quarta-feira, 30 de julho de 2008

Longe Dela

Grant e Fiona estão casados há 44 anos. Foi ela quem propôs, aos 18 anos, a idéia de que "seria legal se eles se casassem". Ele aceitou na hora porque não conseguiria ficar longe dela. Agora, na casa dos 60 anos, eles ainda se amam e estão juntos fisicamente, mas há um problema. Fiona (Julie Christie) está apresentando os primeiros sinais de Alzheimmer, e seu marido Grant (Gordon Pincent) nada pode fazer a não ser apoiá-la e estar com ela. Este é um fime que poderia, em mãos menos hábeis, ter se transformado em um dramalhão pronto para a TV, mas a roteirista e diretora Sarah Polley conduz a narrativa com grande talento e sensibilidade. O elenco ajuda muito. Julie Christie está ótima (concorreu ao Oscar de Melhor Atriz no início do ano). Ela é uma verdadeira "dama", nas palavras de uma personagem. O marido a descreve como "direta e vaga... doce e irônica". Os dois são obviamente apaixonados mas inteligentes e cultos o suficiente para saber que o futuro não é promissor. Gordon Pincent dá uma interpretação tocante como um marido que está perdendo a esposa que conhece em frente de seus olhos. Fiona, como que preparando o marido para o pior, e para manter a cabeça ocupada, lê em voz alta livros que descrevem os sintomas da doença e suas conseqüências.

Aos poucos os problemas de memória dela vão ficando mais graves e eles decidem que ela deve ser internada em uma clínica especializada. A visita de Grant à clínica é sofrida. Apesar de bem equipada e organizada, a clínica nada mais é do que uma mistura de asilo e sanatório, e compartilamos com Grant o receio de deixar uma mulher inteligente e vibrante como Fiona em um lugar como aquele. O filme é passado no Canadá e a neve (ou a brancura da neve) funciona como uma metáfora para a memória e o esquecimento. A clínica é fotografada com uma luminosidade branca constante, que lembra a paisagem nevada onde moram Grant e Fiona. Enquanto, no lago congelado, eles praticavam caminhadas com ski de um lado para o outro, na clínica os idosos se locomovem com andadores por entre corredores esterelizados, vigiados pela profissional mas distante Madeleine. Desconheço os procedimentos médicos nesses casos, mas há um detalhe visto no filme que me pareceu desnecessariamente cruel. Para ajudar na "adaptação" dos pacientes, a clínica proíbe qualquer contato externo com o novo paciente por um mês. A cena da separação de Grant e Fiona é emocionante. "Quero que faça amor comigo" - diz Fiona - "e depois vá embora, porque se não vou chorar para sempre". Grant está desconsolado, mas o pior acontece um mês depois. Fiona não só não se lembra dele como firmou grande amizade com outro interno, Aubrey (Michael Murphy), que não consegue fazer mais nada sem ela. Grant se transforma em um estranho para Fiona, que não sabe como lidar com aquele estranho que a visita todos os dias. Aubrey é casado com Marian (Olympia Dukakis, ótima), que tem planos próprios para ela e Grant.

O filme guarda semelhanças com o drama "Íris", em que Judy Dench interpreta uma escritora famosa que também é afetada pelo Alzheimmer e começa e "desaparecer" aos olhos do marido. É um tema sensível e assustador. As memórias são o que formam nossa identidade e nossa bagagem cultural. Mas também podem ser nosso tormento. Em uma cena irônica, Fiona mostra para o marido que, apesar do casamento ser longo e verdadeiramente apaixonado, não foi livre de percalços. "Há coisas que eu gostaria de esquecer", diz ela, citando em seguida um "pecado" cometido pelo marido quando eles ainda eram jovens. Grant não sabe se fica feliz pela memória dela ainda estar boa ou chateado pelo assunto ter sido trazido à tona.

Um drama muito bem dirigido e marcado por grandes interpretações.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Não Conte à Ninguém

"Não conte à ninguém" é um bom thriller francês dirigido por Guillaume Canet. Alex Beck (François Cluzet) é um pediatra que vai passear com a esposa, Margot (Marie-Josée Croze), em um lago. Em um momento em que estão separados, Alex escuta um grito da mulher, é atacado e perde a consciência, caindo na água. Oito anos depois, Alex ainda sente falta da esposa, que foi encontrada morta e desfigurada. Ela teria sido vítima de um serial killer que matou várias mulheres na mesma época. Mas a polícia tem suas dúvidas, e desconfia que foi Alex quem a matou. Ele fora encontrado desacordado fora do lago, e não se sabe quem o tirou da água, por exemplo. Agora, oito anos depois, dois corpos foram encontrados perto do lago e há indícios que podem implicar o pediatra.


A trama é complicada e bem escrita. Alex começa a receber e-mails com vídeos em que uma mulher misteriosa é vista de longe. A mulher é muito parecida com Margot, sua esposa. Estaria ela viva? Em caso positivo, como isso seria possível? E quanto ao corpo encontrado dilacerado na floresta? Por que ela estaria escondida este tempo todo? François Cluzet faz um bom trabalho como o amargurado Dr. Alex. Ele nunca mais se envolveu com ninguém depois da suposta morte da esposa e culpa a polícia por ter desconfiado dele. Todos os anos ele ainda visita os pais de Margot para relembrar a morte dela, mas parentes e amigos, como sua irmã e a esposa homossexual dela, Helene (interpretada por Kristin Scott-Thomas, de "O Paciente Inglês", que não tenho visto nas telas), acham que ele deveria virar a página. O problema é que a polícia está cada vez mais desconfiada e um novo crime acaba por incriminá-lo novamente. Alex é avisado por sua advogada e foge da polícia com um plano inteligente por parte do roteiro.

É necessária atenção para acompanhar o filme. Há uma série de tramas aparentemente desconexas que, aos poucos, vão se interligando e, ao contrário do que acontece em muitos filmes do gênero, a trama realmente faz sentido quando todas as peças do quebra-cabeças se juntam. Senti ecos de "Um Corpo que Cai", de Alfred Hitchcock, no fato da esposa (que começa o filme loira), aparentemente voltar dos mortos morena no desenrolar da trama. Boa pedida para ver em DVD.

domingo, 27 de julho de 2008

Belowars (Animamundi parte 2)

Continuando o relato abaixo, após a desastrada sessão de curtas das 17h saí antes do final da Sala 2 e corri para a Sala 1 acompanhar o único longa metragem brasileiro do Animamundi, chamado "Belowars". O filme foi dirigido por Paulo Munhoz e é baseado no livro "A Guerra dentro da Gente", de Paulo Leminski, que não li.

"Belowars" é uma animação em 2D que conta, de forma alegórica, a tragetória de um menino que sonhava em ser um soldado. A animação é extremamente simples e o visual me lembrou muito o usado na série da Cartoon Network, "Samurai Jack", de Genndy Tartakovski. Assim como na série, a tela se divide em vários enquadramentos, mostrando a mesma ação por ângulos diferentes, ou em momentos diferentes. Os fundos são simples e coloridos e quase não há diálogos. Quando os personagem falam alguma coisa, não é em nenhuma língua oficial, mas em uma mistura de línguas (como quando um personagem diz que algo é "dangerigoso"). A história do menino começa quando ele encontra um velho (com visual de "mentor oriental") em uma ponte. O velho joga sua sandália no rio e pede que o menino vá buscá-la. O menino então se torna discípulo do velho, que o leva para longe da família e o vende como escravo para um circo. O menino se mostra bom em lidar com elefantes, mas quando descobre que a dona do circo é, na verdade, uma bruxa que come pessoas, ele foge com o velho novamente. Sempre na companhia deste velho, o garoto vai passando por diversas situações ao longo dos anos, se tornando cada vez mais frio e e bom em matar (que é, no fundo, o que um soldado deve fazer).
A equipe de produção estava presente à apresentação e o diretor disse que estavam procurando por patrocínio para fazerem uma versão em alta definição. A versão apresentada no festival, em Beta, de fato apresentou alguns problemas. O filme é interessante e tem uma trilha sonora muito boa composta por alguém que se chama apenas de "Vadeco". A língua usada pelos personagens é poética e passa idéas a partir da junção de palavras. A simplicidade da animação e do design trabalham a favor do filme, que vai em um crescendo interessante, mas confesso que achei o final um anti clímax. Fiquei com a sensação de que o final foi apressado e que a "moral da história" ficou muito vaga. De qualquer forma é um trabalho interessante e, nos dias de hoje, corajoso da parte de Munhoz em investir em um longa brasileiro de animação.

Animamundi

video

Fui ontem conferir um dia na 16a. edição do Festival Animamundi, em São Paulo, no Memorial da América Latina. Dia frio em Sampa, mas havia um grande público presente ao evento. A fila para comprar ingressos para as exibições de curtas e longas era grande, mas andava rápido. O problema é que ainda há certa desorganização nestes festivais, infelizmente. A moça na bilheteria me garantiu que seria possível assistir uma mostra de curtas às 16h, outra às 17h e o longa das 18h, a um valor de seis reais cada uma. Consegui ver a das 16h tranquilo, ok, mas quando ela terminou já eram cinco e quinze, o que significa que a outra sessão, em outra sala, já havia começado. Para complicar, não havia mais lugares para sentar e grande número de pessoas ficou ou em pé ou tendo que discutir com os monitores que não permitiam que se sentasse nas escadas. A problema do horário se repetiu; apesar da programação indicar que a sessão durava menos que uma hora (o que permitiria assistir ao longa das 18h de volta na Sala 01), já era quase 18h e ainda faltavam dois curtas para terminar. Conclusão, dos sete curtas exibidos nesta sessão, pude ver apenas quatro, porque perdi o primeiro e os dois últimos por causa do horário. É ótimo ver que há grande público para este tipo de festival no Brasil e que a animação está atraindo cada vez mais atenção, mas falta ainda um pouco mais de organização (ou informação) na hora de lidar com o público.

Dos filmes vistos, algumas impressões:

Curtas 12

- Fear - dirigido pelo argentino Augustin Grahan, o curta chama a atenção por ser um "animê" produzido por Grahan no Japão entre 2004 e 2007. Com 12 minutos e meio, o curta é tecnicamente muito interessante e extremamante japonês (bem desenhado, interessante, violento). Mostra o embate entre um adolescente e uma estranha criatura que se parece com um assassino que persegue, com um martelo nas mãos, o jovem. Grahan estava na platéia e disse algumas palavras antes do início da sessão.

- Replay - o curta que mais gostei. Sensível e tocante, o animado francês mostra um mundo pós hecatombe nuclear em que uma mulher encontra um gravador em meio aos escombros. Seu filho fica muito interessado na gravação, foge do abrigo e vai até a cidade deserta e morta. Usando um tubo de oxigênio e uma máscara, o menino anda pela cidade abandonada e vai escutando o passado através das gravações na máquina. Ele entra no pátio de uma escola, liga o gravador e escuta o som de crianças brincando, alegres, até que ele começa a ver realmente tais crianças, que o convidam para brincar com elas. Final triste mas emocionante. Com 08:20 de duração. Dirigido por Boumediane/ Delmeule/ Voisin/ Felicite-ZulmaFrança / France [2007].

- Plastic People - de Pavel Koutsky, República Tcheca, 06:00. Uma irônica crítica aos mundo das cirurgias plásticas, o filme é muito engraçado e mostra, através de uma animação simples e tradicional, como uma clínica se transforma em uma espécie de fábrica de mulheres iguais (loiras, seios imensos e cintura fina).

- Mahi (Os Peixes) - animado iraniano de Mahmoud Fakjrinejad, com 05:00. Muito bem feito, em preto e branco, simulando traços a lápis, mostra a vida de um peixe do fundo do mar até acabar dentro da sacola de um pescador.

- La Tête dans Les Flocons - de Bruno Collet, França, 03:00. Comédia meio absurda feita em stop motion mostrando uma corrida sobre skis maluca entre bonecos do "bem" e um do "mal" (todo de preto), montanha abaixo. O clima é bem nonsense e o público riu muito.

- Unpredictable Behaviour - Ernst Weber, Pasha Shapiro, EUA, 05:05. Computação gráfica muito bem feita, mas sem muita graça, mostrando um diálogo entre Sherlock Holmes e o Dr. Watson. Holmes seria, na verdade, um andróide criado pelo Dr. Watson.

- Cânone para 3 Mulheres - Carlos Eduardo Nogueira, Brasil, 08:40. Computação gráfica superproduzida, fianciada pela Petrobrás e contando com grande equipe mas... que filme é este? É uma crítica ao modo de vida de hoje ou um filme machista e preconceituoso mostrando um dia na vida de três mulheres que são idênticas ("gostosas" mas burrinhas, seios enormes, bumbum empinado) e seus chefes aproveitadores. Com mais de oito minutos (intermináveis), o filme é estilizado e é feito por uma série de "loops" animados. O público, ao final, nem aplaudiu.

- Como Instalar seu Home Theater - de Kevin Deters e Stevie Wermers-Skelton, EUA, 06:18. E, de repente...um desenho animado do Pateta?? Este ótimo curta metragem da Disney resgata o clima gostoso dos curtas de antigamente e mostra, com muita ironia, a que ponto chegou a tecnologia das TVs ultra gigantes e dos Home Theaters. Pateta quer assistir aos jogos de futebol americano com a melhor qualidade possível e vai à uma loja procurar pelas novas maravilhas tecnológicas. Seria uma crítica da Disney ao Home Theater, que está tirando espectadores das salas de cinema? Talvez. O fato é que o curta é muito engraçado e fechou com chave de ouro a sessão.

No próximo post, a parte dois do Animamundi.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Nome Próprio

Orkut. Blog. Fotolog. MSN. MySpace. Hotmail. Google. Skype. Youtube. Gmail. Blogger... há dez anos, grande parte destas palavras sequer existia. Hoje há pessoas que passam suas vidas, ou grande parte delas, se expondo online através destas ferramentas. Eu não sou exceção e, se você está lendo este texto agora, é bem possível que também não seja. "Nome Próprio" é um filme forte e atual sobre uma moça que é personagem de si mesma. Uma mulher que decidiu que vai "viver intensamente" e que, quando a vida não é intensa por si só, faz alguma coisa para puxar o próprio tapete. Uma pesquisa rápida no orkut pelas palavras "viver intensamente" retorna mais de mil resultados. Nestas comunidades você lê descrições como: "­VIVA A VIDA INTENSAMENTE, CURTA CADA MOMENTO DE SUA VIDA", ou "A vida acontece sempre no presente.. não devemos economiza-la!O melhor sempre acontece no AGORA!...". É de se pensar que tipo de felicidade é esta que se busca a qualquer preço, a qualquer momento.

O filme é estrelado por Leandra Leal, que se entrega totalmente a seu personagem, uma blogueira chamada Camila Lopes. Leandra, assim como seu personagem, se expõe despudoradamente para as lentes do diretor Murilo Salles. O filme começa com Camila, nua, sendo expulsa de casa pelo namorado, que a acusa de traição. Camila tem outra opinião. Segundo ela, ela deu apenas seu corpo, enquanto Felipe, o namorado da vez, está traindo a si mesmo. Expulsa de casa, ela logo vai morar no apartamento de outro rapaz. A primeira coisa que faz é comprar muita bebida e tirar dinheiro para poder pagar, adiantado, a conta do telefone. Seu blog vira espaço para expor publicamente sua briga com o namorado e detalhes do seu relacionamento. A web tem mão dupla e, em pouco tempo, há outros sites perguntando o que ela teria feito com o namorado. Camila então faz a seguinte declaração:

DECLARAÇÃO:Meu blog não é um diário. Aqui escrevo e ponto.Escrevo porque preciso. Melhor, vivo porque escrevo. Não quero saber de opiniões, nem de julgamentos. Não devo nada a ninguém. Por isso, meu blog não tem comentários. Menos ainda sobre minha vida. Isto aqui não é uma página interativa. Não gostou? Não lê. Simples assim.

Claro que é uma contradição. Se ela escreve só porque precisa, por que publicar na internet? O filme é muito inteligente em expor este aspecto da vida online. Por um lado, o escritor está sozinho do seu lado da tela. Mas a internet permite que, ao clicar do mouse, alguém lá na Austrália leia em poucos minutos o que você fez ontem à noite, ou veja fotos da sua última balada. Viver apenas o "agora" implica em uma vida sem conseqüências. Paixões sem amores. Causas sem efeitos. É um drama interessante "viver porque se escreve". Você escreve o que você viveu ou você vive porque vai escrever a respeito depois? No fundo, Camila é uma pessoa só e egocêntrica, que não consegue ver além dos limites do seu mundo. Sua relação com os homens também é complicada. A escolha entre transar com alguém ou não parece tão irrelevante quando clicar ou não em um link, e Camila troca constantemente de "namorados" para, em seguida, relatar suas aventuras online. Em uma espécie de feminismo às avessas, ela usa os homens para que eles lhe paguem um lugar para morar e, o mais importante, um lugar onde ela possa instalar seu computador conectado à internet. Há uma incômoda ligação entre suas ações e a prostituição. E nesta era online nem o sexo é tão simples. Em dado momento Camila passa a noite no apartamento de um nerd que é seu fã. Ela está dormindo profundamente e o rapaz lhe tira as roupas e tira algumas fotos com sua câmera digital. Ao invés de transar com a moça, ele passa as fotos para o computador e, com Camila dormindo nua às suas costas, se masturba diante do monitor.

O filme tem censura 18 anos e, de fato, há algumas cenas fortes. Emulando o aspecto "voyer" que existe na internet (com sua profusão de fotos e videos pornográficos) acompanhamos uma longa (e incômoda) cena de sexo entre Camila e um rapaz que ela conhece em um bar. O plano é feito sem cortes e, repito, Leandra Leal se entrega totalmente ao papel, de modo a desaparecer sob a personagem de Camila. Ela se expôe nua por tanto tempo na tela, aliás, que depois de certo tempo deixamos de notar sua nudez e a encaramos com estranha intimidade.

"Nome Próprio" tem, claro, vários sites na internet. Camila pode ser um exemplo extremo do internauta de hoje. Mas ela é um quadro bastante complexo da juventude atual e da cultura do "agora". Uma cultura que exige fidelidade sem praticá-la. Que quer ser livre mas ainda fala de amor. Que quer ficar com todo mundo mas, no fundo, ainda espera a chegada do "príncipe encantado". Nem que ele venha por e-mail.

domingo, 20 de julho de 2008

Control

Pouca gente ouviu falar na banda inglesa Joy Division. Nascida no movimento punk, em Manchester, Inglaterra, a banda lançou apenas dois álbuns e prometia uma carreira de muito sucesso não fosse o suicídio de seu vocalista e letrista Ian Curtis. Aos 23 anos, sofrendo de epilepsia e problemas familiares, Curtis se matou e entrou para a galeria dos famosos póstumos do rock, enquanto os sobreviventes de sua banda deram uma guinada musical e se reformaram como o New Order, uma das bandas pop/eletrônico mais populares da história. A história de Ian Curtis e do Joy Division se tornou filme nas mãos de Anton Corbijn, fotógrafo europeu que fez grande carreira como um dos criadores do visual da banda irlandesa U2, nos anos 80, e que dirigiu vários videoclipes do grupo. O filme, claro, tem uma bela direção de fotografia em preto e branco que retrata a Inglaterra no final dos anos 70. Os atores recriaram perfeitamente a banda original nos mínimos detalhes, chegando inclusive a tocar as músicas de Curtis e do Joy Division. Há vários videos no youtube mostrando a banda real tocando, e o retrato mostrado no filme é bastante fiel.

Interpretando Ian Curtis está Sam Riley, que capturou todos os trejeitos de Curtis durante as apresentações. O resto do elenco é formado por atores relativamente desconhecidos, com exceção da ótima Samantha Morton (que já trabalhou até com Spielberg em Minority Report), que faz a esposa de Curtis, Debbie Curtis. O roteiro é baseado nas memórias da esposa real de Curtis, que também é co-produtora do filme. Os melhores momentos de "Control" são justamente os musicais. Curtis é mostrado escutando David Bowie no início do filme, e ele tem pôsters de Lou Reed na parede. Com a chegada do movimento punk a classe trabalhadora ganhou voz e Curtis se juntou a Bernard Summer (James Anthony Pearson), Peter Hook (Joe Anderson) e Stephen Morris (Harry Treadway) para formar o Joy Division, que aos poucos foi ganhando a cena inglesa e estava pronto para começar uma carreira nos Estados Unidos quando da morte de Curtis.

O filme não é livre de problemas. Apesar de Sam Riley compor um Ian Curtis muito bem feito, o roteiro não conseguiu capturar muito bem a depressão do cantor. Curtis teve um caso com uma jornalista belga chamada Annik Honoré (a bela Alexandra Maria Lara) e isso ameaçou destruir sua família e seu casamento, o que o perturbou bastante, mas não senti que a situação fosse tão desesperadora a ponto de levá-lo ao suicídio. Talvez a intenção de Corbijn tenha sido exatamente de não romancear muito a morte do cantor. O que vemos são algumas situações em que Curtis tem problemas em casa e uma ocasião em que ele não consegue se apresentar em um show da banda, o que causou revolta no público.

"Control" teve orçamento modesto e é um filme realmente "pequeno" quando comparado a outras cinebiografias de bandas como "The Doors" (1991), de Oliver Stone ou, recentemente, "Ray". É o típico filme para ser exibido no circuito de "arte", para pequenos públicos, e cumpre bem seu papel.


trailer:




o Joy Division (real) tocando:

sábado, 19 de julho de 2008

Batman - O Cavaleiro das Trevas


Em meu texto sobre "Batman Begins", em 2005, eu terminei dizendo: "Em alguns anos, imagina-se, Batman estará de volta. Agora que seu início já foi contado, vai ser difícil fazer uma continuação tão interessante quanto este primeiro episódio". Eu estava enganado. Em vários aspectos, "Batman - O Cavaleiro das Trevas" é tão bom quanto seu predecessor. Em outros, é até melhor. Este é um filme mais pesado que o anterior. O diretor e roteirista Christopher Nolan resolveu explorar ainda mais o lado sombrio de seu personagem principal trazendo tons trágicos para a narrativa. O que inclui a morte de personagens principais, um clima de insegurança constante e a criação de dois personagens que são como os lados opostos da mesma moeda: o promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart, muito bem no papel) e o vilão Coringa. Este último, para aumentar ainda mais o tom trágico do filme, foi interpretado por Heath Ledger, jovem ator que morreu de overdose de remédios pouco depois das filmagens. O ator estava com problemas pessoais (separação da esposa e filha) e a overdose pode não ter sido acidental. Há quem diga que interpretar o Coringa pode ter contribuído para sua morte. Jack Nicholson, que interpretou o mesmo personagem na versão de Tim Burton em 1989, ao saber da morte de Ledger, teria dito apenas: "Eu avisei ele".


Gothan City está em guerra com os mafiosos, e Batman tem ajudado secretamente seu amigo Jim Gordon (Gary Oldman) a combater os criminosos. Mas agora há um rosto novo (e horrível) na cidade. O Coringa (cuja origem nunca é explicada direito) tem realizado grandes roubos do dinheiro da Máfia e o está usando para aterrorizar a cidade. Ele começa a matar inocentes e diz que só vai parar quando Batman revelar sua identidade. A cidade conta com a presença de Batman para ajudá-la embora, no fundo, ele seja considerado um justiceiro criminoso até pelo promotor Harvey Dent, que aparece como uma nova esperança. Dent é chamado de "cavaleiro branco" e há esta interessante oposição entre sua figura limpa e decente e a figura sombria e conturbada de Batman. O "Cavaleiro das Trevas", no fundo, está mais próximo do Coringa do que de Dent, e ele tem consciência disto. Christian Bale, novamente no papel de Bruce Wayne/Batman, é um ator completo, que consegue passar tanto a imagem do rico "playboy" que aparentemente não liga para nada quanto sua sombra vestida de morcego. Seu Batman parece uma máquina quando enfrenta os criminosos, e sua voz não soa humana. Mas o filme é plausível o suficiente para você acreditar que uma pessoa comum (extremamente bem treinada e equipada) poderia fazer o que Batman faz. Katie Holmes, atual senhora Tom Cruise, foi substituída no papel da promotora Rachel Dawes por Maggie Gyllenhaal, e foi uma boa troca. Ela é mais talentosa e serve como ponto de apoio entre Harvey Dent e Bruce Wayne.


O "fantasma" do 11 de setembro paira sobre o filme. O Coringa é chamado várias vezes de "terrorista" e certas cenas lembram o ataque que destruiu o World Trade Center. O próprio poster do filme (veja acima), me lembrou muito a imagem do avião invadindo as Torres Gêmeas (compare ao lado). O Coringa não está interessado em dinheiro. Como diz Alfred (o grande Michael Caine) a seu patrão, algumas pessoas só querem ver o circo pegar fogo. Heath Ledger desaparece na figura terrível do Coringa, cujas cicatrizes no rosto o deixam permanentemente com um sorriso macabro. A trilha sonora (de Hans Zimmer e James Newton Howard) criou uma nota distorcida que fica soando toda vez que o Coringa está em cena, e há a sensação de que algo ruim pode acontecer a qualquer momento. O tema do antagonismo, da existência de lados opostos e da escolha permeia todo o filme. O Coringa representa o próprio "Medo" encarnado, a existência de um mundo sem ética, moral ou regra de qualquer espécie. Há uma cena em que Batman está batendo nele, tentando tirar uma informação, e ele diz simplesmente que não há nada que ele possa fazer para assustá-lo, pois ele não conhece limites. Até Batman tem limites e regras, como foi visto no primeiro filme (quando Bruce Wayne, em seu treinamento no Oriente, se recusou a matar um homem desarmado).
Há um ótimo símbolo no filme na forma de uma moeda que tem o mesmo desenho nas duas faces. É com ela que Harvey Dent aparentemente "tira a sorte" quando quer decidir alguma coisa. Mas o que aconteceria se esta moeda deixasse de ter apenas uma face? Será que ele se tornaria tão cruel quanto o assassino de "Onde os fracos não têm vez"? Não é sempre que um "blockbuster" de verão como este levanta questões tão interessantes sobre moral e ética. Christopher Nolan seguiu a cartilha de George Lucas quando criou "O Império Contra Ataca", o sombrio segundo capítulo da trilogia original de "Guerra nas Estrelas", em 1981.
"O Cavaleiro das Trevas" termina de forma depressiva, mas com a esperança de que, em um terceiro capítulo que certamente virá, as coisas melhorem.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Wall-E

Engraçado como o cinema americano está fatalista ultimamente. É filme atrás de filme mostrando a Terra (ou os Estados Unidos, o que para eles é a mesma coisa) destruída por alguma catástrofe natural, um vírus, um meteoro, ou o que seja. O exemplar mais novo deste "gênero" vem dos estúdios da PIXAR na forma de um robô que, aparentemente, é o último ser "vivo" do planeta (sem contar uma barata que lhe faz companhia). Falar bem da PIXAR é chover no molhado, mas vamos lá: que filme bem feito tecnicamente. Os artistas "nerds" do estúdio californiano enchem a tela (e os olhos dos espectadores) com literalmente milhares de pequenos detalhes impressionantes. Não há um frame sequer desleixado em um filme da PIXAR, e é por isso que eles se tornaram o estúdio de animação mais bem sucedido e criativo do mundo nos últimos anos.

O robô é chamado de Wall-e (que é a sigla para "alocador de lixo terrestre", ou algo assim), e sua única missão na vida é compactar o lixo em cubos e empilhá-lo em montanhas de dejetos. Estamos aproximadamente no ano de 2800, se minhas contas estiverem corretas, e a Terra se tornou, literalmente, um monte de lixo da superfície até a órbita, cheia de restos de satélites. O filme começa com uma surpresa, uma canção do musical "Hello Dolly", dirigido pelo gênio sapateador Gene Kelly, em 1969, com Barbara Streisend e Walter Matthau no elenco. Explica-se, a música é tocada pelo pequeno robô o tempo todo durante seu turno de trabalho, e ele guarda uma velha (muito velha) fita VHS do filme em sua "casa", um furgão cheio de bugigangas e peças de reposição. O cenário é impressionante e a trama vai sendo revelada aos poucos através de objetos de cena e outdoors animados que vão contando a história da humanidade: o mundo se tornou inabitável e os seres humanos fugiram para o espaço. Para trás ficaram robôs como Wall-e com a missão de limpar tudo e tornar o planeta habitável novamente. Mas 700 anos se passaram, o lixo se acumulou em pilhas maiores que os arranha-céus das metrópoles e os robôs foram parando um por um, com exceção de Wall-e que, fiel a seu propósito, continua trabalhando sem parar.

O filme é co-escrito e dirigido por Andrew Stanton, responsável por "Procurando Nemo", e ele comete algumas ousadias. Grande parte do animado é passado sem nenhum diálogo, apenas com imagens e expressões de Wall-e para passar a história. Há um sem número de referências, mas a principal (e que vai se tornando cada vez mais óbvia) é o clássico "2001 - Uma Odisséia no Espaço", de Stanley Kubrick, que também tinha uma longa primeira parte passada no "silêncio" de uma Terra sem seres humanos. O filme tem um visual espetacular e uma "câmera" quase sempre em movimento, com constantes mudanças de foco e pequenos movimentos que parecem sugerir o ponto de vista de outra máquina. A tecnologia da computação gráfica percorreu um longo caminho desde que Toy Story estreou nos cinemas em 1995.

A solidão do pequeno robô termina quando uma gigantesca nave desce dos céus e dela sai outro robô, muito mais avançado tecnicamente do que Wall-e. Na verdade é "uma" robô chamada EVA, que veio à Terra procurar por sinais de vida. Wall-e se "apaixona" perdidamente por ela e tenta conquistá-la seguindo as cenas que sempre viu no musical "Hello Dolly". EVA só quer saber de sua missão e, de fato, ela encontra uma pequena planta e entra em "hibernação". A nave volta e retorna ao espaço com EVA a bordo, e Wall-e vai de carona. As cenas da viagem espacial são de uma poesia tocante e servem de ponte para a segunda parte do filme, passada dentro de uma gigantesca nave espacial onde os descendentes da Humanidade vivem. E a visão não deixa de ser assustadora. A nave (ou o novo lar dos humanos) é mostrado como um gigantesco shopping center em que as pessoas, gordas e sedentárias, são conduzidas de um lado para o outro em cadeiras flutuantes, se comunicando apenas por programas de "chats" e seguindo a mesma moda. É obviamente uma crítica à sociedade de consumo que produziu todo aquele lixo que destruiu o planeta e um retrato do americano médio, consumista, gordo e infantilizado. Se não estivesse assistindo a uma animação "para crianças" feita por um grande estúdio americano, juro que acharia que estava vendo uma crítica ácida e adulta ao mundo em que vivemos.

Wall-e tem um pouco de E.T., um pouco de Star Wars, um pouco de 2001, e muito da cultura pop atual. Quando Wall-e liga, por exemplo, faz o mesmo som que meu iMac 600 da Apple fazia (e, creio, os Macs ainda fazem ao ligar). A mensagem ecológica está meio batida hoje em dia, mas o filme é maior do que isso. E a PIXAR impressiona novamente com sua mágica de conseguir misturar alta tecnologia na produção com um coração que bate em seus roteiros elaborados. E que venha o próximo Oscar.


Vencedores do I Festival Paulínia de Cinema

Sábado foi o encerramento do I Festival Paulínia de Cinema. O grande vencedor da noite foi José Mojica Marins, vulgo Zé do Caixão, com seu fime "Encarnação do Demônio". Não vi o filme e não gosto deste tipo de terror "trash", mas sem dúvida Zé do Caixão é um ícone do cinema brasileiro. Vi o trailer do filme e, ao menos tecnicamente, ele me pareceu bastante bem feito (e bastante sangrento). Deve agradar à molecada fã de filmes como "Jogos Mortais" e similares. Selton Mello levou o prêmio de Melhor Diretor por seu "Feliz Natal" (crítica abaixo).

Segue a lista dos vencedores:

- Melhor Filme: Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins
- Prêmio Especial do Júri: Walter Lima Júnior, diretor de Os Desafinados (leia crítica abaixo)
- Melhor Diretor: Selton Melo, por Feliz Natal
- Melhor Ator: Paulo José, por Pequenas Histórias
- Melhor Atriz: Claudia Abreu, por Os Desafinados
- Melhor Ator Coadjuvante: Ângelo Paes Leme, por Os Desafinados
- Melhor Atriz Coadjuvante: Darlene Gloria e Graziella Moretto, por Feliz Natal (por unanimidade)
- Melhor Roteiro: Helvécio Ratton, por Pequenas Histórias
- Melhor Documentário: Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Cláudio Manoel, Calvito Leal e Michael Langer
- Prêmios Especiais - Documentários: Iluminados, de Cristina Leal Castelar, e Nelson Dantas no País dos Generais, de Carlos Alberto Prates Correia
- Menção Especial: Fabrício Reis por sua atuação em Feliz Natal, de Selton Mello
- Melhor Fotografia: José Roberto Eliezer, por Encarnação do Demônio
- Melhor Montagem: Paulo Sacramento, por Encarnação do Demônio
- Melhor Trilha Sonora: André Abujamra e Marcio Nigro, por Encarnação do Demônio
- Melhor Edição de Som: Ricardo Reis, por Encarnação do Demônio
- Melhor Direção de Arte: Cássio Amarante, por Encarnação do Demônio
- Melhor Figurino: Fabio Namatame, por Onde Andará Dulce Veiga

domingo, 13 de julho de 2008

Feliz Natal

Li uma estatística uma vez que dizia que o stress das festas de final de ano é responsável por um aumento nas mortes por ataque cardíaco. Não sei se é verdade, mas me lembrei disso enquanto assistia a "Feliz Natal", filme de estréia na direção do ator Selton Mello, exibido dia 11 último no I Festival Paulínia de Cinema. Selton é sem dúvida uma das grandes figuras no cenário do cinema brasileiro recente, presente em filmes tão diferentes como "Lavoura Arcaica" e "O Cheiro do Ralo" como mais comerciais e leves como "O Auto da Compadecida" e "Lisbela e o Prisioneiro". Pode-se até dizer que ele sofre de certo excesso de exposição, a ponto de se tornar um pouco repetitivo. Nada melhor, então, do que passar para o lado de trás das câmeras e colocar o chapéu de diretor. Em "Feliz Natal", Selton também assina a produção, o roteiro (com Marcelo Vindicatto) e a edição do filme.

Não é um filme fácil. Selton poderia ter usado da própria fama para produzir um filme leve e divertido para atrair um grande público e agradar a todo mundo. Não é, definitivamente, o caso. "Feliz Natal" é "feio", "sujo", escuro e, por que não, polêmico. A fotografia de Lula Carvalho, além de super granulada, parece querer entrar na alma dos personagens através das lentes. Há alguns planos maravilhosos dos olhos injetados de Darlene Glória (a quem Selton Mello chamou de "minha musa, a alma do meu filme" antes da exibição em Paulínia) que valem o ingresso.

Leonardo Medeiros (perfeito) é Caio, o dono de um ferro velho no interior que volta para a cidade grande para rever a família durante as festas de Natal. A cunhada Fabiana (Graziella Moretto, em papel diferente de suas comédias habituais) o recebe dizendo que ele deixou muita mulher com o coração partido mundo afora (aparentemente, ela também). Sua mãe, Mércia (Darlene Glória, em atuação extraordinária) é um misto de amor de mãe com um "algo a mais" incômodo. O irmão Theo (Paulo Guarnieri, muito bem) não parece feliz em vê-lo e o pai (o grande Lúcio Mauro) diz para ele sumir da sua frente ou vai lhe partir a cara. Tudo isso apresentado em longos planos seqüência entrecortados por uma montagem que não segue o padrão clássico de plano/contraplano. Quando mãe e filho se encontram em frente a uma cortina de luzes, por exemplo, a edição entrecorta planos dos dois se falando com outros que os mostram se abraçando, gerando uma sensação de intimidade forçada, incômoda mesmo, para o espectador. Selton Mello também se mostra bom diretor em um encontro de Caio com a cunhada no banheiro. Nada é dito, vemos apenas o rosto dela em primeiro plano enquanto, em um espelho todo "sujo" com texturas, vemos o reflexo de Caio. Os dois apenas ficam lá, por um longo período, até que Caio pede licença e cruza a tela, deixando a cunhada do lado esquerdo do plano, agora invertido.

Selton Mello, grande fã do cinema nacional, europeu e do cinema americano marginal, claramente bebeu dessas fontes para criar sua versão de cinema. Os silêncios "europeus" de "Feliz Natal" por vezes são entrecortados por momentos mais "marginais" de humor, vindos principalmente das crianças (uma delas filho de Guarnieri; o outro menino, maravilhoso, infelizmente não peguei o nome). A (má?) influência da internet, por exemplo, rende momentos engraçados como quando os garotos vão procurar a definição de "menstruação" na web e a descrevem para os outros convidados da festa. E há a presença sutil de Tarantino em alguns diálogos trocados pelos amigos de infância que Caio vai visitar em sua passagem pela cidade.

Apesar desses momentos de humor, não é um filme para "se divertir". A hipocrisia da família moderna é mostrada de forma até cruel pela câmera "suja" de Mello. A Mércia de Darlene Glória é mostrada como uma senhora viciada em remédios e bebida. Lúcio Mauro se gaba de ter uma namorada com idade para ser sua neta, mas o "romance" tem que ser mantido à base de drogas para a potência. As crianças estão expostas a todo esse ambiente e as conseqüências são imprevisíveis. Caio está claramente tentando se reconciliar com problemas do passado, mas só encontra hostilidade ou, pior, piedade da família e amigos.

E há o final do filme. Claro que não vou entrar em detalhes aqui, pois não quero estragar o filme para ninguém. Só me limito a dizer que Selton cometeu uma ousadia final no roteiro que me deixou bastante dividido. Por um lado, a cena é forte o suficiente para ter arrancado, de uma mulher sentada atrás de mim no cinema, um "Não!" expontãneo e bem vindo (é raro tirar o público da letargia hoje). Por outro, eu me pergunto se ela era realmente necessária, ou se não teria sido uma apelação do roteiro. Para "compensar", há um plano final de absoluta paz que impressiona.

Um filme difícil, forte e impressionante. Não acho que vá agradar ao grande público. Para Selton Mello, é uma vitória artística e pessoal de alguém que já guardou seu lugar na história do cinema brasileiro como ator. "Estou nascendo de novo aqui hoje", disse ele antes da exibição do filme. "O flme se completa agora com o olhar de vocês". O olhar de muitos, ao final, era de espanto, confusão e admiração.


sexta-feira, 11 de julho de 2008

Os Desafinados

É uma e vinte da manhã e acabei de chegar da exibição de "Os Desafinados" no I Festival de Cinema de Paulínia. O filme foi mostrado no novíssimo teatro da cidade que, assim como todo o projeto cinematográfico de Paulínia, tem proporções faraônicas. O auditório tem capacidade para mil e trezentas pessoas, e a entrada estava decorada estilo "Hollywood", com direito a luzes cortando o céu e um longo tapete vermelho (simulando o Oscar) até a entrada do teatro. O filme estava marcado para começar às 20h, mas houve um atraso considerável até a entrada ser liberada para o público que esperava na fila no saguão do teatro.

O apresentador Serginho Groisman deu as boas vindas ao público e, antes da exibição do longa metragem, chamou ao palco Elke Maravilha, espalhafatosa como sempre, pois seria exibido um curta metragem a seu respeito (o curta é apenas razoável, dirigido pela filha de Sérgio Rezende). O ator Ney Latorraca entregou um prêmio especial ao diretor Mauro Lima pelo filme "Meu nome não é Johnny", que foi aceito pela produtora do filme e por Selton Mello, grande figura do cinema nacional recente. Selton mal desceu do palco e teve que voltar novamente, como parte do elenco de "Os Desafinados", o filme principal da noite. Também ao palco subiu o diretor Walter Lima Jr, que falou um pouco sobre a produção. Ele disse que parte do filme foi feita em Nova York e que as cenas da década de 1960 foram todas compradas de arquivos de imagens americanos. "Eles são muito organizados", disse o diretor. Na prática, o filme levou oito anos para ser finalizado, mas Walter Lima disse que o filme estava com ele há trinta anos. "Há vários filmes dentro da gente. Quando se encontram pessoas que sonham junto, a gente se enche de coragem", disse o diretor. E então, finalmente, "Os Desafinados" foi exibido.

O filme é muito bom, mas por vezes parece ser um "work in progress". O produtor Flávio Tambellini avisou, antes do início da projeção, que não houve tempo de colocar as legendas para os diálogos em inglês desta cópia. É de se imaginar que o filme ainda vá passar por algum tipo de edição final. Atrevo-me a dizer que, apesar de muito bom, ele precisa desta edição. "Os Desafinados" faz referência, claro, à Bossa Nova, estilo musical dos anos 1960 que misturou a influência do jazz americano com o samba brasileiro. O filme funciona (ou não...) em duas épocas; o "presente" mostra um grupo de senhores no Rio de Janeiro que estão surpresos e chocados com a morte de uma antiga cantora da bossa nova chamada Glória, que cantou com um grupo chamado Os Desafinados. Estes senhores, logo ficamos sabendo, eram membros deste grupo, e a imprensa está interessada na história deles. Isto serve de ponte para que o "passado" entre em cena. O grupo era formado por Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Angelo Paes Leme), Geraldo (Jair Oliveira) e PC (André Moraes). Depois de falhar em um concurso que estava escolhendo grupos para tocar em Nova York, Os Desafinados decidem bancar a viagem do próprio bolso e partem para Manhatann. Junto com o grupo vai Selton Mello, interpretando o cineasta Dico, que é amigo e espécie de documentarista do grupo. Selton, apesar de ótimo como sempre, me pareceu estar no filme "apenas" pela grande simpatia que o público tem por ele. Seu personagem, apesar de servir como elo de ligação (até certo ponto) entre o passado e o presente (por causa de suas imagens), me pareceu mais o que se costuma chamar de "comic relief". Selton está muito bem mas corre o perigo, suponho, de se tornar uma caricatura de si mesmo. Todas as "tiradas" engraçadas do roteiro são ditas por ele e o público adora e morre de rir, mas talvez ele merecesse um papel mais sério.

A produção é bem cuidada e a recriação de época bem feita, mesclando imagens de arquivo (aquelas citadas pelo diretor) com outras feitas em locações de Nova York. O grupo, não conseguindo se apresentar em casas de espetáculo, começa a ganhar dinheiro e atrair atenção tocando nas ruas e em bares. Rodrigo Santoro, muito bem, faz o compositor do grupo e o personagem mais introspectivo do filme. Ele deixou no Brasil a esposa Luíza (Alessandra Negrini), que está grávida. Mas ao encontrar a música de rua Glória (Cláudia Abreu, em grande interpretação, sensual e confiante) tocando no Central Park, um se apaixona pelo outro e praticamente o grupo todo se muda para o apartamento da moça. Há belas passagens musicais como quando o grupo começa a improvisar sua bossa nova com uma banda de jazz em um bar, ou quando Santoro e Abreu fazem um dueto de violão e flauta no Central Park. O filme também mostra como os americanos se apropriavam dos direitos autorais dos compositores brasileiros apenas mudando a letra e registrando a música sob outro nome. A música do filme, a propósito, além de usar canções conhecidas de Tom Jobim, entre outros, também foi composta por Wagner Tiso.

Toda esta passagem em Nova York é bastante envolvente e bem feita. O problema, a meu ver, é que o filme fica retomando a trama que acontece no tempo presente, quebrando freqüentemente o "clima" e o andamento do filme. A trama do presente circula em torno da vontade do cineasta Dico (interpretado quando mais velho por Arthur Kohl) de reunir o grupo e fazer uma espécie de "especial" em vídeo para vender para a televisão. Há um grande contraste entre o glamour do passado e as condições do presente. O local da reunião do grupo, por exemplo, se dá em um bar de striptease. Como se não bastasse estas indas e vindas pelo tempo, o roteiro ainda tem a ambição de se enveredar pela parte política da história do Brasil, como o golpe de 64, a censura aos artistas e os abusos da ditadura. Tudo isso, repito, é produzido com muita competência mas, a meu ver, o roteiro acaba sofrendo com isso. O filme, que tem a longa duração de duas horas e meia, ganharia com uma edição mais rigorosa e a retirada de algumas cenas desnecessárias.

Isso posto, é um bom filme, com elenco afinado (me desculpem o trocadilho) e bela produção.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Escutando Eduardo Coutinho

Escutar Eduardo Coutinho é um prazer e uma aventura. O diretor de documentários como "Peões", "Edifício Master" e "Jogo de Cena", entre outros, esteve em um debate hoje na Escola Magia do Cinema, em Paulínia, interior de São Paulo. O debate teve a mediação de Rubens Ewald Filho e contou com a participação do escritor Luis Carlos Lucena (que está lançando o livro "Nem Tudo é Verdade") e de Marcelo Machado, jurado do Festival de Cinema de Paulínia. Escutar Coutinho é um prazer pelas suas histórias e sua visão do cinema que produz. Aventura porque ele tem a tendência de se estender nas respostas por caminhos que podem levar a qualquer lugar, fora o hábito de não falar ao microfone ("não consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo", brincou ele).
Infelizmente não tive a oportunidade de ver "Jogo de Cena" ainda, mas a princípio é um filme em que Coutinho joga com o que é "real" ou "irreal" em um documentário, entrevistando mulheres sobre suas vidas e, ao mesmo tempo, contratando atrizes para narrar algumas destas histórias. O jogo está em descobrir quem está falando a "verdade" ou não. O resultado, segundo Coutinho, é algo assustador: "Você não é dono da sua história", disse ele, "alguém pode se apropriar dela e fazer parecer mais 'real' do que você". Ele disse que só entrevistou mulheres porque ele gosta de investigar o que é diferente dele. "Como não fui, não sou e nunca serei mulher, o assunto me atrai", disse ele.
Uma coisa que ele sentiu de todos os depoimentos é que a figura masculina geralmente é a do "macho predador", seja um pai duro demais ou um marido ausente. Diz que a reação ao documentário também tem sido mais forte com as mulheres, provavelmente pela identificação com as histórias contadas. O filme foi apresentado no exterior e ganhou alguns prêmios, o que surpreendeu o cineasta. Coutinho explicou que achava que o "jogo" só funcionaria no Brasil, porque no exterior pouca gente reconheceria Fernanda Torres ou mesmo Marília Pera, mas isso não foi problema. Coutinho faz um cinema simples. Segundo ele, faz um cinema "que ninguém quer fazer". Ele não gosta do que ele chama de "perfumaria". Ele gosta de gravar pessoas e suas histórias. "O corpo fala pra cacete", disse ele, "mas a fala tem que ter força, ou não serve".
Rubens Ewald perguntou sobre a questão dos direitos de imagem e Coutinho disse que isso está se tornando um grande problema nos últimos anos. Ele comentou sobre o que ele chamou de "confissão paga", que seriam pessoas que vão a programas de televisão para contar suas histórias tristes (sejam reais ou não) a troco de dinheiro. Falou sobre o baixo nível dos programas de televisão e comentou sobre o Big Brother. Serginho Groisman estava na platéia e falou com Coutinho sobre os "reality shows" e o famoso caso da garota que se suicidou em plena "reportagem" do programa "Aqui Agora", anos atrás. Coutinho disse que o Big Brother é que nem uma droga e que veio para ficar.
Perguntei a Coutinho sobre a garota de programa que, em "Edifício Master", após falar sobre sua vida, acaba dizendo que ela gostava de mentir muito, tanto que ela chegava a acreditar nas próprias mentiras, e se essa não teria sido uma inspiração para "Jogo de Cena". Coutinho disse que, no fundo, não importa se é "real" ou não quando se faz um documentário sobre pessoas. "Ninguém consegue lembrar toda sua vida", disse ele. "Você pode dizer hoje que sua infância foi uma droga, e daqui uma semana pode dizer que ela foi ótima". Também sobre a mesma garota, Coutinho lembrou do depoimento dela dizendo que após ganhar 150 reais no seu primeiro programa com um homem, ela saiu com a filha e gastou tudo no McDonald´s. "Não é uma história ótima? Provavelmente ela gastou só 50 reais, e não 150, mas a história continua sendo maravilhosa".
Para terminar, Coutinho disse que não acha que o cinema possa mudar o mundo. Segundo ele, não muda nem mesmo a história das pessoas que participam de seus filmes. O máximo que ele pode fazer é ser ético e tentar não causar mal às pessoas.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Navegando no deserto

Eu tinha uns seis anos de idade. Meu pai estava viajando a trabalho e eu e o resto da família estávamos passando uns dias na casa do meu avô. Era de noite, a televisão estava ligada e eu observava uma cena passada no deserto. A TV, provavelmente em preto e branco (que cor são as memórias?) mostrava um homem no deserto. O homem então olha para o horizonte e vê uma miragem. Ou ele acha que é uma miragem.... de que outra forma explicar que, em meio às dunas do deserto, um navio esteja navegando? Pouco depois minha mãe me disse que era hora de dormir, mas fiquei com aquela imagem do navio no deserto na cabeça por muito tempo.

CORTE

Anos depois eu estava no Cine Paulista, em São Paulo, tremendo de frio por causa do ar condicionado e, para meu espanto, aquela memória da infância estava se repetindo na tela. Era o ano de 1989 ou 1990, creio, e os cinemas estavam reprisando o clássico "Lawrence da Arábia", de 1962, em versão restaurada. Nunca havia visto o filme inteiro, e apesar da tela do Paulista não ser nenhuma super tela, era bom poder apreciar o clássico de David Lean no cinema. Revi o filme (de quase quatro horas de duração) umas quatro ou cinco vezes nos cinemas, depois em VHS e finalmente em DVD. Lawrence foi talvez o maior dos épicos, influenciador de vários cineastas que fizeram sucesso depois, como Steven Spielberg e Martin Scorsese. Várias marcas de Lawrence podem ser vistas no cinema de Spielberg, como as grandes paisagens, os travellings acompanhando os personagens e a presença do Sol na tela, em filmes como Caçadores da Arca Perdida, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Império do Sol, entre outros. Spielberg declarou que o filme é um dos que sempre assiste antes de começar qualquer nova produção. Ele e Scorsese financiaram o restaurador Robert A. Harris no trabalho arqueológico de procurar as cópias restantes do filme mundo afora para remontar a versão original de 1962, que estava praticamente perdida.

O filme deu a Peter O´Toole seu primeiro papel no cinema e ele está estupendo. No resto do elenco atores do calibre de Alec Guinness, Anthony Quinn, Claude Rains, Arthur Kennedy, entre outros, e praticamente nenhuma mulher. A maravilhosa trilha sonora foi composta por Maurice Jarre, que se tornaria colaborador frequente de David Lean. No video abaixo pode-se ver uma apresentação de Jarre regendo a trilha do filme em homenagem a Lean, que morreu em 1991. São várias as cenas antológicas: o corte do fósforo que O´Toole assopra para a cena do deserto, a primeira cena de Omar Sharif surgindo no horizonte, a sequência da tomada de Aqaba, o sol nascendo na tela exatamente no momento em que um ator a cruza, a já citada cena do navio em pleno deserto. Obra prima.