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domingo, 22 de outubro de 2023

Assassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon, 2023)

Assassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon, 2023). Dir: Martin Scorsese. Um filme novo de Scorsese nos cinemas é um evento que deve ser visto em uma sala de cinema. Não pude fazer isso com seu último trabalho, "O Irlandês", que saiu na Netflix, e a diferença é considerável. "Assassinos da Lua das Flores" mostra um Scorsese maduro, ainda tentando coisas diferentes aos 80 anos de idade. A diferença aqui é o ponto de vista feminino, na forma de uma índia da tribo Osage chamada Mollie (Lily Gladstone). Sim, Robert De Niro está lá (excelente). DiCaprio está lá. Assassinatos, violência, gângsters... ingredientes de um filme "normal" de Scorsese, mas talvez com um toque extra de crueldade e tristeza.

A trama se passa nos anos 1920 em Oklahoma, EUA. Leonardo DiCaprio é Ernest, um soldado voltando da Primeira Guerra Mundial para trabalhar para o tio, Willian Hale (De Niro). Os índios da nação Osage ficaram ricos quando petróleo foi descoberto em suas terras. Aparentemente, eles vivem bem, têm casas enormes, carros, joias; mas uma das qualidades deste filme de Scorsese é como ele mostra, bem lentamente, que as aparências enganam. Não é segredo que este é um filme (bem) longo, são quase três horas e meia de duração. A editora habitual de Scorsese, Thelma Schoonmaker, faz um belo trabalho em apresentar os personagens e manter as tramas compreensíveis ao longo de vários anos (e longos minutos de filme), mas é discutível se qualquer filme precisa ter três horas e meia de duração, mas essa é outra questão.
Como disse, creio que o que chama atenção nesta obra é o modo como Scorsese apresenta o "mal". Sem entrar no terreno de spoilers, o filme é excelente em apresentar eventos que, mais tarde, descobrimos serem terríveis, mas que aparentam ser inocentes no começo. O mais desconcertante é o caso de amor entre o personagem de DiCaprio e Millie, cheio de camadas e nuances. Ela, forte, decidida, dona do nariz, mas humana. Ele, fraco, indeciso, aparentemente apaixonado por ela mas incapaz de ir contra um sistema que a vê como algo descartável.
O roteiro, inicialmente, daria ênfase aos agentes federais que vêm para a cidade investigar a morte de vários índios Osage. DiCaprio interpretaria um deles, em um papel mais heroico. Ele e Scorsese acabaram mudando o foco para o ponto de vista das vítimas e o filme ganhou muito com isso. É um trabalho de fôlego que vai colocar lenha na fogueira das premiações do ano que vem, que pareciam estar definidas entre a "Barbie" de Greta Gerwig e o "Oppenheimer" de Nolan.
Com relação à duração do filme, temos que levar em conta que ele foi coproduzido pela Apple para seu canal de streaming. O mesmo aconteceu com "O Irlandês' e a Netflix. Coincidência ou não, são dois filmes com três horas e meia de duração, o que leva a crer que foram editados mais com os serviços de streaming na cabeça do que as salas de cinema. Ridley Scott vai lançar seu "Napoleão" com duas durações, uma mais curta nos cinemas e outra mais longa no streaming. Seria uma nova tendência? É esperar para ver.

sábado, 14 de janeiro de 2023

As Linhas Tortas de Deus (Los renglones torcidos de Dios, 2022)

 
As Linhas Tortas de Deus (Los renglones torcidos de Dios, 2022). Dir: Oriol Paulo. Netflix. Se eu tivesse ganhado um real para cada pessoa que me falou deste filme eu estaria rico, rs. "As Linhas Tortas de Deus" é mais um filme do espanhol Oriol Paulo, especialista em suspenses confusos e cheios de reviravoltas como "Um Contratempo", "O Corpo" e a série "O Inocente". Ele dirige bem e sabe criar suspense; o problema é que suspense pelo suspense, sem uma conclusão, é masturbação cinematográfica; não é porque você não entendeu um filme que ele necessariamente tenha um roteiro inteligente... enfim.

Alícia (Bárbara Lennie) é uma mulher bonita que é internada em um sanatório. A chegada dela é acompanhada de uma carta do médico dizendo que ela é extremamente inteligente e ardilosa. Quando pega na mentira, ela rapidamente sabe criar uma explicação. Ela é acusada de tentar envenenar o marido, mas ela diz que ele só se interessa pela fortuna dela. Alícia então começa a dizer que, na verdade, é uma detetive particular que está ali para desvendar a morte de um interno. O diretor do sanatório (Eduard Fernández) diz que ela é perigosa e está mentindo. Os outros médicos e enfermeiros não têm tanta certeza.
Tudo isso é contado em uma série de sequências que incluem longos flashbacks (reais ou não) de Alícia investigando o caso. Já outras sequências mostram as mesmas cenas, mas do ponto de vista de uma Alícia doente, com problemas mentais. Há clara influência de "Ilha do Medo", de Martin Scorsese, em que Leonardo DiCaprio vai investigar o desaparecimento de uma mulher em um sanatório. Muita gente adorou "As Linhas Tortas de Deus", o que é ótimo, mas confesso que não é meu tipo de filme. Oriol Paulo é mestre em criar belos castelos de cartas que parecem bonitos e intrigantes, mas que podem cair em um sopro. O final pode querer dizer várias coisas, dependendo do que você acredita que aconteceu (isso depois de duas horas e trinta e cinco minutos de filme). Afinal, ela é maluca ou não? Depende. E é isso. Tá na Netflix.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Silêncio (2017)

A fé sempre foi um tema forte no cinema de Martin Scorsese. Logo em um de seus primeiros sucessos, "Caminhos Perigosos" (Mean Streets, 1973), o personagem vivido por Harvey Keitel questionava sua fé em diversas narrações durante o filme. O próprio Jesus é mostrado questionando seu destino em "A Última Tentação de Cristo", filmado por Scorsese em 1988. Não por acaso, Martin Scorsese estudou em um seminário antes de decidir partir para a carreira artística.

Chega finalmente aos cinemas do Brasil seu último filme, "Silêncio"; são quase três horas dedicadas ao questionamento da fé, a existência ou não de Deus e sua ausência (ou seu silêncio) nos momentos em que mais se precisa dele. Não é um filme fácil de se assistir. É longo, bastante lento e praticamente sem trilha sonora, passado no Japão do século 17, quando a religião católica foi proibida e seus seguidores, perseguidos e mortos. O filme parte do desaparecimento no Japão de um jesuíta chamado Ferreira (Liam Neeson), que havia enviado cartas preocupantes sobre o estado da Igreja em terra nipônicas. Dois de seus pupilos, os padres Rodrigues (Andrew Garfield, de "Até o Último Homem") e Garupe (Adam Driver, de "Star Wars Episódio VII") partem para o Japão para tentar encontrar Ferreira. Boatos falam que ele teria praticado "apostasia", que é a renúncia da religião e que estaria vivendo como um japonês.

"Silêncio" tem um visual arrebatador. A belíssima direção de fotografia (indicada ao Oscar) de Rodrigo Pietro se aproveita das belezas naturais da paisagem e usa cavernas para criar molduras ou utiliza da forte neblina para revelar ou esconder personagens. Como o filme quase não tem música, o som do mar, das cigarras, do vento e outros elementos naturais também estão muito presentes. Os dois padres chegam ao Japão e são recebidos como semi deuses por simples vilarejos sedentos de fé. Há algo tanto de louvável quanto de desesperado na atitude destes simples camponeses que arriscam as próprias vidas por uma religião vinda de fora.

Inquisidores japoneses aparecem de vez em quando para apurar denúncias de que a religião católica estaria sendo praticada. Eles aplicam uma série de testes aparentemente simples para distinguir os devotos dos demais. Um dos testes é pisar em uma imagem de Jesus, ou cuspir na cruz. Deus ficaria contrariado se alguém pisasse em sua imagem para salvar a vida? E do ponto de vista da igreja, tal atitude seria considerada pecado? Todas estas questões são apresentadas lentamente por Scorsese, assim como suas consequências. Há uma longa sequência de martírio de um grupo de camponeses que não passou no teste dos inquisidores em que os padres, escondidos ao longe, assistem a tudo, impotentes.

O personagem de Andrew Garfield enfrenta grande parte destes desafios na segunda parte do filme; capturado pelos inquisidores, o Padre Rodrigues assiste muitos fiéis serem torturados ou mortos de uma jaula de madeira. Tudo o que ele tem que fazer para terminar com o sofrimento deles é renegar sua religião. Isso é válido? Deus "entenderia"?

Como disse anteriormente, não é um filme fácil de se ver. As questões de fé podem parecer absurdas do ponto de vista de espectadores do século 21, talvez por isso Scorsese alongue tanto nossa imersão naquele mundo. Mostra-se muita crueldade por parte dos japoneses que querem erradicar a religião, mas fica a questão sobre até que ponto os padres resistem. É pela glória divina ou pela própria salvação?

João Solimeo

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Side by Side

Quando estava filmando "Zodíaco" com David Fincher, Robert Downey Jr. resolveu fazer um protesto. O fato do filme estar sendo captado em digital significava que não havia mais as pausas comuns em sets de filmagem para recarregar as câmeras com os rolos de filme, e Fincher fazia os atores trabalhar por 14 horas seguidas. Downey Jr. começou a urinar em potes de vidro e espalhar pelo set, para mostrar que ele precisava parar de vez em quando.

Esta é uma das boas histórias ouvidas no ótimo documentário "Side by Side" ("Lado a Lado", não lançado no Brasil), uma investigação feita pelo ator Keany Reeves sobre uma mudança de paradigma na produção cinematográfica, de película para digital. Por um século, filmes foram feitos usando a película cinematográfica de 35mm (ou, em algumas ocasiões, de 16mm ou 65mm), o que tinha vantagens e desvantagens. A película funciona através de um processo fotoquímico; a luz passa pelas lentes da câmera e impressionam uma tira de filme coberta com material sensível. O filme, depois de exposto, tem que ser revelado (em negativo) e impresso em uma cópia positiva, que era assistida pelo diretor e equipe apenas no dia seguinte às filmagens. A qualidade é excelente, mas o processo é caro e só o Diretor de Fotografia era responsável pela captação das imagens.

No digital a imagem é capturada por um chip eletrônico que, no início, tinha qualidade muito inferior à película cinematográfica, mas havia algumas vantagens; as câmeras digitais são menores, mais leves e portáteis que as pesadas câmera de cinema. Também é possível gravar tomadas com até quarenta minutos de duração (ao contrário dos dez minutos, no máximo, de uma câmera de cinema). Diretores como David Lynch e Danny Boyle contam como isso lhes deu enorme liberdade para lidar com os atores, que podiam interpretar longas cenas sem ter que ficar esperando que as câmeras de cinema fossem recarregadas. Já Christopher Nolan diz que os atores e a equipe não conseguem ficar concentrados por tanto tempo e precisam de uma pausa técnica de vez em quando.


Keanu Reeves explora esta mudança de película para digital não só na captação das imagens, mas também na edição e pós-produção. Até a década de 1990 os filmes eram montados manualmente; os editores trabalhavam diretamente com a película em grandes máquinas chamadas "moviolas". Martin Scorsese conta como as pontas dos dedos chegavam até a sangrar de tanto se cortar e colar pedaços de película com as mãos. Tudo mudou com a chegada de programas de edição como o Avid ou o Final Cut, que trabalham com uma versão digitalizada da película, que era escaneada e transferida para dentro do computador. Também os efeitos especiais, antes feitos com processos físicos caros e demorados, passaram a ser feitos digitalmente no computador. Com a captação das imagens feita em digital, todo este processo de digitalização da película não existe mais.

Scorsese levanta a questão de que, hoje, o espectador não sabe mais o que é "real" na tela. James Cameron, diretor de Avatar (que tem 3/4 das imagens criadas totalmente em computador) rebate dizendo que, no cinema, nunca se filmou a realidade. "O que é real?", pergunta ele a Keanu Reeves. "Há dezenas de pessoas em um set de filmagem, há um cara segurando o boom do microfone, há um técnico em cima da escada mostrando o traseiro. Nada disso é real". O surgimento de câmeras digitais especializadas em cinema, como a RED e a ARRI Alexa, aparentemente, enterraram de vez a película cinematográfica. "Eu tenho vontade de ligar para a película e dizer que conheci outra pessoa", diz Steven Soderbergh, que é um dos defensores do cinema digital. Há diretores como Steven Spielberg, Christopher Nolan, Zach Syder e Martin Scorsese, porém, que ainda trabalham com película, e vários filmes ainda são feitos em filme em Hollywood. Mas o fim da película é inevitável.

Tudo isso pode parecer técnico ou nerd demais para o espectador comum, mas o documentário levanta questões que interessam a todos. Esta mudança do analógico para digital não engloba só o cinema, mas praticamente tudo à nossa volta. Transações bancárias, divulgação de notícias, compartilhamento de música e várias outras coisas passaram por esta transformação e ainda não sabemos qual impacto isso terá no futuro. Um dos maiores problemas levantados por "Side by Side" é com relação à preservação desta enorme quantidade de material digital. Os filmes em película podem durar mais de um século. Qual a validade de um disco rígido de computador? O que vai acontecer com todos estes filmes digitais feitos nos últimos anos? Ou será que nada disso importa, e estamos vivendo em uma cultura descartável, que vai desaparecer em poucos anos? São questões importantes para entendermos o mundo de hoje.

Site oficial (o filme está disponível "on demand" apenas para os Estados Unidos, mas pode ser encontrado na internet)


sábado, 11 de janeiro de 2014

O Lobo de Wall Street

Depois de flertar com a fantasia com o infantil "A Invenção de Hugo Cabret", Martin Scorsese está de volta ao estilo que o consagrou. "O Lobo de Wall Street" é seu melhor filme em muitos anos, feito com a garra e a ousadia de um diretor jovem. Scorsese, no entanto, já está com 71 anos, não tem mais nada a provar e realizou pelo menos três obras-primas, Taxi Driver (1976), Touro Indomável (1980) e Os Bons Companheiros (1990). Estão de volta os belos movimentos de câmera minuciosamente coreografados (fotografia de Rodrigo Pietro, de "Argo"), a edição nervosa e magistral da antiga colaboradora Thelma Schoonmacher, o uso constante de clássicos do rock na trilha sonora e um personagem que narra a própria história.

Há muito de Henry Hill (personagem de Ray Liotta em "Os Bons Companheiros") em Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio, em sua quinta colaboração com Scorsese). Os dois são jovens ambiciosos que não querem viver a vida de "otários" que as pessoas comuns vivem. Os dois se juntam a organizações cujo principal objetivo é ganhar dinheiro por qualquer meio possível, não se importando com a lei. Henry Hill se juntou aos mafiosos; Jordan Belfort se juntou à Wall Street. Em "O Lobo de Wall Street", Scorsese deixa um pouco de lado a violência física e investe pesado no triângulo sexo, dinheiro e drogas. DiCaprio está constantemente "chapado", seja com cocaína, bebida ou centenas de pílulas de remédios controlados. Há também uma grande dose de cenas de sexo e nudez. Há também uma surpreendente dose de humor. Hugo Cabret, pelo jeito, foi só uma brincadeira passageira de Scorsese com o cinema em 3D.

O roteiro, escrito por Terence Winter, é baseado na vida real de Jordan Belfort, um corretor de valores que tinha o dom de vender qualquer coisa. Depois da "Segunda-feira Negra" (19 de outubro de 1987, quando Wall Street teve a maior queda desde o "crash" de 1929), Belfort foi trabalhar em uma corretora de fundo de quintal. As ações valiam apenas centavos, mas a comissão dos corretores era de 50%. Há uma ótima cena em que Belfort, em sua primeira ligação, convence um comprador a adquirir 4 mil dólares em ações de uma empresa de garagem, e seus companheiros ficam todos assistindo seu desempenho. Em pouco tempo ele se junta a Donnie Azzof (um ótimo Jonah Hill, de "O Homem que Mudou o Jogo") e funda a empresa Stratton Oakmont, cujo logo e propagandas sugerem uma tradicional firma de Wall Street, quando na verdade funcionava em uma garagem improvisada; os corretores, todos antigos amigos de Belfort, se transformaram de vendedores de maconha a milionários em poucos meses. (mais abaixo)


O elenco conta com várias participações especiais. O diretor Rob Reiner faz o pai de Belfort, "Mad Max" Belfort. O também diretor Jon Favreu (da série "Homem de Ferro") interpreta um advogado. Kyle Chandler (de "Super 8" e "Argo") é um agente do FBI que quer colocar Belfort atrás das grades. Jean Dujardin (de "O Artista"), é um sofisticado banqueiro suíço a quem Jordan recorre para tentar esconder sua fortuna. A australiana Margot Robbie é Naomi, uma ex-modelo que faz com que Jordan Belfort largue da mulher para se casar com ela (a cena em que DiCaprio a pede em casamento lembra um pouco DeNiro pedindo Sharon Stone em casamento em "Cassino", aliás). A participação mais marcante, porém, é de Matthew McConaughey (de "Obsessão"), em um pequeno mas importante papel no início do filme. A cena em que ele e um jovem DiCaprio almoçam juntos dá o tom para toda a trama, e McConaughey está ótimo.

Claro que a vida de excessos de Belfort não poderia acabar bem. "Não há nobreza em ser pobre", diz DiCaprio em um de seus vários discursos para seus corretores. "O Lobo de Wall Street" mostra que ser rico a qualquer custo também tem seu preço.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Drive

O mais impressionante sobre "Drive" é como o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn consegue manter o filme no eixo. Seria simples optar por uma saída fácil e, com os elementos que ele tem na mão (um piloto excepcional, carros envenenados, as ruas de Los Angeles) transformar o filme em uma versão paralela de "Velozes e Furiosos" ou produtos do gênero.

Ryan Gosling (cada vez melhor) é um piloto nato. Ele faz serviços como dublê para produções de cinema e trabalha como mecânico. Sua habilidade ao volante, no entanto, também lhe garante serviços como piloto de fuga para bandidos, à noite. As regras são simples: por cinco minutos, ele trabalha para você. Ele não participa do roubo e não anda armado, apenas senta e espera. Terminado o assalto, ele consegue fugir dos policiais através do conhecimento preciso das ruas de Los Angeles e habilidade na direção. O filme começa com um desses assaltos, e a sequência é um primor de edição e suspense. Escutando a frequência do rádio da polícia e a narração de um evento esportivo, ele consegue despistar os policiais e se perder na multidão da saída do estádio. Tudo feito com a precisão de um relógio.

Gosling faz um personagem tão centrado que o espectador nem percebe que ele sequer tem um nome. Seu empresário e parceiro Shannon (Bryan Cranston) o chama simplesmente de "garoto". Ele mora sozinho em um prédio de Los Angeles, não tem família ou passado. Sua armadura só se abre quando ele conhece Irene (Carey Mulligan, de "Educação", adorável como sempre), uma jovem mãe que mora no mesmo andar. Os dois se conhecem quando o carro dela quebra e ela o leva na oficina de Gosling. A atração entre os dois é óbvia desde o primeiro minuto, mas não é apenas física. Há cenas em que ambos ficam apenas olhando um para o outro, e o rosto fechado do rapaz esboça sorrisos de calma felicidade simplesmente por estar sentado com o filho dela vendo televisão. Claro que tudo vai dar errado em breve, mas é notável o modo como o diretor tem controle sobre o ritmo do filme. As coisas se complicam quando o marido de Irene, que estava na prisão, é solto e volta para casa. Ele deve dinheiro para criminosos e, caso não pague, eles vão machucar Irene e o filho. Gosling oferece ajuda, mas as coisas não saem como o esperado e o filme, de repente, mergulha em um banho de sangue.

Há algumas semelhanças com "Taxi Driver" (1976), de Martin Scorsese, outro filme violento sobre um motorista. Os personagens principais são solitários, aparentemente comuns mas capazes de atos de violência inesperados. "Drive" tem um visual e uma ambientação que lembram o final dos anos 70 e início dos 80, um pouco de Scorsese misturado com a série de televisão "Miami Vice". Os créditos iniciais são escritos em rosa escuro e mostram o rapaz dirigindo pela cidade ao som de "Nightcall" (ouça), do artista Kavinsky. Os vilões são um capítulo à parte. Albert Brooks, geralmente associado a comédias leves, interpreta Bernie Rose, um chefão do crime a quem Shannon, chefe do rapaz, vai pedir dinheiro emprestado para investir em um carro de Stock Car. Brooks está irreconhecível e perfeito, uma pena que, assim como Gosling, tenha sido esquecido nas indicações ao Oscar. Outro bandido de peso é Nino, interpretado por Ron Perlman, que dispensa comentários.

"Drive" entrou na lista de melhores filmes de 2011 de muitos críticos, causou sensação em Cannes e Nicolas Winding Refn ganhou o prêmio de melhor diretor no prestigiado festival francês. Pena que a Academia americana não tenha indicado o filme a quase nenhum prêmio ("Drive" foi indicado apenas em uma categoria técnica, Melhor Edição de Som). O filme tem todas as características para se tornar um cult. Imperdível.

Câmera Escura

Trailer (não veja caso não tenha visto o filme)


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Invenção de Hugo Cabret

Mais de um crítico já notou uma curiosidade sobre os dois filmes com mais indicações ao Oscar neste ano: além de serem, ambos, declarações de amor ao cinema, um é um filme de um diretor francês que homenageia o cinema americano ("O Artista"), enquanto o outro é uma declaração de amor de um americano aos pioneiros do cinema francês. No caso, um dos maiores diretores do cinema americano, Martin Scorsese, e seu mais recente filme, "A Invenção de Hugo Cabret". O celebrado diretor de filmes como "Taxi Driver" e "Os Bons Companheiros" resolveu investir em um gênero inédito em sua carreira, o filme infantil. Ao receber o Globo de Ouro pelo trabalho, Scorsese agradeceu à esposa por ter lhe pedido que fizesse um filme que, finalmente, os filhos pudessem assistir.

Ele conta a história de Hugo Cabret (Asa Butterfield), um garoto que, após a morte do pai (Jude Law), vai morar com o tio alcoólatra na estação de trem de Paris, onde mantém todos os relógios funcionando. Feito em 3D e repleto de cenas de efeitos especiais, o filme não se parece em nada com "um filme de Martin Scorsese", o que não é necessariamente ruim, mas é possível perceber a falta de habilidade do diretor em lidar com uma tecnologia e um assunto que não domina. Steven Spielberg, que também estreou no cinema 3D este ano com "Tintim", talvez fosse um nome mais apropriado para contar a história do órfão Hugo.

Mas há um outro lado no filme que é muito caro a Scorsese, que é a história do Cinema. Baseado no livro de Bryan Selznick, o roteiro de John Logan ("Gladiador", "O Aviador") é também uma homenagem ao primeiro diretor de cinema a descobrir o potencial lúdico da nova arte que, como disse o crítico Luis Carlos Merten em seu livro "Cinema, entre a Arte e o Artifício", é a única que tem data de nascimento: 28 de dezembro de 1885, em Paris, quando os irmãos Lumiére realizaram a primeira sessão de cinema. Um mágico que estava na platéia se chamava George Méliès e, encantado com a nova tecnologia, se tornou um dos primeiros cineastas e contou histórias maravilhosas sobre sereias, aventureiros e, em 1902, fez a obra prima "Viagem à Lua". Méliès usou de sua formação como mágico para ser também um dos pioneiros dos efeitos especiais, realizando truques na própria câmera através de dupla exposição do filme.

Pois bem, tudo isso é citado em "A Invenção de Hugo Cabret", mas talvez o filme fosse mais interessante se focasse apenas na extraordinária história real de Méliès. No filme, George Méliès (Ben Kingsley) é um senhor que tem uma loja de brinquedos na estação de trem de Paris. Hugo, o órfão, mora escondido na estação e tem um segredo: está montando um homem mecânico que o pai encontrou quebrado em um museu. Para isso o garoto rouba peças da loja de brinquedos até que é descoberto pelo velho George, que o faz trabalhar para pagar suas dívidas. Hugo faz amizade com a filha adotiva de George, Isabelle (Chloë Grace Moretz), uma garota apaixonada por livros, e os dois descobrem, aos poucos, a história do velho e sua importância para o cinema. Há vários personagens secundários, o principal deles interpretado por Sacha Baron Cohen (de "Borat"), que faz o Inspetor, um vigia da estação que prende e envia crianças para o orfanato. O veterano Christopher Lee interpreta o dono de uma loja de livros e ajuda os garotos a pesquisar sobre a história do cinema. Há cenas muito bem elaboradas por Scorsese e o 3D é bem usado principalmente quando ele mostra o maquinismo dos relógios mantidos por Hugo. Em outros, porém, o uso do artifício é questionável. Os próprios filmes de Méliès, quando projetados, estão em três dimensões, o que não só não faz sentido como chega a ser uma adulteração das obras originais; algo estranho vindo de Scorsese, que tanto prega pela preservação da memória do cinema. Falta ao filme a inventividade e a engenhosidade mostradas em "O Artista", por exemplo, mas "A Invenção de Hugo Cabret" pode servir de porta de entrada, para adultos e crianças, no fantástico mundo dos filmes de George Méliès.


domingo, 14 de março de 2010

Ilha do Medo

"Nenhum homem é uma ilha", diz o ditado. Mas quem estuda um pouco de psicologia sabe que, na verdade, somos todos ilhas. Não há nada mais individual do que o modo como cada um vê e interpreta o mundo ao seu redor. O que é a realidade se não o modo como percebemos e interpretamos as coisas?

O novo filme de Martin Scorsese se passa integralmente em uma ilha, Shutter Island, no leste dos Estados Unidos. É uma ilha sanatório, para onde são enviados os pacientes mais perigosos e violentos. A trama também se passa em outra "ilha", nas memórias do personagem principal, Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio, em mais uma parceria com Scorsese), traumatizado pela morte de sua esposa em um incêndio e pelas lembranças terríveis de quando libertou um campo de concentração nazista, na II Guerra Mundial. Teddy é um agente federal que é enviado à Shutter Island com seu parceiro Chuck (o sempre competente Mark Ruffalo) investigar o misterioso desaparecimento de uma paciente. Eles são recebidos pelo doutor Cawley (Ben Kingsley), que tem teorias próprias quanto ao modo de tratar os pacientes.

"Ilha do Medo" é um filme de suspense com toques de terror, e vai se tornando cada vez mais sinistro conforme a trama avança. Nem sempre o roteiro funciona, mas a competência impecável de Scorsese na direção e a boa interpretação do sólido elenco (que conta ainda com nomes como Max von Sidow e Emily Mortimer) contornam eventuais problemas. Scorsese é genial em mostrar que nem tudo é o que parece com pequenos detalhes, como a rápida cena em que um personagem "toma água" com um copo inexistente, ou um farol de navegação que não parece estar duas vezes no mesmo lugar. DiCaprio pode não ser um substituto à altura de Robert DeNiro (o antigo colaborador habitual de Scorsese), mas é bom ator e, aos poucos, vai passando ao espectador a sensação de que há algo errado com seu personagem. Ou será que o problema não é com ele? Será que Teddy é apenas paranóico ou há realmente um plano sombrio por trás do Dr. Cawley e os médicos da ilha? Ou, como diz uma piada de humor negro, "meus remédios para a paranóia estão tramando contra mim". Há, claro, ecos de Hitchcock em vários momentos do filme, de "Um Corpo que Cai" à "Psicose". E alguns toques de "O Iluminado", de Stanley Kubrick.

Dependendo de como se encara a trama (e o que é real ou não), o final pode ser tanto absurdo quanto aceitável. Não é um filme perfeito, e Scorsese já teve dias melhores. Mas, enquanto se desenrola, "Ilha do Medo" cumpre seu papel de intrigar e assustar o espectador.




PS: A trilha de "Ilha do Medo" foi organizada por Robbie Robertson. O tema principal do filme é a Sinfonia número 3 de Penderecki, que pode ser ouvida aqui:

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Easy Riders, Raging Bulls - Como a geração sexo-drogas-e-rock-´n-roll salvou Hollywood

Por décadas, os grandes estúdios de Hollywood, Paramount, MGM, Universal, 20th Century Fox, entre outros, mandavam e desmandavam nos filmes criados sob seus domínios. Os diretores eram considerados apenas uma engrenagem na longa lista de técnicos responsáveis por uma produção, não mais importantes do que uma figurinista, e o produtor era a principal figura em um set. Com a chegada dos anos 60 tudo isso mudou. O público já estava cansado das fórmulas prontas dos estúdios, e fatos históricos como o festival de Woodstock e a Guerra do Vietnã pediam dos filmes uma visão mais realista do mundo. Os jovens cineastas americanos viam com inveja a liberdade desfrutada por diretores europeus como François Truffaut e Jean-Luc Goddard, e queriam fazer o mesmo nos Estados Unidos. Segundo o jornalista Peter Biskind, deste cenário teria nascido a última "era de ouro" do cinema americano. Jovens como Francis Ford Coppola, Brian de Palma, Peter Bogdanovich, Paul Schrader, George Lucas, Martin Scorsese e Steven Spielberg, entre outros, chegaram ao poder em Hollywood, mudaram as regras e produziram a última safra de filmes inteligentes e desafiadores do cinema americano, antes que a era dos "blockbusters" destruísse tudo novamente.

O livro é extremamente detalhista. Biskind se baseou em dezenas de entrevistas feitas por ele mesmo e coloca o leitor em contato direto com os bastidores de uma Hollywood distante do glamour costumeiro. A Hollywood de Biskind é habitada por pessoas talentosas mas extremamente egocêntricas, viciadas em vários tipos de drogas e capazes de tudo para ter seu nome nas telas. O título do livro faz menção a "Easy Riders", que no Brasil se chamou "Sem Destino", filme dirigido pelo ator Dennis Hopper, estrelando Peter Fonda, Jack Nicholson e o próprio Hopper. A produção foi uma bagunça. Hopper não tinha idéia de como se fazia um filme, era extremamente violento e egocêntrico e tão viciado que tinha marcado, no roteiro, que tipo de droga usaria para interpretar cada cena. Hopper não conseguia finalizar o filme e os financiadores tiveram que tirá-lo dele, cortando-o para uma duração apropriada. O filme acabou sendo um sucesso inesperado e deixou os estúdios sem saber o que fazer. Peter Fonda diz que os executivos antes pareciam confusos e faziam "não" com a cabeça. Depois do sucesso, eles passaram a fazer "sim" com a cabeça, mas continuavam confusos. Hopper se tornou cada vez mais viciado e fora de controle e nunca mais repetiu o sucesso.

"Ego" é uma palavra que aparece muito no livro. Peter Bogdanovich, que era um "nerd" viciado em cinema e crítico, dirigiu "A Última Sessão de Cinema" e foi chamado de "novo Orson Welles". Ele seguiu a carreira com outro sucesso, "Essa Pequena é uma Parada", com Barbra Streisend, e a fama lhe subiu à cabeça. Tornou-se igualmente odiado por toda a indústria, mas achava que era invencível. Acabou indo à falência após uma série de fracassos e por se envolver com uma coelhinha da Playboy que foi violentada e morta pelo ex-namorado.

Outros exemplos de cineastas destruídos pelo ego foram Francis Ford Coppola e William Friedkin. Coppola se achava um "artista", mas o diretor de fotografia Haskell Wexler o chama de "ladrão". Coppola é famoso por gastar muito o dinheiro dos outros, tendo como filosofia deixar os estúdios tão endividados que eles não poderiam mais cancelar seus filmes. Recusou fazer "O Poderoso Chefão" por diversas vezes, porque achava que estava "se vendendo" ao adaptar um livro comercial para o cinema. Fundou uma companhia chamada American Zoetrope e "emprestou" 300 mil dólares da Warner Brothers, dinheiro que nunca pagou de volta. Apesar de vários Oscars e filmes como a trilogia "O Poderoso Chefão" e "Apocalipse Now", Coppola acabou se tornando uma sombra de si mesmo. Hoje prefere fazer vinhos na Califórnia e assinar autógrafos para quem o visita na fazenda. Já William Friedkin ficou famoso com "Operação França" e teve como próximo projeto adaptar o livro "O Exorcista" para as telas. Friedkin era tão perfeccionista que passou dias e gastou milhares de dólares em uma cena em que tinha que filmar um pedaço de bacon fritando. Quando um padre de verdade, que estava atuando no filme, não conseguia transmitir a emoção que ele queria, Friedkin lhe perguntou: "Você confia em mim?". Quando o padre disse "sim", Friedkin lhe deu um tapa na rosto, conseguindo a interpretação que queria. "O Exorcista" foi um sucesso, mas Friedkin nunca mais conseguiu fazer nenhum filme bom.

Martin Scorsese era um garoto católico e asmático de Nova York que aprendeu com o professor a fazer filmes pessoais, sobre coisas que conhecia. "Caminhos Perigosos" deu ao mundo Robert DeNiro, com quem fez vários filmes juntos, como "Taxi Driver" e "Touro Indomável" (Raging Bull, também citado no título do livro). Scorsese se tornou viciado em cocaína e teve que ser internado vários dias em um hospital após ter um colapso nervoso. Está na ativa até hoje, talvez o melhor diretor americano das últimas décadas, mas longe da forma de outrora.

E há George Lucas e Steven Spielberg. É patente o esforço do autor em desacreditar estes dois cineastas e até em culpá-los pelos problemas do cinema americano dos anos 80. Pessoalmente, acho isso um pouco injusto. O caso é que Spielberg e Lucas não tinham tantas ambições "artísticas" quanto seus companheiros. Spielberg, especificamente, era um "nerd" que fazia filmes desde os 13 anos de idade, quando convocava os colegas da escola para fazer pequenos épicos em 8 mm. Um amigo emprestou dinheiro suficiente para que ele fizesse um curta em 35mm chamado "Amblin´", que impressionou tanto Sid Sheinberg, executivo na Universal, que ofereceu a Spielberg um inédito contrato de sete anos. "Encurralado", um filme feito para a televisão, era tão bom que foi exibido nos cinemas do mundo todo e levou Spielberg a fazer "Tubarão", o primeiro filme a arrecadar mais de 100 milhões de dólares na bilheteria. George Lucas até tinha idéias artísticas em seu primeiro longa, "THX 1138", uma ficção científica "cabeça" que poucos entenderam e o estúdio detestou. Lucas mudou de estratégia e fez "Loucuras de Verão", um filme leve sobre os anos 50 que rendeu muito dinheiro e agradou aos críticos. E foi então que Lucas fez um "pequeno" filme de ficção científica sobre um garoto que se junta a uma rebelião para lutar contra o Império, na figura de um vilão chamado Darth Vader. Quando Lucas apresentou um corte inicial para os amigos, Spielberg foi o único a lhe dizer que ele iria fazer muito dinheiro. Até a mulher de Lucas, Marcia, achava o filme bobo e infantil. Era "Guerra nas Estrelas", ou Star Wars, que quebrou todos os recordes de bilheteria. Quando foi relançado 20 anos depois, ainda arrecadou 250 milhões de dólares nos cinemas do mundo e já era parte da cultura popular.

O autor sugere que as obras de Lucas e Spielberg transformaram o cinema americano em uma fábrica de filmes infantilizados, sem nenhuma pretensão artística, focados apenas na bilheteria. Até certo ponto é verdade, mas é complicado culpar os dois por terem feito filmes tão bons e populares. É verdade que, depois, Lucas e Spielberg acabariam se tornando caricaturas deles mesmos. Lucas adulterou a própria obra nas "edições especiais" de Star Wars e cometeu três filmes anteriores da série que em nada lembravam os originais. Spielberg ainda fez bons filmes, mas tem a tendência a terminar todos com o inevitável final feliz hollywoodiano.

O fato é que o cinema dos anos 70 acabou sendo destruído por seus próprios criadores. O ego inflado e o acesso a grandes quantidades de dinheiro, sexo e drogas acabou com as idéias libertárias daqueles jovens e os transformaram em tiranos piores do que os estúdios contra os quais lutavam. Hoje, infelizmente, a maioria dos filmes americanos almeja apenas a bilheteria, baseando-se em histórias em quadrinhos ou antigas séries de televisão, sem se arriscar muito e lançados em milhares de salas ao mesmo tempo. Mas ainda há espaço para cineastas como Tarantino, os irmãos Coen, Soderbergh, Jason Reitman, entre outros.

Livro: "Easy Riders, Raging Bulls - Como a geração sexo-drogas-e-rock-´n-roll salvou Hollywood". Autor: Peter Biskind Editora: Intrínseca. 502 páginas. Tradução de Ana Maria Bahiana.
Abaixo, video realizado por mim em 2006 sobre Martin Scorsese e o cinema dos anos 70, similar ao tema do livro:


sábado, 27 de setembro de 2008

Morre Paul Newman

O cinema perde um de seus grandes astros, o ator Paul Newman (1925-2008), que faleceu de câncer sexta-feira, 26 de setembro. Conhecido pelos seus olhos azuis, o ator começou seguindo a linha de atuação "metódica" desenvolvida pelo Actor´s Studio, famosa escola de interpretação de onde saíram Marlon Brando, James Dean, Al Pacino e dezenas de outros. Newman era do tipo clássico do herói americano, rebelde, sarcástico, solitário. Mas alguns de seus maiores sucessos vieram com os dois filmes que fez com o colega Robert Redford. Em 1969 fez o western "Butch Cassidy and the Sundance Kid", retratando de forma romanceada a vida de dois assaltantes de trem. Das cenas famosas há a luta resolvida rapidamente por Newman com outro membro da gangue, um salto de um precipício para um rio e o famoso final, quando a dupla é emboscada em uma cidade da Bolívia. Em 1973 se juntou novamente com Redford e o diretor George Roy Hill e fez "Golpe de Mestre" (The Sting), que levou o Oscar de Melhor Filme. É dos melhores filmes de gângster do cinema e Newman faz o líder de um grupo que pretende dar um golpe em um gângster rival (vivido por Robert Shaw). Em tom nostálgico, o filme tinha bela direção de arte, a música de piano de Scott Joplin e um final surpreendente. No ano seguinte se juntou a um grande elenco para fazer "Inferno na Torre" (Towering Inferno, 1974), um dos vários filmes de desastre que se fez nos anos 1970. O filme contava com nomes como Steve McQueen, Fred Astaire, William Holden, Faye Dunaway no grande elenco.

Newman foi indicado ao Oscar de Melhor Ator diversas vezes, mas só levou em 1986 com "A Cor do Dinheiro", de Martin Scorsese. Newman interpretava Eddie Felson, papel que já havia vivido antes, em 1961, no filme "Desafio à Corrupção". Em "A Cor do Dinheiro", Newman é um vendedor de bebidas de segunda classe que fica impressionado com um jovem jogador de sinuca vivido por Tom Cruise. Ele se oferece para empresariar o jovem e sai Estados Unidos afora com Cruise e sua bela namorada (Mary Elisabeth Mastrantonio). Paul Newman havia completado 60 anos e era considerado um ator em decadência quando o filme saiu. O Oscar colocou o ator de volta no mercado e ainda gerou grandes interpretações como em "A Roda da Fortuna" (The Hudsucker Proxy,1994, dos irmãos Coen), ou "Estrada para a Perdição" (Road to Perdition, 2002, Sam Mendes). Uma de suas melhores interpretações, em minha opinião, foi em "O Veredito" (The Veredict, 1982, de Sydney Lumet), em que interpreta um advogado decadente e alcoólatra que é contratado para defender uma paciente vítiva de erro médico. Com elenco formado por atores como o grande James Mason e Charlotte Rampling, Neswman está estraordinário e vale o filme.

Casado com a atriz Joanne Woodward por mais de 40 anos, Newman também se interessava por corridas de carro (teve uma equipe de fórmula Indy) e tinha importante trabalho filantrópico, com uma linha de alimentos com seu nome cuja venda era revertida totalmente à obras de caridade. Ator que conseguiu prevalecer por várias fases do cinema, que trabalhou com grandes diretores como Alfred Hitchcock, Sidney Lumet, Robert Altman e Martin Scorsese, além de inúmeros outros, Newman fará falta por sua brilhante interpretação e por seu trabalho humanitário. Descanse em paz.

sábado, 30 de agosto de 2008

Os Donos da Noite

Há muito de "Os Infiltrados", de Martin Scorsese, em "Os Donos da Noite". Escrito e dirigido por James Gray, o filme poderia até se passar por uma história paralela à vivida por Leonardo DiCaprio, Matt Damon e Mark Wahlberg no filme de Scorsese. Há várias semelhanças na trama e no fato de que Mark Wahlberg também está no elenco, reprisando o papel de um policial honesto, mas cabeça quente. Isso não significa que "Os Donos da Noite" seja um filme menor. Scorsese é Scorsese, claro, e James Gray não dirige com o mesmo talento, mas é um filme muito bom.


Joaquin Phoenix é Robert Green, o gerente de uma casa noturna em Nova York. Ele tem uma bela namorada (vivida pela estonteante Eva Mendes), está ganhando muito dinheiro e tem o respeito do dono do lugar, um imigrante russo que o trata como filho. O problema é que um dos clientes da casa noturna é um traficante barra pesada chamado Vadim Nezhinski (Alex Veadov). A polícia de Nova York está de olho nele e suspeita que ele está para trazer um grande carregamento de drogas do exterior. Nezhinski se aproxima de Bobby Green e pede ajuda na operação. Detalhe: tanto o irmão quanto o pai de Green são policiais. Eles são Joseph e Burt Grusinsky (Mark Wahlberg e o grande Robert Duvall). Bobby usa o nome "Green" porque é a "ovelha negra" da família e não quer que seus colegas da casa noturna saibam de sua ligação com a polícia. Só que o pai e o irmão resolvem declarar guerra aos traficantes e Bobby vai ter que escolher de que lado ficar.

Joaquin Phoenix faz um bom trabalho como um homem que quer curtir a vida, mas é o tempo todo atormentado pela consciência e pela família. Ele gosta do pai e do irmão, mas guarda ressentimento pelo fato deles colocarem o dever acima de tudo. Quando um deles sobre uma tentativa de assassinato, no entanto, ele resolve colaborar com a polícia e acaba ficando no fogo cruzado, tendo que ficar pulando de hotel para hotel, sob proteção policial, enquanto aguarda o julgamento do chefe dos traficantes.
Como disse, não é um Scorsese, mas o filme é bem dirigido e é bastante consistente. Phoenix, Wahlberg, Duvall e Mendes investem tudo em seus personagens e o roteiro se sustenta mesmo nos momentos mais frágeis (fica um pouco difícil de acreditar, por exemplo, que os bandidos não conheçam a ligação de Bobby Green com os policiais). Disponível em DVD.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Navegando no deserto

Eu tinha uns seis anos de idade. Meu pai estava viajando a trabalho e eu e o resto da família estávamos passando uns dias na casa do meu avô. Era de noite, a televisão estava ligada e eu observava uma cena passada no deserto. A TV, provavelmente em preto e branco (que cor são as memórias?) mostrava um homem no deserto. O homem então olha para o horizonte e vê uma miragem. Ou ele acha que é uma miragem.... de que outra forma explicar que, em meio às dunas do deserto, um navio esteja navegando? Pouco depois minha mãe me disse que era hora de dormir, mas fiquei com aquela imagem do navio no deserto na cabeça por muito tempo.

CORTE

Anos depois eu estava no Cine Paulista, em São Paulo, tremendo de frio por causa do ar condicionado e, para meu espanto, aquela memória da infância estava se repetindo na tela. Era o ano de 1989 ou 1990, creio, e os cinemas estavam reprisando o clássico "Lawrence da Arábia", de 1962, em versão restaurada. Nunca havia visto o filme inteiro, e apesar da tela do Paulista não ser nenhuma super tela, era bom poder apreciar o clássico de David Lean no cinema. Revi o filme (de quase quatro horas de duração) umas quatro ou cinco vezes nos cinemas, depois em VHS e finalmente em DVD. Lawrence foi talvez o maior dos épicos, influenciador de vários cineastas que fizeram sucesso depois, como Steven Spielberg e Martin Scorsese. Várias marcas de Lawrence podem ser vistas no cinema de Spielberg, como as grandes paisagens, os travellings acompanhando os personagens e a presença do Sol na tela, em filmes como Caçadores da Arca Perdida, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Império do Sol, entre outros. Spielberg declarou que o filme é um dos que sempre assiste antes de começar qualquer nova produção. Ele e Scorsese financiaram o restaurador Robert A. Harris no trabalho arqueológico de procurar as cópias restantes do filme mundo afora para remontar a versão original de 1962, que estava praticamente perdida.

O filme deu a Peter O´Toole seu primeiro papel no cinema e ele está estupendo. No resto do elenco atores do calibre de Alec Guinness, Anthony Quinn, Claude Rains, Arthur Kennedy, entre outros, e praticamente nenhuma mulher. A maravilhosa trilha sonora foi composta por Maurice Jarre, que se tornaria colaborador frequente de David Lean. No video abaixo pode-se ver uma apresentação de Jarre regendo a trilha do filme em homenagem a Lean, que morreu em 1991. São várias as cenas antológicas: o corte do fósforo que O´Toole assopra para a cena do deserto, a primeira cena de Omar Sharif surgindo no horizonte, a sequência da tomada de Aqaba, o sol nascendo na tela exatamente no momento em que um ator a cruza, a já citada cena do navio em pleno deserto. Obra prima.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Shine a Light


Martin Scorsese declarou certa vez que ele é um músico frustrado. Quem está familiarizado com seus filmes certamente já notou como a música é um ponto forte não só sonorizando a história, mas servindo como força motriz para a narrativa, para movimentos de câmera e momentos chave do roteiro. Já em “Mean Streets” (1973), um jovem Robert DeNiro aparecia na tela ao som de “Jumpin´ Jack Flash”, dos Rolling Stones. E a música de Mick Jagger e Keith Richards invariavelmente apareceu em quase todos os filmes da carreira de Scorsese. É de se admirar que um filme como “Shine a Light”, o tardio encontro entre os Stones e Scorsese, tenha demorado tanto tempo para aparecer. Scorsese tem credenciais de sobra em documentários de música. Ele fez parte da equipe de filmagem e edição do lendário documentário sobre o Festival de Woodstock, que inovou na técnica ao usar imagens divididas na tela (split screen), algo tecnicamente complicado de se fazer naquela era analógica do cinema. Ele também dirigiu “The Last Waltz” (1978), que documentou a última turnê da banda canadense “The Band” e, recentemente, realizou “The Blues” (2003), uma série para a televisão, e “No Direction Home” (2005), sobre a vida e arte de Bob Dylan.

Shine a Light” é montado a partir de duas apresentações ao vivo dos Rolling Stones em Nova York, em 2006. No início do filme vemos cenas em preto e branco com um making of da preparação para os shows. Apesar da mútua admiração, nem tudo parece ir bem entre os Stones e Scorsese. Mick Jagger não está muito satisfeito com o cenário do show, que teria sido projetado por Scorsese. Já o cineasta reclama da falta de informações com relação ao show em si, principalmente quais as músicas que serão tocadas e, o mais importante, em que ordem. Metódico, Scorsese tem planilhas com direções de câmera e iluminação para praticamente todas as músicas dos Stones, mas está visivelmente preocupado por não saber em que ordem elas serão apresentadas. Sua solução é deixar preparadas uma série de câmeras de cinema rodeando todo o palco, para não perder nenhuma tomada. Em dado momento escutamos Mick Jagger resmungar sobre como a platéia vai reagir com todas aquelas câmeras na frente deles. Mas isso me pareceu um pouco de drama para nos preparar para o show em si. Há até espaço para um pouco de política (ou propaganda política?) quando Bill Clinton e a esposa pré-candidata à presidência, Hillary, aparecem com um monte de convidados para cumprimentar a banda.

Quando os Stones entram no palco tudo isso é colocado de lado. As câmeras digitais dão lugar às imagens de cinema de um colorido espetacular e o show se inicia. Mick Jagger é uma máquina. Com 65 anos nas costas ele tem tanta energia quanto toda aquela iluminação no palco e é difícil acreditar que ele esteja fazendo isso há 45 anos. A música dos Stones, com sua mistura de rock, blues e country, é capturada pelas câmeras de todos os ângulos possíveis e a edição de David Tedeschi valoriza pequenos detalhes como a constante troca de olhares entre os guitarristas Ronnie Wood e Keith Richards, os flertes entre Jagger e a backing vocal, e a presença discreta do baterista Charlie Watts tocando (como um “gentleman”) no fundo do palco. É tecnicamente perfeito, mas como documentário o filme deixa um pouco a desejar. Há algumas interrupções mostrando entrevistas antigas da banda ao longo da carreira, geralmente respondendo à mesma pergunta (“quanto tempo vocês ainda pretendem fazer isso?”), mas o filme é centrado no show mesmo. Assim, não espere ver muito da banda na intimidade. Em termos de filmes de rock eu prefiro Pink Floyd Live at Pompeii, ou The Song Remains the Same do Led Zeppelin, ou Rattle & Hum, do U2. E achei a seqüência de músicas um pouco pesada demais. São duas horas seguidas de sucessos tocados a todo volume pela banda original mais backing vocals, um grupo de metais, percussão e a presença de convidados como Jack White (que não conheço e, francamente, não está à altura da apresentação), o bluesman Buddy Guy (dando um show) e até Christina Aguilera (correta). O filme não tem muito do “toque” de Scorsese, mas certamente é extremamente bem feito e captura a energia aparentemente sem fim desta banda.

Mais sobre Scorsese e sua obra em meu mini documentário:

segunda-feira, 31 de março de 2008

Philip Glass em 12 Partes


Philip Glass é o primeiro a admitir que sua música é “radical”. O compositor de trilhas como o experimental “Koyaanisqatsi” ou filmes mais acessíveis como “As Horas” completou 70 anos o ano passado, mas em momento algum aparenta a idade, seja fisicamente ou nas respostas que dá para a câmera. O documentário é “Glass: Retrato em 12 partes” (Glass: A Portrait of Philip in Twelve Parts), do australiano Scott Hicks, que assisti ontem no Festival Internacional de Documentários “É tudo verdade”, em São Paulo. Glass fez parte de um movimento cultural em Nova York nos anos 60, época da chamada “contra cultura” e que gerou uma revolução nas artes. Garoto prodígio, entrou na universidade aos 15 anos e, após se formar em três anos, foi parar na prestigiada escola Julliard, em Nova York, onde estudou música. Atraído pela música oriental, foi à Índia onde serviu de assistente para Ravi Shankar e transcreveu sua música para a notação ocidental. Shankar se tornaria mundialmente famoso depois, quando os Beatles também foram à Índia atrás de inspiração, e se tornou professor de George Harrison. Glass voltou à Nova York e enquanto trabalhava como motorista de táxi e encanador começou a compor material próprio. Formou então o “Philip Glass Ensemble”, um grupo de músicos com quem praticava suas composições e que, a princípio, fazia sucesso entre os jovens “chapados” que iam assistir suas apresentações. Glass circulava no grupo de artistas que incluía Allen Ginsberg, Chuck Close e Brian Wilson. Com Wilson veio a revolucionária ópera “Einstein on the Beach”, que mesmo atraindo multidões não lhe rendeu o suficiente para parar de dirigir táxis para sobreviver. Sua música não convencional, baseada em uma série de repetições incessantes, causava horror aos acadêmicos tradicionais e espantava parte do público mas, trabalhador incansável, Glass foi aos poucos conquistando seu espaço. Hoje Glass é dos mais renomados compositores do mundo, com uma vasta obra que contém trilhas para cinema e teatro, óperas, sinfonias, concertos e parcerias com roqueiros como David Bowie ou o grupo experimental brasileiro “Uakti”.






O documentário é dividido em doze partes e o diretor teve acesso à rotina do compositor por 18 meses, acompanhando-o em momentos tanto de trabalho quanto familiares. Com vários casamentos, Glass divide a vida com a jovem esposa atual e três filhos pequenos, com quem brinca antes de começar a trabalhar. Ele está trabalhando na Sinfonia nº 8, mas está com problemas: “Não sei em que movimento estou trabalhando...acho que esta sinfonia está ao contrário”. Ele toca algumas notas no piano e pergunta diretamente ao diretor do filme se ele entendeu a idéia. “Eu mesmo não entendo às vezes”, diz ele. “Freqüentemente só consigo entender do que se trata muito perto do final. É como uma pescaria... você coloca o anzol na água e fica esperando. De repente você sente um puxão. Mas isso só acontece se você estiver lá esperando”. Apesar da fama e da obra, Glass se revela extremamente acessível e pronto para dividir com a platéia seus segredos. “Tenho só um segredo”, diz ele, “que é acordar de manhã e trabalhar o dia todo”. De fato, no momento do documentário, Glass estava compondo a trilha de três filmes diferentes, além da sinfonia. Vemos entrevistas com Martin Scorsese, para quem compôs “Kundun”, o documentarista Errol Morris (Névoas da Guerra), Woody Allen (Cassandra´s Dream) e Godfrey Reggio, com quem fez a trilogia Koyaanisqatsi, Powaqqatsi e Naqoyqatsi. Várias vezes Glass está filosofando sobre algum assunto para a câmera quando pára e pergunta para o diretor “O que você acha disso, Scott? O que você faria nessa situação?”.


Vemos também o lado espiritual do compositor, que declara não seguir nenhuma religião específica. No entanto, sua vocação budista é grande. Glass é vegetariano, pratica meditação e ginástica com um taoísta e recebe orientação espiritual de um monge budista. É defensor das causas do Tibete e já se encontrou com o Dalai Lama (que riu abertamente de Glass quando este tentou cumprimentá-lo com o que achou ser uma frase tradicional tibetana). Se isso está servindo para o espírito de Glass ou não é discutível, mas certamente está ajudando sua forma física. É difícil acreditar que aquela pessoa já seja um “senhor” de 70 anos. Glass diz que pretende compor muita coisa ainda, então precisa se manter.


Sua música é classificada como “minimalista”, mas ele não gosta do rótulo. A melhor descrição seria música “repetitiva” mesmo, como em um mantra composto por algumas notas que vão se repetindo e repetindo formando uma textura sonora. O som pode soar estranho para quem não conhece, mas é preciso certa paciência para absorver a música de Glass. Recomendo o disco “Glassworks”, ou então “Passages”, grande parceria de Philip Glass com Ravi Shankar, para começar. Há também “The Photographer”, ou as trilhas para “Mishima”, “Truman Show” e “As Horas”. “Koyaanisqatsi” e “Powaqqatsi” se encontram em DVD por preços bastante acessíveis hoje em dia, e têm a vantagem de serem belos filmes inteiramente visuais, sem diálogos, para conhecer a música.
Glassworks, piano: Branca Parlic