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quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

A Fuga das Galinhas: A Ameaça dos Nuggets (Chicken Run: Dawn of the Nugget, 2023)

 
A Fuga das Galinhas: A Ameaça dos Nuggets (Chicken Run: Dawn of the Nugget, 2023). Dir: Sam Fell. Netflix. Quase 24 anos depois do lançamento de "A Fuga das Galinhas", produção da britânica Aardman com a americana Dreamworks, a Netflix lança uma continuação. É até melhor do que eu esperava, embora esteja longe do charme e originalidade do primeiro.

Depois de liderar a fuga das companheiras da granja no primeiro filme, a galinha Ginger vive em paz com o marido, Rocky, em uma ilha no interior da Inglaterra. Ela e as amigas construíram um pequeno paraíso e vivem muito bem, até que Ginger e Rocky têm uma filha, Molly. A menina é tão rebelde quanto a mãe e, ao chegar à adolescência, quer saber o que existe no mundo "lá fora". Ela acaba fugindo da ilha e indo parar em uma granja industrial em que ela e outras centenas de galinhas correm o risco de virarem nuggets crocantes. Cabe a Ginger e às companheiras tentar resgatar a filha.

É uma continuação direta do primeiro filme e os personagens estão todos lá, embora a maioria com vozes novas; Mel Gibson, que fazia Rocky, foi substituído por Zachary Levi. Thandiwe Newton tomou o lugar de Julia Sawalha como Ginger. Bella Ramsey (de The Last of Us) é a filha Molly. O roteiro é bem menos inspirado que o do primeiro, mas tem bons momentos. Interessante como os britânicos não fogem de situações "desconfortáveis", como mostrar algumas galinhas morrendo, mesmo em um filme infantil. Quanto a Molly, pelo que vi ela é a única criança no bando todo... acho que não quiseram mostrar Rocky como promíscuo (rs). A boa trilha sonora é de Harry Gregson-Williams, que no primeiro fez parceria com John Powell.

A produção durou vários anos, visto que a animação é feita na trabalhosa técnica do stop-motion. Dá para notar que usaram computação gráfica em cenários e, provavelmente, para replicar as dezenas de galinhas. É divertido, embora pouco memorável. Tá na Netflix.

domingo, 22 de outubro de 2023

Elementos (Elemental, 2023)

Elementos (Elemental, 2023). Dir: Peter Sohn. Disney+. Como vários dos últimos filmes da Pixar, parece que faltou a "Elementos" aquela revisão final no roteiro, aquele esforço extra que sempre elevou as animações do estúdio acima dos concorrentes. "Elementos" é melhor, porém, do que se falou por aí. O filme teve uma estreia ruim nos cinemas e considerado um fracasso mas, aos poucos, conseguiu se manter em cartaz e fazer uma bilheteria considerável.


A trama parece ter saído do fundo do baú de ideias do estúdio. Depois de perguntar "o que aconteceria se brinquedos tivessem sentimentos?" (substitua "brinquedos" por peixes, insetos, carros, monstros... e os próprios sentimentos, para os outros filmes da empresa), a Pixar apresenta agora o que aconteceria se os quatro elementos fundamentais, Água, Fogo, Terra e Ar convivessem em uma terra fantástica.

A criação de mundo não faz muito sentido. Vemos uma família de Fogo chegar à cidade dos Elementos; aparentemente, o Fogo é uma "raça" discriminada e eles quase não conseguem se estabelecer. Anos depois, Pai e Mãe Fogo têm uma loja em um bairro da cidade. O sonho do Pai é que a filha, Faísca, assuma a loja e, aham... "carregue a chama" da família. Faísca é uma garota esquentada que acaba conhecendo um membro do elemento água, Gota, por quem ela vai se apaixonar mas, antes... um MONTE de coisas vão acontecer. Há uma questão de um vazamento que pode destruir a loja; há um problema burocrático que, também, pode levar ao fechamento da lojinha; há uma sequência passada em uma espécie de partida de basquete, com a torcida fazendo a "onda" (entendeu?). Em suma, há um bocado de complicações que o roteiro coloca na sua frente até que, depois de quase uma hora de filme, ele se lembra que é um romance e, meio aos trancos e barrancos, Água e Faísca começam a se apaixonar.

Como disse, várias coisas não fazem muito sentido. A mãe do Gota diz à Faísca que os prédios do centro da cidade são todos feitos de vidro, o que pressupõe que o Fogo deveria ser bastante importante nessa sociedade, e não marginalizado. Fica difícil também entender o que é inflamável ou não...em algumas cenas tudo que Faísca toca se transforma em cinzas; em outras, não. Os prédios (os que não são de vidro) precisam de Terra e Água para serem construídos, mas isso nunca é mencionado. Eu sei que é um "filme para crianças", mas esse tipo de detalhe e comentário social é algo que a Pixar, nos velhos tempos, era craque em fazer, e o conceito parece desperdiçado aqui.

Mas é um filme bonitinho. Quando o romance finalmente engrena, com todas as complicações esperadas, "Elementos" fica melhor e tem um final satisfatório, embora tranquilo. Disponível na Disney+.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Pinóquio (Guillermo del Toro's Pinocchio, 2022)

Pinóquio (Guillermo del Toro's Pinocchio, 2022). Dir: Guilllermo Del Toro e Mark Gustafson. Netflix. Belíssima animação em stop motion que é mais uma versão da história de Pinóquio (sendo a mais famosa a feita por Walt Disney em 1940). A versão de Del Toro é, à primeira vista, mais infantil do que eu esperava; quando se pensa sobre o filme, no entanto, você percebe que ele é bastante profundo. "É um filme sobre a Morte", teria dito Del Toro. De fato, uma história sobre um boneco de madeira que ganha vida acaba sendo, também, sobre o oposto (tanto que Tilda Swinton faz a voz tanto da Vida quanto da Morte no filme).

A animação é brilhante, feita com bonecos articulados e todo tipo de técnica, como substituição de rostos (as expressões de Pinóquio são todas "duras", apropriado para um boneco de madeira) ou bonecos articulados nos mínimos detalhes, como Gepeto. Há também cenários belíssimos e algumas cenas complementadas com elementos em computação gráfica, mas o "coração" do filme é todo feito à mão (com mostra um "making of" na mesma Netflix).

O roteiro mistura elementos infantis e até cenas musicais com temas mais pesados como o crescimento do fascismo na Itália e os efeitos das duas guerras mundiais no Século XX (Gepeto perde o filho Carlo, de 10 anos, em um bombardeio na I Guerra Mundial). O trabalho de vozes também é muito bom. Gepeto é interpretado por David Bradley e o vilão Volpe é feito por Christoph Waltz. Ewan McGregor faz um Grilo tão bom que Del Toro aumentou a importância do personagem durante a produção. O resto do elenco ainda conta com as vozes de John Turturro, Ron Perlman, Finn Wolfhard e até a grande Cate Blanchett fazendo um macaco. A trilha é de Alexandre Desplat.

Não é uma obra prima como "O Labirinto do Fauno" (2006), mas trata de vários dos mesmos temas e tem um visual de encher os olhos. Tá na Netflix.

Undone (2019)

 
Undone (2019). Dir: Hisko Hulsing. Amazon Prime Video. Alma (Rosa Salazar) é uma mulher de 28 anos que sofre um acidente de carro. No hospital, ela começa a ter visões do pai, Jacob (Bob Odenkirk), que morreu quando ela era criança. Jacob a leva a uma série de "viagens" entre o passado e o presente, na tentativa de descobrir como ele morreu, e porquê. Ou... talvez tudo esteja acontecendo apenas na cabeça de Alma.

"Undone" é uma série incrível. Confesso que não a conhecia e assisti aos oito episódios da primeira temporada quase que de uma vez só. São episódios curtos (por volta de 25 minutos), muito bem escritos e feitos com várias técnicas de animação. A trama é tão "maluca", com viagens no tempo, alucinações, transformações, etc, que a animação funciona melhor do que se a série tivesse sido feita de forma "realista". A técnica mais usada é a da rotoscopia, que consiste em gravar atores "de verdade" interpretando seus papéis e, depois, os animadores desenham "por cima" das imagens. A técnica é antiga e já foi usada desde animações tradicionais da Disney a filmes mais experimentais como "Waking Life" (2001) e "O Homem Duplo" (2006), de Richard Linklater. Em "Undone" a técnica é tão detalhada que podemos claramente ver as expressões dos atores e, depois de um tempo, você esquece que está vendo uma "animação".

Criada por Kate Purdy e Raphael Bob-Waksberg, a trama de "Undone" levanta ideias metafísicas que são, o tempo todo, questionadas e comparadas com questões de saúde mental. A avó de Alma foi considerada "louca" e internada, mas quem sabe ela simplesmente via as coisas de outra forma? Os roteiros também misturam elementos dos povos antigos da América; a família de Alma é descendente de mexicanos e há um forte senso religioso tanto no catolicismo da mãe quanto nos aparentes "poderes" de Alma (que estariam ligados a seus ancestrais).

Ou, talvez, tudo não passe de uma "loucura" na cabeça de Alma. É uma viagem. Disponível na Amazon Prime Video (inclusive a segunda temporada, que vou ver em seguida).

domingo, 22 de maio de 2022

Love, Death and Robots, 3ª Temporada (2022)

 

Love, Death and Robots, 3ª Temporada (2022). Netflix. Volta a série animada criada por Tim Miller, com produção executiva de David Fincher. Tive a impressão de que esta temporada veio ainda mais violenta e perturbadora. São nove episódios, com várias técnicas de animação. Há ao menos uma obra prima e vários episódios bons; por vezes, fica aquele gosto de algo inacabado, como se não fossem curtas-metragens com começo, meio e fim, mas como se pegássemos uma história no meio e saíssemos antes do final.


1 - Os três robôs. Direção de Patrick Osborne, é uma espécie de continuação de um episódio da primeira temporada, creio, em que três robôs falam sobre os antigos mestres do planeta, os seres humanos. Engraçado, mas bobinho.

2 - Viagem Ruim. Direção de David Fincher, é meu segundo favorito desta temporada. Um grupo de marinheiros luta contra uma espécie de caranguejo gigante e carnívoro que quer ser levado a uma ilha povoada. Lento e bem dirigido por Fincher, é também um dos mais violentos.

3 - O mesmo pulso da máquina. Diração de Emily Dean, tem um visual incrível e é passado em Io, um dos satélites de Júpiter. Uma astronauta (voz de Mackenzie Davis) tenta sobreviver a um acidente enquanto arrasta o corpo de uma companheira por quilômetros. Os mesmos remédios que a mantém viva iniciam uma série de alucinações psicodélicas. Bem interessante.

4 - Noite dos minimortos. Direção de Robert Bisi & Andy Lyon. É o episódio mais engraçado; tecnicamente é muito interessante. Um apocalipse zumbi visto em miniatura, com situações clichês deste tipo de filme visto como se estivesse acontecendo em um minimundo.

5 - Matança em grupo. Direção de Jennifer Yuh Nelson. Falando em clichês, este tem todos os clichês do filme militar, em que um grupo de soldados machões enfrentam uma arma secreta da CIA. Muito sangue, vísceras e frases de efeito.

6 - Enxame. Direção de Tim Miller. Computação gráfica fotorrealista mostra dois seres humanos em uma espécie de colônia de cupins espacial. Para quem tem problemas com insetos pode ser um tanto nojento.

7 - Ratos de Mason. Direção de Carlos Stevens. Animação cartunesca sobre a luta de um fazendeiro contra os ratos que invadiram seu celeiro. Há um bocado de pedaços de rato voando pela tela.

8 - Sepultados na caverna. Direção de Jerome Chen. Outro curta militar; um grupo de soldados entra em uma caverna em busca de um refém e encontram uma série de coisas estranhas, que vão se tornando cada vez mais sombrias. Pesadão.

9 - Fazendeiro. Direção de Alberto Mielgo. É o melhor de todos, de longe. O visual é impressionante, confesso que fiquei em dúvida se era computação gráfica ou uma técnica mista com imagens reais. Um grupo de conquistadores espanhóis, nas Américas, enfrentam uma espécie de sereia do lago, coberta de escamas de ouro. Simplesmente maravilhoso, tanto no visual quanto no roteiro, uma alegoria à invasão europeia na América. O curta foi feito por uma produtora espanhola que já havia feito outro episódio impressionante chamado "A Testemunha", em uma das temporadas anteriores. Este vale pela terceira temporada toda. Tá na Netflix.

domingo, 17 de abril de 2022

Apollo 10 e meio: Aventura na Era Espacial (Apollo 10 1/2: A Space Age Childhood, 2022)

Apollo 10 e meio: Aventura na Era Espacial (Apollo 10 1/2: A Space Age Childhood, 2022). Dir: Richard Linklater. Netflix. Animação super nostálgica de Richard Linklater, que tem uma carreira bem eclética (de filmes leves como "Escola do Rock" a animações filosóficas como "Waking Life"). Falando em "Waking Life", em "Apollo 10 e meio" o diretor usou a mesma técnica da rotoscopia para criar a animação; os atores são gravados em carne e osso como em um filme comum e, depois, se desenha e pinta "por cima" da imagem, como em um desenho animado. Aqui o estilo é bem mais realista do que em "Waking Life" e "O Homem Duplo" (também de Linklater); depois de um tempo, aliás, você até se esquece da técnica e sente como se estivesse vendo um filme "normal".

"Apollo 10 e meio" é uma mistura da recriação quase documental da vida de um garoto, Stan, durante os anos 1960, em Houston, com uma fantasia dele. Stan se imagina no lugar dos astronautas da NASA que pousaram na Lua em 20 de julho de 1969. Assim, o filme tem trechos que mostram o garoto viajando no foguete e andando na Lua e, ao mesmo tempo, recria de forma estilizada as imagens reais da época. A história é narrada por Jack Black, na versão adulta de Stan, e o filme lembra um pouco a saudosa série "Anos Incríveis", também passada na mesma época.

Para alguém que, como eu, viu praticamente todas as imagens de arquivo da NASA daquela época, é bastante nostálgico. Fora o fato de que o filme deve apelar para a nostalgia de todos que cresceram em uma época pré-internet e celulares, um tempo de brincar na rua, andar de bicicleta, assistir a séries na TV e sonhar com o futuro. Os EUA e o mundo viviam uma época bem contraditória nos anos 1960, com a ciência prometendo um futuro melhor ao mesmo tempo em que milhares de pessoas morriam na Guerra do Vietnã e estudantes protestavam nas universidades. Tudo isso é visto pelos olhos de Stan e "Apollo 10 e meio" é uma gostosa viagem pela época. Tá na Netflix.  


segunda-feira, 14 de março de 2022

Red: Crescer é uma Fera (Turning Red, 2022)

Red: Crescer é uma Fera (Turning Red, 2022). Dir: Domee Shi. Disney+. Mais uma animação da Pixar que está indo direto para o streaming; dizem as más línguas que a Disney está tentando "enterrar" a marca Pixar... será? De qualquer forma, "Turning Red" é a estreia na direção de longa metragens de Domee Shi, que ganhou um Oscar pelo ótimo curta-metragem "Bao" (que falava sobre uma mãe que sentia falta do filho, que havia saído de casa). Aqui o tema é parecido, embora toda a sutileza do curta tenha sido trocada por um estilo acelerado e frenético.

A personagem principal é uma garota de treze anos chamada Meiling (voz de Rosalie Chiang). Ela é de uma família chinesa (olha a Pixar mirando no mercado da China) que mora em Toronto, Canadá. A mãe (voz de Sandra Oh) é super controladora e a menina faz de tudo para ser "perfeita"; só que ela está com 13 anos e os hormônios começam a tomar conta. A trama é bastante feminina, de forma até ousada para os padrões da Pixar (não estamos mais no mundo de "Monstros S.A."). O caso é que a menina é "abençoada" por uma magia familiar que faz com que as mulheres se tornem um grande panda vermelho quando atingem a puberdade. A metáfora com a menstruação é bem óbvia (a mãe controladora chega a envergonhar a menina levando absorventes para a escola, na frente de todos os colegas).

A trama é passada em 2002 (ou seja, é um "filme de época", socorro, estou velho), mas algumas gírias e atitudes me pareceram bem atuais. Mei tem três amigas que, como ela, são apaixonadas por uma "boys band" chamada "4 Town", e tudo o que elas querem é ir ao show que eles vão fazer na cidade. Só que Mei se tornou um panda vermelho gigante... e agora? Pode parecer simples, mas debaixo da edição frenética, das músicas pop da trilha (compostas por Billie Eilish) e do colorido de "anime" há uma trama emocionante sobre uma menina querendo se tornar uma mulher independente. Não é um conceito novo, longe disso, mas é bem feito. Tenho a sensação de já ter visto parte desta história antes, seja em "A Caminho da Lua", animação de Glen Keane, ou no filme da Awkwafina, "A Despedida", ambos falando sobre uma garota chinesa lidando com a família controladora. É um dos filmes mais adolescentes (e femininos) da Pixar. Disponível na Disney+.

sábado, 5 de março de 2022

Luca (2021)

Luca (2021). Dir: Enrico Casarosa. Disney+. Ok, eu estava errado. Resolvi rever "Luca", da Pixar, despreocupadamente e o achei bem melhor do que da primeira vez. Como disse no outro texto, o nome "Pixar" levanta muitas expectativas, o que me fez achá-lo simples demais, feito só para crianças. Não é bem assim. Retiradas as expectativas, "Luca" é simples, sim, mas de forma singela; os personagens poderiam ter mais profundidade (sem trocadilhos), mas há uma leveza e inocência que eu não senti na primeira exibição.

Ao contrário da maioria dos roteiros da Pixar, que são sempre muito bem construídos (situação "A" leva a situação "B" que se resolve lá para o final, etc) em "Luca" as situações parecem que simplesmente vão acontecendo. Há uma questão de pai ausente que não se explica ou parece sem resolução, mas na verdade o garoto Alberto acaba ganhando um pai adotivo no pai da garota Giulia. Ainda acho que o vilão Ercole merecia uma história de fundo para explicar suas motivações, mas ele é simplesmente uma figura patética de um rapaz que já não é mais criança e age como um garoto mimado.

Por fim, tecnicamente o filme é muito bonito, a animação em computação gráfica chegou a um nível em que parece realmente desenhada e pintada à mão, os garotos têm um visual "cartunesco" que é interessante e aquela vila de pescadores é simplesmente linda. "Luca" está indicado ao Oscar de Melhor Animação, mas tudo indica que vá perder para o (muito) inferior "Encanto". Disponível na Disney+.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

O Tempo com Você (Tenki no Ko, 2019)

O Tempo com Você (Tenki no Ko, 2019). Dir: Makoto Shinkai. HBO Max. Outra bela animação de Makoto Shinkai, que há um bom tempo é um dos "candidatos" a substituto de Hayao Miyazaki como mestre da animação japonesa (diria que ele é mais focado em amores adolescentes do que em temas universais como Miyazaki, mas há cenas nesta animação que parecem tiradas diretamente de "Castelo no Céu").

Assim como em "Your Name" ("Kimi no na wa", um dos maiores sucessos de todos os tempos), em "O Tempo com Você" Shinkai mistura romance adolescente com eventos que beiram o sobrenatural. Hodaka Morishima (voz de Kotaro Daigo) é um rapaz de 16 anos que foge de casa, no interior, e vai para Tokyo. Ele passa maus bocados nas ruas até que encontra um emprego em uma pequena editora que publica lendas urbanas. Chove constantemente em Tokyo há semanas, e então o rapaz encontra uma moça chamada Hina (voz de Nana Mori) que tem o poder de parar a chuva e trazer o Sol. Os dois começam a oferecer o serviço de "Garota do Sol" online, prometendo dias ensolarados para festas, casamentos, eventos corporativos, etc.

Parece bobinho mas, como toda boa animação japonesa, o "poder" da garota carrega um preço alto a ser pago. A trama também traz o tema sério de menores de idade que são abusados, ou moram sozinhos, ou que enfrentam trabalhos degradantes para sobreviver. Acho até que a parte "sobrenatural" da trama, que envolve o poder de mudar o clima, causar nevascas no verão, etc, pode ser encarada como uma "viagem" na cabeça dos personagens para enfrentar os problemas sérios do dia a dia. Talvez. Quando ao romance adolescente, Makoto Shinkai adora esticar um drama até os últimos minutos, e em "O Tempo com Você" não é diferente. Gosto. Disponível na HBO Max. PS: a Netflix tinha várias animações de Makoto Shinkai no acervo... vi agora que não estão mais disponíveis. 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Viagem ao Topo da Terra (Le sommet des dieux, 2021)

Viagem ao Topo da Terra (Le sommet des dieux, 2021). Dir: Patrick Imbert. Netflix. Belíssima animação para adultos baseada em um mangá de Jirô Taniguchi e Baku Yumemakura, "Viagem ao Topo da Terra" é como uma pintura em movimento. A produção é internacional (a maioria francesa), embora a trama trate de personagens japoneses. O visual é bastante realista, apesar das cores fortes, e há belas sequências de escalada em diversas montanhas pela Europa e pela Ásia.

A trama acompanha um fotógrafo de aventuras chamado Fukamachi (voz de Damien Boisseau), que é especialista em fotografar escaladas. Ele começa a pesquisar a vida de um alpinista japonês chamado Habu Joji (Eric Herson-Macarel), que havia partido para o Himalaia e desaparecido. Diversos flashbacks mostram a vida de Habu e sua obsessão com as montanhas. Fechado e de poucas palavras, ele não era muito querido pelos outros alpinistas porque gostava de escalar sozinho. O fotógrafo consegue encontrá-lo e tenta convencê-lo a tentar subir o Everest com ele, documentando a viagem.

Há belas sequências de paisagens geladas e noites estreladas. O design sonoro também é muito bom, repare como o som muda conforme eles vão subindo para altitudes acima dos 8 mil metros. Depois de um tempo você até se esquece que está vendo uma animação e parece que está vendo um belo filme de viagem. Tá na Netflix. 

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Palavras que borbulham como refrigerante (Cider no yô ni kotoba ga wakiagaru, 2020)

Palavras que borbulham como refrigerante (Cider no yô ni kotoba ga wakiagaru, 2020). Dir: Kyohei Ishiguro. Netflix. Se você procurar pela definição de "Kawaii" no dicionário, vai achar este filme (na verdade, "Kawaii" pode ser traduzido como "fofo", "gracinha"). Coprodução japonesa com a Netflix, "Palavras que borbulham como refrigerante" pode, a princípio, assustar. Esqueça a calma filosófica de um Hayao Miyazaki (ou Makoto Shinkai); este é um anime do século XXI, passado em grande parte dentro de um shopping, com cores fortes e design exagerado. Eu quase desisti nos primeiros quinze minutos, confesso; o roteiro foi se revelando aos poucos e, então, fiquei com um sorriso bobo até o final dos curtos 87 minutos de duração.

A trama fala sobre um rapaz que gosta de fazer "haikais", aquela poesia japonesa composta por três linhas de 5, 7 e 5 sílabas. Como estamos no século XXI, ele publica seus poemas online, embora tenha poucos seguidores. Acompanhamos também uma garota chamada "Smile", que é uma "influencer" com milhares de seguidores. Apesar da fama, ela tem vergonha dos dentes da frente (estilo Mônica) e está sempre usando máscaras (e não é por causa de covid). O garoto e a garota, claro, acabam se conhecendo e se aproximando, embora daquele modo bem japonês (respeitoso e distante). Parece que você vai ver só um romancezinho adolescente mas, devagarinho, o roteiro se torna poético.

O rapaz trabalha em uma casa para idosos (dentro do shopping, veja você) e há um senhor que procura por um disco (um LP) antigo, porque ele "não quer se esquecer do passado". O anime moderno se torna uma busca pelo passado (e pelas tradições do passado). Os adolescentes se unem para procurar pelo disco perdido do velho. O shopping se prepara comemorar o aniversário com um tradicional festival japonês. O possível romance entre o garoto tímido e a garota popular está ameaçado por um segredo dele. Sim, é meio "novelinha", mas bem "kawaii". Tá na Netflix. 
 

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (Onward, 2020)

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (Onward, 2020). Dir: Dan Scanlon. Disney+. Confesso que conhecia pouco sobre esta animação. Foi lançada nos cinemas pouco antes da pandemia, fracassou nas bilheterias e foi parar na Disney+. Fiquei surpreso quando foi indicada ao Oscar de Melhor Animação. Resolvi visitar agora na Disney+ e me surpreendi positivamente. Não tem muito a "cara" de uma animação da Pixar, é mais urbana e adolescente, mas o roteiro é honesto e, coisa rara, ele melhora conforme avança.

A trama se passa em um mundo de fantasia em que a mágica se perdeu por causa das facilidades do mundo moderno, como lâmpadas elétricas, carros e outras comodidades. Ainda há elfos, centauros, dragões e coisas do tipo, mas estão todos "civilizados". O roteiro segue a vida de dois irmãos, Ian (voz de Tom Holland) e Barley (Chris Pratt); Ian, o mais novo, é tímido e inseguro. Barley, o mais velho, é confiante, falastrão e acredita piamente em magia e no poder dos velhos tempos. Os dois descobrem que o pai (que morreu quando Ian era bebê) deixou para eles um cajado mágico e um encantamento que permitiria que ele voltasse à vida por 24 horas. Só que a magia dá errado e apenas metade do pai (basicamente só as pernas) volta do além. Cabe aos irmãos partir em uma jornada atrás de uma pedra mágica que traria o pai, inteiro, de volta.

Como disse, o filme fica melhor conforme avança. A aventura dos irmãos é divertida e o filme, como todo produto Pixar, é tecnicamente muito bem feito. O bom trabalho de voz de Tom Holland e Chris Pratt é acompanhado por Julia Louis-Dreyfuss e Octavia Spencer, entre outros. Talvez não vire um clássico, mas é uma boa aventura. Disponível na Disney+.
 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (The Mitchells vs the Machines, 2021)

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (The Mitchells vs the Machines, 2021). Dir: Michael Rianda e Jeff Rowe. Netflix. Animação da Sony que ficou em primeiro lugar na Netflix em vários países, "A Família Mitchell" tem um belo visual que lembra "Homem-Aranha no Aranhaverso" (da mesma Sony). O estilo é acelerado e cheio de "hiperlinks", de forma tão exagerada que você deve levar à sério aquele aviso sobre "luzes piscantes que podem provocar epilepsia" que aparece no começo.

A família Mitchell é a típica família "esquisita". O pai, Rick, é avesso à tecnologia; a mãe, Linda, é super protetora; Katie é uma adolescente que sonha em fazer cinema na Califórnia (por "cinema" entenda-se vídeos agitados feitos para a geração tik tok); Aaron, o caçula, é infantil e adora dinossauros. Katie é aceita em uma faculdade no Oeste e a família decide ir de carro até lá. O problema é que, no caminho, uma inteligência artificial chamada PAL, presente em todos os celulares, se revolta contra a humanidade.

O roteiro tem bons momentos e os personagens são simpáticos. O problema é que tudo é super exagerado. De dez em dez segundos a tela é invadida por "efeitos", memes ou vídeos da internet. Os dramas familiares são clichês e se repetem constantemente. E há algo de hipócrita em uma animação de uma plataforma digital "criticar" as redes sociais e o excesso de tecnologia. A computação gráfica é misturada com traços que lembram os feitos à mão, o que resulta em uma imagem interessante. Quanto ao roteiro, não é feito para a geração "cringe". Tá na Netflix.
 

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Erased (Boku dake ga inai machi, 2016)

Erased (Boku dake ga inai machi, 2016). Dir: Tomohiko Itō. Netflix. Gostei muito desta série de suspense disponível na Netflix. Nunca deixo de me surpreender com a  capacidade dos japoneses em criar material sério e adulto através da animação, e "Erased" é um dos melhores exemplos. São doze capítulos (por volta de 20 minutos cada) contando a história de Satoru, um desenhista de 29 anos que tem um "poder": em momentos aleatórios, ele é capaz de voltar alguns minutos no tempo e salvar alguém de algum perigo, como um garoto que ia ser atropelado por um caminhão, por exemplo.

Quando a mãe de Satoru é brutalmente assassinada, o rapaz acaba sendo jogado 18 anos no passado, quando era um garoto na gelada província de Hokkaido, norte do Japão. Por que ele voltou tanto no tempo? O que ele pode fazer para impedir a morte da mãe, 18 anos no futuro? A trama, baseada em um mangá escrito por Kei Sanbe, envolve um serial killer, abuso infantil e outros assuntos pesados. O diretor trabalhou em outro anime pesado japonês, o ótimo "Death Note", e ele consegue aqui um equilíbrio delicado entre assuntos pesados e ótimas sequências de companheirismo, amizade e a relação entre pais e filhos. Satoru é um homem de 29 anos no corpo de um menino de 11 mas, depois de uns dias ele não consegue evitar agir e reagir como uma criança. Ainda assim, ele tenta de tudo para evitar o sequestro e assassinato de companheiros da escola, como a garota Kayo Hinazuki, que é constantemente agredida pela mãe. A trama então lida com aquele velho dilema das histórias que envolvem viagens no tempo: é possível mudar o futuro? Ou as coisas se repetem não importa o que você faça?

Há algumas idas e vindas entre presente e passado, mas certamente os melhores episódios são os que tratam da infância de Satoru. A animação é tecnicamente bem feita, com um bom jogo de luzes e sombras nos momentos de suspense. Dando uma lida pela internet soube que há também um filme e uma série com atores (disponível na Netflix) baseada no mesmo mangá, e que esta série animada teria modificado a trama original. Recomendo. Tá na Netflix.

domingo, 20 de junho de 2021

Luca (2021)

 

Luca (2021). Dir: Enrico Casarosa. Lançado diretamente na Disney+, esta animação da Pixar realmente está mais para um "filme de TV" do que para um lançamento de cinema. O nome "Pixar" traz um monte de expectativas, claro, então talvez "Luca" receba uma crítica menos favorável minha do que se fosse de qualquer outro estúdio. O visual, claro, é lindo. Passado na costa da Itália, a animação mostra um mundo ensolarado, de cores quentes, em que a gente pode imaginar as pessoas vivendo dentro de cada casinha daquela vila de pescadores. O mundo submarino também é bonito, embora a Pixar já o tenha explorado melhor em "Procurando Nemo" (2003).

"Luca" trata de criaturas que são "monstros do mar" quando estão embaixo d´água, mas que adquirem a forma humana quando estão em terra. O personagem título, Luca (voz de Jacob Tremblay) é um garoto que (como a Pequena Sereia) sonha em conhecer o mundo terrestre. Assim como Ariel, ele coleciona objetos que caíram dos barcos, como um relógio, um copo, etc. Um dia ele conhece outro garoto chamado Alberto (Jack Dylan Grazer) que também é um "mostro do mar" mas que gosta de viver na superfície, em uma pequena ilha. Os dois formam uma grande amizade e sonham em ter uma Vespa (a icônica scooter italiana) para conhecer o mundo. Eles então partem para um vila próxima (chamada Portorosso, no que me parece uma homenagem à animação de Hayao Miyazaki, "Porco Rosso").

É tudo bem leve e, no mau sentido, "para crianças", coisa que a Pixar não costuma fazer. O roteiro lança um bocado de ideias que são esquecidas ou deixadas de lado (por exemplo, Alberto diz que seu pai simplesmente o abandonou e foi embora; por que? Quem era ele?). Há uma garota, Giulia (Ema Berman), que quer vencer uma competição local de natação, bicicleta e comer macarrão (risos); ela faz amizade com Luca e Alberto e os recruta para a competição, mas o roteiro parece usá-la mais para criar intriga entre os garotos do que para ser uma personagem de verdade. Há um vilão chamado Ercole (Saverio Raimondo), que é o valentão da cidade... e só. Roteiros da Pixar costumam ser muito mais elaborados (às vezes, até demais), mas aqui temos apenas motivações genéricas dos garotos (serem "livres"), da menina ("vencer") e do vilão (ser um vilão). Há quem diga que a trama é, no fundo, uma alegoria LGBT, e você até pode ver o filme por esta ótica (embora a amizade entre os dois garotos seja bem platônica).

Resumindo, "Luca" é visualmente belo e é "bonitinho", para crianças. Poderia ter sido muito mais. Disponível na Disney+.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Love, Death & Robots - 2ª Temporada (2021)

Love, Death & Robots - 2ª Temporada (2021). Netflix. Chega à Netflix a segunda temporada dos curtas animados (para adultos) de "Love, Death & Robots". Esta temporada está bem mais enxuta (8 episódios, contra 18 da primeira temporada) e menos ousada, embora ainda muito interessante. Os episódios, por vezes, parecem apenas portfólio de alguma produtora de animação, mas os roteiros também podem ser bons, como no episódio "Pop Squad", de Jennifer Yuh Nelson, que é MUITO inspirado em Blade Runner, seja no visual ou "clima" melancólico. Há até uma cena que só pode ser descrita como "tears in rain" (lágrimas na chuva), frase clássica de Rutger Hauer ao final de Blade Runner.

Cada episódio tem uma técnica diferente de animação, seja 2D, computação gráfica e até um episódio com stop motion. Em alguns capítulos, como "Neve no deserto" e "Live Hutch", a imagem é tão realista que parece um filme com atores de verdade. "Drowned Giant" (Gigante Afogado), curta que finaliza a série, é ao mesmo tempo estranho e poético. O corpo de um gigante aparece, nu, em uma praia da Inglaterra (a cena lembra "Viagens de Gulliver"). O locutor conta a história como quem narra uma memória antiga, acontecida há muitos anos. O roteiro foi baseado em um conto de J.G. Ballard, escritor de ficção-científica que escreveu "Império do Sol" (que virou filme de Steven Spielberg).

A série foi criada por Tim Miller (de "Deadpool") e o diretor David Fincher é um dos produtores. Muito boa, pena que são poucos episódios. Tá na Netflix.
 

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Padrinhos de Tóquio (Tokyo Godfathers, 2003)

 

Padrinhos de Tóquio (Tokyo Godfathers, 2003). Dir: Satoshi Kon. Já tinha começado a ver em cópia ruim há anos, achei agora na Netflix em belo HD e... que delícia de filme. Dirigido por Satoshi Kon, que lamentavelmente morreu aos 47 anos de câncer, "Padrinhos de Tóquio" conta a história de Kyoko, uma bebê que é encontrada no lixo por três moradores de rua na véspera de Natal.

Os três são Gin (Tôru Emori), um alcóolatra também viciado em jogo, Hana (Yoshiaki Umegaki) uma drag queen com sonhos de ser mãe e Miyuki (Aya Okamoto) uma garota que fugiu de casa. Gin e Miuyki querem levar a bebê para a polícia, mas Hana quer tomar conta dela, nem que seja por alguns dias. A animação não é nada infantil e mostra um lado pouco visto do Japão, com moradores de rua enfrentando a neve constante e morando em barracos em parques e praças geladas. Os três descobrem junto da bebê pistas sobre sua origem e decidem procurar pela mãe verdadeira.

O roteiro é baseado em um western de John Ford de 1948 chamado "O Céu Mandou Alguém". A animação têm cenas de drama misturadas a sequências muito engraçadas; há algo de "abençoado" na bebê (que, afinal, nasceu na véspera de Natal) e os três moradores de rua experimentam várias coincidências incríveis. O estilo da animação de Satoshi Kon é mais surreal do que os filmes de Hayao Miyazaki, e os personagens são mais bizarros. Tudo leva a uma grande cena de ação final. Imperdível. Tá na Netflix.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A Tartaruga Vermelha (2016)

Atenção: O texto a seguir contém Spoilers

"A Tartaruga Vermelha" é uma belíssima animação co-produzida pelos estúdios Ghibli (de Hayao Miyazaki) e Wild Bunch. O filme é escrito e dirigido por Michael Dudok de Wit, animador com vários curtas metragens no currículo, que faz seu primeiro longa metragem.

O roteiro fala de um náufrago que, ao chegar em uma ilha deserta, tenta por diversas vezes escapar em balsas feitas de bambu. Toda vez que ele coloca o barco no mar, no entanto, ele é destruído por um ser invisível que não o deixa partir. Um dia ele descobre que a responsável pelos ataques é uma grande tartaruga vermelha; em um surto de raiva ele atinge a tartaruga com um pedaço de bambu e a deixa virada de ponta cabeça na praia. Para sua grande surpresa, a tartaruga se transforma em uma mulher de longos cabelos vermelhos e os dois passam a viver juntos na ilha.

É um filme bastante poético e provavelmente não recomendado para pessoas acostumadas com animações barulhentas e de ação. Não há nenhum diálogo, apenas belas imagens, sons e música. O trabalho de criação do espaço geográfico onde vive o náufrago é muito bem feito; depois de um tempo passamos a conhecer toda a ilha, que é pequena, tem um grande monte, uma floresta de bambus e um pequeno lago com água doce. O casal tem um filho pequeno que passa a dividir a ilha com os pais. A animação, feita à mão, é muito bem feita e há belas cenas passadas na floresta, em um túnel submarino ou dentro do mar. Há até espaço para uma sequência assustadora quando a ilha é quase destruída por um tsunami.

O garoto cresce e se torna amigo de grandes tartarugas que habitam o mar. Um dia chega a hora de partir e ele simplesmente sai nadando com elas. Pai e mãe envelhecem e o ciclo de vida e morte se completa. "A Tartaruga Vermelha" foi indicado ao Oscar de melhor animação e é um belo filme. Não perca.

João Solimeo

O trailer abaixo é praticamente um resumo de todo o filme. SPOILERS

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Moana (2016)

"Moana" é dirigido pelos lendários Ron Clemments e John Musker, que foram responsáveis pelo ressurgimento da Disney nos anos 1980 e 1990 com filmes como "A Pequena Sereia" (1989), "Alladin" (1992) e "Hércules" (1997). Eles dirigiram outros filmes juntos mas "Moana" é a primeira animação da dupla na era da computação gráfica e do 3D. Musker e Clemments trouxeram muitas das técnicas tradicionais da animação da Disney (da época em que ainda se desenhava com lápis e papel) e adaptaram ao novo processo em computação gráfica e o resultado é visualmente impressionante.

A trama, por outro lado, não é muito inovadora. Moana é uma garota que vive em uma ilha da Polinésia. Ela é filha do chefe da tribo e está destinada a ser a líder do grupo quando crescer. Mas (adivinhem?) ela sente que o destino dela está em outras paragens, além do horizonte infinito do mar, para onde ela sempre se sente atraída. Lendas também falam de um semi-deus chamado Maui que teria roubado uma pedra que seria o coração da criadora do mundo. Quando a colheita e os peixes começam a ficar escassos, Moana parte em um barco em busca de Maui para devolver a pedra à sua origem e trazer a fartura de volta ao seu povo.

Este primeiro ato, em minha opinião, é a melhor parte do filme. Os personagens são muito envolventes e há momentos bastante tocantes e mesmo épicos como quando Moana, auxiliada pela avó, descobre em uma caverna escondida na montanha que seu povo era originalmente formado por exploradores. No presente, no entanto, seu pai a proíbe de ir além dos recifes próximos.

Curiosamente, o filme perde um pouco do encanto quando Moana deixa seu lar e encontra Maui em uma pequena ilha no meio do oceano. Na versão original em inglês (boa sorte em tentar encontrar uma sessão que não seja dublada) Maui é interpretado por Dwayne Johnson, o "The Rock", o que deve fazer muita diferença na forma como o personagem é visto. Maui é convencido e orgulhoso, o que é interessante por alguns minutos, mas depois se torna repetitivo. O que havia de épico na jornada de Moana no primeiro ato se dilui com a chegada de Maui e o filme perde bastante do seu ritmo. Maui e Moana passam o resto do filme discutindo constantemente ou trocando piadas em longas cenas que, repito, chegam a cansar, o que é uma pena. Apesar disso, "Moana" ainda é uma animação acima da média e um filme bastante bonito e divertido.

João Solimeo