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quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

O Mundo Depois de Nós (Leave the World Behind, 2023)

 O Mundo Depois de Nós (Leave the World Behind, 2023). Dir: Sam Esmail. Netflix. Suspense pós-apocalíptico bem interessante que estreou hoje na Netflix. O elenco é ótimo, Ethan Hawke, Julia Roberts, Mahershala Ali, entre outros. É aquele tipo de suspense que Shyamalan poderia ter feito (me lembrou bastante "Sinais", de 2002). Pena que o filme comece muito bem mas vá "esvaziando" para o final.

O filme começa com uma família indo para uma casa na praia. Ela é enorme e moderna, muito bem decorada e com uma bela piscina. Tudo muito bonito, mas algumas coisas estão erradas; a internet está com problemas; o celular começa a falhar e, em seguida, a televisão sai do ar. Na praia, em uma bela sequência, um petroleiro enorme sai de curso e invade a areia. À noite, há uma batida na porta e um homem negro (Mahershala Ali) muito bem vestido, está na varanda, acompanhado da filha. "Essa é nossa casa", ele diz. Ele explica que houve um blecaute em Nova York e eles gostariam de passar a noite.

O que se segue é uma série de situações cada vez mais estranhas e assustadoras. Assim como em "Sinais", em que a família de Mel Gibson estava isolada em uma casa enquanto "alguma coisa" estava acontecendo no mundo, aqui não é diferente. O clima de tensão vai ficando cada vez maior conforme coisas inexplicáveis acontecem, como ruídos ensurdecedores que acontecem no meio da noite; algumas poucas notícias, desencontradas, aparecem em forma de mensagem de texto.

Há uma tensão racial (e sexual) constante na relação entre a família branca e "perfeita" e a outra, de pai e filha negros. A personagem de Julia Roberts, em um racismo pouco velado, não consegue acreditar que Mahershala Ali seja o dono de uma casa tão grande, e seja tão culto e rico. Ele, por outro lado, claramente sabe mais do que ele está falando, e tenta proteger a filha, Ruth (Myha'la). Já os filhos de Ethan Hawke e Julia Roberts vivem sob uma bolha; Rose, a menina, está desesperada porque queria ver o episódio final de "Friends" e a internet não está funcionando. Há referências a outras séries de TV como "The West Wing" (e uma cena me lembrou bastante "Lost"). É um bom suspense, que lida com nossas paranoias como a pandemia e imagina como seríamos inúteis se acordássemos, um dia, sem internet e celular. Tá na Netflix.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Álbum de Família

"Álbum de Família" é baseado em uma peça de teatro escrita por Tracy Letts, que também assina a adaptação cinematográfica. O filme é dirigido por John Wells (que dirigiu vários episódios da série americana "The West Wing"), que tenta ao máximo transferir a trama para exteriores (as planícies do estado de Oklahoma), tentando tirar o que há de teatral no roteiro; o problema é que o elenco é composto por um grupo extraordinário de atores que estão ATUANDO o tempo todo. São bons atores, o que é um ponto a favor. O ponto contra é que o espectador é bombardeado por "grandes interpretações" durante todo o filme. Quase todos os atores têm seu monólogo de três minutos em que podem mostrar para a platéia o quanto eles são bons. E ninguém é considerado melhor do que Meryl Streep, que não consegue falar uma frase sem parecer que está em um clipe do Oscar. Streep é boa atriz, todos sabemos disso, e domina a técnica como ninguém. Mas um filme é feito por altos e baixos, por pontos intensos e pontos calmos. "Álbum de Família" grita o tempo todo para o espectador o quanto é "sério" e "profundo". Aliado a um roteiro que começa trágico e termina como uma novela mexicana, o resultado é discutível.

Meryl Streep é Violet Weston, uma matriarca que sofre de câncer na boca e é viciada em remédios. O marido (o grande Sam Shepard, que infelizmente desaparece logo no início) é um poeta alcoólatra que, cansado da esposa e da vida, larga tudo, vai passear de barco e morre afogado (possivelmente um suicídio). Toda a família então se reúne para o funeral. E que família. Julia Roberts ("Jogos de Poder") e Ewan McGregor ("A Toda Prova") vêm do Colorado acompanhados pela filha adolescente (a boa Abigail Breslin), uma adolescente de 14 anos. Chris Cooper (o ator mais equilibrado do filme) e a irmã de Streep, Mattie (Margo Martindale), trazem comida e o filho Little Charlie (o britânico Benedict Cumberbatch, de "Star Trek" e o "Hobbit", com um sotaque americano passável). Juliette Lewis (que andava sumida) aparece com o noivo rico da Flórida em uma Ferrari vermelha. Há também a filha tímida de Streep, Ivy (Julianne Nicholson), que está namorando o primo Charlie às escondidas da família. (mais abaixo)


Falta foco. O que começa como um filme sobre a doença de Violet se transforma em um roteiro sobre o funeral de Sam Shepard e então se torna sobre a dependência de drogas de Violet, as brigas homéricas entre ela e a filha Julia Roberts (e seu divórcio com Ewan McGregor) e, quando o espectador imagina que nenhuma outra tragédia possa acontecer, há uma revelação a respeito de um romance proibido que parece tirada diretamente de uma novela mexicana. Sim, é tudo muito bem interpretado; Meryl Streep conseguiu sua enésima indicação ao Oscar e Julia Roberts foi indicada como Melhor Coadjuvante. Para quem gosta de um dramalhão, é o filme certo.

Câmera Escura

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Jogos do Poder

Outro dia falei aqui de "Leões e Cordeiros", de Robert Redford, e mencionei que lembrava algum episódio de "The West Wing", de Aaron Sorkin. Pois é, "Jogos de Poder" é um Sorkin "legítimo" e conta com uma equipe impressionante. O filme conta a história real de um congressista americano chamado Charlie Wilson (Tom Hanks), um mulherengo que dividia seu tempo entre o congresso em Washington e bordéis em Las Vegas, cercado de "strippers" e cocaína. Apesar deste caráter duvidoso, o filme mostra como Wilson, auxiliado por uma socialite de Houston (Julia Roberts) e um agente excêntrico da CIA (Philip Seymour Hoffman, excelente), ajudou a terminar com a Guerra Fria. Nos anos 80 a antiga União Soviética invadiu o Afeganistão e estava massacrando a população local com helicópteros e armamento pesado. A CIA tinha um orçamento anual de apenas 5 milhões de dólares para "operações especiais" (leia-se espionagem e sabotagem) no país. Wilson se interessa pela situação e pede para dobrar este orçamento, o que atrai a atenção de Joanne Herring (Julia Roberts), a 6a. mulher mais rica do Texas, que "encontrou Jesus" e quer tirar os comunistas do Afeganistão. Apesar de "religiosa", Joanne se envolve sexualmente com o mulherengo Wilson desde a primeira "reunião", e ambos decidem procurar ajuda para resolver o conflito no oriente. Usando os contatos de Joanne e contando com a ajuda do agente da CIA Gust Avrakotos, Wilson elabora um plano de fornecer armamento russo para os rebeldes afegãos contando com a ajuda de inimigos históricos como Israel e a Palestina. O armamento não pode ser americano porque, oficialmente, os Estados Unidos não estavam envolvidos no conflito. Extra-oficialmente, porém, os EUA elevaram cada vez mais o orçamento das operações secretas da CIA, chegando de 5 milhões anuais para até um bilhão de dólares. Com todo esse dinheiro, treinamento e armamento anti-helicópteros, os rebeldes afegãos conseguiram derrotar a União Soviética, que acabou ruindo alguns anos depois. A ironia é que estes afegãos, treinados pelos americanos, iriam se tornar o Taliban.

O filme é dirigido pelo grande Mike Nichols (A primeira noite de um Homem, Closer) e escrito por Aaron Sorkin, roteirista "queridinho" da TV americana que criou e escreveu as séries "Sports Night" (ótima série, mas pouco vista), "The West Wing" e "Studio 60 on the Sunset Strip". Sorkin é conhecido por seus diálogos rápidos e inteligentes ("The West Wing" é provavelmente a série com mais diálogos da história da televisão). "Jogos do Poder" é cheio destes diálogos, mas o filme não é tão bom quanto poderia ser. Achei ele um pouco confuso com o que está realmente tentando passar. A trama é muito focada na ação "heróica" de Wilson e seus companheiros em ajudar os afegãos a derrotar a União Soviética. Quando isso acontece, o filme perde a oportunidade de ser realmente polêmico e mostrar o que aconteceu depois. Sim, nós sabemos que aqueles heróis rebeldes acabaram se tornando os terroristas que os próprios americanos estão caçando hoje, mas por que não deixar isso mais explícito? Talvez o fato de haver tantos astros no filme (três vencedores do Oscar, Hanks, Roberts e Hoffman, fora o diretor Nichols) e o tom leve tenham impedido um aprofundamento maior nas causas e consequências do ocorrido. Fica uma sensação de que falta alguma coisa quando o filme termina, em uma cerimônia de premiação do governo americano para Charlie Wilson.

A direção de fotografia, a cargo de Stephen Goldblatt, é maravilhosa. E Philip Seymour Hoffman rouba todas as cenas. Impressionante comparar sua interpretação aqui como um agente bruto e boca suja, com seu retrato de Truman Capote, pelo qual ganhou o Oscar. Disponível em DVD.