segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

2 coelhos

"Como matar dois coelhos com uma bomba atômica só". Esta é a impressão que se tem ao terminar de se assistir a "2 coelhos", produção nacional escrita e dirigida por Afonso Poyart. Acrescenta-se aí a cavalaria americana, os fuzileiros navais, um comando da SWAT e talvez um garoto com um estilingue e se tem uma ideia da obra produzida pelo diretor, que veio do mundo da pós-produção e da publicidade. O filme de Poyart usa de todos os truques e cacoetes possíveis para contar uma história policial que flerta com o cinema de diretores como Guy Ritchie e Danny Boyle, para ficar somente em duas referências. É um cinema de puro entretenimento e é bobagem esperar algo a mais do que isso. Mas é impossível deixar de notar os absurdos do roteiro, cuja trama muda e se transforma a cada dez minutos, como em uma brincadeira de criança em que as regras variam conforme os garotos vão jogando.

Edgar (Fernando Alves Pinto) é um rapaz que acabou de voltar de uma temporada em Miami. Ele foi para os Estados Unidos depois de causar a morte de duas pessoas (uma mãe e seu filho) em um acidente de carro. Ele volta com um plano na cabeça; ele quer "fazer justiça, matar dois coelhos com uma cajadada só". Tramas paralelas mostram a promotora de justiça Julia (Alessandra Negrini) que, com o marido, é "conselheira criminosa" de um bandido chamado Maicon (Marat Descartes, de filmes muito melhores, como "Trabalhar Cansa"). A justiça está com provas contra Maicon e ele precisa pagar 2 milhões de dólares de propina para um deputado corrupto, só que o dinheiro é roubado no caminho. Só que esta trama vale durante uns dez, vinte minutos; Julia, na verdade, estava tendo um caso com Maicon e traindo o marido, ao mesmo tempo em que estava em contato com Edgar. O pai (e marido) das pessoas mortas por Edgar no acidente de carro, Walter (Caco Ciocler), agora trabalha com o pai de Edgar em um restaurante e, aparentemente, quer se vingar de Edgar pela morte da sua família. Ou não. Complicado? Bobagem tentar entender; a trama muda conforme o efeito pretendido pelo diretor/roteirista, independente da lógica.

Tudo isso é mostrado em cortes ultra rápidos em uma edição que mistura diversos tipos de suporte (foram usadas desde máquinas fotográficas para gravar as imagens até câmeras RED de alta definição). Além da edição hiperativa, a narração de Edgar é visualizada de forma literal de diversas maneiras, seja na forma de animações por cima da imagem até sequências completas em computação gráfica (como nas cenas absurdamente exageradas que mostram como Julia imagina sua síndrome de pânico). Influências "pop" povoam os planos, como bonecos dos personagens de Star Wars ou um videogame que simula a vida de Edgar em Miami. É fácil falar mal do filme com julgamentos simples como chamá-lo de "publicitário" e "televisivo", mas estes são adjetivos que, bem ou mal, cabem perfeitamente à obra multimídia de Poyart. A trilha de André Abujamra é intercalada com sucessos de "30 Seconds from Mars" ou dos "Titãs" em sua fase mais pesada.

É um filme que representa bem a geração século XXI, saturada de imagens, informações, efeitos e pirotecnia, tudo embalado em um formato que pode ser até atraente, mas é extremamente superficial.

Câmera Escura

Vencedores do SAG Awards

Foi realizada ontem a entrega do prêmio "Actor", do sindicato dos atores americanos. O SAG Awards é um bom termômetro para o Oscar que acontece no dia 26 de fevereiro. Assim como no Globo de Ouro, são premiadas produções tanto da televisão quanto do cinema. O francês Jean Dujardin levou o prêmio por sua interpretação em "O Artista" e Viola Davis o de melhor atriz por "Histórias Cruzadas". É bem provável que a dupla repita o feito no Oscar.

O SAG Awards tem uma curiosidade, o prêmio para a melhor equipe de dublês, que foi para o filme "Harry Potter e As Relíquias da Morte parte 2". Com tanto uso de efeitos especiais e até de "atores virtuais", fica difícil imaginar como eles conseguem julgar este prêmio hoje em dia.

Seque abaixo a lista completa dos vencedores:

Cinema

Elenco de Filme
Histórias Cruzadas

Ator
Jean Dujardin, por O Artista

Atriz
Viola Davis, por Histórias Cruzadas

Ator Coadjuvante
Christopher Plummer, por Beginners

Atriz Coadjuvante
Octavia Spencer, por Histórias Cruzadas

Equipe de Dublês
Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2

Televisão

Elenco de Série Dramática
Boardwalk Empire

Ator de Série Dramática
Steve Buscemi, por Boardwalk Empire

Atriz de Série Dramática
Jessica Lange, por American Horror Story

Elenco de Série Cômica
Modern Family

Ator de Série Cômica
Alec Baldwin, por 30 Rock

Atriz de Série Cômica
Betty White, por Hot In Cleveland

Ator de Telefilme ou Minissérie
Paul Giamatti, por Too Big To Fail

Atriz de Telefilme ou Minissérie
Kate Winslet, por Mildred Pierce

Equipe de Dublês em uma Série
Game of Thrones


A Separação

Muitos filmes já foram feitos sobre divórcios, mas o iraniano "A Separação", escrito e dirigido por Asghar Farhadi, pode ser colocado entre os melhores de todos os tempos. Vencedor do Urso de Ouro, em Berlim, em 2011 e do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, o roteiro inteligente recebeu uma indicação ao Oscar, além da indicação a filme estrangeiro. O filme parte de uma trama relativamente simples, a separação de um casal iraniano, e debate temas como religião, honra, o direito e o próprio conceito de verdade. O espectador fica envolvido não só pelo lado humano, mas também pelo fato do filme ser, também, uma trama de mistério.

Nader (Peyman Moadi) e Simin (Leila Hatami) estão se separando. Simin quer sair do Irã e tentar a vida no exterior, mas precisa do divórcio do marido e a autorização dele para levar a filha Termeh (Sahina Farhadi, boa atriz, filha do diretor) com ela. Nader não quer sair do país porque tem um pai doente em casa (ele sofre de Alzheimer) e não quer se separar da filha. Com o impasse, Simin se muda para a casa dos pais e Nader contrata uma mulher chamada Razieh (Sareh Byat) para cuidar do pai doente. Uma tarde Nader e a filha voltam para casa e encontram o pai dele inconsciente, caido no chão e amarrado à cama. A empregada retorna e Nader, enfurecido, a expulsa de casa. Ela estava grávida e acaba abortando o filho, que já estava de quatro meses e meio. Na lei islâmica ele já era considerado um ser vivo, então Nader é acusado de assassinato. A trama então se transforma em um "filme de tribunal", mas bem diferente do que se está acostumado a ver em um filme americano. Não há um juri, ou advogados, em um tribunal cinematográfico. Há uma série de discussões com um juiz, em uma sala apertada, entre Nader, a ex-empregada e o marido dela. Eles acusam Nader de ter matado o filho deles; Nader acusa a mulher de maus tratos com o pai. Quem está com a razão? Nader sabia que Razieh estava grávida? Ele a expulsou verbalmente ou a empurrou escada abaixo? Ele provocou o aborto ou ela teria sofrido alguma outra coisa?

O que torna o filme interessante são as discussões morais que ele levanta. É perfeitamente compreensível que Nader estivesse alterado quando encontrou o pai amarrado à cama, mas ele tinha o direito de ser violento com a empregada? Por outro lado, ela não foi irresponsável ao deixar um senhor doente sozinho para tratar de assuntos particulares? A questão religiosa também permeia o drama. Razieh segue fielmente o Corão e há uma cena curiosa em que, descobrindo que o pai de Nader urinou nas roupas e precisa ser trocado, ela liga para alguém pedindo um conselho religioso: seria um pecado se ela trocasse o velho? A filha de Nader e Simin não quer que eles se separem, e o fato dela permanecer com o pai durante a trama demonstra a inteligência do roteiro; caso ela fosse com a mãe o casamento realmente estaria terminado. A cultura machista muçulmana é questionada no comportamento dos dois maridos da trama. Tanto Nader quanto o marido de Razieh são teimosos e com tendências violentas, embora amem suas famílias. Nader, particularmente, pode parecer um homem bruto e egoísta, mas o cuidado que ele tem com o pai é comovente. É também curioso saber que em um país aparentemente tão tradicional como o Irã questões como o divórcio são tratadas de forma natural.

Assim, "A Separação" é algo maior do que um simples filme de divórcio. É um filme sobre pessoas e seus problemas, seja no Irã ou em qualquer outro lugar do mundo.


domingo, 29 de janeiro de 2012

L´Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância

Na virada do século 19 para o século 20, um grupo de mulheres vive e trabalha em um bordel de luxo chamado L´Apollonide. A maioria veio de casas menores e trouxeram com elas dívidas que, em princípio, serão pagas com o trabalho; na prática, poucas acreditam que um dia vão deixar aquela vida. "Casa de tolerância" de luxo ou não, os problemas destas mulheres não são diferentes dos de qualquer prostituta. Solidão, condições de trabalho humilhantes, doenças, exploração financeira e risco de violência.

Escrito e dirigido por Bertrand Bonello, o filme é fotografado como se fosse um quadro impressionista. Bonello se baseou em quadros de Toulouse-Lautrec e seu diretor de fotografia, Josée Deshaies, compõe planos iluminados à luz de velas, com efeito impressionante. O roteiro começa em um momento de prosperidade e paz no bordel e vai, gradualmente, mostrando sua decadência. A edição é não-linear e o filme, às vezes, começa uma sequência pelo seu final, para em seguida mostrar o início. Há muita nudez e cenas de sexo, embora o objetivo do filme não seja a pornografia. Tem-se a impressão de se estar assistindo a um documentário filmado no início do século 20; Bonello mostra o cotidiano de várias mulheres, em horário de trabalho ou fora dele. Uma garota chamada Pauline (Iliana Zabeth), é alfabetizada e escreve uma carta para a "madame" do bordel, Marie-France (Noémie Lvovsky), pedindo para ser contratada. Primeiro ela precisa pegar uma autorização na prefeitura e passar por um exame médico para trabalhar como prostituta. Ela então é educada pelas outras garotas sobre como se vestir, se comportar e manter a higiene. Há também um momento de extrema violência, quando Madeleine (Alice Barnole) tem o rosto cortado por um cliente; ela então se transforma na "garota que sempre ri", por causa do formato que fica sua boca. O filme explora as fantasias da clientela masculina. Todos ricos, há desde o senhor que é velho demais para o sexo e que se contenta em pagar para ver uma garota nua até os que querem fantasias elaboradas como transar em uma banheira cheia de champanhe ou querem que a prostitua assuma o papel de uma boneca, ou de uma gueixa.

O diretor comete algumas ousadias que nem sempre funcionam. A fotografia deslumbrante por vezes é maculada por uma tela dividida em quatro partes que é muito moderna; algumas canções de rock e blues, cantadas em inglês, causam estranheza na trilha sonora. Lento e melancólico, o filme parece mais longo do que seus 122 minutos de duração. Apesar destes poréns, é um filme sensível e muito bem feito. A cena final, transportada para o mundo atual, é muito bem utilizada.  Visto no Topázio Cinemas.


sábado, 28 de janeiro de 2012

J. Edgar

John Edgar Hoover foi diretor do FBI por quase 50 anos. Transformou as técnicas policiais, criou as bases para a criminalística e foi dos primeiros a acreditar na importância das impressões digitais para se descobrir criminosos. Passou por vários momentos importantes da história americana e mundial do século XX; a depressão dos anos 30, a II Guerra Mundial, a Guerra Fria, a "caça às bruxas" da perseguição comunista, o assassinato de John F. Kennedy, o pouso na Lua, o início da Guerra do Vietnã. Uma cinebiografia estrelada por Leonardo DiCaprio e dirigida por Clint Eastwood tinha tudo para ser épica, não? Então por que é que "J. Edgar" não consegue decolar?

Há vários problemas. O mais sério é o ponto de vista adotado por Eastwood e seu roteirista, Dustin Lance Black (do bom "Milk - A Voz da Igualdade"). O filme acompanhar Hoover o tempo todo; quando ele não está falando sem parar, sua voz em off narra seus pensamentos e desacreve acontecimentos da época, em um discurso lento e com sotaque carregado feito por DiCaprio. Não há momentos de respiro, de reflexão. J. Edgar era um rapaz metódico, perfeccionista e muito ligado à mãe (Judi Dench). Acreditava piamente que o Comunismo era uma doença, principalmente quando, logo depois da Revolução Russa de 1917, os Estados Unidos sofreram uma série de atentados a bomba cometidos por grupos radicais. Retraído e homossexual enrustido, Hoover não tinha namoradas, amigos nem família (além da forte presença materna). Leonardo DiCaprio não é mau ator, mas nos últimos anos adotou um estilo de interpretação que se resume a fazer uma cara fechada, com as sobrancelhas franzidas, e falar pausadamente. O roteiro usa de um artifício comum às cinebiografias, que consiste em colocar o personagem principal narrando a própria vida para um jornalista ou biógrafo. Neste caso, uma série de agentes (com nomes genéricos como "Agente Smith") anotam a narração de um velho Hoover (DiCaprio com maquiagem pesada) falando sobre como assumiu a direção do FBI com apenas 24 anos. Figuras históricas como Martin Luther King são mencionadas, mas nunca vistas. O foco está sempre em Hoover. Há destaque para o episódio do sequestro do filho do aviador Charles Lindbergh nos anos 30, que comoveu os Estados Unidos, e Hoover é visto expulsando as pessoas da sala dos fumantes para criar o primeiro laboratório de criminalística do FBI. Mas não fica claro se as técnicas empregadas pelo Bureau eram corretas ou pura adivinhação.

Eastwood parece distante da história que está contando. A trilha sonora, composta pelo próprio diretor, toca nos poucos momentos em que Hoover demonstra algum sentimento por outra pessoa, seja pela secretária particular vivida por Naomi Watts ou pelo companheiro Clyde Tolson (Armie Hammer). O relacionamento com Tolson é guiado com mão pesada por Eastwood, talvez pela falta de familiaridade com o assunto. A única cena de "amor" entre Hoover e Tolson acontece durante uma briga em que os dois partem para a violência. Pouco se fica sabendo sobre quem realmente foi J. Edgar Hoover, além de um egocêntrico que se considerava acima de todos. O roteiro deixa de lado a perseguição pessoal que Hoover praticou contra várias figuras que ele considerava "perigosas", como o ator e diretor Charlie Chaplin, deportado dos Estados Unidos nos anos 50. Fica difícil para o público ter qualquer empatia por um homem que, aparentemente, não passava de um "chato" que fala sem parar pelos 137 minutos do filme.