segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Kate (2021)

Kate (2021). Dir: Cedric Nicolas-Troyan. Netflix. Comecei a ver achando que iria parar depois de uns dez minutos, mas "Kate" é bem melhor do que esperava. Passado no Japão moderno, parece que estamos vendo um "anime" em live action. O roteiro é uma bobagem, mas o diretor francês tem bastante estilo e entrega alguns planos bem feitos seja em cenas de correria pelas ruas de Tokyo ou nas várias lutas corpo a corpo em restaurantes, ruelas escuras ou arranha-céus. A fotografia noturna usa luzes neon, projeções em prédios e luminosos que lembram um pouco "Akira" ou "Ghost in the Shell".

Mary Elizabeth Winstead cresceu e não é mais (faz tempo) aquela adolescente de "Scott Pilgrim". Aqui ela é uma assassina profissional chamada Kate, que trabalha para uma espécie de figura paterna interpretada por Woody Harrelson, que a treinou desde criança. (Meio spoiler, mas é a premissa do filme>>) Kate acaba envenenada mortalmente após assassinar o membro de um clã da Yakuza. Com apenas alguma horas de vida, ela parte para se vingar pelas ruas de Tokyo, matando um bocado de gente mesmo com a saúde se deteriorando a olhos vistos.

Winstead está bem no papel. Ela é boa atriz e se garante tanto nas cenas dramáticas quanto nas de ação. Há bastante violência em cenas de tiroteio, lutas com facas e até katanas. Kate acaba formando uma parceria (meio forçada) com uma adolescente (Miku Martineau) que é a sobrinha do chefão que ela pretende matar. Eu acho que o filme poderia terminar uns 15 minutos antes (como sempre) mas há um clímax bem feito, com muita pancadaria e tiros em um arranha-céu. Bobagem clichê divertida. Tá na Netflix. 
 

The White Lotus (2021)

The White Lotus (2021). Dir: Mike White. HBO Max. Minissérie em 6 capítulos que mistura o belo visual do Havaí com o retrato do pior que existe no ser humano, "The White Lotus" é deliciosamente perversa. A série é passada em um resort exclusivo de alta classe que só pode ser acessado por barco. A cena da chegada dos hóspedes, aliás, me lembrou o começo dos episódios de "Ilha da Fantasia". O hotel é frequentado pela "nata" dos turistas internacionais, quase todos brancos, ricos e acostumados ao melhor.

O hotel é gerenciado por Armond (Murray Bartlett, excelente), um alcoólatra que está sóbrio há cinco anos. Ele é cortês e competente, mas está no limite da paciência. Nesta semana, ele vai ter que lidar com: a) um casal em lua de mel formado por Shane Patton (Jake Lacy) e a esposa, Rachel (Alexandra Daddario). Shane é o típico "filhinho da mamãe", milionário que está passando férias em um paraíso, mas não se conforma que o hotel errou e o colocou na SEGUNDA maior suíte do hotel. Ele não vai se esquecer desse erro, nem que, com isso, estrague a lua-de-mel e as férias. A esposa, Rachel, vem de uma família com menos dinheiro e, aos poucos, percebe que entrou em uma roubada (embora ela não saiba direito o que quer da vida).

b)a família Mossbacher é formada por uma executiva bem sucedida, Nicole (Connie Britton), o marido Mark (Steve Zahn), a filha insuportável Olivia (Sydney Sweeney) e o filho Quinn (Fred Hechinger). Olivia trouxe uma amiga, Paula (Brittany O'Grady), e as duas têm um estoque de remédios e drogas capaz de dopar um exército. Nicole é workaholic e passa as férias em chamadas com a China. O pai, Mark, é um coitado que tenta se aproximar dos filhos mimados das formas mais idiotas do mundo. Os adolescentes, quando não estão no celular, só sabem mostrar como estão revoltados com as injustiças do mundo (enquanto aproveitam as férias em um resort dez estrelas).

c) Jennifer Coolidge é Tanya, uma "perua" de meia idade que traz na bagagem as cinzas da mãe, que ela pretende jogar no oceano. Ela bebe muito e está sempre com dores; em uma visita ao spa do hotel ela recebe uma massagem "milagrosa" de Belinda (Natasha Rothwell). Tanya se "apaixona" por Belinda e a convida para jantares e passeios, além de prometer financiar uma clínica particular para a massagista, que realmente acredita na promessa.

Todos estes personagens se cruzam pelos corredores luxuosos do hotel e pelas praias paradisíacas do Havaí mas, pelo jeito, nunca estão felizes. A série tem um humor muito sarcástico e há algumas cenas bastante fortes, que contrastam com a direção de fotografia maravilhosa e a trilha sonora composta por canções tradicionais do Havaí. Disponível na HBO Max.
 

Voyagers (2020)

Voyagers (2020). Dir: Neil Burger. Amazon Prime. Ficção-científica adolescente que foi bastante criticada, mas que não achei tão ruim (assisti com zero expectativas). A principal crítica é que o roteiro é basicamente uma versão espacial de "O Senhor das Moscas", livro de William Golding que mostrava o que acontecia a um grupo de crianças que naufragou em uma ilha deserta. Sem orientação de adultos e entregues à "natureza humana", o resultado era bem ruim.

Neste filme, 30 crianças são criadas desde bebês para partir em uma viagem sem volta; eles vão embarcar em uma nave que vai viajar por 86 anos até chegar a um planeta distante, em uma "nave geracional". Se tudo correr bem, só seus netos, nascidos na nave, chegarão ao destino. Richard (um competente Colin Farrell) é o único adulto a bordo. Dez anos depois, a nave é mantida pelos 30 (agora) adolescentes e por Richard. Só que alguns problemas começam a acontecer; os adolescentes descobrem que uma bebida azul, que eles tomavam depois das refeições, era uma droga que inibia o desejo sexual, entre outras coisas (as futuras gerações seriam criadas em laboratório, se dependesse dos cientistas). Eles param de tomar a droga e, aos poucos, começam a agir de forma desinibida, o que gera conflitos, revoltas, ciúmes e atração sexual.

O elenco adolescente é bom (Lily-Rose Depp, filha de Johnny Depp, está no elenco) e o filme tem bom visual e efeitos especiais competentes. O roteiro é um tanto previsível (mesmo para quem não leu "O Senhor das Moscas") mas, como disse, não é um filme ruim. Ele poderia, sim, ser bem mais ousado. A impressão que dá é que o diretor não pode (ou não quis) chocar o público, então o filme fica no meio do caminho quando trata de sexualidade ou violência. Disponível na Amazon Prime. 

Madame (2017)

Madame (2017). Dir: Amanda Sthers. Amazon Prime. Comédia dramática que poderia ter rendido bem mais, "Madame" lembra um pouco "Que horas ela volta?", filme brasileiro em que Regina Casé interpretava uma empregada "da família" em uma casa de São Paulo. Aqui, uma família americana rica tem uma casa enorme em Paris. O casal principal é interpretado pelos grandes Harvey Keitel e Toni Collette, excelentes. A empregada é Rossy de Palma, espanhola vista em vários filmes de Almodóvar.

A americana organiza um jantar de gala em que até o prefeito de Londres estará presente, mas há um problema: o filho de Harvey Keitel, Steven (Tom Hughes) aparece de surpresa, o que faz com que a mesa tenha 13 convidados. Para fazer um número par, a patroa pede que a empregada coloque um vestido e se sente à mesa ("fale pouco, beba pouco"). Só que um convidado, um vendedor de arte inglês (Michael Smiley), acaba se apaixonando pela espanhola (que ele acredita ser da realeza da Espanha).

Está armada uma comédia de erros em que o rico inglês começa a sair com a empregada espanhola, acreditando que ela é uma rica excêntrica, enquanto que a patroa americana não se conforma que a empregada tenha uma vida amorosa melhor do que a dela. Toni Collette está muito bem como uma mulher rica mas mal amada, que acha que a empregada deve voltar "ao seu lugar". O tom cômico se torna mais dramático conforme o ciúme da patroa aumenta e ela começa a interferir no romance da empregada. Harvey Keitel está divertido e Rossy de Palma está muito bem. É um filme bem europeu, com produção francesa mas falado em inglês. O tema poderia ter rendido mais, mas não é um filme ruim. Disponível na Amazon Prime.
 

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Quanto Vale (Worth, 2021)

Quanto Vale (Worth, 2021). Dir: Sara Colangelo. Netflix. O filme vale pelas interpretações de Michael Keaton, Stanley Tucci e Amy Ryan. Baseado na história de real dos acontecimentos após os atentados de 11 de setembro de 2001, Keaton interpreta o advogado Ken Feinberg; ele foi o responsável por chefiar uma comissão que iria determinar o valor das indenizações que os sobreviventes e suas famílias receberiam do governo americano. A comissão foi criada, também, para evitar que milhares de pessoas abrissem processo contra as companhias aéreas usadas pelos terroristas para derrubar o World Trade Center, em Nova York, e atacar o Pentágono, em Washington.

As melhores cenas envolvem o embate entre Michael Keaton e Stanley Tucci (excelente), que interpreta Charles Wolf; ele havia perdido a esposa no WTC e criado um grupo civil independente que não concordava com os valores determinados pela comissão oficial. Quanto vale uma vida? O valor da indenização deveria ser igual a todos ou variar dependendo da riqueza (ou pobreza) da família da vítima? É possível colocar um valor financeiro da perda de um pai, marido, esposa ou filho? O personagem de Michael Keaton tenta ver tudo de forma racional e matemática enquanto que Stanley Tucci quer que as vítimas sejam vistas como seres humanos, e não números.

O filme não chega a responder direito a estas questões, mas, como disse, vale pelas interpretações. Amy Ryan (sócia de Michael Keaton na firma de advocacia), entrevista pessoalmente dezenas de vítimas e suas famílias e se envolve de forma mais pessoal com seus dramas. O tema ainda é atual. Os atentados completam 20 anos este mês e centenas de bombeiros ainda lutam para receber indenizações por doenças adquiridas durante as operações de salvamento. Tá na Netflix.


Cowboys do Espaço (Space Cowboys, 2000)

Cowboys do Espaço (Space Cowboys, 2000). Dir: Clint Eastwood. HBO Max. Clint Eastwood era um jovem de 70 anos quando produziu, dirigiu e estrelou este filme. A premissa de “Cowboys do Espaço” é difícil de engolir, mas o filme é gostoso de ver e o elenco é ótimo. 40 anos depois de ter sido trocado por um macaco no programa espacial americano, Frank Corvin (Eastwood) é chamado pela NASA para consertar um satélite russo que estava caindo de volta para a Terra. O personagem de Eastwood havia desenhado o sistema de um satélite americano e seu programa havia sido roubado pelos soviéticos em plena Guerra Fria. Ele consegue convencer (chantagear, na verdade) os chefões da NASA que ele e sua antiga equipe eram os únicos capazes de consertar o satélite russo antes que ele queimasse na atmosfera. E que equipe; James Garner (72 anos na época), Donald Sutherland (65 anos) e Tommy Lee Jones (que só tinha 54 anos, mas sempre teve “cara de velho” e interpreta um piloto que teria a mesma idade de Eastwood).

O filme é bem divertido, dirigido com leveza por Eastwood e com interpretações bem humoradas dos outros atores veteranos. Há várias sequências que brincam com a idade dos personagens, como sequências de treinamento e exames médicos. James Cromwell (na época com 60 anos) faz seu tradicional papel de babaca burocrático como um dos diretores da NASA. A agencia espacial americana, aliás, deve ter apoiado o filme, pois várias sequências foram feitas em instalações da NASA, que na época ainda mantinha os ônibus espaciais funcionando. O clímax do filme, em órbita terrestre, ainda abre espaço para uma trama envolvendo fantasmas da antiga União Soviética e cenas de sacrifício e heroísmo. Divertido. PS: o ator Jon Hamm, da série Mad Men, aparece rapidamente como um piloto na cena em que Tommy Lee Jones é visto pela primeira vez. Revisto na HBO Max.
 

20.000 Léguas Submarinas (20,000 Leagues Under the Sea, 1954)

20.000 Léguas Submarinas (20,000 Leagues Under the Sea, 1954). Dir: Richard Fleischer. Disney+. Sempre bom rever este clássico da Disney, baseado no livro de Júlio Verne. O roteiro de Earl Felton não é muito fiel ao livro, mas este é dos raros exemplos em que o filme é até melhor que o original. James Mason está inspirado como o Capitão Nemo, um homem que se rebela contra a sociedade e vai para o mar em um submarino que é uma maravilha tecnológica. O Nemo do livro era bem menos obcecado e vingativo que o do filme, mas a mudança é boa. O grande Kirk Douglas interpreta o marinheiro Ned Land, que é contratado para matar o "monstro marinho" que estaria atacando navios no final do século 19. O monstro acaba se revelando ser o submarino Nautilus, do Capitão Nemo; Ned Land (Douglas), o Professor Aronnax (Paul Lukas) e seu assistente (Peter Lorre) se tornam seus prisioneiros.

Os efeitos especiais, feitos com miniaturas e pinturas, ainda impressionam, mesmo para um filme feito em 1954. Um dos pontos altos é o combate com uma lula gigante que ataca o Nautilus. Nunca havia percebido como algumas cenas podem ter servido de inspiração para "Caçadores da Arca Perdida" (1981); quando um homem do governo americano vem recrutar o Professor Aronnax para uma expedição, a cena lembra o momento em que os agentes americanos recrutam Indiana Jones para achar a Arca Perdida antes dos nazistas. Outra cena parecida é quando Kirk Douglas sai correndo de uma floresta, perseguido por dezenas de índios, assim como Harrison Ford no começo de "Caçadores". E o clímax de "20 mil Léguas Submarinas" se dá em uma ilha remota, assim como o final de "Caçadores da Arca Perdida" (Indiana Jones vai até a ilha em um submarino, falando nisso). Destaque para as belas cenas submarinas e para a trilha sonora de Paul Smith. O filme está na Disney+ e continua ótimo. 

Greystoke: A Lenda de Tarzan, o Rei da Selva (Greystoke: The Legend of Tarzan, Lord of the Apes, 1984)

Greystoke: A Lenda de Tarzan, o Rei da Selva (Greystoke: The Legend of Tarzan, Lord of the Apes, 1984) . Dir: Hugh Hudson. HBO Max. Fuçando entre os filmes "antigos" da HBO Max, encontrei este, que acho que assisti há muito tempo em VHS ou na TV; mas foi como ver pela primeira vez. Ele fez relativo sucesso na época do lançamento e trouxe ao mundo Christopher Lambert e Andie McDowell, em seus primeiros papéis.

É um filme que envelheceu mal. O roteiro original foi escrito por Robert Towne (de "Chinatown"), mas era longo e não terminado. O projeto foi passado a Hugh Hudson (de "Carruagens de Fogo") que terminou o roteiro com Michael Austin. Visto hoje, os gorilas são claramente pessoas vestindo fantasias, mesmo tendo sido feitas pelo mestre Rick Baker. A visão da África e dos habitantes locais também se tornou bem arcaica. Christopher Lambert (que disputou o papel com Viggo Mortensen, vejam só) está bem como o "rei da selva", mas sua imitação de macaco acaba se tornando mais engraçada do que realista. Andie McDowell era uma modelo e sua voz teve que ser dublada por Glenn Close, por causa do sotaque sulista. O grande Ian Holm interpreta um explorador belga que é salvo de um ataque de pigmeus por Tarzan (que nunca é chamado por esse nome, aliás).

A parte passada na África é a mais interessante. As filmagens foram feitas em Camarões, mas várias cenas da floresta foram recriadas em estúdios na Inglaterra. Lambert não fala (ao menos em inglês) até a segunda parte do filme, passada na Europa, para onde Tarzan é levado. Há algumas observações interessantes sobre o contraste entre a sociedade civilizada versus a natureza selvagem mas, como disse, o filme envelheceu mal e tudo é carregado demais. A boa fotografia foi feita por John Alcott (que trabalhou com Kubrick) e a edição é da veterana Anne V. Coats (Lawrence da Arábia, O Homem Elefante e... 50 Tons de Cinza?). Vale pela curiosidade. Disponível na HBO Max.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

The Pacific (2010)

The Pacific (2010). Vários diretores. HBO Max. Assinar a HBO Max, para mim, tem mais a ver com explorar o acervo passado do canal do que o presente. "The Pacific" é um dos motivos. É uma minissérie irmã de "Band of Brothers" (2001), espetacular retrato da reconquista da Europa pelos soldados aliados na 2ª Guerra Mundial. Como diz o título, "The Pacific" foca nas batalhas travadas pelos americanos contra os japoneses nas centenas de ilhas do Oceano Pacífico. Não é tão boa quanto "Band of Brothers", mas chega perto. São dez capítulos com produção executiva de Tom Hanks e Steven Spielberg, o que garantiu um alto orçamento e cenas de batalhas quase tão espetaculares quanto "O Resgate do Soldado Ryan" (1998).

Baseada em relatos de combatentes reais, a série acompanha uma série de Fuzileiros Navais (os famosos "Marines") em ferozes lutas travadas no mar, nas praias e selvas de diversos arquipélagos dominados pelos japoneses. Spielberg estabeleceu um padrão de realismo (e violência) em "Soldado Ryan" que revolucionou o modo como o cinema retratou a 2ª Guerra, e "The Pacific" recria isso em violentas cenas de combates. Entre uma batalha e outra, porém, o roteiro trata do lado humano dos fuzileiros, focando em três personagens, Robert Leckie (James Badge Dale), Eugene Sledge (Joseph Mazzello) e John Basilone (Jon Seda). Curioso que Joseph Mazzello divida a tela com um jovem Rami Malek. Os dois trabalhariam juntos, anos depois, interpretando John Deacon e Freddie Mercury em "Bohemian Rhapsody".

Há mais episódios "parados" do que "Band of Brothers", creio; o combate no Pacífico estava mais para um guerrilha na selva do que a guerra na Europa. Por outro lado, "The Pacific" é mais ousada em cenas de nudez e sexo (o que, se não me engano, não havia em "Band of Brothers"). Há um episódio passado na Austrália em que vemos vários soldados americanos se envolvendo com as mulheres locais. É uma série americana, então claro que os americanos são vistos como heróis que salvaram o mundo, apesar de haver várias cenas em que o comportamento deles é questionável. Os japoneses pouco são vistos, a não ser como centenas de alvos, morrendo (e matando) às centenas. Os americanos se referem a eles com uma série de nomes racistas e preconceituosos (o que, provavelmente, é uma recriação realista de como se falava na época), embora seja aparente certo respeito como combatentes ferozes. O último episódio mostra a volta para casa dos soltados, a maioria com uma expressão de "e agora?" no rosto. PS: uma terceira série está sendo feita pelos mesmos produtores; aparentemente, vai tratar dos aviadores, mas não será veiculada pela HBO, mas pela Apple. Sinal dos tempos.

 

domingo, 29 de agosto de 2021

Antebellum (2020)

107 - Antebellum (2020). Dir: Gerard Bush e Christopher Renz. HBO Max. Não sabia NADA sobre este filme quando fui assistir (que é como geralmente eu gosto de ver um filme), o que resultou em uma experiência no mínimo curiosa. Ruim mas, ao menos, curiosa. Ao dar uma lida a respeito depois, porém, fiquei pasmo sobre como toda e qualquer surpresa que existe no roteiro foi revelada em trailers, sinopses e praticamente qualquer mídia sobre o filme. "Antebellum" (que significa "antes da guerra", geralmente ao se referir ao período antes da Guerra Civil Americana), foi vendido como um filme na mesma linha de "Corra" e "Us", de Jordan Peele, que conseguiram a façanha de misturar filmes de terror com discussão racial. Vamos por partes.

"Antebellum" começa com um belo plano sequência em uma fazenda no Sul dos EUA, mostrando uma daquelas mansões brancas e lentamente indo até os fundos, onde ficavam os escravos. O plano termina com o assassinato de uma escrava que havia tentado fugir. Acompanhamos então, por uns 40 minutos, um filme na linha de "12 Anos de Escravidão", com toda a crueldade da época. Janelle Monáe é uma escrava chamada Eve, que sofre junto com os companheiros os abusos dos capatazes brancos, quase todos soldados do exército confederado, que lutava pelo Sul escravocrata dos EUA na Guerra Civil.

O filme então dá uma guinada para o presente, e a mesma Janelle Monáe é Veronica, uma ativista e escritora famosa, rica e bem casada. Todo o horror visto na primeira parte dá lugar a uma mulher empoderada, dona do nariz e do seu destino. Tudo muito bem, mas esta segunda parte é muito mal escrita e, a bem da verdade, chata. Acompanhamos Veronica hospedada em um hotel cinco estrelas e, depois, saindo para uma noitada com as amigas. Mas há algo errado, uma mulher que claramente é uma vilã caricata está rondando Veronica e você sabe que alguma coisa vai acontecer. O "presente vai repetir o passado", ou algum clichê do tipo. E eu não posso falar mais nada. A parte da escravidão é desagradável, claro, pelos abusos mostrados na tela. A parte moderna é simplesmente chata. E todo filme depende de algumas "surpresas" que, repito, estão reveladas nos trailers e até na sinopse da HBO Max. Enfim, veja por sua conta e risco. Uma coisa é certa, "Antebellum" está muito longe de "Corra". Disponível na HBO Max.

 

sábado, 28 de agosto de 2021

Estranho Passageiro - Sputnik (2020)

Estranho Passageiro - Sputnik (2020). Dir: Egor Abramenko. Netflix. Ficção científica russa com charme de filme B, "Sputnik" tem mais a ver com "Vida" (Life, 2017), do que com "Alien" (1979), mas bebe da mesma fonte. Passado em 1983, em plena Guerra Fria, a trama começa com dois astronautas soviéticos em órbita, se preparando para voltar para casa. Eles então percebem que "alguma coisa" está fora da nave, tentando entrar. Corta para uma base soviética, algum tempo depois; uma cientista chamada Tatiana (Oksana Akinshina) é chamada por um coronel para examinar um dos astronautas, Konstantin (Pyotr Fyodorov). Ele é o único sobrevivente daquele voo e carrega consigo algo assustador; um alien está alojado dentro do corpo dele, e sai todas as noites pela boca para explorar em volta. O design do alien é apropriadamente assustador, com longos braços e vários olhos, como uma aranha.

E é basicamente isso. O resto do filme é um embate entre a cientista, que quer salvar a vida do astronauta, e do coronel, que quer transformar o alien em algum tipo de arma. Há alguns segredos desagradáveis que o coronel não contou à cientista, que rendem as cenas mais violentas do filme. Há também uma discussão leve sobre o papel de pais e filhos (o astronauta teria largado um filho ilegítimo em um orfanato) e sobre a ligação simbiótica entre o alien e o astronauta. O filme é escuro e passa o visual utilitário (e analógico) de uma base soviética na Guerra Fria. A primeira parte é melhor que a segunda, mas é um filme interessante. Tá na Netflix.
 

A Arte da Autodefesa (The Art of Self-Defense, 2019)

A Arte da Autodefesa (The Art of Self-Defense, 2019). Dir: Riley Stearns. Netflix. Comédia de humor negro que parodia filmes de artes marciais, "A arte da autodefesa" também lida com a fragilidade masculina de forma irônica. Jesse Eisenberg é Casey, um contador que trabalha até tarde na empresa, não consegue puxar papo com ninguém e, quando volta para casa, é recebido só pelo cachorro. Uma noite, quando sai para comprar ração para o pet, Casey é cercado por um grupo de motociclistas que roubam sua carteira e lhe dão uma surra. Assustado, Casey primeiro pensa em comprar uma arma, mas então passa na frente de uma academia de Karatê e resolve entrar. Lá ele conhece um professor carismático que quer ser chamado apenas de "Sensei" (Alessandro Nivola).

Curioso como o filme brinca com os clichês do gênero e até rouba inspiração de filmes como "Karate Kid" (Daniel Larusso leva uma surra de um grupo de ciclistas antes de virar aluno do Sr. Miyagui, por exemplo). Só que "A Arte da Autodefesa" está mais para um "Clube da Luta" do que para "Karate Kid". Casey se torna obcecado pela academia e quer andar o tempo todo com a faixa amarela na cintura. Ele começa a ouvir música pesada e a ser ríspido no trabalho. Ele até deixa de estudar Francês e passa a estudar Alemão, uma língua "mais máscula", segundo o Sensei.

Só não espere uma comédia escancarada. Pelo contrário, o roteiro se torna cada vez mais sério (embora ainda irônico) até chegar ao final. Jesse Eisenberg está muito bem, assim como Alessandro Nivola, que interpreta o Sensei como um homem manipulador. Imogen Poots é a única presença feminina, como uma aluna da academia que tenta chegar à faixa preta mas é mantida para trás pelo machismo do Sensei. Tá na Netflix.
 

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Raised by Wolves (2020)

Raised by Wolves (2020). HBO Max. Série de ficção-científica que tem os primeiros dois capítulos dirigidos por ninguém menos que Ridley Scott, "Raised by Wolves" é tão fascinante quanto decepcionante. A criação de mundo é bela; dá para sentir a influência de Scott na direção de arte, nos cenários, na trilha sonora, em tudo. Há também um bocado de referências a outros filmes dele, como Blade Runner, Alien, Prometheus (particularmente este último, mais discussões à frente). As interpretações são, no geral, muito boas. Discutem-se alegorias religiosas, inteligência artificial e reprodução, destino e acaso, ateísmo e fé. Pena que a série tenha longos 10 capítulos, que acabam esticando demais a trama e caindo em repetições e exageros, sem falar na decepção de chegar ao final do décimo episódio e não ter uma conclusão (uma segunda temporada está em produção).

No século 22, uma pequena nave pousa no planeta Kepler 22B. De dentro dela saem duas figuras humanoides, que tratam um ao outro como "Pai" (Abubakar Salim) e "Mãe" (Amanda Collin). São androides. Eles montam acampamento, preparam a terra e se fixam no local. É então que o "Pai" liga a "Mãe" a uma espécie de incubadora e, nove meses depois, ela gera seis bebês, de várias raças. Eles planejam começar uma nova civilização mas, com o passar dos anos, alguns dos filhos morrem por doenças. Para piorar a situação, uma outra nave chega ao planeta, com tripulantes de uma facção religiosa rival, e uma disputa se estabelece. Os dois primeiros episódios são dirigidos por Ridley Scott e o primeiro, particularmente, é sensacional; com algumas modificações, poderia ter sido lançado como um filme independente.

A questão da maternidade é explorada tanto como uma benção quanto como uma maldição; isso já foi visto antes em filmes de Scott como "Prometheus" (lembram da cena de Noomi Rapace na mesa de operação robótica?). Falando em "Prometheus", há várias pistas de que esta série se passe no mesmo "universo compartilhado"... os androides têm o mesmo sangue branco, por exemplo, e (sem entrar em spoilers) há outras dicas espalhadas pela trama. A "Mãe", vivida pela excelente atriz holandesa Amanda Collin, é programada para cuidar de crianças, o que ela faz com uma dedicação praticamente humana (o que remete a "Blade Runner 2049"). O problema, como disse, é que a trama é esticada para dez episódios, e as discussões e temas se tornam repetitivos. Vários mistérios vão surgindo com o decorrer dos episódios e, como espectador, você espera por uma conclusão que não chega. Claro que a HBO tem interesse em séries que possam ser esticadas por várias temporadas, como "Game of Thrones" e "Westworld", mas "Raised by Wolves" chega ao final não com gosto de "quero mais", mas de "faltou alguma coisa". Ela nunca deixa, porém, de ser fascinante de se assistir. Disponível na HBO Max.
 

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Palavras que borbulham como refrigerante (Cider no yô ni kotoba ga wakiagaru, 2020)

Palavras que borbulham como refrigerante (Cider no yô ni kotoba ga wakiagaru, 2020). Dir: Kyohei Ishiguro. Netflix. Se você procurar pela definição de "Kawaii" no dicionário, vai achar este filme (na verdade, "Kawaii" pode ser traduzido como "fofo", "gracinha"). Coprodução japonesa com a Netflix, "Palavras que borbulham como refrigerante" pode, a princípio, assustar. Esqueça a calma filosófica de um Hayao Miyazaki (ou Makoto Shinkai); este é um anime do século XXI, passado em grande parte dentro de um shopping, com cores fortes e design exagerado. Eu quase desisti nos primeiros quinze minutos, confesso; o roteiro foi se revelando aos poucos e, então, fiquei com um sorriso bobo até o final dos curtos 87 minutos de duração.

A trama fala sobre um rapaz que gosta de fazer "haikais", aquela poesia japonesa composta por três linhas de 5, 7 e 5 sílabas. Como estamos no século XXI, ele publica seus poemas online, embora tenha poucos seguidores. Acompanhamos também uma garota chamada "Smile", que é uma "influencer" com milhares de seguidores. Apesar da fama, ela tem vergonha dos dentes da frente (estilo Mônica) e está sempre usando máscaras (e não é por causa de covid). O garoto e a garota, claro, acabam se conhecendo e se aproximando, embora daquele modo bem japonês (respeitoso e distante). Parece que você vai ver só um romancezinho adolescente mas, devagarinho, o roteiro se torna poético.

O rapaz trabalha em uma casa para idosos (dentro do shopping, veja você) e há um senhor que procura por um disco (um LP) antigo, porque ele "não quer se esquecer do passado". O anime moderno se torna uma busca pelo passado (e pelas tradições do passado). Os adolescentes se unem para procurar pelo disco perdido do velho. O shopping se prepara comemorar o aniversário com um tradicional festival japonês. O possível romance entre o garoto tímido e a garota popular está ameaçado por um segredo dele. Sim, é meio "novelinha", mas bem "kawaii". Tá na Netflix. 
 

Aqueles que me desejam a morte (Those who wish me dead, 2021)

Aqueles que me desejam a morte (Those who wish me dead, 2021). Dir: Taylor Sheridan. HBO Max. Em breve, na sua "Tela Quente". Nos dias de hoje não faz muito sentido chamar um filme de "telefilme", mas este é claramente um. Daquele tipo de produção competente (para o que se propõe), com meia dúzia de astros recebendo seu cheque tranquilos, tecnicamente ok, tiroteios, perseguições... ei, que tal colocarmos um grande incêndio também?
Angelina Jolie é Hannah, uma bombeira que está traumatizada por não ter conseguido salvar uns garotos em um incêndio florestal. Junta-se à trama um contador que está fugindo de dois assassinos profissionais (Aidan Gillan, de "Game of Thrones", e Nicholas Hoult); ele tem informações sigilosas sobre um desvio de dinheiro feito por pessoas poderosas, que o querem morto. Junto dele está seu filho, um garoto de uns dez anos bem interpretado por Finn Little. Os assassinos conseguem matar o contador mas, incompetentes, deixam o garoto escapar na floresta. E quem ele encontra durante a fuga? Angelina Jolie, claro, que precisa salvar o garoto para ficar em paz com o passado e satisfazer o roteirista.
Os assassinos quase roubam o filme. Gillan (que interpretava "Littlefinger", em "Game of Thrones"), é naturalmente repugnante e um bom vilão; Nicholas Hoult, com seu rosto de "bom moço", surpreende como assassino. O elenco ainda conta com Jon Bernthal como um policial (com a obrigatória esposa grávida). O filme apresenta um grande grupo de bombeiros no início mas, curiosamente, eles praticamente não são mais vistos, nem mesmo quando um grande incêndio acontece na floresta. Não é um filme ruim, embora nunca ouse muito e, como disse, está destinado à uma noite na Globo, depois da novela. Disponível na HBO Max.

 

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (Onward, 2020)

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (Onward, 2020). Dir: Dan Scanlon. Disney+. Confesso que conhecia pouco sobre esta animação. Foi lançada nos cinemas pouco antes da pandemia, fracassou nas bilheterias e foi parar na Disney+. Fiquei surpreso quando foi indicada ao Oscar de Melhor Animação. Resolvi visitar agora na Disney+ e me surpreendi positivamente. Não tem muito a "cara" de uma animação da Pixar, é mais urbana e adolescente, mas o roteiro é honesto e, coisa rara, ele melhora conforme avança.

A trama se passa em um mundo de fantasia em que a mágica se perdeu por causa das facilidades do mundo moderno, como lâmpadas elétricas, carros e outras comodidades. Ainda há elfos, centauros, dragões e coisas do tipo, mas estão todos "civilizados". O roteiro segue a vida de dois irmãos, Ian (voz de Tom Holland) e Barley (Chris Pratt); Ian, o mais novo, é tímido e inseguro. Barley, o mais velho, é confiante, falastrão e acredita piamente em magia e no poder dos velhos tempos. Os dois descobrem que o pai (que morreu quando Ian era bebê) deixou para eles um cajado mágico e um encantamento que permitiria que ele voltasse à vida por 24 horas. Só que a magia dá errado e apenas metade do pai (basicamente só as pernas) volta do além. Cabe aos irmãos partir em uma jornada atrás de uma pedra mágica que traria o pai, inteiro, de volta.

Como disse, o filme fica melhor conforme avança. A aventura dos irmãos é divertida e o filme, como todo produto Pixar, é tecnicamente muito bem feito. O bom trabalho de voz de Tom Holland e Chris Pratt é acompanhado por Julia Louis-Dreyfuss e Octavia Spencer, entre outros. Talvez não vire um clássico, mas é uma boa aventura. Disponível na Disney+.
 

Beckett (2021)

Beckett (2021). Dir: Ferdinando Cito Filomarino. Netflix. Thriller com John David Washington que nunca cumpre a boa promessa inicial. Washington é Beckett, um turista que está passeando pelas montanhas da Grécia com a namorada (Alicia Vikander). Os dois se envolvem em um grave acidente de carro e Beckett se vê em um pesadelo; ao invés de ajudá-lo, policiais tentam matar Beckett logo que ele sai do hospital. Sem falar a língua e ferido, ele tenta sobreviver enquanto foge da polícia e tenta chegar a Atenas, na esperança de encontrar refúgio na embaixada americana.

Há algo de Hitchcock nessa premissa; o mestre inglês do suspense adorava colocar pessoas comuns em situações extraordinárias (Intriga Internacional. O Homem que Sabia Demais, etc); o problema é que o roteiro de "Beckett" fica só na promessa. A situação em que ele se encontra é intrigante, mas depois de um tempo esperamos algo mais do que cenas repetitivas de encontros violentos com os perseguidores e fugas mirabolantes.

Vicky Krieps, de "Trama Fantasma" (de Paul Thomas Anderson) e do recente "Tempo" (de Shyamalan), interpreta uma ativista que o personagem de Washington encontra pelo caminho; Boyd Holbrook (de "Narcos" e "Logan"), é um funcionário da embaixada americana. O filme foi coproduzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, da RT Features ("Frances Ha", "Me Chame pelo seu Nome") e tem trilha sonora do grande Ryuichi Sakamoto. John David Washington apanha um bocado e faz o que pode com o roteiro pouco desenvolvido. 


 

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Val (2021)

Val (2021). Dir: Ting Poo e Leo Scott. Amazon Prime. Bom documentário sobre a vida do ator Val Kilmer. O filme apareceu sem nenhuma propaganda na Amazon Prime, mas eu o aguardava há algum tempo. Val Kilmer nunca chegou ao status de "astro" como Tom Cruise ou Harrison Ford, longe disso, mas foi sempre um ator marcante mesmo nas produções "B" que fizeram parte de seu currículo nos últimos anos. Recentemente foi atacado por um câncer de garganta que acabou com sua voz forte e debilitou sua aparência. Ele sobreviveu, mas é triste ver o que a doença fez com sua figura.

Sem poder falar (a não ser tampando um buraco na garganta com os dedos), Val Kilmer resolveu contar a própria história, usando centenas de horas de filmagens feitas por ele mesmo desde criança. Sim, é um projeto cheio de vaidade, mas Kilmer é um ator, acostumado à própria imagem a vida inteira. Ele e os irmãos brincavam de fazer filmes amadores em um rancho na Califórnia e Kilmer continuou gravando a própria vida; bastidores de filmes, testes para diretores como Scorsese (ele tentou o papel de Ray Liotta em "Os Bons Companheiros") e Stanley Kubrick, ensaios, conversas com a família, etc. Há cenas curiosas dos bastidores de "Top Gun", "Batman", "The Doors", "Fogo contra Fogo", "Tombstone" e o caos que foram as filmagens de "A Ilha do Dr. Moreau", com Marlon Brando.

Todo o "glamour" do passado contrasta com a situação presente de Kilmer. Há uma sequência bem desconfortável em que o vemos assinando centenas de autógrafos para fãs em uma convenção qualquer; Kilmer passa mal e tem que interromper a sessão de autógrafos. Sem poder fazer mais filmes, ele agora depende de aparições públicas para ganhar algum dinheiro. O documentário é narrado pelo filho de Kilmer, Jack, que tem a voz bem parecida com a do pai. O trabalho de edição é muito bem feito, misturando centenas de imagens de várias décadas diferentes para contar a história de um grande ator. Disponível na Amazon Prime.

Mito e Magnata: John DeLorean (Myth & Mogul: John DeLorean, 2021)

 

Mito e Magnata: John DeLorean (Myth & Mogul: John DeLorean, 2021). Dir: Mike Connolly. Netflix. Documentário dividido em três partes (que foi concebido como um longa metragem de 2 horas) sobre John DeLorean, criador do carro que leva seu nome. Com design futurista e portas que abriam como uma espaçonave, o carro ficou famoso como a máquina do tempo do filme "De Volta para o Futuro", e provavelmente você vá ver o documentário por causa disso; a não ser por uma cena no início, porém, o filme não é mais citado.

Quem foi John DeLorean? Um cara bastante complicado; executivo mais jovem da GM, DeLorean deixou um salário de 600 mil dólares por ano para criar a própria empresa, a DeLorean Motor Company. Seu sonho era fazer um carro "futurista", com design arrojado e motor econômico. Recebeu 100 milhões de dólares do governo da Irlanda do Norte para construir o carro em Belfast no final dos anos 1970; os empregos criados pela empresa eram muito bem-vindos pela população local. O problema é que Belfast era uma zona de guerra, com conflitos constantes entre católicos e protestantes, tanques de guerra nas ruas e explosões de bombas. Os trabalhadores não eram especializados mas, contra todas as expectativas, DeLorean conseguiu lançar o carro em apenas dois anos e meio.

Com vários problemas mecânicos, no entanto, o carro não vendeu. Apesar da empresa estar praticamente falida, John DeLorean mantinha o padrão de vida de um magnata, casado com uma modelo muito mais jovem e com gastos exorbitantes. DeLorean acabou envolvido em uma acusação séria de tráfico de drogas, problemas trabalhistas e familiares. A ex-esposa, em depoimento, diz que ele era um "narcisista maldoso". Um jornalista o acusa de roubar invenções e designs de outras pessoas. Há farto uso de imagens da época filmadas pelo lendário documentarista D. A. Pennebaker. Apesar disso, fiquei com a impressão de que o documentário não conseguiu, no final, pintar uma imagem melhor de John DeLorean. O filme parece indeciso se quer mostrá-lo como um gênio não reconhecido ou, na verdade, como um babaca. Tá na Netflix.

domingo, 1 de agosto de 2021

Os Pequenos Vestígios (The Little Things, 2021)

Os Pequenos Vestígios (The Little Things, 2021). Dir: John Lee Hancock. HBO Max. (Ok, assinei a HBO Max, vamos ver se vale a pena). Este filme é como se pegassem uma temporada de "True Detective" e transformassem em um longa metragem. Temos os atores classe A (Denzel Washington, Rami Malek, Jared Leto), temos um serial killer que mata mulheres, temos aqueles quartos escuros que parecem ficar ainda mais tenebrosos quando alguém acende a luz, temos aquelas cenas de autópsia com uma mulher nua exposta sobre a mesa, temos um clima pesado e depressivo... enfim, você já viu tudo isso antes.

O que não significa que o filme seja ruim. Quem gosta de um suspense policial bem feito, mesmo que clichê, pode assistir sem medo. O melhor de "Os Pequenos Vestígios", claro, é Denzel Washington. Ele já fez filmes do tipo antes (como "O Colecionador de Ossos", 1999, com Angelina Jolie) e é meio surpreendente que tenham conseguido contratá-lo para este filme, mas ele está muito bem. Denzel interpreta um xerife de uma cidade do interior que vai até Los Angeles buscar umas provas para um caso. Ao chegar lá, é reconhecido por vários outros policiais e ficamos sabendo que ele já havia trabalhado como detetive em Los Angeles. Rami Malek é o detetive que substituiu Denzel quando ele saiu da cidade, há cinco anos. Malek, ao contrário de Denzel Washington, está muito estranho. Ele não me convenceu em nenhum momento como um detetive "estrela" de homicídios. A bem da verdade, em vários momentos ele ainda parece estar interpretando Freddie Mercury, rs. Malek está investigando uma série de mortes de mulheres em Los Angeles e (coincidência) o caso pode ter ligação com uma investigação antiga de Denzel. E então entra Jared Leto, interpretando o louco de sempre, que pode (ou não) ser o principal suspeito do caso.

Como disse, não há nada de novo. David Fincher (Seven, Garota Exemplar, Zodíaco) teria feito um trabalho bem melhor. Nas mãos de John Lee Hancock, "Os Pequenos Vestígios" é intrigante e atmosférico o suficiente para prender a atenção. A crítica, em geral, falou muito mal do filme. Em cartaz na HBO Max.
 

Nem um Passo em Falso (No Sudden Move, 2021)

Nem um Passo em Falso (No Sudden Move, 2021). Dir: Steven Soderbergh. HBO Max. Detroit, 1954. Dois capangas, interpretados por Don Cheadle e Benicio Del Toro, são contratados por um mafioso (Brendan Fraser) para um trabalho rápido. Ele precisam manter refém a família de um empregado da GM (David Harbour) enquanto este vai até a empresa pegar um documento secreto. As coisas dão bastante errado e Cheadle e Del Toro se descobrem no meio de uma trama complicada que envolve segredos corporativos, disputas entre mafiosos, a polícia, entre outras coisas.

Soderbergh está à vontade como diretor, editor e diretor de fotografia (sob pseudônimos) do filme. Para representar a desorientação dos personagens, Soderbergh uma uma lente grande angular que distorce os cantos da imagem, aumentando alguns personagens e diminuindo outros. A direção de arte recria muito bem os anos 1950 e o elenco é cheio de figuras conhecidas, como Jon Hamm, Ray Liotta e Bill Duke (além de uma surpresa não creditada).

Apesar de não ser exatamente um "filme de assalto" como a série "Onze Homens e um Segredo" (também de Soderbergh), a trama envolve uma série de golpes e traições envolvendo o tal "documento secreto". O roteiro fica bastante confuso conforme avança e o final poderia ser melhor, mas não importa. É bem dirigido, tem bom elenco e vale ser visto. Na HBO Max.
 

domingo, 25 de julho de 2021

Boy Erased: Uma Verdade Anulada (Boy Erased, 2018)

Boy Erased: Uma Verdade Anulada (Boy Erased, 2018). Dir: Joel Edgerton. Netflix. Filme baseado na história real de um rapaz de 18 anos, Garrard Conley, filho de um pastor batista, que foi matriculado em uma "terapia de conversão" no estado de Arkansas, EUA. Dirigido pelo ator australiano Joel Edgerton, "Boy Erased" é, talvez, comportado demais (e, sem dúvida, longo demais), mas é conduzido de forma sensível por Edgerton. O rapaz, Jared, é interpretado por Lucas Hedges. Filho de um pastor (o grande Russell Crowe) e sua esposa fiel (Nicole Kidman), Jared sente que há algo "errado" com ele; a namorada não consegue interessa-lo e, como finalmente confessa aos pais, ele frequentemente "pensa em homens". O pai, desesperado, segue o conselho de outros pastores e coloca o filho em uma "terapia de conversão" comandada por um "especialista" chamado Victor Sykes (Joel Edgerton). A "terapia" consiste em tarefas como identificar, entre os familiares, os "pecadores" como homossexuais, alcoólatras, entre outras coisas. Eles também devem escrever e confessar os próprios pecados. A história dos "pecados" de Jared é mostrada em flashbacks.

O tema da "terapia de conversão" é polêmico e o filme mostra como os chamados "especialistas" no assunto, no fundo, são apenas gays enrustidos. O filme estica uma meia hora a mais, o que achei desnecessário. Ao contrário de filmes como "Um Estranho no Ninho" ou "Garota Interrompida", a "prisão" do personagem é mais mental do que propriamente física (há apenas uma cena angustiante em que Jared é impedido de sair por alguns minutos). Há uma boa cena entre o rapaz e a mãe (bem interpretada por Nicole Kidman). Já a relação com o pai é mais complicada e Crowe poderia ter sido melhor aproveitado. Tá na Netflix.
 

Jolt: Fúria Fatal (Jolt, 2021)

Jolt: Fúria Fatal (Jolt, 2021). Dir: Tanya Wesler. Amazon Prime. Filme tonto. Kate Beckinsale é Lindy, uma mulher que tem um problema genético; desde criança, ela não consegue controlar a fúria. Depois de passar por vários tratamentos, ela agora vive com um colete elétrico que ela aciona toda vez que fica com raiva. Beckinsale está sempre com a boca semi aberta, como uma modelo em uma sessão de fotos, e fica fazendo poses do começo ao final do filme.

O psiquiatra dela (interpretado por Stanley Tucci) sugere que ela saia com alguém, namore, tente ser "normal" por um tempo. Entra então Justin (Jai Courtnay), um contador por quem ela se apaixona loucamente depois de apenas uma noite juntos. Só que o cara aparece morto no dia seguinte, o que faz com que Lindy jure vingança. Bocejos.

O filme é todo estilizado, com cores fortes e visual de história em quadrinhos. Lindy é uma espécie de John Wick feminino, dando porrada em todos que aparecem pela frente. Os vilões (obviamente envolvidos com a máfia russa, ou algum clichê do tipo) poderiam simplesmente dar um tiro na cabeça dela, mas aí não teria filme, então há várias cenas em que eles ameaçam torturá-la, etc. Bobby Cannavale e Laverne Cox interpretam dois policiais incompetentes. Cenas violentas são intercaladas com sequências ridículas, como uma em que Lindy pega bebês recém nascidos e fica jogando em direção a uma policial. Sério. Disponível na Amazon Prime.
 

A Testemunha Ocular (The Public Eye, 1992)

A Testemunha Ocular (The Public Eye, 1992). Dir: Howard Franklin. Netflix. Lembro vagamente de ter visto este filme em VHS há um tempão. Joe Pesci é um fotógrafo freelancer conhecido como "O grande Bernzini". São os anos 40, em Nova York, e Bernzini vira as noites tirando fotos de assassinatos, incêndios, brigas familiares... qualquer coisa que renda uns trocados ao vender para os jornais. Como todo bom filme "noir", há uma "mulher fatal" chamada Kay (Barbara Hershey), que pede um favor ao fotógrafo; ela herdou uma casa noturna do marido e tem recebido ameaças veladas de vários membros da Máfia. Ela quer que Bernzini descubra o que há por trás das ameaças e a trama se complica, envolvendo disputas entre as "famílias" italianas de Nova York, uma investigação do FBI e um esquema de corrupção envolvendo vales de combustível (estamos em plena 2ª Guerra Mundial).

O filme é escrito e dirigido por Howard Franklin (que tem o roteiro de "O Nome da Rosa" no currículo) e produzido por Robert Zemeckis ("De Volta para o Futuro", "Forrest Gump"). Joe Pesci está ótimo como "o grande Bernzini", um fotógrafo obcecado pelo seu trabalho; o personagem foi baseado em uma pessoa real chamada Arthur Fellig (conhecido como Weegee). É curioso encontrar, entre os coadjuvantes, atores como um jovem Jared Harris (das séries "Chernobyl", "The Crown" e "Mad Men"), interpretando o porteiro da casa noturna. Richard Schiff (de "The West Wing" e "The Good Doctor") tem uma aparição rápida como um fotógrafo concorrente. Stanley Tucci interpreta um mafioso, assim como Jerry Adler e Dominic Chianese (ambos da série "The Sopranos").

A recriação de época é bem feita e o filme tem boa direção de fotografia. Há várias cenas em preto e branco, filmadas do ponto de vista do fotógrafo, mostrando como ele enquadra as imagens conforme anda pelas ruas de Nova York. Mark Isham compôs a boa trilha sonora. Não é nenhum clássico do gênero mas é bem feito e vale uma olhada. Tá na Netflix.
 

Bosch - 1ª Temporada (Bosch, 2015)

Bosch - 1ª Temporada (Bosch, 2015). Amazon Prime. Boa série policial que já está na sétima temporada, creio, mas só comecei a ver agora. Produzida pela Amazon, a série é baseada nos livros de Michael Connelly, que é um dos produtores e roteiristas. Eric Overmyer, que já produziu "The Wire" e "Law & Order", entre outras coisas, é o responsável pela produção.

Titus Welliver é Harry Bosch, um detetive veterano da polícia de Los Angeles. Ele mora em uma casa com uma bela vista e está sempre escutando discos de jazz. Bosch não chega a ser violento como o Dirty Harry de Clint Eastwood, mas é encrenqueiro e, aparentemente, responsável por investigar todos os casos "quentes" de Los Angeles. A temporada (de 10 capítulos) tem várias tramas, todas envolvendo Bosch de uma forma ou outra. Há o caso dos ossos de um garoto encontrados em uma ravina de Los Angeles. Há o caso de um serial killer chamado Raynard Waits (Jason Gedric), que mata garotos de programa. Há um julgamento envolvendo Bosch, que teria (ou não) matado um homem desarmado. Há também espaço para a vida pessoal dele, como uma ex-mulher e uma filha que ele não vê há anos. E há um romance conturbado com uma policial principiante, Julia (Annie Wersching), que não tem paciência para a rotina das ruas.

Há vários clichês do gênero e nada é muito novo, mas a produção é de primeira classe e os atores são bons. O visual lembra filmes de Michael Mann como "Fogo contra Fogo" ou "Colateral" (as imagens digitais noturnas lembram particularmente este último). Titus Welliver é ótimo como Harry Bosch e se sobressai mesmo quando o roteiro dá umas derrapadas. Ouvi dizer que a série é ainda melhor nas próximas temporadas. Veremos. Disponível na Amazon Prime.
 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Três Estranhos Idênticos (Three Identical Strangers, 2018)

Três Estranhos Idênticos (Three Identical Strangers, 2018). Dir: Tim Wardle. Netflix. Bom documentário que conta uma história bizarra. Quando tinha 19 anos, Bobby Shafran foi ao seu primeiro dia na faculdade e percebeu uma coisa estranha: todos o cumprimentavam como se já o conhecessem. Um rapaz lhe perguntou a data de nascimento e se ele era adotado. "Você não vai acreditar, mas você tem um irmão gêmeo". Bobby então conheceu Eddy Galland, um gêmeo que ele não sabia que tinha. A história fica mais bizarra: um jornal publicou a foto dos dois e um terceiro gêmeo, David Kellman, apareceu. Os três rapazes haviam sido separados quando bebês e adotados por três famílias diferentes.

O documentário então mostra como os trigêmeos viraram estrelas da mídia e apareceram em vários programas de TV. Eles não só eram idênticos na aparência como fumavam a mesma marca de cigarro, praticaram luta na escola e tinham irmãs mais velhas, com a mesma idade. Tudo parece bastante festivo e engraçado até que o documentário dá uma guinada sombria. Não vou revelar detalhes, mas um jornalista acabou descobrindo que a história dos irmãos era mais sinistra do que parecia. Outros gêmeos acabaram se descobrindo da mesma forma, só depois de adultos, e tinham jornadas parecidas com a dos trigêmeos.

O documentário mistura entrevistas com os gêmeos, familiares e amigos, além de recriar cenas com atores. O roteiro funciona como um filme de suspense, revelando cada nova descoberta conforme a trama avança. O resultado é um filme intrigante e muito bem feito. Tá na Netflix.
 

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (The Mitchells vs the Machines, 2021)

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (The Mitchells vs the Machines, 2021). Dir: Michael Rianda e Jeff Rowe. Netflix. Animação da Sony que ficou em primeiro lugar na Netflix em vários países, "A Família Mitchell" tem um belo visual que lembra "Homem-Aranha no Aranhaverso" (da mesma Sony). O estilo é acelerado e cheio de "hiperlinks", de forma tão exagerada que você deve levar à sério aquele aviso sobre "luzes piscantes que podem provocar epilepsia" que aparece no começo.

A família Mitchell é a típica família "esquisita". O pai, Rick, é avesso à tecnologia; a mãe, Linda, é super protetora; Katie é uma adolescente que sonha em fazer cinema na Califórnia (por "cinema" entenda-se vídeos agitados feitos para a geração tik tok); Aaron, o caçula, é infantil e adora dinossauros. Katie é aceita em uma faculdade no Oeste e a família decide ir de carro até lá. O problema é que, no caminho, uma inteligência artificial chamada PAL, presente em todos os celulares, se revolta contra a humanidade.

O roteiro tem bons momentos e os personagens são simpáticos. O problema é que tudo é super exagerado. De dez em dez segundos a tela é invadida por "efeitos", memes ou vídeos da internet. Os dramas familiares são clichês e se repetem constantemente. E há algo de hipócrita em uma animação de uma plataforma digital "criticar" as redes sociais e o excesso de tecnologia. A computação gráfica é misturada com traços que lembram os feitos à mão, o que resulta em uma imagem interessante. Quanto ao roteiro, não é feito para a geração "cringe". Tá na Netflix.
 

A Vigilante (A Vigilante, 2018)

A Vigilante (A Vigilante, 2018). Dir: Sarah Daggar-Nickson. Netflix. Olivia Wilde é uma sobrevivente de abuso doméstico que resolveu ajudar mulheres na mesma situação. Ela aprendeu artes marciais, pratica centenas de socos todos os dias e recebe pedidos de ajuda de dezenas de pessoas. Em um de seus casos, ela pede ao marido de uma "cliente" que transfira 75% do dinheiro para a esposa e a deixe; quando ele se recusa, ela o faz se arrepender por isso.

Poderia ser simplesmente um filme de "porrada" inconsequente, mas "A Vigilante" é quase um documentário sobre violência doméstica. As cenas rápidas de violência são intercaladas por sequências em que mulheres contam suas histórias em grupos de apoio. Os depoimentos são tão realistas que me pergunto se não são histórias reais.

Olivia Wilde está muito bem. Há algumas cenas em que ela tem ataques de ansiedade e ela impressiona na interpretação. O filme é bem lento e quase sem música. Há um confronto final que pode até parecer clichê, mas o roteiro de Sarah Daggar-Nickson mostra que a vingança é sim um prato melhor servido frio. Tá na Netflix.