segunda-feira, 29 de março de 2010

Coração Louco

"De onde vieram todas as músicas?", pergunta a repórter. "Da vida, infelizmente", responde o artista. O grande Jeff Bridges, vencedor do Oscar pelo papel, é Bad Blake, um cantor de country das antigas, que já fez muito sucesso, teve quatro casamentos, um filho que não vê há mais de vinte anos e que dirige uma velha perua de cidade em cidade. Em Santa Fé, Novo México, ele conhece uma jovem repórter chamada Jean (a doce Maggie Gyllenhaal), que faz uma entrevista com ele e acaba cedendo ao charme country do cantor. Jean é divorciada e mãe de um garoto de quatro anos chamado Buddy (o roteirista não poderia ter escolhido um nome de verdade?), que é o centro de sua vida. Ela tem medo de se aproximar de Blake, muito mais velho, alcoólatra e não confiável, mas acaba ficando com ele mesmo assim.

Blake vai para Phoenix abrir o show da última sensação da country music, um rapaz chamado Tommy Sweet (Colin Farrell, competente). Tommy é "cria" de Blake, fazia parte da sua banda nos velhos tempos e aprendeu tudo com ele. Blake gosta de ser independente mas está velho, precisa de dinheiro e a apresentação com Tommy pode reviver sua carreira. O romance com Jean também parece ser uma chance de fazer as coisas direito. Mas como toda boa canção sertaneja, a história não vai ser tão cor-de-rosa assim.

"Coração Louco" é filme bonito de se ver, em glorioso 2D, fotografado em widescreen e lidando com personagens que, estes sim, são tridimensionais. Jeff Bridges tem uma longa carreira e é um ótimo ator, encarnando de tal forma Bad Blake que até mesmo canta as canções compostas por T-Bone Burnett. O roteiro, baseado no livro de Thomas Cobb, é do diretor Scott Cooper, em seu primeiro longa metragem. Robert Duvall, um dos produtores, faz uma participação como um amigo de Blake, dono do bar em Houston onde este se apresenta. É também um "road-movie", com a fotografia de Barry Markowitz mostrando aquelas evocativas paisagens do Oeste americano, com suas cidades pequenas e histórias para contar.

Em outra boa cena, Bridges está tocando uma canção e pergunta a Gyllenhall se ela já a ouviu antes. Quando ela diz que sim, ele declara que a acabou de compor. "Uma música boa é assim", diz ele, "você acha que já a ouviu antes". "Coração Louco" tem a qualidade de superar os clichês do gênero e, mesmo assim, dar algo original ao espectador. Um filme sobre amor, música e pessoas. Não é pouca coisa.


domingo, 28 de março de 2010

Como treinar seu dragão

Há cenas muito bem feitas neste novo lançamento da DreamWorks Animation. A animação em computação gráfica, por vezes, parece feita com bonecos "de verdade", e não pixels de computador. É mais um filme a aproveitar a onda de produções em 3D que invadiu o mercado, contando a história de um jovem chamado "Soluço", que não é exatamente o que seu pai viking queria. Ao contrário de seus companheiros, Soluço não tem a mínima vontade de seguir a tradição de sua vila, que é lutar contra os dragões que os atacam regularmente. Um dia, no entanto, em um golpe de sorte, Soluço consegue ferir o dragão mais terrível de todos, chamado de "Fúria da Noite", que cai na floresta. Ao ir até ele, ao contrário de matá-lo, como seria o esperado, acaba fazendo amizade com o dragão.

A animação foi dirigida pela mesma dupla de "Lilo & Stich" (2002), Chris Sanders e Dean Deblois, e o visual dos dragões herdou muito daquele filme. Soluço batiza o dragão de "Banguela" e constrói uma "prótese" para um pedaço da cauda dele, que havia sido perdida. Os dois passam então a se ver todos os dias. "Banguela" leva o garoto para voar em cenas que fizeram a alegria da garotada que lotava o cinema, fazendo uso muito bom da tecnologia em três dimensões (lembrando cenas similares de "Avatar", em menor escala). O ritmo não tem a pressa normalmente encontrada em animações recentes mas, infelizmente, o roteiro não chega a gerar muito interesse. O fato de ser um filme infantil impede que a ameaça dos dragões seja levada muito a sério pelo espectador, já que ninguém morre ou mesmo fica muito ferido nos ataques. Há apenas uma cena muito bem feita em que Banguela leva Soluço até o ninho dos dragões e ele descobre o porquê deles roubarem comida dos humanos.

Fora esta cena e alguns momentos interessantes que mostram a integração de Soluço com Banguela, "Como treinar seu dragão" não tem muito mais a oferecer. Mas é bonito, bem feito e não ofende a inteligência de ninguém.


sexta-feira, 19 de março de 2010

Um Sonho Possível

O Oscar é um prêmio contraditório. Um filme "pequeno" e independente como "Guerra ao Terror" derrotou a maior bilheteria de todos os tempos, "Avatar". Ao mesmo tempo, um filme ruim como "Um Sonho Possível", improvável sucesso de Sandra Bullock, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, e a própria Bullock foi considerada a Melhor Atriz do ano (sendo que, no dia anterior ao Oscar, ela havia sido "premiada" como Pior Atriz no "Framboesa de Ouro").

"Um Sonho Possível" tem todas as características de um "feel good movie", em que valores tradicionais americanos como perseverança, família e culto à vitória são defendidos. Uma das principais características da História americana, lamentavelmente, é o racismo, e fica difícil assistir a este filme sem imaginar que ele prega exatamente o oposto do que defende. Sandra Bullock é Leigh Anne Tuhoy, uma mulher rica, cristã e poderosa do sul dos Estados Unidos. Sua família de comercial de televisão é composta por um marido bondoso, uma filha estudiosa e um garoto "esperto". Uma noite fria Leigh Anne vê um jovem negro andando na calçada e pede para o marido parar o carro. Ele é "Big Mike" (Quinton Aaron), um rapaz pobre que conseguiu uma bolsa de estudos para frequentar a mesma escola católica que os filhos de Leigh. Mike é o típico "negro inofensivo" dos filmes (racistas) americanos. Ele é alto e forte, mas tem o coração de uma criança. E, claro, precisa ser salvo por um branco para ser alguém na vida. Sem qualquer objeção do marido ou dos filhos, Leigh Anne convida o rapaz para passar a noite na casa deles, e ele vai ficando. Sem dúvida o filme quer passar valores como solidariedade e amor ao próximo, mas a sensação que o ele passa é a de que Big Mike não passa de um cachorrinho perdido, levado para cima e para baixo pela dona, que o leva para comprar roupas e separa um quarto para ele na casa.

A não ser por alguns comentários das companheiras "dondocas" de Leigh Anne, a transformação instantânea de Big Mike em filho adotivo da família Tuhoy acontece na maior tranquilidade. Não há problemas de adaptação de nenhum dos dois lados, nenhum sinal de revolta por parte de Mike ou de racismo por parte dos Tuhoy. Na escola, apesar de Mike nunca ter tirado notas boas, uma professora encontra, inacreditavelmente, um texto dele no lixo, em que descreve, em prosa e gramática perfeitas, como ele se sente perdido em meio aos "muros brancos" que o cercam. Escrito e dirigido por John Lee Hancock, o filme é "baseado em fatos reais", o que não impede que ele seja completamente inverossímil. Big Mike é adotado legalmente pela família e começa a praticar futebol americano, devido à sua força e tamanho. Mas, novamente, ele é visto como se fosse um portador de necessidades especiais, incapaz de entender o jogo ou o que o técnico quer dele. O que não o impede, milagrosamente, de se tornar a grande atração do time e futura promessa entre os profissionais.

Por tudo isso, "Um Sonho Possível" é formuláico, retrógrado e mau cinema. A interpretação de Bullock não tem nada de excepcional e sua vitória no último Oscar é tão inacreditável quanto o roteiro deste filme.


domingo, 14 de março de 2010

Ilha do Medo

"Nenhum homem é uma ilha", diz o ditado. Mas quem estuda um pouco de psicologia sabe que, na verdade, somos todos ilhas. Não há nada mais individual do que o modo como cada um vê e interpreta o mundo ao seu redor. O que é a realidade se não o modo como percebemos e interpretamos as coisas?

O novo filme de Martin Scorsese se passa integralmente em uma ilha, Shutter Island, no leste dos Estados Unidos. É uma ilha sanatório, para onde são enviados os pacientes mais perigosos e violentos. A trama também se passa em outra "ilha", nas memórias do personagem principal, Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio, em mais uma parceria com Scorsese), traumatizado pela morte de sua esposa em um incêndio e pelas lembranças terríveis de quando libertou um campo de concentração nazista, na II Guerra Mundial. Teddy é um agente federal que é enviado à Shutter Island com seu parceiro Chuck (o sempre competente Mark Ruffalo) investigar o misterioso desaparecimento de uma paciente. Eles são recebidos pelo doutor Cawley (Ben Kingsley), que tem teorias próprias quanto ao modo de tratar os pacientes.

"Ilha do Medo" é um filme de suspense com toques de terror, e vai se tornando cada vez mais sinistro conforme a trama avança. Nem sempre o roteiro funciona, mas a competência impecável de Scorsese na direção e a boa interpretação do sólido elenco (que conta ainda com nomes como Max von Sidow e Emily Mortimer) contornam eventuais problemas. Scorsese é genial em mostrar que nem tudo é o que parece com pequenos detalhes, como a rápida cena em que um personagem "toma água" com um copo inexistente, ou um farol de navegação que não parece estar duas vezes no mesmo lugar. DiCaprio pode não ser um substituto à altura de Robert DeNiro (o antigo colaborador habitual de Scorsese), mas é bom ator e, aos poucos, vai passando ao espectador a sensação de que há algo errado com seu personagem. Ou será que o problema não é com ele? Será que Teddy é apenas paranóico ou há realmente um plano sombrio por trás do Dr. Cawley e os médicos da ilha? Ou, como diz uma piada de humor negro, "meus remédios para a paranóia estão tramando contra mim". Há, claro, ecos de Hitchcock em vários momentos do filme, de "Um Corpo que Cai" à "Psicose". E alguns toques de "O Iluminado", de Stanley Kubrick.

Dependendo de como se encara a trama (e o que é real ou não), o final pode ser tanto absurdo quanto aceitável. Não é um filme perfeito, e Scorsese já teve dias melhores. Mas, enquanto se desenrola, "Ilha do Medo" cumpre seu papel de intrigar e assustar o espectador.




PS: A trilha de "Ilha do Medo" foi organizada por Robbie Robertson. O tema principal do filme é a Sinfonia número 3 de Penderecki, que pode ser ouvida aqui:

sábado, 13 de março de 2010

500 Dias com Ela

Esta é uma "anti-comédia-romântica". E é nesse fato que reside sua originalidade. Summer (Zooey Deschanel) é uma garota linda, jovem, solteira, desimpedida. Tom (Joseph Gordon-Levitt) se apaixona à primeira vista por ela. Mas há um problema: Summer é daquelas garotas que acham que podem sair com um cara, passear com ele, ter encontros com ele e mesmo transar com ele, sabendo que ele está apaixonado, e ainda assim dizer que "não é nada sério". Tom, claro, até concorda com o "esquema" da garota, até porque é a única alternativa para poder continuar com ela. Mas há certo sadismo em acompanhar o sofrimento do pobre Tom conforme ele fica cada vez mais apaixonado, e Summer cada vez menos "séria".

Dirigido por Marc Webb, o filme conta a história de "não-amor" de Tom e Summer de forma não linear, separando as sequências por um letreiro que mostra em qual dos "500 dias" estamos. É triste ver como o relacionamento entre os dois está leve e tranquilo nos primeiros dias, com os dois rindo das coisas mais banais e, no momento seguinte vê-los cansados, frios e distantes um do outro. O roteiro (de Scott Neustadter e Michael H. Weber) é muito observador no modo de ser de homens e mulheres "modernos". O comediante Jerry Seinfeld disse em um de seus shows que, para um homem, não importa a profissão de uma mulher, ele pode se apaixonar por ela do mesmo modo. O contrário, segundo Seinfeld, não é verdadeiro, a mulher tem que gostar da profissão do homem para se apaixonar por ele. Em "500 dias com Ela", Tom é formado em Arquitetura, mas trabalha escrevendo frases de amor em uma daquelas firmas que criam cartões de "Dia dos Namorados", "Dia das Mães", etc. Ele é muito bom nisso, talvez pelo fato de que realmente acredite que o Amor exista, ao contrário de Summer. Os dois se conhecem na firma de Tom, e é ela quem se aproxima dele. Mas fica patente que, quanto mais Summer acha que Tom está perdendo tempo na firma de cartões, menos ela o respeita. Tom, por sua vez, por mais que Summer declare que "não quer nada sério", menos acredita nela, visto que os dois estão constantemente saindo juntos, indo ao cinema e fazendo amor (?) juntos.

Interessante como, no mundo moderno, um filme como este seja possível. E que seja tão correto em observar como os papeis masculinos e femininos estão mudando, e o que se espera de cada gênero. É o homem que está querendo uma mulher por quem se apaixonar e um relacionamento sério. Já Summer se justifica dizendo simplesmente que está "feliz", e não quer mais complicações. Será que é assim mesmo? O final do filme acaba mostrando que não é bem assim, mas sem dúvida as histórias de amor de hoje estão bem diferentes.

O Segredo dos Seus Olhos

“O Segredo dos seus olhos” surpreendeu ao ganhar, no último dia 7 de março, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O favorito era “A Fita Branca”, de Michael Haneke, premiado com a Palma de Ouro em Cannes e o Globo de Ouro de Filme Estrangeiro. Mas o filme do argentino Juan José Campanella tem méritos suficientes para merecer o prêmio. Campanella já havia sido indicado a um Oscar por “O Filho da Noiva” (2001) e está construindo uma carreira sólida e competente tanto na Argentina quanto nos Estados Unidos, onde dirigiu episódios para várias séries de televisão, como “Law & Order” e “House”.

Campanella, é verdade, segue uma “fórmula” em suas histórias. Há o homem de meia idade (representado por Roberto Darín), inseguro quanto ao próprio talento e apaixonado por uma mulher por quem ele não consegue se declarar. Há o amigo engraçado (geralmente, Eduardo Blanco), mas com algum tipo de problema, como o alcoolismo. Há um fundo político ancorado na conturbada história da Argentina. Foi assim em “O Mesmo Amor, a Mesma Chuva” (1999), em que Roberto Darín era um escritor que se apaixonava por uma mulher (Soledad Villamil), mas não conseguiu se declarar por anos. Darín e Villamil voltam agora em “O Segredo dos seus olhos”, que acrescenta o elemento do suspense à fórmula de romance de Campanella. Darín é Benjamin Espósito, um oficial de justiça que fica obcecado em solucionar o cruel assassinato de uma moça. São os anos 1970 e a Argentina está às voltas com instituições corruptas e incompetentes. Espósito e o colega Sandoval (Guillermo Francella, substituindo Eduardo Blanco) tentam driblar as dificuldades burocráticas para solucionar o caso, como invadindo a casa do principal suspeito, Isidoro Gómez (Javier Godino), antigo namorado da moça. Eles também são auxiliados por Irene (Villamil), colega de trabalho por quem Espósito é apaixonado.

Campanella, que também é o editor do filme, por vezes o deixa se estender demais. E o final, apesar de coerente com o exposto durante a trama, é muito fantástico. Mas a direção é primorosa, aulixiada pelo competente elenco. Roberto Darín, que já trabalhou com Campanella em "O Mesmo Amor, a Mesma Chuva" (1999), "O Filho da Noiva" (2001) e "Clube da Lua" (2004), é muito bom em passar as nuances de seu personagem dividido em conquistar Irene e descobrir o assassino da moça. Villamil e Darín, na tela, são sempre verdadeiros, como um velho casal com muita história para contar. Tecnicamente, Campanella consegue o feito de um plano sequência espetacular no ponto chave do filme, um jogo de futebol em que o suspeito é localizado. Uma câmera aérea focaliza um estádio de futebol lotado, se aproxima, entra na platéia e se mistura aos torcedores em um único plano, que continua por cinco minutos ininterruptos, com o suspeito tentando fugir dos oficiais de justiça e da polícia. É um plano fantástico e, o que é mais importante, não é gratuito, passando ao espectador a emoção de estar em um estádio lotado de futebol.

Falando em futebol, o sucesso do filme argentino e a vitória no Oscar causou certa polêmica entre os cinéfilos e críticos brasileiros, revivendo a velha rixa entre os dois países. Pura bobagem. "O segredo dos seus olhos" é um belo filme e deve ser apreciado como tal.


domingo, 7 de março de 2010

Vencedores OSCAR 2010

22:45
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christoph Waltz, “Bastardos Inglórios

22:58
MELHOR ANIMAÇÃO LONGA METRAGEM
"Up - Altas Aventuras"

23:02
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“The Weary Kind”, de Coração Louco

23:15
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Mark Boal, por "Guerra ao Terror"

23:20
HOMENAGEM A JOHN HUGHES

23:30
MELHOR CURTA METRAGEM ANIMAÇÃO
"Logorama" - Nicolas Schmerkin

23:33
MELHOR CURTA METRAGEM DOCUMENTÁRIO
"Music by Prudence" - Roger Ross Williams e Elinor Burkett

23:36
MELHOR CURTA METRAGEM
"The New Tenants" - Joachim Back e Tivi Magnusson

23:41
MELHOR MAQUIAGEM
"Star Trek" - Barney Burman, Mindy Hall e Joel Harlow

23:50
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Geoffrey Fletcher, por "Preciosa"

23:57
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Mo'Nique, por "Preciosa"

00:08
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
"Avatar" - Rick Carter, Robert Stromberg e Kim Sinclair

00:10
MELHOR FIGURINO
"A Jovem Vitória" - Sandy Powell

00:25
MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"Guerra ao Terror" - Paul N.J. Ottosso

00:28
MELHORES EFEITOS SONOROS
"Guerra ao Terror" - Paul N.J. Ottosso e Ray Beckett

00:35
MELHOR FOTOGRAFIA
"Avatar" - Mauro Fiore

00:45
MELHOR TRILHA SONORA
"Up - Altas Aventuras" - Michael Chiacchino

00:55
MELHORES EFEITOS ESPECIAIS
"Avatar" - Joe Letteri, Stephen Rosenbaum, Richard Baneham e Andrew R. Jones

01:05
MELHOR DOCUMENTÁRIO LONGA METRAGEM
"The Cove" - Louie Psihoyos e Fisher Stevens

01:07
MELHOR MONTAGEM (EDIÇÃO)
"Guerra ao Terror" - Bob Murawski e Chris Innis

01:15
MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"O Segredo de seus Olhos" - Juan José Campanella

01:32
MELHOR ATOR
Jeff Bridges - "Coração Louco"

01:50
MELHOR ATRIZ
Sandra Bullock - "Um Sonho Possível"

01:55
MELHOR DIREÇÃO
Kathryn Bigelow - "Guerra ao Terror"

2:00
MELHOR FILME
"GUERRA AO TERROR"

quarta-feira, 3 de março de 2010

Preciosa

É possível fazer um exercício interessante ao se comparar dois filmes que estão em cartaz, “Preciosa” e “Educação”. Ambos são baseados em relatos de garotas de 16 anos às voltas com os problemas da vida e com os rumos da própria educação, mas tratadas de modo tão distinto que parecem ser de planetas diferentes.

Jenny (Carey Mulligan), em “Educação”, vive em uma família razoavelmente equilibrada, com pai e mãe que lhe deram apoio, carinho e valores. Ela é destaque na escola e está estudando para ser aceita na renomada Universidade de Oxford, Inglaterra. Já a vida de Claireece “Precious” Jones (Gabourey Sidibe) está no lado oposto do espectro. Negra, pobre e muito obesa, ela vive no Harlen (bairro negro de Nova York) com a mãe, e está grávida do segundo filho. Na escola, ela gosta de Matemática e até tem notas boas, mas é apática, quieta e, quando provocada, violenta. A diretora a questiona sobre a segunda gravidez, perguntando o que aconteceu. “Eu fiz sexo”, responde ela. Não é assim tão simples. Precious é freqüentemente violentada pelo próprio pai, que a engravidou pela segunda vez. A diretora decide expulsá-la da escola comum para ser aceita em um projeto chamado “Each One Teach One”, que cuida de alunos que tem potencial, mas são problemáticos.

“Preciosa” é baseado em “Push”, primeiro livro de uma escritora chamada Saphire, que era professora em Nova York. A personagem de Precious é baseada em várias alunas reais que ela teve, e nas experiências delas. O filme, dirigido por Lee Daniels, não faz concessões em sua frieza em mostrar a vida difícil de Precious. Sua mãe, Mary (Mo'Nique) a odeia por causa da “atenção” que o marido passou a dar à filha. Mary é extremamente cruel, quase caricata em sua monstruosidade, que passa o dia vendo televisão, maltratando a filha e vivendo da renda de programas do governo. Quando uma assistente social visita a família para decidir se o benefício deve continuar, Mary age como uma pessoa amável e “responsável”, até que ela vá embora.

Na escola nova, Precious encontra apoio na professora Rain (Paula Patton), que faz os alunos escreverem todos os dias em um diário (assim como visto no filme “Escritores da Liberdade”, com Hillary Swank). O método dá a Precious a chance não só de se alfabetizar, mas de se expressar. O filme tem um tom documental no modo como a câmera enfoca as personagens, quase todas femininas. Este é um mundo cruel, machista e violento, em que pais abusam dos filhos, que repetem o ciclo com suas próprias crianças. A mãe de Precious não é má por natureza, mas alguém que também foi brutalizada e não sabe mais a diferença entre o certo e o errado. A comediante Mo'Nique foi merecidamente indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo seu desempenho, e é a favorita. Há uma cena em que ela, Precious e uma assistente social (interpretada pela cantora Mariah Carey, irreconhecível) estão conversando que é de uma força e verdade tocantes. Notem como a mãe tenta justificar seu silêncio diante dos abusos sexuais praticados pelo namorado, em uma mistura de amor maternal com ciúme e desejo de também ser amada. Também digna de nota é a interpretação da novata Sidibe como Precious (indicada ao Oscar de Melhor Atriz). "Preciosa" concorre também a Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Montagem e Melhor Roteiro Adaptado.

Um filme americano pesado, difícil e com coisas para dizer. Raridade.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Educação

Ela está parada no ponto de ônibus, debaixo da chuva, segurando um violoncelo. Ele pára seu carro esporte e, extremamente educado, lhe diz que ela seria louca de aceitar a carona de um estranho, mas deveria ao menos proteger seu violoncelo. Ela é Jenny (Carey Mulligan), 16 anos; ele é David (Peter Sarsgaard), 35 anos. O filme é “Educação”, dirigido pela dinamarquesa Lone Scherfig, e pode ser classificado como uma “comédia romântica”, sob o risco de ser colocado na mesma prateleira, na locadora, ao lado de bobagens estreladas por Cameron Dias e Julia Roberts. Felizmente, está longe disso. O roteiro, baseado nas memórias da jornalista Lynn Barber, foi escrito por Nick Hornby, autor dos ótimos “Alta Fidelidade” e “Um Grande Garoto”.

Jenny é uma estudante exemplar que está se preparando para entrar na Universidade de Oxford, e atrai a atenção deste homem com o dobro da sua idade. David tem charme de sobra, e consegue convencer os pais dela que é confiável, levando-a a concertos, jantares e leilões de arte. Estamos no começo nos anos 60, antes da revolução cultural e sexual que revirou o mundo no final da década, de modo que Jenny ainda é pouco mais que uma criança. No entanto, ela demonstra maturidade e bom senso além de seus anos, e dá gosto ver um filme que confia na inteligência não só de seus personagens, mas de seus espectadores. O que David quer com Jenny? Sexo? Isso seria simplificar demais a relação entre os dois. Jenny, claro, está deslumbrada com a oportunidade de freqüentar círculos inéditos para sua idade e ser tratada como uma adulta. De volta, David compartilha do bom gosto e classe da garota. Interessante também notar como, para os pais de Jenny, a chance dela talvez ter encontrado um “bom partido” seja tão importante quanto entrar em Oxford. Mas será que David não é bom demais para ser verdade?

Todo elenco está muito bem, em particular Alfred Molina como o pai de Jenny, mas é Carey Mulligan quem leva o filme com charme e graça. Sua interpretação recebeu muitos elogios e críticas, além de uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz de 2010. Ela tem sido comparada a Audrey Hepburn e está cotada para a refilmagem do musical “My Fair Lady”. Scherfig, que participou do movimento “Dogma” do cinema dinamarquês, dirige com leveza e dignidade. Seria fácil transformar esta história entre um homem mais velho e uma garota mais nova em um dramalhão ou em algo escandaloso. Mas, repito, é um filme de rara inteligência, em que temas como sexualidade, o papel da mulher (e do homem) e a importância da educação formal e informal são levantados e discutidos com seriedade. “Educação” também está concorrendo ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado.