domingo, 14 de agosto de 2022

Treze Vidas: O Resgate (Thirteen Lives, 2022)

Treze Vidas: O Resgate (Thirteen Lives, 2022). Dir: Ron Howard. Amazon Prime Video. Eu me lembrava, de modo geral, desta história real ocorrida na Tailândia uns anos atrás. Um grupo de 12 crianças e seu treinador de futebol foram explorar um caverna profunda e acabaram presos quando ela foi alagada por fortes chuvas. O resgate destas treze pessoas mobilizou gente do mundo todo e o louvável nesta versão de Ron Howard é que ficamos interessados na trama mesmo sabendo (até certo ponto) como foi que tudo terminou. Howard já havia conseguido algo parecido quando filmou o acidente da Apollo 13 (a coincidência do número).


No caso de "Treze Vidas", havia a grande chance de que ele acabasse se tornando um daqueles filmes feitos para a TV (que eu chamo de "filmes de Supercine"). Howard conseguiu se safar disso ao juntar um bom elenco internacional e em trazer realismo na reconstrução do acidente e dos cenários. O filme foi feito na Tailândia (cenas externas) e na Austrália (para o trabalho de estúdio). Colin Farrell e Viggo Mortensen interpretam dois mergulhadores voluntários ingleses que vão até a Tailândia tentar ajudar no resgate dos meninos. Mortensen está muito bem, como sempre, interpretando um sujeito de poucas (e amargas) palavras. Quando ele e Farrell encontram os meninos em uma bolha de ar a 2,5 km de distância da entrada da caverna, todos comemoram, mas Mortensen diz: "Nós encontramos os garotos vivos, agora vamos vê-los morrer".

Joel Edgerton é trazido para a equipe de mergulho por causa de uma especialidade que poderia ajudar no resgate das crianças; confesso que não me lembrava como é que eles haviam conseguido transportar 13 pessoas por 2,5 km de túneis submarinos, mas a solução foi engenhosa. O filme talvez seja um pouco longo (duas horas e meia de duração), mas o roteiro usa bem o tempo para explicar detalhadamente as condições da caverna e as dificuldades que todos tiveram que enfrentar para efetuar o resgate. As cenas submarinas, em túneis apertados e cobertos por águas lamacentas, são um desafio para os claustrofóbicos. Disponível na Amazon Prime Video. 

A Fera (Beast, 2022)

 

A Fera (Beast, 2022). Dir: Baltasar Kormákur. Premissa simples e realização eficiente fazem deste filme uma boa pedida nos cinemas. Idris Elba é um viúvo que vai visitar a vila onde nasceu a esposa, na África, com as duas filhas adolescentes. Eles saem para passear em uma reserva de leões, com um amigo da família interpretado pelo sul-africano Sharlto Copley. O filme é feito com uma série de belos planos-sequência que nos coloca dentro da paisagem e um deles é incrível: vemos Copley saindo do jipe, caminhando pelo campo aberto e indo ao encontro de vários leões adultos, enormes, que o abraçam e brincam com ele em um take contínuo que não sei como foi feito (são leões de verdade?). Todo este início, imagino, serve para aplacar a possível fúria de defensores de animais, mostrando que os leões podem ser animais "dóceis" e sociáveis, em contraste com o que vem a seguir.


O que se segue é o típico filme de caça/caçador. Idris Elba, Copley e família são emboscados por um leão raivoso que havia devorado uma vila inteira e não está satisfeito. Seu comportamento não é comum, diz o especialista interpretado por Copley; o caso é que os humanos são presas quase indefesas diante de uma fera raivosa. O diretor/roteirista Baltasar Kormákur consegue criar cenas eficientes de suspense e os efeitos especiais são muito bem feitos ao retratar o leão. Há um bocado de cenas escuras (truque típico para esconder defeitos) mas há uma cena entre o leão e Idris Elba, em plena luz do dia, que é de tirar o fôlego. É um filme de sustos, que lembra vários outros do gênero (a cena do ataque do tiranossauro ao jipe, em Jurassic Park, é lembrada várias vezes), mas bem feito e bom de ver.

O filme está nos cinemas e abro aqui um parêntese: eu tinha um convite, então não paguei, e meu filho pagou meia (18 reais), mas fico pensando em como o modelo de negócios do cinema está insustentável. Um casal que pagasse duas entradas inteiras teria que desembolsar 72 reais para ver este filme. Sinceramente, eu não pagaria. Tanto que a sala, em pleno sábado no fim de semana de estreia, tinha só quatro pessoas na plateia (contanto eu e meu filho). Complicado.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

O Predador: A Caçada (Prey, 2022)

O Predador: A Caçada (Prey, 2022). Dir: Dan Trachtenberg. Star+. Curiosa versão do "Predador" passada no século 18. Ao contrário de Schwarzenegger e seu companheiros musculosos e armados até os dentes, este Predador tem vítimas aparentemente mais fáceis de derrotar (será?). O filme se passa no norte da América no começo dos anos 1700. A nação comanche divide a terra com ursos, grandes felinos, lobos e exploradores franceses. A índia Naru (Amber Midthunder) quer se tornar uma caçadora assim como seu irmão, Taabe (Dakota Beavers) e é ótima com um pequeno machado (que funciona como o martelo do Thor às vezes, rs). Rastros de um grande animal surgem na floresta e Naru quer caçá-lo, mas o bicho, claro, é o tal caçador extraterrestre que já estrelou tantos filmes.


É uma premissa interessante. O Predador já foi visto em vários cenários e épocas (até em bombas como "Predador versus Alien" e suas continuações). Este filme segue a tendência de colocar mulheres em papéis geralmente masculinos, e a personagem Naru é uma boa antagonista pro monstrão. Há boas sequências passadas nas florestas e de luta contra diversos tipos de animais (inclusive humanos), além do Predador. Há bastante violência explícita nos embates entre o bichão e suas presas. Se a moda pegar, qual o próximo passo? O Predador lutando contra samurais no Japão medieval? Cavaleiros na Idade Média? Só o tempo dirá. Disponível no Star+.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Light & Magic (2022)

Light & Magic (2022). Dir: Lawrence Kasdan. Disney+. Maravilhosa minissérie documental sobre a "Industrial Light & Magic", empresa de efeitos especiais criada por George Lucas, nos anos 1970, para fazer Star Wars. Já li livros a respeito e sou muito nerd cinematográfico, então muita coisa não foi novidade pra mim; de qualquer forma, a série trás depoimentos atuais de pessoas lendárias no ramo como Denis Muren, Phil Tippett, Joe Johnston, Richard Edlund, John Dykstra, Lorne Peterson, Ken Ralston, Harrison Ellenshaw e muitos outros contando a história da empresa. George Lucas, claro, também fala bastante sobre a ILM e sobre sua visão do cinema que, para o bem ou para o mal, ele mudou completamente. Pessoalmente não sou muito fã de Lucas como pessoa; ao contrário do colega (que também aparece no documentário) Steven Spielberg, que claramente AMA cinema e está sempre animado e energético nas cenas de bastidores, Lucas é um "mala" que nunca está satisfeito. Ele não gosta de dirigir filmes (nem é muito bom nisso) e sempre achou que a tecnologia do cinema era arcaica e atrasada. Dessa insatisfação, muito dinheiro e a capacidade de escolher as pessoas certas saíram a edição eletrônica, o cinema digital e a computação gráfica (e uma pequena empresa chamada PIXAR).

Dividida em cinco capítulos, a série mostra desde os primórdios, quando um grupo de nerds foi chamada à costa Oeste dos Estados Unidos para trabalhar em Star Wars. John Dykstra desenvolveu uma câmera computadorizada que conseguia trazer realismo às ideias de Lucas para o filme; ao contrário das naves lentas e majestosas de "2001 - Uma Odisseia no Espaço", Lucas imaginou lutas espaciais rápidas e energéticas como as batalhas aéreas da 2ª Guerra Mundial. Ao contrário do que muitos imaginavam, "Star Wars" não só foi um campeão de bilheteria como se tornou um fenômeno cultural, e Lucas tinha ainda mais dinheiro para investir da continuação; O Império Contra Ataca, provavelmente o melhor Star Wars de todos, tinha efeitos ainda mais desafiadores. A ILM começou a se diversificar e fazer filmes "de fora" como "Star Trek II", "Cocoon", "Caçadores da Arca Perdida", "ET" e dezenas de outros.

No final dos anos 1980 e começo dos 1990, outra revolução: a computação gráfica, inicialmente usada em algum planos de "Willow", "O Enigma da Pirâmide" e "O Segredo do Abismo", assombra o mundo com o robô de metal líquido de "O Exterminador do Futuro 2". Então chega "Jurassic Park" e o jogo muda completamente. O veterano Phil Tippett, que havia sido contratado por Spielberg para fazer os dinossauros com bonecos de stop motion, foi colocado para escanteio por dois técnicos da ILM que criaram o primeiro T-Rex completamente feito em computação gráfica. Foi uma revolução (muito embora grande parte dos efeitos eram práticos, criaturas robóticas enormes criadas por Stan Winston). A série mostra como os computadores acabaram tirando o emprego de dezenas de artistas, criadores de maquetes, modelos em escala, diretores de fotografia, etc. O doc termina com a mais nova invenção da empresa, um cenário virtual chamado de "O Volume", criado para a série "The Mandalorian".

O documentário é um pouco "chapa branca" e, sem dúvida, não mostra os problemas e "podres" que devem existir na empresa. Há apenas uma menção ao fato de que John Dykstra, que havia chefiado a equipe em Star Wars, não foi convidado a continuar na empresa depois disso (ele e Lucas se desentenderam feio). Há uma quantidade enorme de imagens de bastidores que nunca havia visto e ótimas entrevistas. É uma homenagem ao passado e uma espiada no futuro. Imperdível. Disponível na Disney+.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez (2022)

Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez (2022). HBO Max. Dir: Tatiana Issa e Guto Barra. Série documental sobre um crime ocorrido há quase 30 anos no Rio de Janeiro, o assassinato da atriz e dançarina Daniella Perez, de 22 anos. A mãe da atriz, a escritora Glória Perez, começa o documentário dizendo que quis fazê-lo porque queria que "a verdade do processo" fosse contada, ao invés da "novela barata" que havia se tornado a história da morte da filha. Eu diria que o documentário, apesar de muito bem conduzido e montado, cumpre apenas em parte a vontade de Glória Perez.

São cinco episódios, sendo que o melhor, para mim, é o primeiro. É palpável a tensão crescente de familiares, amigos e companheiros de trabalho conforme relembram, hoje, do sumiço de Daniella, uma alegre e sorridente garota de 22 anos, na noite de 28 de dezembro de 1992. A boa edição e recriação de época levam o espectador ao Rio dos anos 90, quando as pessoas não tinham celular e estrelas da Globo circulavam em um Escort ou um Santanna. Um morador desconfiado de um condomínio viu dois carros parados perto de um matagal e anotou as placas; viu também que havia um homem e uma mulher no carro de trás, um Santanna azul, e supôs que fosse só um casal namorando. Na verdade, era a cena do crime. Quando a polícia chegou para investigar, apenas o Escort estava no local e o corpo de Daniella Perez estava esticado no matagal, com quase 20 perfurações no tórax e pescoço.
As fotos do corpo no chão, mostrando o rosto sem vida da atriz, chocam. A mãe, que é escritora, fala da dor de sentir o corpo frio da filha e da vontade de "recolocá-la no ventre". Pesado. Choca também ver cenas do enterro da garota, o cemitério abarrotado de gente que, na era pré internet, estava lá para ver e tentar tocar os astros de TV. Criminalmente, o caso não era muito complicado; o tal Santanna era do ator Guilherme de Pádua, que fazia par romântico com Daniella na novela "De Corpo e Alma" (escrita por Glória Perez). Uma mistura de ciúmes e vingança por ter seu personagem diminuído foram, provavelmente, os motivos do crime. Fica claro também que a esposa de Guilherme, Paula, grávida de quatro meses, também participou do crime. Os quatro capítulos seguintes do documentário, porém, apesar de ainda muito bem feitos, parecem tender mais para a "novela barata" que Glória Perez queria evitar do que para a objetividade jornalística. São tantas as teorias lançadas sobre o crime (do simples ciúme até um ritual de magia negra) que fica difícil entender a tal "verdade do processo".
Fica, porém, a sensação de que, no Brasil, o crime compensa. Um assassino condenado a 18 anos de prisão, por exemplo, pode sair com um sexto de pena (apenas três anos), se tiver "bom comportamento". Um bom capítulo mostra a luta de Glória Perez para incluir na lei de crimes hediondos o assassinato premeditado, mesmo que cometido por um "réu primário". A escritora conseguiu, com a ajuda de amigos artistas, reunir 1,3 milhões de assinaturas para mudar a lei. Ainda assim, teve que ver os congressistas tentando evitá-la e fugindo de Brasília para não formar quórum (a lei acabou aprovada em regime de "urgência urgentíssima", daquelas coisas bizarras do Brasil). Apesar de alguns pesares, "Pacto Brutal" é eficiente em recriar a época e revisitar um dos crimes mais famosos do país. Disponível na HBO Max.

sábado, 30 de julho de 2022

Sem Limites (Sin Limites, 2022)

Sem Limites (Sin Limites, 2022). Dir: Simon West. Amazon Prime Video. Minissérie histórica de seis capítulos que fala sobre a expedição de Fernão de Magalhães em busca de um novo caminho para as "Índias Ocidentais". Magalhães é interpretado por Rodrigo Santoro, que tem feito boa carreira internacional. A produção é espanhola e britânica e dirigida pelo inglês Simon West (que tem no currículo vários filmes de ação como "Con Air" e "Tomb Raider", que não são grande coisa). Santoro interpreta em espanhol e em português (de Portugal) e está bem no papel. Ele é acompanhado pelo espanhol Álvaro Morte (de Casa de Papel), que interpreta o piloto Juan Sebastian Elcano.

O roteiro toma algumas liberdades com a História, mas a série vale a pena pelo ar de aventura de quando o mundo ainda era inexplorado (pelos Europeus, pelo menos). Magalhães é visto, no início, sendo desprezado pela corte portuguesa, o que o força a procurar patrocínio na vizinha Espanha. Seu plano é encontrar uma ligação entre o Oceano Atlântico e o "grande mar" que havia do outro lado das Américas (que ele viria a batizar de Oceano Pacífico). Ele parte com cinco naus e quase 250 pessoas para encontrar o tal "estreito" que, hoje, leva seu nome.

Há cenas de batalhas navais com os Portugueses, problemas com a tripulação, calmarias e lutas com os "selvagens" que eles encontram pelo caminho. A produção é bastante boa, dá para ver que gastaram bastante dinheiro aqui com cenários, navios, figurino e locações (apesar de algumas cenas com fundo verde). Magalhães pode não ser tão "famoso" quanto Cristóvão Colombo, mas seu nome se tornou sinônimo de explorações, sendo usado pela NASA e comunidade científica para nomear espaçonaves e crateras na Lua e em Marte. Claro que, homem da sua época, ele ajudou na difusão do colonialismo e submissão de povos indígenas, o que é mostrado pela trama, o que não desmerece suas descobertas. Disponível na Amazon Prime Video.

domingo, 24 de julho de 2022

As Últimas Estrelas de Cinema (The Last Movie Stars, 2022)

As Últimas Estrelas de Cinema (The Last Movie Stars, 2022). Dir: Ethan Hawke. HBO Max. Belíssimo documentário idealizado pelo ator Ethan Hawke sobre a vida, obra e casamento (não necessariamente nesta ordem) do casal formado por Paul Newman e a atriz Joanne Woodward. Só o primeiro episódio (de seis) está disponível na HBO Max, mas já é interessante o suficiente para render uma resenha. Hawke foi convidado por uma filha de Newman e Woodward para fazer o documentário, que é baseado em centenas de horas de gravações feitas por Newman, amigos, empresários, ex-esposa e vários outros. Só que havia um problema: Newman havia destruído todas as fitas, deixando para trás apenas as transcrições. Ethan Hawke resolve a situação de modo interessante; em plena pandemia, ele entrou em contato com atores e amigos como George Clooney, Laura Linney, Vincent D'Onofrio, Sam Rockwell, Karen Allen, entre outros, para gravar trechos dessas transcrições. Estas vozes, gravadas via Zoom, são ilustradas com dezenas de imagens de arquivo, fotos e cenas dos filmes de Paul Newman e Joanne Woodward. O resultado é não só um retrato da vida das "últimas estrelas do cinema" como é também uma metalinguagem sobre como fazer um documentário.

Newman e Woodward foram casados por cinquenta anos, fizeram grandes filmes e doaram milhões de dólares para a caridade. Eram bonitos, talentosos e, também, ativistas políticos. No começo, Newman parecia que ia ficar eternamente na sombra de astros como Marlon Brando, com quem era frequentemente comparado, e James Dean. A morte prematura de Dean deu a Newman a chance de bilhar e tentar sair da sombra de Brando. Nem tudo eram flores na relação do casal. Newman era casado e tinha três filhos quando começou um tórrido caso com Woodward, que durou cinco anos. Ethan Hawke entrevista uma das filhas dele com a esposa anterior e ela diz que o divórcio acabou com a vida da mãe dela. O documentário também mostra os bastidores do famoso Actor´s Studio, que formou toda uma leva de lendas do cinema. Pena que a HBO Max não lançou todos os episódios ao mesmo tempo.

Agente Oculto (The Gray Man, 2022)

 
Agente Oculto (The Gray Man, 2022). Dir: Joe e Anthony Russo. Netflix. Este é supostamente o filme mais caro produzido pela Netflix, coisa de 200 milhões de dólares. O elenco é bom, Ryan Gosling, Ana de Armas, Chris Evans, Alfre Woodard, Billy Bob Thornton... até nosso Wagner Moura aparece em uma sequência. Se gastaram 200 milhões de dólares mesmo não sei, só sei que o resultado parece muito mais barato. Este é daqueles filmes em que, de dez em dez minutos, aparece um título na tela dizendo coisas como "Bangkok", "Langley", "Praga", "Croácia", e assim por diante, dando a impressão de ser mais um filme de turismo do que de espionagem. A direção é dos irmãos Russo, responsáveis por vários filmes da Marvel como "Capitão América: Guerra Civil" e os últimos dos "Vingadores". O problema é que, naqueles filmes, eles eram só uma pequena engrenagem em um grande universo da Marvel, controlado a mão de ferro pelo produtor Kevin Feige. Sozinhos, eles não são grande coisa.


Então "Agente Oculto" é ruim? Não exatamente, o elenco é bom e carismático o suficiente para manter a atenção e há algumas boas cenas de ação mas, no geral, é aquela correria de sempre. Há vários daqueles clichês como uma luta no compartimento de carga de um avião militar, em pleno voo, resultando em explosões e queda de pressão da aeronave. Há também a obrigatória sequência em um trem, com direito a ver Ryan Gosling correndo em cima dos vagões e saltando para uma Ferrari em movimento. Ana de Armas, que recentemente esteve em um filme de James Bond, faz o que pode aqui em uma versão B deste tipo de filme. Há diversos planos feitos por um drone que voa a toda velocidade, circulando em volta dos atores ou cenas de explosões. A trama? Bom, não importa muito, é só algo que acontece entre uma cena de ação e outra. A Netflix tem enfrentado perdas constantes no número de assinantes e está apelando para fiscalizar (e cobrar) compartilhamento de senhas e até estuda colocar propagandas na programação. Poderia, talvez, parar de gastar 200 milhões de dólares em filmes clichês como este. Tá na Netflix.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Passado Violento (Clean, 2022)

 
Passado Violento (Clean, 2022). Dir: Paul Solet. Netflix. O filme é o típico "vanity project", aquele tipo de projeto feito por algum ator para exibir seu talento ou mostrar como é sério e relevante. Adrien Brody, no caso, assina interpretação, roteiro, produção e, vejam só, até a trilha sonora deste filme sombrio e violento. Brody é conhecido como Clean ("limpo"), um cara que trabalha como lixeiro (entendeu?) durante a noite. Quieto e com a cara fechada, ele esconde um passado violento (como explica o título) e um lado de bom samaritano; ele usa as horas vagas para pintar e limpar as casa abandonadas da vizinhança. Também é o protetor de uma garota negra chamada Dianda (Chandler DuPont), para quem cozinha e leva para a escola. Todos os dias ele acorda do mesmo pesadelo/flashback, em que o vemos mais novo, abraçado a uma garotinha negra, sua filha.


Como se vê, o filme é cheio de clichês. A inspiração óbvia é "Taxi Driver", de Scorsese; Brody até narra algumas partes, enquanto dirige pelas ruas desertas (dá quase para escutar De Niro falando sobre como ele deseja que, um dia, uma chuva lave toda a sujeira da cidade). Outra inspiração é aquele filme com Joaquin Phoenix em que ele também parte para a violência para proteger uma garota, "Você nunca esteve realmente aqui" (2017). Reconhecendo tudo isso, até que não é um filme ruim. A direção de fotografia (de Zoran Popovic) faz bom uso das sombras. A sequência final é um banho de sangue que, também, faz referência a Scorsese. Tá na Netflix.

domingo, 17 de julho de 2022

Casa Gucci (House of Gucci, 2021)

 
Casa Gucci (House of Gucci, 2021). Dir: Ridley Scott. Amazon Prime Video. Tragicomédia de Ridley Scott baseada em uma história real, este filme foi bastante criticado pelo exagero nas interpretações, pelos sotaques italianos em atores americanos e ingleses e pela ridícula interpretação de Jared Leto. Tudo isso, de fato, existe em "Casa Gucci", mas o filme está longe de ser ruim. Pelo contrário, diria que são essas coisas que fazem o filme mais interessante.

Ridley Scott é um mestre visual. Ao adaptar a história real de uma empresa ícone da moda, envolvendo intrigas familiares, personagens histéricos, traições e crimes, Scott resolveu apresentá-la como uma ópera cômica, uma farsa. Veja como Lady Gaga está ótima como Patrizia Reggiani, a filha do dono de uma empresa de caminhões, que se apaixona pelo refinado Maurizio Gucci (Adam Driver, ótimo). Patrizia é um furacão, sempre vestida com roupas provocantes e a certeza de que veio ao mundo para vencer. Scott recria o final dos anos 70 em Milão, Itália, com belíssima fotografia, direção de arte e sucessos da época na trilha sonora. O elenco é uma surpresa atrás da outra, Jeremy Irons como o pai de Maurizio, Al Pacino como um tio. Salma Hayek é uma trambiqueira que "vê o futuro" de Patrizia e alimenta seus sonhos. Jared Leto está irreconhecível como Paolo, um designer de moda incompetente que sonha em criar uma linha de roupas para a Gucci. Leto está tão exagerado e ridículo que, estranhamente, até funciona para seu personagem.

O maior problema com "Casa Gucci" é a duração, longa demais. Não há a desta estranha comédia de erros ter duas horas e trinta e oito minutos de duração. Os exageros, que no começo são divertidos e bem vindos, com o (longo) tempo se tornam irritantes e fora de lugar. A paródia acaba se tornando uma tragédia e a graça termina. O filme, porém, nunca perde a beleza visual e o apuro técnico. Teria sido muito melhor com quarenta minutos a menos. Disponível na Amazon Prime Video.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Louca Obsessão (Misery, 1990)

 
Louca Obsessão (Misery, 1990). Dir: Rob Reiner. Amazon Prime Video. A notícia da morte de James Caan me fez procurar este filme, que achei na Prime Video. É um bom suspense de Rob Reiner baseado em um livro de Stephen King (os dois já haviam colaborado no ótimo "Conta Comigo", de 1986). James Caan é Paul Sheldon, um escritor que ficou famoso por uma série de livros sobre uma personagem chamada Misery; só que ele estava cansado da personagem e resolveu "matá-la" em seu livro mais recente. Dirigindo durante uma nevasca, Sheldon sofre um acidente e é resgatado, vejam só, por sua "fã número um", Annie, interpretada por Katy Bates.

A não ser por pequenos papéis secundários, o filme é quase todo dos dois atores. A mulher leva o escritor para a casa dela e o mantém em cárcere privado. Ela quer que ele escreva outro livro ressuscitando a personagem de Misery. Katy Bates ganhou um Oscar pelo papel de Annie, o tipo de fã que é o pesadelo de todo escritor. O filme é de 1990 mas é curioso como ela se parece com a maioria dos fãs "tóxicos" que existem hoje na internet, falando mal de seus ídolos e ficando bravos quando suas franquias favoritas não seguem seus desejos.

James Caan, que morreu hoje, está muito bem como Paul Sheldon, que provavelmente é baseado em alguma história pessoal de Stephen King (ele deve ter alguns fãs bem estranhos). Assim como James Stewart em "Janela Indiscreta", de Hitchcock, Caan passa grande parte do filme preso a uma cadeira de rodas ou deitado em uma cama. O final é bastante violento. O roteiro é do veterano William Goldman, de clássicos como "Butch Cassidy" e "Todos os Homens do Presidente". Disponível na Amazon Prime Video.

terça-feira, 5 de julho de 2022

Arremessando Alto (Hustle, 2022)

 
Arremessando Alto (Hustle, 2022). Dir: Jeremiah Zagar. Netflix. Não é segredo que eu abomino Adam Sandler, mas reconheço que o cara é bom quando ele quer. O que dá ainda mais raiva quando se lembra das comédias preguiçosas que ele faz. Em filmes mais dramáticos, no entanto, ele se dá muito bem. É o caso deste "Arremessando Alto", filme de basquete que é bastante "assistível", principalmente pela boa direção, visual e edição. Há um bocado daquelas montagens mostrando treinos de basquete, mas não só isso.

Há três editores listados nos créditos e eles mantém a trama sempre em movimento; Sandler é visto pulando de avião em avião ou entrando e saindo de hotéis enquanto viaja pelo mundo atrás do próximo astro da NBA. Ele acredita que achou o "cara" na Espanha, na figura de um rapaz chamado Bo Cruz (Juancho Hernangomez). Ele leva o grandalhão para os EUA mas tem que enfrentar não só a oposição do dono do time (Ben Foster, sempre competente) como também o temperamento explosivo do espanhol. Há várias sequências clichês mostrando o rapaz correndo pelas ruas da Filadélfia (só falta a trilha de "Rocky" ao fundo) ou treinando nas quadras, mas a energia do filme é boa e, reconheço, Adam Sandler está honesto no papel. O elenco é completado por Queen Latifah e o grande Robert Duvall aparece nos primeiros dez minutos. Tá na Netflix. 

domingo, 26 de junho de 2022

Obi-Wan Kenobi (2022)

 
Obi-Wan Kenobi (2022). Dir: Deborah Chow. Disney+. Se fosse lançado há alguns anos, provavelmente "Obi-Wan Kenobi" teria sido um filme para cinema, nos moldes de "Rogue One" ou "Solo". O fracasso deste último, a pandemia e o crescimento do streaming, no entanto, acabaram levando o projeto à telinha. O que é uma pena, porque a trama é esticada (e enfraquecida) para seis episódios redundantes, em que claramente se vê que o que realmente importa foi deixado para os dois últimos capítulos. Isso, aliás, tem sido comum nas produções da Disney (vide "Cavaleiro da Lua" ou mesmo "The Mandalorian"). AVISO DE SPOILERS à frente.


Pois bem, a série mostra os eventos que aconteceram com Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) depois de "Episódio III – A Vingança dos Sith" e o Star Wars original de 1977, depois conhecido como "Episódio IV - Uma Nova Esperança". McGregor está muito bem no papel que, originalmente, pertenceu ao grande Alec Guinness. A série também traz de volta Hayden Christensen ao papel de Anakin Skywalker/Darth Vader, pelo qual foi muito criticado nas "prequels". Pode ser nostálgico, mas o principal problema com esta série é que acaba enfraquecendo um dos melhores momentos do Star Wars original, o reencontro de Obi-Wan Kenobi com Darth Vader na Estrela da Morte. Há também outra complicação: a série cria um nova ligação entre Kenobi e uma jovem Princesa Leia, com dez anos de idade, interpretada por Vivien Lyra Blair. A menina é uma graça e é interessante ver a relação entre o velho Obi-Wan e a garota, mas isso muda (ou deveria mudar), também, o encontro entre eles nos filmes originais anos depois.

Colocando estas questões de lado, o que fica da série Obi-Wan Kenobi? Somos apresentados aos "inquisidores" (que já eram conhecidos de quem viu a série animada "Clone Wars", não é o meu caso) e à personagem Reva (Moses Ingram). Muito se falou do racismo de parte do público com relação à atriz, o que é lamentável, mas o problema é que a personagem dela é muito mal escrita. Fora o fato de que ela é aparentemente imortal, tendo sobrevivido DUAS vezes a ser atravessada por um sabre de luz tanto pelo jovem Anakin quanto por Darth Vader. O próprio Darth Vader é visto tão poderoso, capaz de segurar uma nave decolando a todo vapor só com o poder da Força, que faz com que o personagem dele fique inverossímil. Para quê ele se incomoda com lutas corpo a corpo, com sabres de luz, se ele é capaz de derrubar uma nave?

A melhor parte, assim, fica entre a relação entre Obi-Wan e seu antigo aprendiz, Anakin. Há um belo duelo entre os dois no último capítulo e um momento interessante quando Obi-Wan revela metade do rosto de Anakin/Vader com um golpe de sabre de luz. O problema é que essa rivalidade já havia sido exposta ao final do Episódio III. Pior, fica a questão: por que Obi-Wan Kenobi deixa Vader vivo ao final da série? Vader admite que Anakin "está morto" e Obi-Wan sabe que ele vai ser um grande instrumento para o Império, por que poupá-lo? É como se ele soubesse que, em alguns anos, o Episódio IV precisa acontecer, então vamos deixar as coisas como estão. A verdade é que, no fundo, isso não importa muito para o estúdio, que quer ganhar seu dinheiro e, provavelmente, para a grande maioria dos fãs, que só quer rever estes personagens, independente de lógica ou das consequências. Disponível na Disney+.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Spiderhead (2022)

Spiderhead (2022). Dir: Joseph Kosinski. Bom elenco e competência técnica desperdiçados em um roteiro preguiçoso típico de "filme da Netflix". Chris Hemsworth é o dono de uma empresa farmacêutica que administra uma espécie de prisão laboratório. Com óculos no rosto (hey, não se engane pelos meus músculos, eu sou um cientista) e um gosto por músicas pop dos anos 1980, Hemsworth usa prisioneiros como cobaias para testar uma droga nova. Miles Teller é um deles. A partir de um app no celular, Hemsworth injeta a quantidade certa de drogas que causam excitação, fobia, pânico e até a habilidade de se expressar melhor. Para quê? Algum objetivo genérico do tipo "vamos salvar muitas vidas", diz ele o tempo todo.


O filme vai bem até a metade. O diretor, Joseph Kosinski, já fez coisas melhores como "Tron: O Legado", "Obliviom" e o mega blockbuster "Top Gun: Maverick". O design de produção e a trilha sonora são bons, assim como o elenco. Logo, porém, fica nítido que a trama não tem para onde ir. O orçamento não deve ser muito alto (quase tudo se passa dentro de um laboratório) e a motivação dos personagens é confusa; se Hemsworth é claramente um vilão, por que exigir que as cobaias deem consentimento antes de cada aplicação da droga? Ao final, fica aquela sensação de ideia (e tempo) desperdiçados. Tá na Netflix.

terça-feira, 21 de junho de 2022

A Escada (The Staricase, 2022)

 
A Escada (The Staricase, 2022). Dir: Antonio Campos. HBO Max. Minissérie em oito capítulos baseada na história real de Michael Paterson (Colin Firth), um escritor americano acusado de matar a esposa. Em dezembro de 2001, Paterson chamou uma ambulância para socorrer a mulher, que encontrou caída na escada; ela estava em uma poça de sangue e Paterson foi acusado de assassinato, apesar de jurar que a esposa havia simplesmente sofrido um acidente. A minissérie é muito bem produzida e tem um elenco e tanto; Colin Firth, Toni Collette, Juliette Binoche, Michael Stuhlbarg, Sophie Turner, Rosemarie DeWitt, Parker Posey, entre muitos outros.

A trama faz um vai e vem entre várias linhas de tempo, informadas por letreiros na tela ou indicadas por mudanças no visual dos personagens. A série também é metalinguística; uma equipe de documentaristas acompanhou a história real (o documentário está na Netflix, aliás) e a equipe técnica (diretor, produtor, editora) estão presentes como personagens. Colin Firth está muito bem como Paterson, uma pessoa difícil de decifrar, mas que tem um ego enorme e gosta de estar no centro das atenções (quem aceitaria a presença de câmeras durante uma investigação de assassinato?).

Independentemente de ser um assassino ou não, Paterson é bem contraditório, aquele tipo de pessoa que pode elogiar a esposa ou os filhos em uma frase e, em seguida, falar alguma coisa horrível. O ritmo é bem lento, são oito capítulos de uma hora de duração e o roteiro dá espaço para revelar as facetas de várias personagens. Toni Collette, como a esposa Kathleen, é uma personagem trágica, sempre exausta, lutando para manter o trabalho, a casa, os filhos e o marido, que mais parece outro filho. As várias teorias sobre a morte dela são mostradas em cenas bastante sangrentas. Binoche, uma das maiores atrizes do cinema, também é uma figura trágica como uma mulher que acredita em Paterson, mas nunca consegue realmente compreendê-lo. A direção é de Antonio Campos, americano nascido em Nova York filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes. Harrison Ford estava escalado originalmente para viver Paterson, mas desistiu. A série me lembrou muito “O Reverso da Fortuna” (1990), de Barbet Schroeder, em que Jeremy Irons era acusado de matar a esposa. "A Escada" está disponível na HBO Max.