keaton, Michael Stuhlbarg, Peter Sarsgaard, Rosario Dawson, Kaitlyn Dever, Mare Winningham, Will Poulter e mais um monte de gente boa dá vida às pessoas que produziram o remédio e suas vítimas. Michael Keaton ganhou um Emmy pelo trabalho. São 8 episódios; Barry Levinson (Mera Coincidência, Rain Man) é um dos diretores. Visto na Star+.

O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer, 2017)

 
O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer, 2017). Dir: Yorgos Lanthimos. HBO Max. Difícil classificar este filme... terror psicológico? O grego Yorgos Lanthimos é especialista em filmes estranhos, como "O Lagosta" ou "A Favorita" (este mais normalzinho), e "O Sacrifício do Cervo Sagrado" não é exceção.

Colin Farrell é um cirurgião renomado, bem casado com uma oftalmologista (Nicole Kidman) e pai de um casal de adolescentes; mas algo está errado. Ele tem encontros frequentes com um rapaz (Barry Keoghan), a quem dá presentes caros e passeia pela cidade. É filho de outro casamento? Filho ilegítimo? O quê? O rapaz vai visitar a família de Farrell e é muito polido e educado mas, novamente, algo parece fora de lugar. Ele aparece sem avisar no hospital; é visto fora da casa de Farrell, observando quieto. Uma noite, ele leva Farrell para jantar em sua casa e a mãe dele (Alicia Silverstone), fica bastante interessada no médico. Farrell tenta cortar relações mas o rapaz continua ligando e aparecendo sem avisar.

Contar mais pode estragar o filme (ou não). Esta é daquelas produções que você assiste desconfortável, inquieto. Lembra um pouco "Caché" (2005), do austríaco Michael Haneke. Visualmente, Lanthimos empresta as lentes grande angular e os movimentos de câmera de Stanley Kubrick (há ecos de "Laranja Mecânica" e "O Iluminado"), além da trilha sonora composta por clássicos. A trama é bastante simbólica (o personagem de Keoghan chega a dizer isso abertamente). O médico interpretado por Farrell vai ter que enfrentar erros do passado e tomar decisões terríveis no presente. Racionalmente, nada faz muito sentido, mas Lanthimos está lidando com fábulas e mitologia aqui. Estranho. Disponível na HBO Max. PS: curioso que tanto Farrell quanto Keoghan atuariam juntos em "Os Banshees de Inisherin" alguns anos depois, um filme também metafórico, embora completamente diferente.

A Garota na Fita (La Chica de Nieve, 2023)

A Garota na Fita (La Chica de Nieve, 2023). Dir: David Ulloa e Laura Alvea. Netflix. Minissérie de suspense em seis capítulos na Netflix. Em 2010, em Málaga, Espanha, uma garota de seis anos é sequestrada durante uma festividade. Os pais (Loreto Mauleón e Raúl Prieto) se desesperam, naturalmente, e colocam a polícia para investigar (o ator que faz o pai da menina parece um clone do Vladimir Brichta). A personagem principal da série, no entanto, é uma jovem jornalista chamada Miren (Milena Smit, de "Mães Paralelas", de Almodóvar). A moça carrega um trauma pesado e acaba se envolvendo, talvez mais do que deveria, no sumiço da menina. Ela tem um mentor, um jornalista mais experiente, interpretado por Jose Coronado.


A séria é boa em criar suspense e apresentar uma série de suspeitos plausíveis do rapto da criança. Há os clichês habituais como os pais dando coletivas de imprensa emocionantes ou a investigadora parada na frente de uma parede cheia de fotos, recortes de jornal e linhas vermelhas se cruzando. Milena Smit está muito bem como uma jovem traumatizada, de poucas palavras, que procura no trabalho um modo de se salvar. O mistério não é assim tão complicado e se a polícia não fosse tão incompetente saberia onde procurar, mas o objetivo da série é menos solucionar um crime e mais criar bom suspense em uma rede de personagens e tramas. A minissérie tem um final, mas fica a impressão de que poderemos ver outros casos no futuro. Tá na Netflix.